Participo da seção “Notícias de outras ilhas” da revista Cult (em que “poetas, escritores, críticos, editores e tradutores sugerem leituras para abrandar o peso do noticiário no período da quarentena”), com os poemas-amuletos de Adriana Versiani dos Anjos e a biografia da monja budista Tenzin Palmo, a convite de Tarso de Melo, também criador de amuletos.
domingo, 24 de maio de 2020
domingo, 29 de março de 2020
sábado, 21 de março de 2020
Pela vida
Foi em março, há dez anos, que eu passei quase um mês num hospital público por causa de um vírus que atingiu meus pulmões. A fase epidêmica da H1N1 já tinha passado, eu estava na casa dos trinta anos, era verão, eu não tinha viajado e trabalhava em casa, numa cidade do interior de sp. Praticava esportes e, no dia em que comecei a passar mal, tinha nadado pela manhã uns 2000 metros. À noite comecei a ter febre. Pensei se tratar de uma gripe comum. No dia seguinte já não podia suportar de desconforto pela temperatura de 39, 40 graus. Fui a um renomado centro médico particular da cidade, onde o médico diagnosticou uma gripe comum e me prescreveu antitérmicos a cada 8 horas. Nos dois dias seguintes, os remédios já não davam conta, eu precisava deles a cada 5 ou 6 horas. Voltei ao centro médico, onde o mesmo médico me atendeu, reafirmando se tratar de uma gripe comum com a qual não devia me preocupar: segundo ele, eu e a “torcida do Corinthians” estaríamos assim. Nos outros dois dias tomava o antitérmico a cada 3 ou 4 horas, sem sucesso. Já não conseguia dirigir (uma das pessoas com quem vivia estava viajando e a outra, na faculdade) e fui de táxi ao hospital mais próximo coberto pelo plano de saúde, onde me internaram por pneumonia. Dos próximos dias já quase não me lembro, tenho apenas flashes: tentavam me dar medicação via oral e eu vomitava, já não conseguia respirar mais, desmaiava. Me recordo de acordar com uns aparelhinhos com os quais tentavam que eu fizesse exercícios respiratórios e de perder a consciência de novo. Quando decidiram me transferir para um hospital público de referência na região, fui direto para a UTI, em isolamento total. O pneumologista que me recebeu disse depois à minha família que algumas horas mais sem o tratamento adequado e teria sido tarde. Percebi vagamente, na confusão mental em que me encontrava pela falta de oxigênio, pelas pessoas chorando, que meu estado era realmente grave e que estava morrendo. E eu, que sempre tive medo da morte, não senti medo. O mais desesperador não era morrer, era não conseguir respirar. Medicaram-me, me colocaram em coma induzido e me entubaram. A radiografia já não conseguia mostrar os pulmões, totalmente tomados pela escuridão. Nesses três primeiros dias do coma, os órgãos começaram a parar de funcionar: os pulmões, os rins. O próximo seria o coração. Temiam uma falência múltipla e pediram à família que se preparasse para o pior: de cada dez pessoas naquele estado, nove morriam. Passados os três primeiros dias críticos, eu comecei a melhorar, permanecendo entubada até o nono dia, no limite de receber uma traqueostomia. Acordei do coma com dois enfermeiros me dando banho. Um deles encontrei algum tempo depois num evento de humanização promovido pelo hospital e ele chorou copiosamente quando me viu. A outra enfermeira me disse que sua mãe tinha rezado por mim todos os dias em que estive entubada. Soube também que a esposa e a sogra do pneumologista tinham feito uma novena pela minha saúde. Até hoje me emociono quando me lembro dessas coisas. Depois ainda houve uma longa recuperação na enfermaria, que é ainda hoje o lugar de acolhimento para onde minha mente se volta quando preciso de coragem (mas essa é outra história), e outra fase em casa. Após o coma, perdemos a força e todos os movimentos, e demoramos para conseguir executá-los de novo.
Não sei por que escrevi isso, acho que é apenas uma declaração de amor a um sistema de saúde público que salvou minha vida quando o privado, em três ocasiões, falhou vergonhosamente. Mas é também para dizer que algo se transforma dentro de nós diante de uma situação-limite. Curiosamente, depois disso, meus interesses, digamos, contemplativos se voltaram para as meditações com foco na respiração, no estudo do pranayama (inúmeros tipos de respiração do yoga), no poder curativo da respiração, no tonglen (uma prática tibetana em que se inspira o sofrimento dos outros e se expira devolvendo-lhes compaixão). Descobri que respirar, esse ato tão simples e banal, involuntário e voluntário ao mesmo tempo, é uma das coisas que mais gosto de fazer. A morte continua a mesma, mas minha relação com a vida mudou para sempre. Foi o que um vírus minúsculo me ensinou.
domingo, 19 de janeiro de 2020
Sobre minhas Partes Homólogas
(Do canal "Acontece nos livros", por Whisner Fraga)
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
"Numa casa de ausências"
TEOLOGIA NEGATIVA
Nas maçãs do mistério
um louco
morde a sombra
do sol.
Sob o peso
da solidão
é o meu número.
Hoje a comarca não me
compra.
Uso sapatos
de chumbo para o vento
não me roubar.
Mostro a imensa
substância
das noites escuras
de San Juan de La
Cruz.
Na fuga
do hospício etéreo
a realidade se salva
em porta:
arranha-céu.
NOITES ENSOLARADAS
Do poema, romperam-se
as romãs.
No coro dos granizos,
fugiram as sibilas.
Íamos habitar a
abóbada celeste,
mas a nave não
atravessou
a noite do Hades.
Nossa odisseia era
para ser maior
que o mar de Homero.
SOM E FÚRIA
No limite de um mundo
pobre em significados,
solto astronautas
de manicômios
e a estrelografia
tem a consciência
do aço.
O devaneio
é o único
domínio dos fatos.
Sonhamos tanto,
amamos tanto,
mas no final,
calamos as medidas
numa casa de
ausências.
HABITUAL
Todos os dias
somos espostejados
como parte
do espetáculo.
A cada palmo
de terra
uma cova de leões
como se os dentes
das feras fossem
a gramática dos ossos
e o Coliseu o melhor
lugar para morar.
O QUE NOS FALTA
Sonora é a solidão,
sonoro
o silêncio, sonora
a carne do gueto
e sonora é a boca
em busca de palavras
que se abram em
pálpebras.
No efêmero,
onde o eterno
copula com o vazio
e androides deificam a
sensação
em bens de consumo,
cabe ao poeta,
condenado
à embriaguez do verbo,
fazer alusões à casa
que nos falta.
OCEANO ENTRE AS MÃOS
Para te amar,
gastei os sapatos
como quem pisa
em redemoinhos
sagrados.
Para te amar,
coloquei em pétalas de
papoula
o pássaro que emana
da garganta e guardei
a via láctea do teu
nome nos estrondos
de um nirvana.
Para te amar,
fiz da saudade uma
amiga
de longa data
— aprendi que a vida
é um sonho e há
esperas
que sangram.
Para te amar,
domei os meus leões,
domestiquei
o medo e não esperei
que a cerveja gelasse.
(Tito Leite é poeta e monge beneditino, e autor de Digitais do caos e Aurora de cedro)
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Algumas anotações sobre Partes homólogas, de Leila Guenther
Começo por recordar que
homólogo tem significados diversos que dizem com correspondente, correlato,
equivalente, análogo e semelhante. O novo livro de Leila Guenther remete às
partes homólogas, mas também às heterólogas. Nem por isso, o título do volume de
contos deveria mencioná-las, porque se deve guardar alguma surpresa ao leitor
(e sei que estrago isso ao revelar). É fato que o título do livro replica o de
um dos contos enfeixados, no entanto todo o conjunto, de um ou de outro modo,
remete às homologias ou ao seu contraste.
Nas situações apresentadas pelos contos, fica-se diante de tudo
e do nada, dos encontros e das perdas, das semelhanças e das diferenças, da
atração e do repúdio, da viagem e do retorno, do fato e da ficção.
Os contos, todos os contos e não só os do livro da Leila, pedem
certa porção de verossimilhança e outra de mentira (grossa ou fina). Tem-se bem
isso, no conto “Partes homólogas”, em que se partiria da história de vida dos
tailandeses Chang e Eng Bunker, xifópagos, para nomeá-los Wang e Chu aqui. Da
correção dos fatos conhecidos, faz-se história nova, para reunir o que um dia
não se separou. O absurdo vai do psicológico ao físico e vice-versa, sim,
porque, na vida, também há deformidades construídas.
As fragilidades físicas e do espírito, que poderiam aproximar as
pessoas que as têm semelhantes, distanciam nas guerras pessoais e na vida, até
a morte aproximadora e a lembrança gravada fundo, na sobrevivente, como em
“Para um menino na guerra”. Guerra pessoal, essa.
Nem tudo tem fim determinado, no mundo dos contos: a estrutura
aberta deixa espaço para presunções e essa pluralidade indica coisas múltiplas
que podem ter ocorrido. “Romã” é amor, no anagrama. O amor pediria
correspondência e não ascendência. As palavras da autora dão direito a que o
leitor busque tudo o que possa encontrar. Nesse conto, feito de mentiras e
sinceridades, ascendência e subserviência, presença e alheamento, adolescência
e maturidade, verdade e invenção, pés no chão e embriaguez, tem-se abuso
crescente e estupro tal que – lá vou eu, leitor palpiteiro, – poderia ser
equiparado a incesto, dado o peso da confiança entre professor e aluna que
marcou o início de uma relação. Para mim, juntamente com “A outra causa”, o
conto “Romã” representa chave para a apreensão maior do livro.
As analogias presentes nesse livro de Leila ganham expressão de
peso em contos como “De fogo e de água” e “A evolução da espécie”: “o México
era uma mulher que chorava em silêncio [diante de um espelho, acrescento] num banheiro
público”, no primeiro, e o xolo colocado na manjedoura, no segundo. Fato em um,
ficção em outro.
“A vida às vezes é absurda”, como bem o mostra “Quando Alice
encontrou K”, diante do espelho da verdade. Existiria conto sem absurdo?
“A outra causa” é o título de um conto extremamente irônico,
escrito sob a forma de carta de uma missivista masoquista (discípula,
romântica, melancólica e no fim da vida), dirigida a Garcia, um amigo, sobre
Fortunato, o extremamente sádico marido dela, que a complementa.
Não menciono os demais contos de Leila, aliás recheados de
verdades aforísticas aqui e ali (“O destino é um conjunto arbitrário de
coincidências”), mas devo ainda ressaltar que todos parecem afluir para a mesma
temática do drama das relações humanas, especialmente em matéria do amor entre
pessoas - fora, sobre e dentro.
O livro Partes homólogas
vale cada uma de suas palavras.
(Valdir Rocha)
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Vem que tem
Tem
epígrafe de Darwin. Tem dentro, fora e sobre. Tem circo de aberrações,
labirinto, prostitutas, século XIX, cachorros, Machado de Assis, decadentismo,
Borges, veludo azul, solidão, Oriente, irmãos siameses, peixes, México, gato,
Ofélia de Shakespeare. Tem o fato de eu ser míope e mulher. Tem o horror do
abuso. Mas tem este lugar concebido pela Viviane Ka, o Eugênia Café Bar, de
protagonismo feminino, que pode nos acolher. Tem a percepção de Walter Carlos
Costa, estudioso da teoria do conto que
redigiu a orelha, o primeiro a entender o que eu queria dizer. Tem o espanto de
existir. Tem essa ilustração da Tieko Irii, que, em vermelho-sangue, nos expele
para fora do mundo, onde não encontramos lugar. Tem um projeto gráfico lindo,
que eu penso não merecer. Tem meu mutismo, minha reclusão e incapacidade de
significar por outros meios que não a palavra escrita. Porque eu não existo
além da Palavra. Tem um editor que é também escritor, Marcelo Nocelli, e que
acreditou neste gênero tão desprestigiado da literatura. Tem, sobretudo, o amor
pelas letras, que me moldou. Tem várias partes de mim, homólogas às de vocês,
pedaços desmembrados de cada um de nós. E tem a impossibilidade de urrar, que
me levou a escrever.
das 19h às 21h30
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
O zen nosso de cada dia
HAPPENS TO THE HEART
I was always working steady But I never called it art I got my shit together Meeting Christ and reading Marx It failed my little fire But it’s bright the dying spark Go tell the young messiah What happens to the heart There’s a mist of summer kisses Where I tried to double-park The rivalry was vicious The women were in charge It was nothing, it was business But it left an ugly mark I’ve come here to revisit What happens to the heart I was selling holy trinkets I was dressing kind of sharp Had a pussy in the kitchen And a panther in the yard In the prison of the gifted I was friendly with the guards So I never had to witness What happens to the heart I should have seen it coming After all I knew the chart Just to look at her was trouble It was trouble from the start Sure we played a stunning couple But I never liked the part It ain't pretty, it ain't subtle What happens to the heart Now the angel’s got a fiddle The devil’s got a harp Every soul is like a minnow Every mind is like a shark I’ve broken every window But the house, the house is dark I care but very little What happens to the heart Then I studied with this beggar He was filthy, he was scarred By the claws of many women He had failed to disregard No fable here no lesson No singing meadowlark Just a filthy beggar guessing What happens to the heart I was always working steady But I never called it art It was just some old convention Like the horse before the cart I had no trouble betting On the flood, against the ark You see, I knew about the ending What happens to the heart I was handy with a rifle My father’s .303 I fought for something final Not the right to disagree
(Leonard Cohen)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Um trecho de William Carlos Williams
Meu coração desperta
pensando em trazer notícias
de algo
que diz respeito a você
e diz respeito a muitos homens. Considere
aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
poemas desprezados.
Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
embora os homens morram miseravelmente todos os dias
por falta
do que se encontra lá.
aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
poemas desprezados.
Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
embora os homens morram miseravelmente todos os dias
por falta
do que se encontra lá.
(tradução minha)
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Adão e Eva no Japão
Algumas palavras sobre O segredo das águas (Futatsume no mado, literalmente “A segunda janela”), de Naomi Kawase, que acaba de lançar Vision
Na ilha japonesa de Amami*, onde prevalecem as tradições xintoístas, de significativa relação com as forças da natureza, vivem Kyoko e Kaito, dois jovens adolescentes prestes a entrar na vida adulta.
Como no mito bíblico, é a garota, Kyoko, que incita o rapaz ao conhecimento, à descoberta do amor, ainda que o primeiro sinal da “queda do paraíso” seja percebido pelo rapaz: a visão, na praia, do cadáver de um homem tatuado. O que o transtorna e o inquieta – a vida e a morte – é mais bem aceito pela menina, que sabe serem essas forças impossíveis de controlar. Ela mesma, filha do que consideram uma espécie de deidade, tem de aprender a lidar com a iminente morte da mãe (porque no xinto, tudo tem seu tempo sobre a terra e nem os deuses duram para sempre).
O mar é como um dos protagonistas da trama: é o nascimento, a morte, o desejo, a aversão. Não à toa, Kaito tem medo dele, porque ele é algo vivo que pode levá-lo ao ponto mais desconhecido de si mesmo. E isso é relembrado no mais belo diálogo do filme, em que Kyoko, contestando a repulsa do rapaz às águas, lhe diz algo como: “Mas eu também sou uma coisa viva”.
* o nome parece remeter a uma deusa xintoísta
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Um Oriente ao oriente do Oriente
The goal
I can't leave my house
Or answer the phone
I'm going down again
But I'm
not alone
Settling at last
Accounts of the soul
This for the
trash
That paid in full
As for the fall, it
Began long ago
Can't
stop the rain
Can't stop the snow
I sit in my chair
I look at the
street
The neighbor returns
My smile of defeat
I move with the
leaves
I shine with the chrome
I'm almost alive
I'm almost at
home
No one to follow
And nothing to teach
Except that the
goal
Falls short of the reach
(Leonard Cohen, póstumo)
domingo, 4 de agosto de 2019
Contra o adeus
Em memória de Omar Olivera, Omarcha
Ontem chovia, fui ao parque; não sei
quanto tempo perambulei entre trilhas e moitas, observando como emergia do
cimento o vapor do verão. É espantoso como em plena tempestade há raios de sol
que chegam a iluminar as folhas mais escondidas, a terra úmida, as pegadas das
pessoas que, com pressa, procuram abrigo em suas casas. Talvez não tenha sido
mais do que uma hora, porém entre tanta sombra alucinada é possível que tenha
transcorrido um século. Inconsciente, ou talvez audaciosa demais, fui me sentar
debaixo de um pinheiro. Tinha certeza de que nenhum raio ousaria me matar no
mesmo dia em que outro temporal havia levado você.
Hoje não tenho cabeça para procurar seu
fantasma na chuva, nessa camuflagem das almas que desejam permanecer e desobedecem
às parcas na forma de garoa, orvalho ou torrente. Apesar de sua ausência,
continuo engasgada pela vida. Tomo meu pulso e sinto como os jatos de sangue palpitam
pelas minhas veias; nada os detém, nada me detém.
Os filmes têm nos acostumado a finais
concretos, a histórias que têm um sentido, a ocasiões precisas. Quando deixamos
de ser crianças e nosso país afundou na violência, você sabia ao certo dos
perigos que corria, espreitavam-no diversos grupos. Carros-bomba, tiros na
nuca, prisões e desaparecimentos haviam levado alguns amigos e muitos
conhecidos. Você até me comentou sobre a possibilidade de carregar sempre um
comprimido de cianureto que pudesse apagar sua vida antes de ser submetido ao
horror de uma tortura. Havia uma paixão impetuosa pela vida e ao mesmo tempo
sangue-frio diante da morte. Nunca usava guarda-chuva, ficava ensopado, dizia
que as tempestades o faziam se sentir integrado ao universo, o suor misturado
com a bruma, a sua saliva com o vento. E você ria de si mesmo porque também
carregava aspirinas para combater a gripe antes que ela o atacasse. E acendia
um cigarro, e tragava com gosto, e continuava falando, em alguns momentos
divagava e voltava a aspirar cada resto de fumaça como se fosse o último,
depois baforava para longe, com força, como se mandasse um beijo (à nicotina, à
gripe afugentada, à chuva?), e continuava a conversa. E acendia outro cigarro,
e mais um. Quantas coisas você me contou, quantas ficaram encravadas em seu
cérebro, quantos momentos intensos viveu só. Onde ficam essas palavras, esses
instantes íntimos?
No vidro da janela da cozinha ficou
gravada a marca de sua mão. No meio de uma cantoria, esquecemos a panela em que
preparávamos um chá e o vapor invadiu tudo. Você se aproximou da janela para
verificar se as linhas da palma de sua mão podiam ser lidas nessa mistura de
água consternada, escuridão lá fora, luz elétrica dentro. Apenas sua mão ficou
plasmada. Se a experiência tivesse dado certo, teria sido possível decifrar que
depois de um ano você estaria morto? Acabo de perceber que faz muito tempo que
não limpo as janelas. Cada vez que esqueço a chaleira no fogo e o vapor invade
a cozinha, tantas ocasiões em que poderia haver ocorrido um incêndio!, a marca
da sua mão emerge. Hoje gostaria de tocá-la, trazer você de volta. Mas tenho
medo: temo que não aconteça, que minhas invocações não sejam válidas; temo
igualmente deformar qualquer ínfimo rastro material que você deixou em minha
casa.
Para quem escrevo? Se você não
acreditava em qualquer além, como posso sentir sua presença em cada palavra que
imprimo? A nostalgia é tão grande. Ou é tão lenta a morte e você nunca termina
de ir embora. Ou é que sua morte levou uma parte de mim e é ela que me
transmite seu reflexo, ela que me sussurra “estamos vivos”. Acaricio as teclas
e parece que toco as pontas de seus dedos. A nostalgia é infinita.
Para esta tristeza abundam melodias
amargas. No meu aparelho de som tocam as músicas que dançávamos quando éramos
adolescentes. São alegres, são tão presentes que meus pés balançam e começo a
cantar. O ritmo da vida se impõe. Seu coração foi livre, firme na sua postura
de que para amar não é necessário renunciar a nada. Talvez por isso hoje não
reprimo a dança.
Neste verão louco em que a chuva
prevalece sobre o sol e as flores não caem murchas nem os lagos secam, formigas
proliferam no depósito, um sem-fim de pássaros cantando pelas manhãs, rostos
velhos e novos, ricos e pobres, brilhantes, andando pelas ruas quando sol se
apodera do dia. Parece absurdo que em um tempo desses, carregado de tanta vida,
você tenha ido embora impregnando tudo de morte. Se você tivesse acreditado em
uma vida além desta, talvez ficaria mais fácil imaginar que somos de novo
crianças e brincamos de esconde-esconde em uma floresta, que você sabe se
camuflar bem; mas sempre consigo encontrá-lo, ouvir de novo sua gargalhada,
tocar sua mão de carne e osso, cantar rancheras e blues, caminhar
com nossos amigos debaixo do sol, tomar juntos litros de café enquanto chove,
consertando o mundo com simples palavras, olhar-nos nos olhos para nos
perguntar, para nos responder e para continuar perguntando.
Nunca, porém, nos perguntamos ou
respondemos sobre onde nos encontrarmos no fim do caminho. Hoje tento
encontrá-lo nas minhas próprias palavras, entender sua partida com minhas
próprias ideias, lembrar de você com meus próprios símbolos. E assim o encontro
em todo lugar e em todo lugar sinto sua falta.
No rádio escuto uma melodia, é uma
sonata chilena transformada em canto. Parece dedicada aos seres amados que hoje
são apenas pó: “Procuremos as velhas cinzas do coração queimado, mesmo que
caiam um a um nossos versos, até que a flor desabitada ressuscite”. Consegue
ouvi-la? Conseguirá ouvi-la quando seu próprio corpo tiver virado pó?
Conseguirá pronunciá-la através do tempo, através dos devaneios? Estou tão viva
que só me resta esperar pela tempestade, ou pela noite, para ver sua mão
desenhada entre suas luzes e sombras. Os ponteiros do relógio me lembram que
tenho de sair. Com um impulso que ultrapassa a lógica das minhas pernas vou me levantar
para ir a um concerto. Não vou ficar para continuar escrevendo; nem vou parar
para continuar investigando a natureza da ausência.
Anoitece, os pássaros estão cantando
como se fosse amanhecer. Estamos vivos.
Karina
Pacheco Medrano é escritora, editora e antropóloga peruana. Escreveu Las
orillas del aire, Lluvia, No olvides nuestros nombres, La
voluntad del molle, El bosque de tu nombre, Cabeza y orquídeas, entre outros. O presente conto,
traduzido por Marcelo Donoso e por mim, integra o livro Alma alga (Peru,
Borrador Editores, 2010). Como antropóloga, dedica-se a temas como
desigualdade, racismo e discriminação.
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segunda-feira, 27 de maio de 2019
O corpo como universo
Ontem fomos assistir a Cão sem plumas, espetáculo de Deborah Colker inspirado em João
Cabral de Melo Neto. Passaram muitas coisas desconectadas por minha cabeça, numa espécie de fluxo aleatório, enquanto me entregava à hipnose do movimento: minhas aulas de um yoga intenso e transformador e de uma dança na qual a "sororidade" e o "jogo de cintura" são
tão importantes, as palavras de um texto clássico do tantrismo ("Na verdade, cada corpo é
um universo completo") e de Dôgen, monge introdutor do zen-budismo no Japão, via meu professor de mindfulness, Marcelo Demarzo ("O universo inteiro é o corpo real do ser humano"), meu contato com a sinuosidade do boxe tailandês, a quase palpável energia vital "chi" que perpassa tudo, a alegria de respirar, a meditação que a cada dia me põe mais presente no presente, mas sobretudo a consciência de que o corpo é um instrumento de
expressão poderosíssimo e, portanto, extremamente subversivo. Deve ser por isso
que ele assusta e amedronta tanto. Durante muito tempo
dividi mente e corpo como se fossem entidades distintas, sem entender que são
uma coisa só: a mente é parte do corpo. Isso só mudou por meio de práticas contemplativas que, a despeito do
conteúdo mental, são bastante físicas.
Hoje posso dizer: habito um corpo, logo existo.
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quinta-feira, 16 de maio de 2019
Vozes de Marielle na Alemanha
Hoje, 16 de maio de 2019, às 20h (horário da
Alemanha), acontece na VHS, em Stuttgart, uma leitura dos poemas do livro de
que participo, lançado pela Quintal Edições, em
parceria com o coletivo Mulherio da Letras: Um
girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco.
Antes da leitura, uma das editoras,
Ludmila Fonseca, falará sobre a vida e a morte de Marielle e o processo de
publicação do livro.
A apresentação do livro será em alemão e
a leitura dos poemas, em português.
VHS Stuttgart: Rotebühlplatz 28 70173
quinta-feira, 9 de maio de 2019
A sunflower in her hair: poems and testimonies for Marielle Franco
A antologia para Marielle Franco, de que participo com imenso orgulho, é tema de um evento que ocorrerá este mês no Reino Unido. Mônica Benício, viúva de Marielle, e o deputado Marcelo Freixo estarão presentes. Mais informações aqui.
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terça-feira, 23 de abril de 2019
Pelas veredas de Kenichi Kaneko
A exposição Veredas, do artista plástico, ator e escritor Kenichi Kaneko, reúne 59 anos de criação. Fica até 30 de maio, no Centro Cultural Correios de São Paulo (Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú). A entrada é gratuita, de segunda a sexta, das 10h às 17h. No dia 25 de abril, a partir das 14h, haverá um sarau em sua homenagem, organizado pelo escritor Carlos Bueno, em que participam:
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