sexta-feira, 7 de julho de 2017

Estilo

Estilo é a resposta de tudo.
Uma maneira nova de enfrentar uma coisa chata ou perigosa.
Fazer uma coisa chata com estilo é melhor do que fazer uma coisa perigosa sem ele.
Fazer uma coisa perigosa com estilo é o que eu chamo de arte.

Touradas podem ser uma arte.
O pugilismo pode ser uma arte.
Amar pode ser uma arte.
Abrir uma lata de sardinha pode ser uma arte.

Não são muitos os que têm estilo.
Não são muitos os que conseguem mantê-lo.
Já vi cães com mais estilo do que homens,
embora não muitos cães tenham estilo.
Gatos têm de sobra.

Quando Hemingway estourou os miolos com uma espingarda, isso foi estilo.
Ou às vezes algumas pessoas oferecem estilo.

Joana D’Arc tinha estilo.
João Batista.
Cristo.
Sócrates.
César.
García Lorca.

Conheci homens com estilo na cadeia.
Conheci mais homens com estilo na cadeia do que fora dela.
Estilo é a diferença, um modo de fazer e de ser feito.
Seis garças paradas numa poça d’água
ou você, saindo do banheiro sem roupa e sem me ver.

(Charles Bukowski, tradução minha)


quinta-feira, 15 de junho de 2017

"Da boca um pássaro me voa"

Carrego as estações 

Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali onde pequenas pedras se acumulam
uma canção exala seu vapor
depois se perde.
Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.

Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo)
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.

Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés roídos pela terra penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços :
lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.


DÁDIVA DEVOLVIDA

Birds in the Crescent trees were singing.
Dylan Thomas

O céu de tanto o contemplar
já se desprende de seus laços
e vem, menino, se abrigar
no vão inútil de meus braços.

Ah, um só instante bastara
(de amor?) para que minha história,
velha paisagem, se mudara
em puro canto       só memória.

E minha voz, que não entendo,
a mim me fala e quase nada
do que me fala compreendo
: apenas rio ponte estrada.

Da boca um pássaro me voa,
no gesto uma nuvem passagem
pede e o mundo se despovoa
de mim para outra paisagem.

Onde a memória? Onde o canto?
Onde o bando de aves que um dia
voou em meu céu? E o encanto
que habitou esta alma vazia?

O céu já se vai de meus dedos,
a paisagem torna a seu pouso,
os olhos contemplam segredos
que tentar decifrar não ouso.

Fatigado agora caminho
a mesma estrada rio ponte
: um pássaro canta sozinho
e risca de azul o horizonte.

O céu de tanto o contemplar
eis se recolhe aos velhos laços
e à força de tanto o chamar
se me cerram os olhos baços.

                                  *

Agora que não vejo    vejo
tudo o que o céu me ofereceu :
satisfazer o meu desejo
perder o que ninguém me deu.




LOBO

Calado
abraça a neblina
e cerra os olhos
como quem desmaia.
Púrpura, mágoa
sem remédio,
as patas enredadas
em silêncio e lama :
tudo em volta é solidão
               doçura.

E ninguém sabe
de onde vem
nem como
o uivo alucinado
que lhe sai da boca
e rasga a noite
como um coração
                que arde.



Monk & Mulligan

Toda lição é de casa. Uma ensina a aprender,
outra aprende a ensinar. Não sei para quando
será a viagem. Não sei se parti, se já estou
de regresso, nem se a lição é de fato minha,
dos pombos que giram no telhado ou do silêncio
entre o sussurro de Monk & o sopro de Mulligan
no meio da sala: ‘Round midnight.
                                                        Lá fora (
sol alto) lição interrompida. O sal da lição?
Não saber. Sabida, lição já não é.
                                                      Naquele
tempo eu viajava para longe, toda semana.
Um dia estranharam minha alegria ao partir.
“É tão bom assim?” “Não, é que aprendi
a antegozar o prazer da volta.” Nada se iguala
ao alívio antecipado do dever cumprido. A casa
acumula todas as lições : ontem, hoje – o mesmo
tempo a escoar entre o já-não-mais e o ainda-
não – centro de tudo o que sou ou tenho. Mas não
tenho : a casa o contém. E não há lição que o
detenha.
              O que tenho é um retrato na parede.
Um menino me fita apaziguado, seu olhar
se dissolve na brisa. Escancaro as janelas
e o calor da tarde me lembra : outono se foi,
inverno se foi, primavera aí vem (o rendilhado
de Monk prossegue & o sopro agudo de Mulligan).
Outra primavera : midday, midnight. O menino
salta do retrato, se aninha no sofá e me lembra,
a sorrir : é hora de voltar à lição interrompida.
Sorrio que sim, à sombra do jasmineiro
em flor.
             É tarde. Não sei a lição, há pouco
estava no jardim. Como enfrentar classe
tão avançada? A sombra se adensa, é noitinha.
O olhar do menino me fita, não sei se do retrato
ou do canto do sofá onde se aninha,
                                                          não sei
se do olho iluminado da noite, e sorri. Sorrio
que sim. É a hora. (Monk &Mulligan insistem,
agora sim : ‘Round midnight. Lição de casa.)


(Carlos Felipe Moisés)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Poesia de escutar

Iniciativa de Cris Ventura de gravar leituras de poemas aqui no Soundcloud. Estou lá, com um poema de Viagem a um deserto interior.

sábado, 11 de março de 2017

No lodo nasce o lótus


(The Yogis of Tibet, Jeffrey M. Pill)

sexta-feira, 3 de março de 2017

"Na chuva de confetes deixo a minha dor"




("Mulher do fim do mundo", de Romulo Fróes e Alice Coutinho, pela mulher do fim do mundo, Elza Soares)

A letra da canção foi, segundo os autores, inspirada por este poema de Murilo Mendes, que, por sua vez, me remete ao de Dylan Thomas, "Amor no hospício":


METADE PÁSSARO


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.


A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.

(Murilo Mendes)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O invasor americano



(Michael Moore, Where to invade next)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Jornal da comunidade japonesa

No Jornal Nippak, que meu avô, japonês, costumava ler:


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

tranSPassar: poética do movimento pelas ruas de São Paulo


Antologia organizada por Carlos Felipe Moisés e Victor del Franco, que teve por inspiração os versos de Mário de Andrade: “Ruas do meu São Paulo, / Onde está o amor vivo, / Onde está?” A essa pergunta, tentei responder com três poemas e um depoimento sobre a cidade.

Participam:
Álvaro Alves de Faria
Carlos Felipe Moisés
Carlos Machado
Elisa Andrade Buzzo
Fernando Paixão
Glauco Mattoso
Leila Guenther
Luiz Roberto Guedes
Paulo Bonfim
Paulo César Carvalho
Renata Pallottini
Reynaldo Damazio
Rodolfo Witzig Guttilla
Ronaldo Cagiano
Rubens Jardim
Tarso de Melo
Victor del Franco

O lançamento, no dia do aniversário de 463 anos de São Paulo, trará leitura de poemas e faz parte do evento Sampoemas, que conta também com a exibição do filme São Paulo, simphonia da metrópole (1929), com trilha musical executada ao vivo por Livio Tragtenberg.