segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Horizonte



Tinha a vaga sensação de já ter vivido isso antes. Na infância, ou na adolescência, entre colegas ou familiares. Uma espécie de sentimento de rejeição, de que não era mais necessária. Como se incomodasse. Por isso a distância dele, o desinteresse pelo que dizia respeito a ela. Talvez ele a tivesse desvendado. Talvez o mistério que o impelira para ela se esvaísse como quando se limpa uma peça antiga, há muito perdida entre os pertences da família, e se descobre que não valia a pena tê-la guardado – o desenho é de mau gosto, a qualidade é ruim. Não era cristal, mas vidro que exibe uma transparência opaca e imperfeita. O certo é que ele descobrira a verdade. Sempre guardara um ou outro truque, para ser usado em momentos estratégicos – quando ele precisava ser feliz –, mas agora ela não tinha mais com que entretê-lo. A cartola se esvaziara e ela achava que era chegada a hora de ir embora. Saiu da cama, de olho na luz fraca do corredor, a que sempre a guiava nos momentos de insônia até a sala e, uma vez lá, fez o que sempre fazia: sentou-se na poltrona de vime da sacada e olhou à frente. Logo o sol nasceria e se imiscuiria por entre todos os prédios que sua vista alcançava, dos mais distantes na linha do horizonte até os mais próximos de onde estava, para acabar atingindo a sacada em que se encontrava. Ainda, entretanto, o que se via era o tom de crepúsculo, de alvorada incerta, que conferia aos edifícios um aspecto espectral de abandono: grande parte das luzes estava apagada e ela imaginou que era essa a paisagem que veria se o mundo tivesse sido destruído. Esqueletos de concreto que deveriam ser preenchidos com luz, porque essa era a sua natureza: os prédios existiam para resplandecer. Edifícios altos e modernos às escuras eram tão assustadores quanto construções medievais iluminadas. Ficou pensando no passado e no futuro. Em como uma catedral era vista pelos habitantes de uma época anterior à luz elétrica. Em como veriam os destroços os contemporâneos do apocalipse. Em quantas vezes mais ela ainda contemplaria aquela cena. Que era, afinal de contas, sempre a mesma, como o sol, pesado e imóvel, de antes, de hoje e o do amanhã distante, concluiu com espanto, levantando-se e olhando fixo para frente, antes que os primeiros raios a tocassem.



(Leila Guenther)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Circe

porque eu os amava
me encerraram aqui
nesta ilha
neste corpo

transformo-os
no seu melhor
mas não posso beber
meu próprio veneno

por anos esperei
no topo deste penhasco

ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo
que eu ainda não saiba

(Leila Guenther)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Desmontando a árvore






As boas leituras de 2011

1. 1933 foi um ano ruim, de John Fante. Trad. Lúcia Brito. Porto Alegre, LP&M. 2003.



2. 28 contos, de John Cheever. Trad. Jório Dauster e Daniel Galera. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.


3. A fazenda africana, de Karen Blixen. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.



4. De verdade, de Sándor Márai. Trad. Paulo Schiller. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.



5. Desonra, de J.M. Coetzee. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.



6. Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo, Cosac Naify, 2010.



7. Hiroshima, de John Hersey. Trad. Hildegard Feist. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.


8. O buda do subúrbio, de Hanif Kureishi. Trad. Celso Nogueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.



9. O coração é um caçador solitário, de Carson McCullers. Trad. Sônia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.



10. O náufrago, de Thomas Bernhard. Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.



11. Partículas elementares, de Michel Houellebecq. Trad. Juremir Machado da Silva. Porto Alegre, Sulina, 1999.



12. Samarcanda, de Amin Maalouf. Trad. Denise Bottman. São Paulo, Brasiliense, 1991.



13. Para ler como um escritor, de Francine Prose. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2008.



14. The hound of the Baskervilles, de Arthur Conan Doyle. London, Penguin, 2009.



15. Uma passagem para a Índia, de E.M. Forster. Trad. Cristina Cupertino. São Paulo, Globo, 2005.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um poema de presente

O templo de Leila e a chave que perdi


para Leila Guenther



Noite de pouquíssimas estrelas, cavalos trotam ladeira abaixo,
Leila não escreve.
Imagino-a,
seu sopro é forte.

Cabelos negros e os brincos que lhe trouxe no último Natal.
Tenho esperança:
porque ainda não me foi permitido o poema, porque o poema não é para mim[que roço entre as pedras da rua esse graveto retirando gramíneas ou planta [rasteira, que porventura cresça ali, naquele espaço.
Sei Leila que me cobre com seus cabelos negros e de seus brincos que tocam [minha testa.
Ouço o ar que ela respira, como no último Natal.
Cavalos trotam e uma pulsação ladeira acima.
São muitos os telhados.
Imagino-me.

O sol trinca a superfície, mina uma água da parede lateral do abrigo
e as mãos de Leila estão marcadas.
Desenho círculos de giz no cimento do quintal.
Quando nasci deixaram-me na piscina ligada aos azulejos do fundo.
Meus olhos são azuis e não preciso respirar.
A fumaça negra cobre a água.
Leila me afaga com suas marcas.

Feridas nas pontas dos dedos.
Tenho esperança.
Uma luz queimou meus olhos que desaprenderam a ler.
Meio dia, Leila e o som de seus cabelos espalham poeira de minério.
Bateias esquecidas na margem do rio,
balaios.
Ouço os ferros.
Imagino-me.

(Adriana Versiani dos Anjos, Dezfaces n.3, Belo Horizonte, junho/julho 2011)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A permanência do figurativo II: Andrew Wyeth

Christina's Teapot




Master Bedroom



Winter Fields



Long Limb





Ides of March




Geraniums






Christina's World





Wind from the Sea





Helga




And bells on her toes




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O self-made man

Para ele tudo começou num momento de silêncio estilhaçante. Alguma coisa desprendeu-se e caiu. Instintivamente, seu coração compreendeu que essa ‘coisa’ era a idéia há tanto tempo acalentada de si mesmo como um indivíduo, uma entidade norte-americana chamada ‘self-made man’. Algo aprendido através de gerações de ancestrais irascíveis com a mesma linha dura do queixo e o mesmo nariz adunco. Tinha retratos deles no consolo de pedra de sua lareira. Ferrotipos do tempo da Guerra Civil, do seu tetra-tetra-tetravô, um homem chamado Lemuel P. Dodge, que perdeu uma orelha lutando pelo norte, um braço lutando pelo sul e finalmente foi enforcado por ‘adultério’ em Ojinaga e arrastado pelas ruas de terra até a cabeça se separar do tronco. Havia outros, homens com longas barbas e chapéus de palha com abas largas enfileirados no alto de gigantescas carroças de feno, forcados de madeira na mão, quase bíblicos contra o céu da pradaria. Ferroviários em vagões de gado, abanando chapéus-coco, explodindo as montanhas de granito para abrir caminho, determinados na sua convicção do ‘Destino Manifesto’. Depois, gerações seguintes, já com o misterioso lampejo da dúvida insinuando-se nos olhos. Pilotos de caça com capacetes de couro e echarpes de seda segurando as asas de um P-38, mas o bravo sorriso para as câmeras mostra agora uma sombra, como de ovelha que sabe que sua hora chegou.
Às vezes ele ficava à noite estudando aqueles rostos, o fogo tremeluzindo sobre a laje da lareira. Apanhava os porta-retratos para examinar melhor e andava pela sala lentamente, fumando e inclinando o vidro para evitar o brilho das chamas. Sentava com os retratos no colo e os limpava suave e carinhosamente com seu grande lenço azul. Sentia haver ali uma conexão, mais real do que se podia imaginar. Mais real do que os parentes vivos espalhados pelos mais remotos cantos do país, lugares que ele não tinha a menor intenção de visitar, como Tampa ou Seattle. Lugares que era como se estivessem no outro lado da Lua. A solidão era um fato da natureza, pensava. Tinha aprendido a não olhar além dela, evitar a traição da mente no que dizia respeito a mulheres, evitar toda a fantasia da sedução. Nunca valeu apena, no passado. Não podia confiar na mente para isso. Só lhe trouxe o terrível sofrimento. Agora, finalmente, chegava a um pequeno armistício consigo mesmo.
Levantou-se e pôs a foto no lugar, sobre a lareira. A de seu avô dirigindo uma caminhonete Modelo T, rebocando uma mula. Deteve-se algum tempo na imagem, ouvindo as corujas que alimentavam os filhotes no topo da velha tulipeira no quintal. Era um ritual noturno pelo qual esperava ansiosamente toda primavera. Costumava apanhar a lanterna e sair silenciosamente para a varanda, iluminando o tronco largo e fendido até prender o ninho num perfeito círculo de luz. Nesse ano eram dois os filhotes, e ficaram quietos assim que a luz atingiu seus olhos. A mãe, inclinada sobre eles, tinha uma pequena cobra negra nas garras. Virou de costas para a luz e bateu as asas, depois se acalmou. Filhotes da primavera revoaram chilreando, na frente da cena, substituindo os gritos estridentes das corujas, depois desaparecem, suas vozes abafadas pelo ronco distante de um caminhão a caminho do sul. Ele desligou a lanterna, esperando que as corujas recomeçassem a gritar, esperando que alguma coisa viesse ocupar o silêncio imóvel e crescente. Tentou ouvir bezerros mugindo à distância. Nada aconteceu. Procurou ouvir algum sinal do vento. Nada. Pigarreou para, pelo menos, ouvir a si mesmo, sentir a própria presença. Soou como o ruído de um homem. De qualquer homem. Um ser humano sem nada que o distinguisse. Como se um estranho estivesse ao seu lado na varanda. Virou a cabeça. Não havia ninguém. Apenas sua respiração. O sangue pulsando. Fez menção de falar, mas “com quem?”, pensou. “Dizer o quê? De que adianta?” Seu coração acelerou e toda a sua linguagem interior parecia ter se acumulado num nó latejante na base da nuca. Queimava como uma noz pequena e negra, fechando sua garganta. O pânico começou a dominá-lo. Já não havia nenhuma fronteira entre sua pele e a noite, entre sua respiração e o ar denso que o rodeava. Voltou-se para a árvore negra e maciça e olhou para cima. O olho da coruja mãe piscou para ele. Amarelo, depois negro. Os olhos dele desapareceram. O vazio o encheu por completo. Parecia correr em suas veias, tomando cada pensamento, cada sentido. Não deixou nada para trás, exceto a sensação dominante da própria respiração. Uma pulsação que ele não criava nem controlava. “Paz”, pensou. Com a rapidez do pensamento, a paz o deixou.


(Sam Shepard, Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Para um menino na guerra

Amadeu, eu me lembro de você. De como era frágil, de como tinha medo. Eu também era frágil, e tinha medo. Dois terços de nós, ou mais, eram assim. Você tinha olhos grandes, que deveriam ser bonitos hoje, mas que na época pareciam desproporcionais ao tamanho do rosto, miúdo e magro. Você chorava quando, sentado sobre uma das pernas, elas formigavam. Isso era imperdoável. Chorava quando lhe diziam para que o fizesse. E todos riam. Você não tinha nem o perdão ou o azar de ser estudioso. Se fosse, pelo menos para algumas coisas não o teriam desprezado. Mas sentava-se perto da janela e ficava distraído olhando através dela com o olhar oscilando entre o vazio e o sonho. Quando a professora pedia que continuasse a leitura de onde alguém tinha parado, você nunca sabia onde estava. E, quando descobria, gaguejava, se enroscava em murmúrios incompreensíveis, pálido como os que nunca iam para a praia nas férias. Do que mais me lembro é de sua voz. Som e cheiro são coisas de que nunca me esqueço, embora não consiga descrevê-las. Que dizer de sua voz, se não que era uma melodia tocada um tom acima? Você não devia ser pobre, a julgar pelo carro com que vinham buscá-lo. Tinha carro e por isso nunca um estranho o pegaria no caminho da escola e enfiaria os dedos em partes suas que você sequer conhecia direito. Pelo menos não era menina, e não tinha borrachas cor-de-rosa com cheiro de morango que eram sempre roubadas por alguémque o ameaçasse de calúnia caso o furto fosse delatado. Mas tenho certeza de que sofria por ser o último escolhido para dançar a quadrilha nas festas juninas. Como na aula de educação física. Porque pertencia ao grupo daqueles a que faltavam a coordenação, a beleza e a graça de movimentos das crianças felizes. Aos que não possuíam um corpo com que se defender. Pelo menos não tinha amigos que o diminuíssem. Não tinha amigos, em absoluto, o que deveria facilitar muito a compreensão de sentimentos confusos. Pois como entender que se possa, deliberadamente, humilhar um amigo? O que eu queria dizer é que jamais compreendi quem tem nostalgia do passado.
No fim de 1984, disseram que você ia embora. Ia para o Líbano, que eu sabia vagamente ser mais distante do que a Argentina e mais perigoso por causa de uma guerra. Um conflito que durava mais do que sua existência inteira. Mesmo assim, nem lhe desejei boa sorte.
Faz quase trinta anos e eu ainda me lembro. Na verdade eu me lembro todos os dias. E lembro que passei muito tempo imaginando que você tivesse partido por causa das coisas ruins que lh aconteciam na escola. Pensei que era porque ninguém tivesse feito nada contra os inimigos.
Até bem pouco tempo eu costumava visitar a ala das crianças no cemitério da cidade. Levava flores avulsas, que ia depositando sobre as sepulturas. Tentava, a cada vez, deixá-las em túmulos diferentes. Fiz isso até ser capaz de reconhecer a que nome pertencia cada túmulo, até traçar uma história para cada um.
Um ano depois de sua partida, a diretora da escola, numa reunião de pais - contou minha mãe -, disse que você tinha morrido. Não da guerra, mas de um câncer silencioso, desconhecido. Pensei que provavelmente tinha sido engendrado aqui. E que eu não pudera evitar. De repente se abriu como uma flor raivosa na violenta primavera. Foi o que soube: em questão de um mês, tudo estava acabado. Ouvi ainda o resto: o tratamento brutal, o desespero da última tentativa. Foi a primeira vez que eu ouvi falar tão concretamente na morte.
E eu sobrevivi.


(Leila Guenther)

domingo, 30 de outubro de 2011

A permanência do figurativo I: Edward Hopper

Room in Brooklyn




New York Movie




Nighthawks




Stairway




Morning Sun



Gas




Early Sunday Morning




Room in New York




Seven a.m.




House by the Railroad



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vigília

Uma noite encerra
Em si mesma
A dispersão de todo um dia,
As horas que passei
Julgando que contemplava
O interior das muralhas de vidro,
Aquelas que guardavam a cidade
Contra a violência das hordas.
Hoje desdenho delas.
Gasto,
Com pequenas lembranças em relevo,
A memória de sonhos nunca
Vividos, jamais desejados,
O fluxo dos acasos
Prestes a ser cingido
Por um movimento preciso
No instante em que tudo
Volta a nascer.

Uma noite encerra
Em si mesma
A disposição de toda uma vida.
Detida pelo que acreditava
Suspenso,
Agora me aplico na superfície
De vapor
Sobre a qual se pode escrever
Com a ponta dos dedos.
Recolho os despojos e,
Com paciência infinita,
Guardo o tesouro
Em minha caixa de espelhos.

Por isso não durmo.
Por isso, alerta,
Me debruço
Sobre o sono alheio.


(Leila Guenther)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A teoria da vontade de morrer



Kitosch era um jovem nativo a serviço de um jovem fazendeiro branco de Molo. Uma quarta-feira de junho, o colono emprestou sua égua marrom a um amigo, para que este fosse à estação tomar o trem. Mais tarde, mandou Kitosch buscar a égua, ordenando-lhe que não a montasse em nenhuma hipótese, e que a trouxesse pelo cabresto. Kitosch, porém, saltou sobre a égua e cavalgou por todo o caminho de volta. No sábado, seu patrão foi informado da desobediência por alguém que vira o nativo sobre ela. E, na tarde de domingo, como punição, fez com que Kitosch fosse açoitado e depois amarrado num galpão, onde, na noite de domingo, viria a morrer.
(...)
Kitosch não teve muita oportunidade de exprimir sua intenção. Como estava trancado no galpão, sua mensagem foi expressa de modo singelo, com um único gesto. O vigia noturno declarou que ele havia chorado a noite toda. Mas não deve ter sido assim, pois à uma da manhã ele conversou com o toto que estava no galpão. Ele pediu ao menino que gritasse, pois o açoitamento o ensurdecera. À uma hora ele pediu ao toto que afrouxasse as amarras em seus pés, dizendo que de qualquer modo ele não poderia fugir. Quando o toto atendeu ao seu pedido, Kitosch disse-lhe que queria morrer. Pouco depois, ele se virou para um lado e para o outro, exclamou “Vou morrer!” e morreu.
Três médicos testemunharam no julgamento.
Para o médico-cirurgião do distrito, que realizara a autópsia, a morte fora causada pelos ferimentos e lesões que encontrara no corpo. Na opinião dele, nenhum cuidado médico imediato poderia ter salvo a vida de Kitosch.
No entanto, os dois médicos de Nairóbi, convocados pela defesa, eram de outra opinião.
De acordo com eles, o açoitamento em si não foi suficiente para provocar a morte. E um fator importante tinha de ser levado em conta: a vontade de morrer de Kitosch. Sobre essa questão, o primeiro médico afirmou que podia falar com autoridade, pois já vivera vinte e cinco anos no país e sabia como pensavam os nativos. Muitos médicos poderiam confirmar que o desejo de morrer, num nativo, poderia de fato ocasionar a morte. No caso em discussão, isto era especialmente evidente, uma vez que o próprio Kitosch deixara claro que queria morrer. E o outro médico o apoiou nesse ponto de vista.
Era bem provável, prosseguiu então o médico, que se Kitosch não tivesse tomado essa atitude, ele não teria morrido. Se, por exemplo, ele tivesse se alimentado, talvez não perdesse o ânimo, pois é sabido que a fome diminui a coragem. E acrescentou que o ferimento do lábio talvez não tivesse sido ocasionado por um chute, mas poderia ser apenas uma mordida do próprio Kitosch, desesperado com tanta dor.
O médico, além disso, acreditava que Kitosch só havia tomado a decisão de morrer após as nove horas, quando aparentemente havia tentado fugir. Tampouco ele morrera antes das nove. Ao ser surpreendido na tentativa de escapar, e ser amarrado de novo, o fato de ser um prisioneiro, segundo o doutor, poderia ter pesado em sua decisão.
Os dois médicos de Nairóbi então apresentaram suas conclusões sobre o caso. A morte de Kitosch, segundo eles, fora causada pelo açoitamento, pela fome e pela vontade de morrer, sendo esta última motivo de especial ênfase. O desejo de morrer poderia, disseram ainda, ter se originado como consequência do açoitamento.
Após o testemunho dos médicos, o caso passou a girar em torno daquilo que foi chamado no tribunal de “a teoria da vontade de morrer”. O médico-cirurgião do distrito, que fora o único a examinar o corpo de Kitosch, rejeitou essa teoria, e deu como exemplo pacientes seus com câncer que, mesmo querendo morrer, não haviam conseguido tal objetivo. Viu-se, porém, que todos eles eram europeus.
No final, o veredito do júri foi “culpado de lesões graves”. O mesmo veredito coube aos nativos implicados, mas levou-se em conta que, como haviam agido por ordem do patrão, um europeu, seria injusto enviá-los para a prisão. O juiz então determinou que fosse aplicada uma sentença de dois anos de reclusão no caso do colono, e de um dia no dos nativos.
Ao lermos os autos do processo, percebemos como é desconcertante e humilhante para os europeus o fato de os nativos poderem, por conta própria, decidir o momento em que querem abandonar a vida. A África é a terra materna dos nativos e, seja o que for que lhes fazemos, quando resolvem partir eles o fazem por sua livre e espontânea vontade, porque não desejam mais ficar. A quem cabe a responsabilidade pelo que se passa numa casa? Ao seu dono, àquele que a herdou.
Por causa do acentuado senso do que é certo e decoroso, a figura de Kitosch, com seu inquebrantável desejo de morrer, embora há tantos anos removida de nossa presença, se destaca com uma beleza toda própria. Nela ganha corpo a fugacidade das coisas selvagens que, na hora da necessidade, sabem que podem buscar refúgio em alguma outra parte. Aqueles que partem por livre e espontânea vontade, esses nunca podemos agarrar.




Karen Blixen (Isak Dinesen), A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

pela janela de um carro em movimento
atiro
um a um
todos os fios de cabelo
de minha cabeça

a viagem é longa

minha noite se divide
em muitas partes
que não posso reunir

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O selo "Sereia Ca(n)tadora" marca a volta da revista Babel com livro do escritor peruano Óscar Limache

"Sereia Ca(n)tadora" é um selo editorial de livros artesanais criado para marcar a volta da publicação da revista de poesia Babel. O primeiro título é um livro-piloto da coleção, que será realizada em associação com o Centro Camará de Pesquisa e Apoio à Infância e Adolescência, envolvendo jovens atendidos pela entidade em São Vicente, São Paulo, Brasil.
(...) o selo "Sereia Ca(n)tadora", no espírito cartonero, se somará à rede de editoras criadas na América Latina, juntando-se às brasileiras "Dulcineia Catadora" e "Katarina Kartonera", ampliando o espaço de intercâmbio entre escritores locais e de outros países, como "Eloísa Cartonera", na Argentina, o "Sarita Cartonera" no Peru, o "Yerba Mala" na Bolívia, "Yiyi Jambo" no Paraguai, Animita no Chile, "La Cartonera" no México, entre outros que já chegam a quase 20.
Esses projetos, muitas vezes associados, abrem a possibilidade de divulgação de escritores por toda a América Latina, trabalhando na contramão do mercado editorial que não tem interesse por poesia ou sequer conexão com a literatura produzida contemporaneamente. Daí o sentido especial do selo "Sereia Ca(n)tadora" publicar como livro-piloto do projeto um livro de Óscar Limache, traduzido pelo jornalista e escritor Alessandro Atanes. A escolha simboliza essas trocas e experiências editoriais que captam a gênese da contemporaneidade, repercutindo um movimento que se expressa na América Latina: nascido da crise através de uma solução que busca a simplicidade baseada em ideais comunitários e cooperativos, além de ecológicos e sociais, os livros são feitos com papelão catado nas ruas ou adquirido de cooperativas de catadores e papel reciclado, com capas pintadas uma a uma artesanalmente. Isso transforma os livros em objetos de arte, na contramão da tendência tecnológica que apregoa o seu desaparecimento para se transformar em algo virtual, encontrando uma relação lúdica com novos e antigos leitores, que faz o sucesso desses selos editoriais.
O selo "Sereia" vai publicar uma coleção de poetas da América hispânica traduzidos e uma coleção de poetas brasileiros ampliando o trabalho da revista que, assim como o selo Sereia, são editados pelo escritor Ademir Demarchi com um coletivo de colaboradores.
O primeiro título da coleção é o livro Voo de identidade, um sobrevoo poético sobre as Linhas de Nasca, série de inscrições de dimensões gigantescas desenhadas no deserto peruano antes da Era Cristã. Com sua poesia, Limache venceu o principal prêmio literário de seu país, o Copé de Oro e, apaixonado por poesia brasileira, traduziu em 2009 Preparativos de viagem, de Mário Quintana.
O livro foi feito com papelão catado nas ruas e teve as capas elaboradas uma a uma por Ademir Demarchi, Alessandro Atanes, Carmem Lúcia Brandalise e Paulo de Toledo; impressão por Alessandro Atanes e Marcelo Ariel e encadernação feita por Ademir Demarchi. O desenvolvimento do selo será feito no ano que vem [2011] pelo coletivo do Centro Camará com jovens atendidos pela instituição.






Títulos publicados até agora:

Voo de identidade (edição bilíngue), de Óscar Limache


HI-KRETOS e outras abstrações, de Paulo de Toledo


A morte de Herberto Hélder e outros poemas, de Marcelo Ariel


Olho por olho, de Regina Alonso


O amor é lindo, de Ademir Demarchi


Mal d'orror, de Paulo Franchetti


Oco do mundo, de Marco Aurélio Cremasco


O subidor de montanhas, de Mauro Faccioni


Dedo-de-moça, de Carlos Vogt


Este lado para cima, de Leila Guenther

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um cachorro

Temos um cachorro.
É um cachorro
Pequeno.
Minha mulher me diz que há nele alguma coisa de lobo.
É provável que fale de si.
Os olhos tristes, o jeito temeroso.
Vistos de longe podiam parecer
Cautela, contenção para o momento certo.
Penso, porém,
Que é antes a doçura dos que
Se exercitam implacavelmente
Contra si. Os que
Trazem a natureza amordaçada.
Assim também o nosso cão.
Sua expressão infantil,
Sua contínua busca
De recompensa e aprovação.
É certo que seu andar oscilante,
Pisando a rua quente como, nos filmes,
A neve fofa, evoca outras cenas
Que não verá jamais.
Que ficam além
Do espaço estreito
Em que, tenso, trota,
Olhando para os lados.
E também é certo que recebe
O que lhe falta, desistindo
Do que poderia fazer dele
Um lobo, um herdeiro, filhote que seja,
Da selva.
Muitos de nós também
Assim nos temos visto.
E iludido
Com sonhos de vingança.
Minha sede de vida,
A força que pulsa e chama
Em cada dia.
Entretanto,
Sobre uma planície noturna,
Quantos de nós suportaríamos
O medo, a solidão, a incerteza,
A ausência de retorno?
A noite prossegue.
A manhã caminha.
O meio-dia esplende,
Sufoca.
E a marcha logo se renova.
Olhamo-nos os três a qualquer hora.
Os que poderiam saber, não sabem.
O que não pode, suspira,
Enquanto se estende,
Preguiçoso,
Ao sol da manhã fria,
Ou se abriga, encolhido,
Quando a noite cai.




(Paulo Franchetti)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ilha das Flores

De Jorge Furtado

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O jogo favorito

Breavman conhece uma garota chamada Shell cujas orelhas foram furadas de tal forma que ela poderia usar longos brincos de filigranas. Os furos infeccionaram e agora ela tem uma minúscula cicatriz em cada lóbulo. Ele as entreviu por trás dos cabelos.
Uma bala rompeu a carne do braço de seu pai enquanto ele se erguia de uma trincheira. Um homem com trombose coronária se conforta em carregar uma ferida tomada em combate.
Na têmpora direita, Breavman possui uma cicatriz que Krantz causou com uma pá. Problemas por causa de um boneco de neve. Krantz queria usar limalha no lugar dos olhos. Breavman era e ainda é contra o uso de materiais estranhos à decoração de bonecos de neve. Nada de cachecóis de lã, chapéus, exibições. Seguindo a mesma tendência, não aprova encaixar cenouras na boca das abóboras esculpidas nem prender orelhas de pepino.
Sua mãe examina o corpo inteiro como uma cicatriz desenvolvida sobre alguma perfeição inicial que ela procurava em espelhos e janelas e calotas de pneu.
As crianças exibem cicatrizes como medalhas. Os amantes as usam como segredos a serem revelados. Uma cicatriz é aquilo que acontece quando o mundo se faz carne.
É fácil exibir uma ferida, as orgulhosas feridas do combate. Difícil é mostrar uma espinha.



(Leonard Cohen, The Favourite Game. Trad. Leila Guenther)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Timbuktu



Escorre o sal pela ampulheta.
O cão e eu contemplamos
a paisagem
para onde iremos um dia.
Um dia sairemos desta casa
eu e o cão, que,
à minha maneira,
ficou doente.
Terrível dom o do contágio.
Recolhi-me com ele no fim do mundo
depois de ter espalhado o escuro.
Eu e o cão
que só emerge de debaixo do cobertor
quando atraído pelo espanto.
Eu e ele atravessaremos o deserto
rumo à fonte de fogo
onde outrora
do sal, do barro e do pó
se ergueu um mundo.
Para lá iremos os dois
quando a peste acabar.






(Leila Guenther)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Toda a vida se desfazendo


Toda a vida se desfazendo
Na ponta do lápis.
Este momento, aqueles
Que vieram antes, e os outros
Que ainda não nasceram.
O grafite deixa sua marca irregular.
A mão se fecha. Como água,
As palavras escorrem entre os dedos.
Apenas o lápis, em pé,
Levemente inclinado para trás,
Traça o seu caminho certo,
Acompanhando a pauta.
Falam de amor estes rabiscos,
Da ausência, de morte antecipada.
Marcam o tempo, sem alarde.
Areia branca, água clara,
Uma concha que reflete a luz do sol:
Aquilo que já houve, ressuscita,
Aquilo que não foi, respira.
Por momentos.
É verde este lápis,
Que vai perdendo o fio.
Paro um minuto, devolvo a forma
À ponta que registra.
Quando volto, alguma coisa
Desapareceu.
As letras se sucedem, mortas,
O que havia, passou,
O que não tinha chegado, desfiou-se
Na hesitação.
Com esforço, ergo de novo a casa,
Algum pedaço de vida, entalado na lembrança,
O que nunca pôde ser, o desejo inconfessado.
O lápis engasga, raspa dolorido a pele
Do papel.
Reparo que o traço está grosso,
A mão pesa, a consciência se arrasta.
Em breve, outro intervalo virá,
A face lembrada passará a indistinta,
A angústia, imóvel,
Emitirá seu brilho baço.
Como no começo, neste e no outro.
Como antes do começo, quando a vida
Estava do lado de fora e aguardava,
E o coração unido deveria
Passar em breve a dois,
Sem redenção.
Pulsam outra vez estas palavras,
Enquanto o grafite se esfarela.
Ouço que me chamam.
A sala está cheia de quadros.
Espelhos devolvem o gesto da recolha.
A voz insiste: a casa se abre
Em múltiplos apelos.
Tento escrever agora
Apenas para ouvir.
Para que continuem a falar.
Por isso se apagam, começam
Lentamente a se desfazer.
Em breve vou depor o lápis.
O sol mergulhará no rio gelado.
Está no fim este momento.
Ao largo, fundem-se as imagens.
Desamparada, adormece
A voz que as habitava.
Ouço apenas, devolvido,
O raspar intermitente,
O rumor da escrita.
Levanto o rosto,
Olho as marcas no papel.
Amanhã separarei o que restar
De testemunho, de sombra morta
Do que veio outra vez
E outra vez
Se foi.



(Paulo Franchetti, inédito)