Você dá voltas antes de chegar ao apartamento. É uma forma de ganhar tempo para pensar se afinal você a leva ou não. Antes de chegar, poderia dizer a ela que não está se sentido bem, poderia pedir desculpas e imediatamente resolver o mal-entendido. Ela conhece bem aquela parte da cidade, deve ter percebido que você está vacilante, que está, como um taxista desonesto, dando voltas para aumentar o número do taxímetro. Você faz perguntas a ela, perguntas automáticas, meio decoradas, que faria nessa mesmíssima ordem a qualquer uma que levasse de um bar até sua casa, no outro lado da cidade, nessas circunstâncias. Ela responde, mas não demonstra que sabe. Que conhece esse seu jogo tantas vezes experimentado em suas longas noites sem sono. Então finalmente se você decide. Sobem pela garagem. No elevador social, deparam-se com a imagem de um improvável casal refletida no espelho. Entram em casa. Ela fala que seu apartamento é bonito e pergunta o que vão beber, enquanto você primeiro desfila quatro estreitas carreiras de pó branco sobre a mesa de tampo de vidro que ambos aspiram para dentro do nariz com a ajuda de uma nota de dólar. Por que uma nota de dólar?, ela quer saber. Acha curioso aquilo que você considera somente patético. Porque sempre fiz assim, você lhe diz, lembrando-se daquele tio sem rumo, hoje morto, que o apresentou a várias coisas e à sua primeira nota de dólar. A consciência do absurdo é mais forte agora em que ela penetrou seu universo, em que ela pode ver onde você dorme, onde você fecha os olhos para ninguém, pretensamente a salvo, embora ela não se importe nem um pouco com isso. A intimidade dos outros é para ela algo tão óbvio que ela sequer percebe que você está à mercê, exposto e meio incomodado. De novo você quer ganhar tempo, organizar o pensamento, enquanto cogita se fará ou não fará, quando ela vê o computador e pede para “mexer” na internet, talvez com mais interesse e sinceridade do que mexeria em qualquer parte de seu corpo solitário, você pensa. Você diz que sim, desde que possa depois, por sua vez, mostrar a ela algumas músicas que costuma ouvir, todas, embora muito diferentes entre si, partidárias de um estilo geral que um amigo definira como bárbaro, de barbárie: corais da Melanésia, velhinhas de Okinawa, mestres marroquinos, misteriosas vozes da Bulgária e outras bizarrices das margens do mundo. Ela aceita. Enquanto ela navega, você a examina de perfil, sentindo um certo orgulho, ou superioridade, de ter lhe podido proporcionar algum tipo de excitação, qualquer que fosse. Depois, como parte do prometido, ela presta atenção em suas músicas não-civilizadas, dando risada e dizendo que aquilo é tudo menos música. Ela quer saber o que o atrai naquilo, naquela confusão de ruídos, naquela ausência de melodia que só poderia ser a trilha sonora de um ritual de canibalismo. Você dá de ombros, mas sabe, consigo, que o que o atrai naquela música é a mesma coisa que a atrai para a rede e é a mesma coisa que o atrai para ela. O sentimento do longínquo, de uma distância só transponível por uma breve esperança. Daí você abre uma garrafa de vinho e lhe faz a pergunta definitiva (também sempre ensaiada no mais íntimo a todas que vislumbrou seja na tela grande do cinema, seja nas páginas da literatura), mas já sem o romantismo de outrora, quando você era jovem e ingênuo: por que é que você virou puta? Porque não sabia fazer mais nada direito além disso, ela diz. É uma boa resposta, você acha. Despida tanto de sentimentalismo quanto de razão. É uma resposta pragmática, tão pragmática que chega a ser poética. E ela, por sua vez, pergunta o que você vai querer, afinal. Você, tendo pensado esse tempo todo em que ela se distraía no computador, diz “nada” (embora vá pagá-la), enquanto se sente cair naquele papel ridículo de caras que contratam putas apenas porque precisam “de um pouco de companhia”.
(Leila Guenther)




