segunda-feira, 27 de maio de 2019

O corpo como universo



Ontem fomos assistir a Cão sem plumas, espetáculo de Deborah Colker inspirado em João Cabral de Melo Neto. Passaram muitas coisas desconectadas por minha cabeça, numa espécie de fluxo aleatório, enquanto me entregava à hipnose do movimento: minhas aulas de um yoga intenso e transformador e de uma dança na qual a "sororidade" e o "jogo de cintura" são tão importantes, as palavras de um texto clássico do tantrismo ("Na verdade, cada corpo é um universo completo") e de Dôgen, monge introdutor do zen-budismo no Japão, via meu professor de mindfulness ("O universo inteiro é o corpo real do ser humano"), meu contato com a sinuosidade do boxe tailandês, a quase palpável energia vital "chi" que perpassa tudo, a alegria de respirar, a meditação que a cada dia me põe mais presente no presente, mas sobretudo a consciência de que o corpo é um instrumento de expressão poderosíssimo e, portanto, extremamente subversivo. Deve ser por isso que ele assusta e amedronta tanto. Durante muito tempo dividi mente e corpo como se fossem entidades distintas, sem entender que são uma coisa só: a mente é parte do corpo. Isso só mudou por meio dessas práticas que, a despeito do conteúdo mental, são bastante físicas.

Hoje posso dizer: habito um corpo, logo existo.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Vozes de Marielle na Alemanha


Hoje, 16 de maio de 2019, às 20h (horário da Alemanha), acontece na VHS, em Stuttgart, uma leitura dos poemas do livro de que participo, lançado pela Quintal Edições, em parceria com o coletivo Mulherio da Letras: Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco.
Antes da leitura, uma das editoras, Ludmila Fonseca, falará sobre a vida e a morte de Marielle e o processo de publicação do livro.
A apresentação do livro será em alemão e a leitura dos poemas, em português.

VHS Stuttgart: Rotebühlplatz 28 70173







quinta-feira, 9 de maio de 2019

A sunflower in her hair: poems and testimonies for Marielle Franco

A antologia para Marielle Franco, de que participo com imenso orgulho, é tema de um evento que ocorrerá este mês no Reino Unido. Mônica Benício, viúva de Marielle, e o deputado Marcelo Freixo estarão presentes. Mais informações aqui.



terça-feira, 23 de abril de 2019

Pelas veredas de Kenichi Kaneko









A exposição Veredas, do artista plástico, ator e escritor Kenichi Kaneko, reúne 59 anos de criação. Fica até 30 de maio, no Centro Cultural Correios de São Paulo (Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú). A entrada é gratuita, de segunda a sexta, das 10h às 17h. No dia 25 de abril, a partir das 14h, haverá um sarau em sua homenagem, organizado pelo escritor Carlos Bueno, em que participam:






quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma certa planície


É provável que eu nunca mais vá ler com o mesmo afinco, na mesma quantidade, que lia quando tinha nove, dez anos. Essa época de descoberta da leitura, do assombro da palavra escrita, nunca mais vai voltar. Refleti sobre isso num conto-crônica, “O outro mundo de Clarissa”, uma referência ao romance de Érico Veríssimo que de forma meio atrapalhada me fez ter consciência de que um mundo inteiro poderia ser criado a partir de palavras, apenas. Atrapalhada porque cheguei a pensar que se tratasse de algo sobrenatural, de uma espécie de clarividência meio voyeur que adquiríamos ao ler. Clarissa devia existir em algum lugar do Rio Grande do Sul simplesmente porque eu podia vê-la e à sua vida, naquela casa, com a clareza e a nitidez de quem tem uma bola de cristal.
Eu me lembro de ter encontrado numa tarde, na estante de meus avós, A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. Até hoje não entendo como foi parar lá, numa casa cujo dono lia (muito) em japonês e cuja dona era praticamente analfabeta (gostaria de encontrar entre os escombros o caderno de receitas de minha avó, que anotava maravilhas numa língua que ela própria criou, com uma espécie de hiper-correção, já que os japoneses não falam o L: ela anotava "tlês xícalas de falinha de tligo", assim mesmo). Num dos intermináveis almoços de domingo, eu li o tal romance de J. Veiga inteiro, o mais rápido que pude, com uma espécie de medo de que ele pudesse desaparecer, não estar mais ali na próxima visita, ou, se eu o pegasse emprestado, de que ele pudesse se autodestruir (é verdade que sou maluca e que foi nessa época que apareceram os primeiros sintomas da depressão). Até hoje não conheço título mais lindo: A hora dos ruminantes. Talvez tenha sido o primeiro passo para perceber o poder do som. Nessa época me dei conta do encantamento que o som das palavras produzia em mim. O fato de haver poemas infantis da Cecília Meireles no livro didático ajudou: eu os lia na classe, em voz alta, a pedido da professora, surpresa com assonâncias e aliterações, mas ainda dividia infantilmente (esse infantilmente pode ser entendido em vários sentidos) som e significado. No entanto, essa divisão ainda estava restrita aos títulos das obras. Essa relação só mudou quando, no livro de interpretação, me deparei com o início de um texto chamado “Mudança” (era o primeiro capítulo de Vidas Secas, vim a saber por minha mãe, e o vi também mencionado em livros como os de Ganymedes José, que li aos montes): “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. O texto que se seguiu mudou minha vida para sempre, mesmo que eu desconhecesse o significado de juazeiro, aió, pederneira, excomungado, viventes (e de tantas outras palavras, mais para a frente, como atenazar, que ninguém além de Graciliano usa), porque foi a partir daí que o som se uniu ao significado, tendo eu que procurar todas as palavras que não conhecia no velho dicionário que havia em casa, cujas folhas iam caindo como se fosse uma árvore.
Segui por vários caminhos, tantas leituras, lendo palavras, sons, imagens discrepantes, olhares, plantas, bichos, mas “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” continua comigo como um mantra, uma oração. Eu queria, por isso, dizer (tentando recuperar minha infância por meio dos versos de Manuel Bandeira, em “Porquinho-da-Índia") que Graciliano Ramos foi meu primeiro namorado (naquela época de menina em que para namorar bastava desejar, mesmo que o objeto do sentimento não soubesse), mas tudo o que me ocorre agora é parafrasear o próprio Graciliano: "Foi esse o primeiro contato que tive com o amor."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sobre poesia, ainda


Sobre poesia, ainda é um título deliberadamente amplo, cujas palavras permanecem pulsando a cada página. A vírgula – e Tarso de Melo, poeta meticuloso, sabe bem disso – demarca um pequeno intervalo entre o substantivo e o advérbio, admitindo ao menos duas possibilidades quanto à noção de tempo aqui presente: se, por um lado, se poderia considerar anacrônica a intenção de ainda se dizer algo sobre poesia neste momento, por outro, a mesma palavra parece assinalar a urgência de uma publicação como esta, que ressalta o quanto ainda há para ser dito (ou repetido em novas formas, novos contextos).
Essa oscilação consciente do título, de certo modo, atravessou até mesmo o processo de produção do livro, entre a enquete despretensiosa e o mapeamento do contemporâneo. A princípio, em 2015, Tarso provocou alguns de seus pares com cinco perguntas enviadas por e-mail, divulgando as respostas recebidas no blog Contra tanto silêncio. O murmúrio dessas primeiras vozes foi ganhando eco e, desde então, Tarso decidiu organizá-las neste volume, incluindo agora outras vinte e duas para compor uma pequena amostra do que pensam aquelas e aqueles que escrevem poesia hoje no Brasil.
Como destacam Diana Junkes e Fabio Weintraub no posfácio, ainda que haja evidentes confluências em alguns momentos, o leitor poderá notar também pontos de divergência nesse mosaico. Isso se dá não apenas pela variedade de formações desses poetas, mas pela própria dificuldade de definição do que é a poesia  – signo que, afinal, nos reúne – e de como ela se manifesta. Dando a palavra a essas diferentes vozes, desarmadas de seus objetos criativos (os poemas), Tarso de Melo propõe um gesto democrático, o que inclui também a discordância como elemento constitutivo de um ambiente verdadeiramente plural.
Entre o anacronismo (o excedente do que não se realizou) e a urgência (o impulso do que quer se realizar), esses poetas reunidos em Sobre poesia, ainda elaboram muitas outras respostas possíveis às indagações do presente, sintetizadas nas perguntas de Tarso. Mas, no fundo, diante de tanto horror, a própria reunião dessas vozes (des)encontradas é um sinal positivo que parece dizer: somos diversos e ainda estamos vivos.

(Renan Nuernberger, em Sobre poesia, ainda: cinco perguntas, cinquenta poetas. org. Tarso de Melo. Lumme Editor, 2018)



Participam:
Adelaide Ivánova, Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Rüsche, André Luiz Pinto, Andréa Catrópa, Annita Costa Malufe, Antonio Moura, Bruna Beber, Bruna Mitrano, Carla Diacov, Carlos Augusto Lima, Carlos Ávila, Carlos Felipe Moisés, Casé Lontra Marques, Dalila Teles Veras, Danielle Magalhães, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Edimilson De Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fernando Fiorese, Guilherme Gontijo Flores, Heitor Ferraz Mello, Helio Neri, Júlia De Carvalho Hansen, Júlia Studart, Leila Guenther, Leonardo Gandolfi, Lilian Aquino, Lubi Prates, Lucas Bronzatto, Manoel Ricardo de Lima, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Pádua Fernandes, Paulo Ferraz, Prisca Agustoni, Reynaldo Damazio, Ricardo Aleixo, Ronald Polito, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sergio Cohn, Simone Brantes, Thiago E, Thiago Ponce de Moraes e Yasmin Nigri.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Quatro horas


O expediente de um emprego meio período
Metade do que se diz necessário dormir

Um dia de vestibular de uma universidade pública
Duas sessões de cinema
Uma viagem de carro de São Paulo ao Rio 
Uma viagem de avião do Brasil ao Chile

A duração de uma cirurgia de intestino

O tempo de um espancamento
O tempo que leva para alguém fazer algo a respeito

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A humanidade (im)possível de Kore-Eda

Um filme em que o que se move não é a câmera, mas a história por trás dela. Uma mulher, mãe de um menino pequeno, tentando entender o aparente suicídio de um marido que não deixou pistas nem motivo. Esse foi meu primeiro contato, há mais de vinte anos, com o mundo de Hirokazu Kore-Eda, ganhador de Cannes 2018, cujo Assunto de família ainda não vi. O filme então era Maborosi, a luz da ilusão. Até hoje não sei qual era a ilusão ali e por que ela era iluminada, mas desde então esse mundo, tão japonês e ao mesmo tempo tão universal, passou a me interessar.
Em seguida vieram Depois da vida, em que os mortos, à espera de seu destino numa espécie de limbo com ares de repartição pública, têm de decidir qual a única e, portanto, mais significativa memória, que, em forma de gravação, deverão levar para a eternidade. Ninguém pode saber, baseado num caso real, conta a história do abandono, pela mãe, de cinco crianças, deixadas sozinhas em casa aos cuidados do mais velho, de doze anos, e de seu trágico destino. Still walking era sobre uma reunião de família japonesa com seus ditos e não ditos. Em Pais e filhos, o drama de duas famílias que têm seus filhos trocados na maternidade. Nenhum filme lembrava o anterior em nada, nem pela temática, nem pela forma. Pode-se reconhecer um filme de Takeshi Kitano ou de Ozu pelo enredo, luz ou enquadramento, mas não um filme de Kore-Eda, em que a marca pessoal está além desses conceitos. Porque Kore-Eda nunca se parece com Kore-Eda. E os filmes que tornaram para mim mais clara essa distinção foram dois que vieram na sequência um do outro como contraposição: Nossa irmã mais nova e Depois da tempestade.
Nossa irmã mais nova é quase uma história de ninar, um conto de fadas, sobre três irmãs que, vivendo sozinhas num espaço e num tempo pouco definidos, acolhem sua meia-irmã, depois da morte do pai, depois das traições desse pai, apesar dos protestos da mãe. É um filme sobre o profundo significado da fraternidade, que parte da família, passa pela comunidade, até atingir a nós, espectadores, com uma lição de tamanha ternura que ficamos desejando morar dentro dele. O Japão ou algum país pode ser assim? Provavelmente não. Essa compaixão, esse entendimento solidário do outro nos afeta não apenas pelo estranhamento, por beirar o irreal, mas porque acena para uma possibilidade de existência mais humana.
Já em Depois da tempestade, a personagem principal é uma espécie de pícaro que busca a sobrevivência por meio de pequenos golpes. Um escritor da metrópole que perdeu a inspiração e trabalha agora como detetive, resolvendo casos sem importância. Gasta seu salário em apostas e vive atrasando a ajuda financeira que deveria dar ao filho, razão pela qual recebe o desprezo da ex-mulher. Mas, em todo o seu trajeto, o que busca, lentamente e com atraso, é se tornar melhor. É o ser humano em processo. Sou eu, somos nós, num caminho em que a viagem é tão importante quanto à chegada ao destino final. “Ainda não sou o homem que queria ser”, responde à pergunta do filho sobre o que gostaria de ter feito na vida.
Em O terceiro assassinato, síntese radical desses dois percursos apontados em Nossa irmã mais nova e Depois da tempestade, um advogado desconfia da culpa de um assassino confesso. Por que um criminoso reincidente, em vias de ser condenado à morte, mentiria sobre sua própria inocência? Talvez porque seu crime aponte para uma outra humanidade, feita de laços que ainda não sabemos aceitar.
Talvez porque Kore-Eda, além de nunca se parecer com si mesmo, seja sempre mais do que Kore-Eda.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Ao irmão que parte

Lavineg, há algo preso na garganta do tempo
Como naquele tempo em que as sombras caminhavam conosco
Lembras? Tuas sandálias puídas de caminha
r sobre as
                                                                   [pedras das escarpas
Eras o mais velho entre nós, o mais experiente em buscar alimento 
                                                                [nas cercanias da miséria
Brincavas pouco a deixar-nos espalhar os ossos dos bichos 

                                                                          [como alegorias
Cresceste mais duro e mais depressa que nós, Lavineg, 

                                                                      [foste o mais bravo
Não fomos criados para sermos humanos, senão animais astutos 

     [a sobreviver à agreste herdade de espinhaços nos couros do cangaço
Perdi-me nos dias de retirante a sobejar lonjuras
Foste para mim a rosa dos ventos, a esperada chuva do sertão, a regar 

                                                                               [a força para a luta
Caminhei teus passos fisgados pelo coração seco feito carne de sol
Envelhecemos pois, Lavineg, cada qual ao seu modo, 

                   [tu o tempo da idade, eu o tempo da História preso nos pés
Ensinaram nossos pais que a vida é desaviso, canto de carcará, 
                                                 [fuga de asa branca no pouso da manhã
Fui mundo afora, Brasil fundura de imensidão, foste todo o universo 

                                                                          [dentro do meu peito
Não pediste permissão para arribar ventania, ganhar paisagem 

                                                                              [de despedida
Lavineg, vá, vá, avisa lá em casa que eu me demoro 

                                                                       [o tempo da precisão

(Rita Alves, 29/01/2019)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Longe dos homens, perto de tudo



Quem me conhece sabe que vivo bastante afastada do convívio humano, que dificilmente vou a eventos para os quais me convidam e, quando o faço, passo pouco tempo, que não falo em público, que fico confusa no meio de uma multidão, que sou, enfim, praticamente eremita. Não que eu não goste de pessoas (algumas têm e sempre terão lugar cativo aqui dentro), mas é que estar entre elas às vezes me aflige, às vezes me faz sentir sufocada. Talvez seja apenas medo. No entanto, nunca tive problema com bichos. Com eles parece haver uma afinidade que me devolve a um estado que deveria, a meu ver, ser natural da mente e me põe mais à vontade do que com gente. Não tenho dúvidas de que preferiria encontrar um bando de pitbulls numa rua escura a encontrar um homem. Ainda que os cães me estraçalhassem, eu não sentiria medo. Poderia sentir dor, mas não medo. Pois nesta necessidade de paz interior, tenho ficado com frequência longe da civilização, no meio do mato, que é onde me escondo por uma questão de sanidade mesmo. Lá os insetos têm força. E a demonstram quando estou lendo ao sol ou buscando sinal de celular, através de picadas, mordidas, ferroadas. Mas, curiosamente, não fazem nada quando estou meditando, sentada na grama, em busca desse estado natural, o que ocorre em geral no fim da tarde, justo quando os insetos estão mais vivos. Quando entro no estado meditativo, naquela sensação poderosa de que eu e a terra respiramos na mesma frequência, nenhum inseto me ataca. Ao terminar a prática, constato que não carrego uma picada sequer, como se tivesse sido esquecida, e que estou incrivelmente viva, assim dissipada na paisagem.




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

"He reminds me of the love in me"


(Björk, "Blissing me", Utopia)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A mulher que falou primeiro



Eu sei que falar do poder das palavras é um lugar-comum. No entanto, não posso me esquivar de fazê-lo quando se trata da obra de Adriana Versiani dos Anjos. Talvez até por motivos pessoais: quando me iniciei na literatura, com pequenos contos, era como ela que eu queria escrever. Foi sua prosa curta, poética e estranha que ainda não tinha visto em nenhum outro lugar que me chamou a atenção no projeto mineiro Poesia Orbital. Mais tarde, quando estive à beira da morte, Adriana, que eu tinha visto pessoalmente apenas uma vez, dedicou-me um belíssimo poema, “O templo de Leila e a chave que perdi”, publicado no jornal Dezfaces. E eu, a despeito de todos os prognósticos médicos, sobrevivi. E foram seus textos poéticos, como os de A lâmina que matou meu pai, com imagens tão inquietantes, com aquela leveza terrível que os anjos possuem, que me ensinaram a produzir todo um livro quando, posteriormente, me aventurei pela poesia. Por isso me refiro ao poder que as palavras têm. De mudar nossa vida, de nos matar, de nos salvar. Inclusive à nossa revelia. De Adriana, deixo este texto que evoca a mulher primeira, mágica, que, antes da calada Eva, teve a coragem de dizer: “Meu nome é linguagem”.

(Leila Guenther)



Lilith

I
Hora do Angelus:
As amaldiçoadas Evas de Santana do Rio Verde
                            [batem com o joelho no chão.
Ainda uma menina o tempo se abre para mim.
Anoitece e tento mais uma vez esta história.
Meu nome é linguagem.

II
Atravessei a estrada carregando umas coisas.
A vida não era mais o que houve até então.
A dez minutos do pasto seco, esta casa é a cidade
[de matutos e livros empoeirados.
Nesta tarde, um novilho rumina três vezes
[antes de morrer.
Sento à sua sombra.

III
Mais cedo meu pai deseja a minha morte.
Da palavra de homem apanho calada até
   [os sinos rebentarem.
Sou linguagem.

IV
Quinze mulheres me ensinaram a ler o destino
[nos farelos de pão espalhados pela
[mesa do café, todas as manhãs.
Todas as manhãs, as roupas no varal.
As notícias no velho rádio de válvulas,
[todas as manhãs.
Com minha avó aprendi a cantar.
O resto li nos livros.

V
Imóvel, amarrada a esta cadeira não tenho força
   [para cortar os pulsos.
O imbecil trancou-se na gaiola.
Mãe, a Guerra Santa mal começou.

VI
Briga de socos.
Coração é músculo.
O líquido que escorre entre as minhas pernas
[mancha a história do quintal.
Um dente cai sobre o chão de terra batida.
Se fosse sonho seria presságio.

VII
Travesseiro de macela e uma noite de amor.
Este homem parece um menino quando dorme.
Passo o café no coador de pano.
Casa, seu cheiro é linguagem

VIII
O tempo se abre para mim e do outro lado da
[mesa me vejo no meu irmão.
Depois do mata-burro tem um lago.
Brincamos de sermos os sanhaços azuis que
    [tomam banho lá, eu e meu irmão.

IX
Juro que eu queria que todas as flores
[procurassem o sol.
Água corrente, juro que eu queria.
Juro que eu queria alimentar a chama.
Minha sina de mulher, juro que eu queria.
Guardei todos os escritos no baú que herdei do
[meu avô, para que meus filhos vejam.
No dia da minha morte, tudo que eu queria.

X
A menininha tossiu e me levantei para cobri-la.
Senti frio.
Fingimos dormir, enquanto as botas tingem de
[terra os tacos.

XI
Pálida, fraca.
O viço se misturando à lã do cobertor marrom.
Não abre mais os olhos.
Matar-se resolveria o problema.
Sua vingança:
Viver para sempre deitada no sofá da sala.

(Adriana Versiani dos Anjos)


sábado, 24 de novembro de 2018

Dois poemas para o futuro


CALMA E FUGA

lendo cruzo a avenida
pensando no poema
que fala de uma mulher livre
e de um homem feito dardo
que ela atira para longe de si

a tarde morna já se despede
e tudo parece tecido
em fios de ausência e desespero
enquanto os mortos de hoje
juntam-se aos corpos de ontem

fingimos calma, somos fuga
e ninguém sabe bem em que esquina
a conversa falhou e deixou
essa lembrança sem margens
nos olhos, nos ossos, no vento




LUGAR

um país
é descoberto
a cada manhã

a cada manhã
um mesmo país
se descobre

e chove forte
sobre o território
indefeso

todo dia
um país é tragado
em seus lençóis

e os dias passam
úmidos e tristes
sob a terra fértil

à espera do sol
que o evapore
e invente

(Tarso de Melo, Alguns rastros: uma antologia. Goiânia, Ed. Martelo, 2018)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Godzilla no México

Olha só, meu filho: as bombas caíam 
sobre a cidade do México
mas ninguém percebia.
O ar transportou o veneno através
das ruas e janelas abertas.
Você acabava de comer e assistia na tevê
a um desenho animado.
Eu estava lendo no quarto ao lado
quando soube que iríamos morrer.
Apesar do enjoo e da náusea
me arrastei até a sala de jantar e encontrei você no chão.
Nos abraçamos. Me perguntou o que estava acontecendo
e eu não disse que estávamos no programa da morte
mas que íamos começar uma viagem,
mais uma, juntos, e que não era para ter medo.
Ao ir embora, a morte nem sequer
fechou nossos olhos.
O que somos?, você me perguntou uma semana ou um ano depois,
formigas, abelhas, números equivocados
na grande sopa podre do destino?
Somos seres humanos, meu filho, quase pássaros,
heróis públicos e secretos.

(Roberto Bolaño, traduzido por Marcelo Donoso e por mim)


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Poema da extinção

A noite destrói a oração dos insones, 
                [o coração das trevas e dos leões 
               [que ronronavam no tapete da sala 
             [banhado pelo sol magro atravessando 
                                                        [a janela
Benditos os cães que se eu pedisse 
               [me rasgariam a barriga e mastigariam 
        [o pudim de vidro que jantamos dias atrás 
A selva e seu chamado trazem uma certidão 
               [de nascimento antiga e rasurada 
                                  [onde não consta pai
Os que ainda não chegaram esperam 
           [na fila subterrânea junto às minhocas 
                 [e comem terra apenas por distração 
Esta é a hora dos ruminantes, 
                       [que nos espiam da eternidade 
               [com a pena infinita de quem pisca 
        [os olhos com lentidão e extravagância 
Já não há jaulas pelas quais lutar 
E o sabiá já não abre o bico nem para dizer 
“Nunca mais”


(Leila Guenther)



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

domingo, 23 de setembro de 2018

Nenhum a menos



(Anistia Internacional)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Brasil, 1945


Não existe revolução moderada, não existe revolução dirigida – como se diz, também, economia dirigida. Isso que anunciamos se fará contra a totalidade do sistema atual, ou não se fará. Se pensássemos que este sistema é capaz de se reformar, que ele pode romper por si mesmo o curso de sua fatal evolução para a Ditadura – a Ditadura do dinheiro, da raça, da classe ou da Nação –, certamente nos recusaríamos a correr o risco de uma explosão capaz de destruir coisas preciosas, que só se reconstroem com muito tempo, perseverança, altruísmo e amor. Mas o sistema não mudará o curso de sua evolução pela simples razão de que ele já não evolui; apenas se organiza no intuito de durar um pouco mais, de sobreviver. 

(Georges Bernanos, A França contra os robôs. trad. Lara Christina de Malimpensa. São Paulo, É Realizações, 2018)



Quando a paz começa dentro


(Heitor Dhalia, On Yoga: Arquitetura da Paz)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Hiam Abass no Brasil


Hiam Abass é atriz e diretora palestina. Atuou em filmes como Paradise Now, Blade Runner 2049, Lemon Tree, Munique, Free Zone e O Visitante, e dirigiu Inheritance.