Estou na primeira edição impressa da revista Gueto, com o poema "Corpo fechado".
terça-feira, 29 de outubro de 2019
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
O zen nosso de cada dia
HAPPENS TO THE HEART
I was always working steady But I never called it art I got my shit together Meeting Christ and reading Marx It failed my little fire But it’s bright the dying spark Go tell the young messiah What happens to the heart There’s a mist of summer kisses Where I tried to double-park The rivalry was vicious The women were in charge It was nothing, it was business But it left an ugly mark I’ve come here to revisit What happens to the heart I was selling holy trinkets I was dressing kind of sharp Had a pussy in the kitchen And a panther in the yard In the prison of the gifted I was friendly with the guards So I never had to witness What happens to the heart I should have seen it coming After all I knew the chart Just to look at her was trouble It was trouble from the start Sure we played a stunning couple But I never liked the part It ain't pretty, it ain't subtle What happens to the heart Now the angel’s got a fiddle The devil’s got a harp Every soul is like a minnow Every mind is like a shark I’ve broken every window But the house, the house is dark I care but very little What happens to the heart Then I studied with this beggar He was filthy, he was scarred By the claws of many women He had failed to disregard No fable here no lesson No singing meadowlark Just a filthy beggar guessing What happens to the heart I was always working steady But I never called it art It was just some old convention Like the horse before the cart I had no trouble betting On the flood, against the ark You see, I knew about the ending What happens to the heart I was handy with a rifle My father’s .303 I fought for something final Not the right to disagree
(Leonard Cohen)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Um trecho de William Carlos Williams
Meu coração desperta
pensando em trazer notícias
de algo
que diz respeito a você
e diz respeito a muitos homens. Considere
aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
poemas desprezados.
Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
embora os homens morram miseravelmente todos os dias
por falta
do que se encontra lá.
aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
poemas desprezados.
Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
embora os homens morram miseravelmente todos os dias
por falta
do que se encontra lá.
(tradução minha)
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Adão e Eva no Japão
Algumas palavras sobre O segredo das águas (Futatsume no mado, literalmente “A segunda janela”), de Naomi Kawase, que acaba de lançar Vision
Na ilha japonesa de Amami*, onde prevalecem as tradições xintoístas, de significativa relação com as forças da natureza, vivem Kyoko e Kaito, dois jovens adolescentes prestes a entrar na vida adulta.
Como no mito bíblico, é a garota, Kyoko, que incita o rapaz ao conhecimento, à descoberta do amor, ainda que o primeiro sinal da “queda do paraíso” seja percebido pelo rapaz: a visão, na praia, do cadáver de um homem tatuado. O que o transtorna e o inquieta – a vida e a morte – é mais bem aceito pela menina, que sabe serem essas forças impossíveis de controlar. Ela mesma, filha do que consideram uma espécie de deidade, tem de aprender a lidar com a iminente morte da mãe (porque no xinto, tudo tem seu tempo sobre a terra e nem os deuses duram para sempre).
O mar é como um dos protagonistas da trama: é o nascimento, a morte, o desejo, a aversão. Não à toa, Kaito tem medo dele, porque ele é algo vivo que pode levá-lo ao ponto mais desconhecido de si mesmo. E isso é relembrado no mais belo diálogo do filme, em que Kyoko, contestando a repulsa do rapaz às águas, lhe diz algo como: “Mas eu também sou uma coisa viva”.
* o nome parece remeter a uma deusa xintoísta
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Um Oriente ao oriente do Oriente
The goal
I can't leave my house
Or answer the phone
I'm going down again
But I'm
not alone
Settling at last
Accounts of the soul
This for the
trash
That paid in full
As for the fall, it
Began long ago
Can't
stop the rain
Can't stop the snow
I sit in my chair
I look at the
street
The neighbor returns
My smile of defeat
I move with the
leaves
I shine with the chrome
I'm almost alive
I'm almost at
home
No one to follow
And nothing to teach
Except that the
goal
Falls short of the reach
(Leonard Cohen, póstumo)
domingo, 4 de agosto de 2019
Contra o adeus
Em memória de Omar Olivera, Omarcha
Ontem chovia, fui ao parque; não sei
quanto tempo perambulei entre trilhas e moitas, observando como emergia do
cimento o vapor do verão. É espantoso como em plena tempestade há raios de sol
que chegam a iluminar as folhas mais escondidas, a terra úmida, as pegadas das
pessoas que, com pressa, procuram abrigo em suas casas. Talvez não tenha sido
mais do que uma hora, porém entre tanta sombra alucinada é possível que tenha
transcorrido um século. Inconsciente, ou talvez audaciosa demais, fui me sentar
debaixo de um pinheiro. Tinha certeza de que nenhum raio ousaria me matar no
mesmo dia em que outro temporal havia levado você.
Hoje não tenho cabeça para procurar seu
fantasma na chuva, nessa camuflagem das almas que desejam permanecer e desobedecem
às parcas na forma de garoa, orvalho ou torrente. Apesar de sua ausência,
continuo engasgada pela vida. Tomo meu pulso e sinto como os jatos de sangue palpitam
pelas minhas veias; nada os detém, nada me detém.
Os filmes têm nos acostumado a finais
concretos, a histórias que têm um sentido, a ocasiões precisas. Quando deixamos
de ser crianças e nosso país afundou na violência, você sabia ao certo dos
perigos que corria, espreitavam-no diversos grupos. Carros-bomba, tiros na
nuca, prisões e desaparecimentos haviam levado alguns amigos e muitos
conhecidos. Você até me comentou sobre a possibilidade de carregar sempre um
comprimido de cianureto que pudesse apagar sua vida antes de ser submetido ao
horror de uma tortura. Havia uma paixão impetuosa pela vida e ao mesmo tempo
sangue-frio diante da morte. Nunca usava guarda-chuva, ficava ensopado, dizia
que as tempestades o faziam se sentir integrado ao universo, o suor misturado
com a bruma, a sua saliva com o vento. E você ria de si mesmo porque também
carregava aspirinas para combater a gripe antes que ela o atacasse. E acendia
um cigarro, e tragava com gosto, e continuava falando, em alguns momentos
divagava e voltava a aspirar cada resto de fumaça como se fosse o último,
depois baforava para longe, com força, como se mandasse um beijo (à nicotina, à
gripe afugentada, à chuva?), e continuava a conversa. E acendia outro cigarro,
e mais um. Quantas coisas você me contou, quantas ficaram encravadas em seu
cérebro, quantos momentos intensos viveu só. Onde ficam essas palavras, esses
instantes íntimos?
No vidro da janela da cozinha ficou
gravada a marca de sua mão. No meio de uma cantoria, esquecemos a panela em que
preparávamos um chá e o vapor invadiu tudo. Você se aproximou da janela para
verificar se as linhas da palma de sua mão podiam ser lidas nessa mistura de
água consternada, escuridão lá fora, luz elétrica dentro. Apenas sua mão ficou
plasmada. Se a experiência tivesse dado certo, teria sido possível decifrar que
depois de um ano você estaria morto? Acabo de perceber que faz muito tempo que
não limpo as janelas. Cada vez que esqueço a chaleira no fogo e o vapor invade
a cozinha, tantas ocasiões em que poderia haver ocorrido um incêndio!, a marca
da sua mão emerge. Hoje gostaria de tocá-la, trazer você de volta. Mas tenho
medo: temo que não aconteça, que minhas invocações não sejam válidas; temo
igualmente deformar qualquer ínfimo rastro material que você deixou em minha
casa.
Para quem escrevo? Se você não
acreditava em qualquer além, como posso sentir sua presença em cada palavra que
imprimo? A nostalgia é tão grande. Ou é tão lenta a morte e você nunca termina
de ir embora. Ou é que sua morte levou uma parte de mim e é ela que me
transmite seu reflexo, ela que me sussurra “estamos vivos”. Acaricio as teclas
e parece que toco as pontas de seus dedos. A nostalgia é infinita.
Para esta tristeza abundam melodias
amargas. No meu aparelho de som tocam as músicas que dançávamos quando éramos
adolescentes. São alegres, são tão presentes que meus pés balançam e começo a
cantar. O ritmo da vida se impõe. Seu coração foi livre, firme na sua postura
de que para amar não é necessário renunciar a nada. Talvez por isso hoje não
reprimo a dança.
Neste verão louco em que a chuva
prevalece sobre o sol e as flores não caem murchas nem os lagos secam, formigas
proliferam no depósito, um sem-fim de pássaros cantando pelas manhãs, rostos
velhos e novos, ricos e pobres, brilhantes, andando pelas ruas quando sol se
apodera do dia. Parece absurdo que em um tempo desses, carregado de tanta vida,
você tenha ido embora impregnando tudo de morte. Se você tivesse acreditado em
uma vida além desta, talvez ficaria mais fácil imaginar que somos de novo
crianças e brincamos de esconde-esconde em uma floresta, que você sabe se
camuflar bem; mas sempre consigo encontrá-lo, ouvir de novo sua gargalhada,
tocar sua mão de carne e osso, cantar rancheras e blues, caminhar
com nossos amigos debaixo do sol, tomar juntos litros de café enquanto chove,
consertando o mundo com simples palavras, olhar-nos nos olhos para nos
perguntar, para nos responder e para continuar perguntando.
Nunca, porém, nos perguntamos ou
respondemos sobre onde nos encontrarmos no fim do caminho. Hoje tento
encontrá-lo nas minhas próprias palavras, entender sua partida com minhas
próprias ideias, lembrar de você com meus próprios símbolos. E assim o encontro
em todo lugar e em todo lugar sinto sua falta.
No rádio escuto uma melodia, é uma
sonata chilena transformada em canto. Parece dedicada aos seres amados que hoje
são apenas pó: “Procuremos as velhas cinzas do coração queimado, mesmo que
caiam um a um nossos versos, até que a flor desabitada ressuscite”. Consegue
ouvi-la? Conseguirá ouvi-la quando seu próprio corpo tiver virado pó?
Conseguirá pronunciá-la através do tempo, através dos devaneios? Estou tão viva
que só me resta esperar pela tempestade, ou pela noite, para ver sua mão
desenhada entre suas luzes e sombras. Os ponteiros do relógio me lembram que
tenho de sair. Com um impulso que ultrapassa a lógica das minhas pernas vou me levantar
para ir a um concerto. Não vou ficar para continuar escrevendo; nem vou parar
para continuar investigando a natureza da ausência.
Anoitece, os pássaros estão cantando
como se fosse amanhecer. Estamos vivos.
Karina
Pacheco Medrano é escritora, editora e antropóloga peruana. Escreveu Las
orillas del aire, Lluvia, No olvides nuestros nombres, La
voluntad del molle, El bosque de tu nombre, Cabeza y orquídeas, entre outros. O presente conto,
traduzido por Marcelo Donoso e por mim, integra o livro Alma alga (Peru,
Borrador Editores, 2010). Como antropóloga, dedica-se a temas como
desigualdade, racismo e discriminação.
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segunda-feira, 27 de maio de 2019
O corpo como universo
Ontem fomos assistir a Cão sem plumas, espetáculo de Deborah Colker inspirado em João
Cabral de Melo Neto. Passaram muitas coisas desconectadas por minha cabeça, numa espécie de fluxo aleatório, enquanto me entregava à hipnose do movimento: minhas aulas de um yoga intenso e transformador e de uma dança na qual a "sororidade" e o "jogo de cintura" são
tão importantes, as palavras de um texto clássico do tantrismo ("Na verdade, cada corpo é
um universo completo") e de Dôgen, monge introdutor do zen-budismo no Japão, via meu professor de mindfulness, Marcelo Demarzo ("O universo inteiro é o corpo real do ser humano"), meu contato com a sinuosidade do boxe tailandês, a quase palpável energia vital "chi" que perpassa tudo, a alegria de respirar, a meditação que a cada dia me põe mais presente no presente, mas sobretudo a consciência de que o corpo é um instrumento de
expressão poderosíssimo e, portanto, extremamente subversivo. Deve ser por isso
que ele assusta e amedronta tanto. Durante muito tempo
dividi mente e corpo como se fossem entidades distintas, sem entender que são
uma coisa só: a mente é parte do corpo. Isso só mudou por meio de práticas contemplativas que, a despeito do
conteúdo mental, são bastante físicas.
Hoje posso dizer: habito um corpo, logo existo.
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quinta-feira, 16 de maio de 2019
Vozes de Marielle na Alemanha
Hoje, 16 de maio de 2019, às 20h (horário da
Alemanha), acontece na VHS, em Stuttgart, uma leitura dos poemas do livro de
que participo, lançado pela Quintal Edições, em
parceria com o coletivo Mulherio da Letras: Um
girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco.
Antes da leitura, uma das editoras,
Ludmila Fonseca, falará sobre a vida e a morte de Marielle e o processo de
publicação do livro.
A apresentação do livro será em alemão e
a leitura dos poemas, em português.
VHS Stuttgart: Rotebühlplatz 28 70173
quinta-feira, 9 de maio de 2019
A sunflower in her hair: poems and testimonies for Marielle Franco
A antologia para Marielle Franco, de que participo com imenso orgulho, é tema de um evento que ocorrerá este mês no Reino Unido. Mônica Benício, viúva de Marielle, e o deputado Marcelo Freixo estarão presentes. Mais informações aqui.
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terça-feira, 23 de abril de 2019
Pelas veredas de Kenichi Kaneko
A exposição Veredas, do artista plástico, ator e escritor Kenichi Kaneko, reúne 59 anos de criação. Fica até 30 de maio, no Centro Cultural Correios de São Paulo (Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú). A entrada é gratuita, de segunda a sexta, das 10h às 17h. No dia 25 de abril, a partir das 14h, haverá um sarau em sua homenagem, organizado pelo escritor Carlos Bueno, em que participam:
quarta-feira, 20 de março de 2019
Uma certa planície
É provável que
eu nunca mais vá ler com o mesmo afinco, na mesma quantidade, que lia quando
tinha nove, dez anos. Essa época de descoberta da leitura, do assombro da
palavra escrita, nunca mais vai voltar. Refleti sobre isso num conto-crônica,
“O outro mundo de Clarissa”, uma referência ao romance de Érico Veríssimo que
de forma meio atrapalhada me fez ter consciência de que um mundo inteiro
poderia ser criado a partir de palavras, apenas. Atrapalhada porque cheguei a
pensar que se tratasse de algo sobrenatural, de uma espécie de clarividência
meio voyeur que adquiríamos ao ler. Clarissa devia existir em algum lugar do
Rio Grande do Sul simplesmente porque eu podia vê-la e à sua vida, naquela
casa, com a clareza e a nitidez de quem tem uma bola de cristal.
Eu me lembro de ter encontrado numa tarde, na estante de meus avós, A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. Até hoje não entendo como foi parar lá, numa casa cujo dono lia (muito) em japonês e cuja dona era praticamente analfabeta (gostaria de encontrar entre os escombros o caderno de receitas de minha avó, que anotava maravilhas numa língua que ela própria criou, com uma espécie de hiper-correção, já que os japoneses não falam o L: ela anotava "tlês xícalas de falinha de tligo", assim mesmo). Num dos intermináveis almoços de domingo, eu li o tal romance de J. Veiga inteiro, o mais rápido que pude, com uma espécie de medo de que ele pudesse desaparecer, não estar mais ali na próxima visita, ou, se eu o pegasse emprestado, de que ele pudesse se autodestruir (é verdade que sou maluca e que foi nessa época que apareceram os primeiros sintomas da depressão). Até hoje não conheço título mais lindo: A hora dos ruminantes. Talvez tenha sido o primeiro passo para perceber o poder do som. Nessa época me dei conta do encantamento que o som das palavras produzia em mim. O fato de haver poemas infantis da Cecília Meireles no livro didático ajudou: eu os lia na classe, em voz alta, a pedido da professora, surpresa com assonâncias e aliterações, mas ainda dividia infantilmente (esse infantilmente pode ser entendido em vários sentidos) som e significado. No entanto, essa divisão ainda estava restrita aos títulos das obras. Essa relação só mudou quando, no livro de interpretação, me deparei com o início de um texto chamado “Mudança” (era o primeiro capítulo de Vidas Secas, vim a saber por minha mãe, e o vi também mencionado em livros como os de Ganymedes José, que li aos montes): “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. O texto que se seguiu mudou minha vida para sempre, mesmo que eu desconhecesse o significado de juazeiro, aió, pederneira, excomungado, viventes (e de tantas outras palavras, mais para a frente, como atenazar, que ninguém além de Graciliano usa), porque foi a partir daí que o som se uniu ao significado, tendo eu que procurar todas as palavras que não conhecia no velho dicionário que havia em casa, cujas folhas iam caindo como se fosse uma árvore.
Segui por vários caminhos, tantas leituras, lendo palavras, sons, imagens discrepantes, olhares, plantas, bichos, mas “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” continua comigo como um mantra, uma oração. Eu queria, por isso, dizer (tentando recuperar minha infância por meio dos versos de Manuel Bandeira, em “Porquinho-da-Índia") que Graciliano Ramos foi meu primeiro namorado (naquela época de menina em que para namorar bastava desejar, mesmo que o objeto do sentimento não soubesse), mas tudo o que me ocorre agora é parafrasear o próprio Graciliano: "Foi esse o primeiro contato que tive com o amor."
Eu me lembro de ter encontrado numa tarde, na estante de meus avós, A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. Até hoje não entendo como foi parar lá, numa casa cujo dono lia (muito) em japonês e cuja dona era praticamente analfabeta (gostaria de encontrar entre os escombros o caderno de receitas de minha avó, que anotava maravilhas numa língua que ela própria criou, com uma espécie de hiper-correção, já que os japoneses não falam o L: ela anotava "tlês xícalas de falinha de tligo", assim mesmo). Num dos intermináveis almoços de domingo, eu li o tal romance de J. Veiga inteiro, o mais rápido que pude, com uma espécie de medo de que ele pudesse desaparecer, não estar mais ali na próxima visita, ou, se eu o pegasse emprestado, de que ele pudesse se autodestruir (é verdade que sou maluca e que foi nessa época que apareceram os primeiros sintomas da depressão). Até hoje não conheço título mais lindo: A hora dos ruminantes. Talvez tenha sido o primeiro passo para perceber o poder do som. Nessa época me dei conta do encantamento que o som das palavras produzia em mim. O fato de haver poemas infantis da Cecília Meireles no livro didático ajudou: eu os lia na classe, em voz alta, a pedido da professora, surpresa com assonâncias e aliterações, mas ainda dividia infantilmente (esse infantilmente pode ser entendido em vários sentidos) som e significado. No entanto, essa divisão ainda estava restrita aos títulos das obras. Essa relação só mudou quando, no livro de interpretação, me deparei com o início de um texto chamado “Mudança” (era o primeiro capítulo de Vidas Secas, vim a saber por minha mãe, e o vi também mencionado em livros como os de Ganymedes José, que li aos montes): “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. O texto que se seguiu mudou minha vida para sempre, mesmo que eu desconhecesse o significado de juazeiro, aió, pederneira, excomungado, viventes (e de tantas outras palavras, mais para a frente, como atenazar, que ninguém além de Graciliano usa), porque foi a partir daí que o som se uniu ao significado, tendo eu que procurar todas as palavras que não conhecia no velho dicionário que havia em casa, cujas folhas iam caindo como se fosse uma árvore.
Segui por vários caminhos, tantas leituras, lendo palavras, sons, imagens discrepantes, olhares, plantas, bichos, mas “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” continua comigo como um mantra, uma oração. Eu queria, por isso, dizer (tentando recuperar minha infância por meio dos versos de Manuel Bandeira, em “Porquinho-da-Índia") que Graciliano Ramos foi meu primeiro namorado (naquela época de menina em que para namorar bastava desejar, mesmo que o objeto do sentimento não soubesse), mas tudo o que me ocorre agora é parafrasear o próprio Graciliano: "Foi esse o primeiro contato que tive com o amor."
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Sobre poesia, ainda
Sobre poesia, ainda é um título deliberadamente amplo, cujas
palavras permanecem pulsando a cada página. A vírgula – e Tarso de Melo, poeta
meticuloso, sabe bem disso – demarca um pequeno intervalo entre o substantivo e
o advérbio, admitindo ao menos duas possibilidades quanto à noção de tempo aqui
presente: se, por um lado, se poderia considerar anacrônica a intenção de ainda se
dizer algo sobre poesia neste momento, por outro, a mesma palavra parece
assinalar a urgência de uma publicação como esta, que ressalta o quanto ainda há
para ser dito (ou repetido em novas formas, novos contextos).
Essa oscilação consciente do título, de certo modo,
atravessou até mesmo o processo de produção do livro, entre a enquete
despretensiosa e o mapeamento do contemporâneo. A princípio, em 2015, Tarso
provocou alguns de seus pares com cinco perguntas enviadas por e-mail,
divulgando as respostas recebidas no blog Contra tanto silêncio. O murmúrio dessas primeiras vozes foi ganhando
eco e, desde então, Tarso decidiu organizá-las neste volume, incluindo agora
outras vinte e duas para compor uma pequena amostra do que pensam aquelas e
aqueles que escrevem poesia hoje no Brasil.
Como destacam Diana Junkes e Fabio Weintraub no
posfácio, ainda que haja evidentes confluências em alguns momentos, o leitor
poderá notar também pontos de divergência nesse mosaico. Isso se dá não apenas
pela variedade de formações desses poetas, mas pela própria dificuldade de
definição do que é a poesia – signo que, afinal, nos reúne – e de como
ela se manifesta. Dando a palavra a essas diferentes vozes, desarmadas de seus
objetos criativos (os poemas), Tarso de Melo propõe um gesto democrático, o que
inclui também a discordância como elemento constitutivo de um ambiente
verdadeiramente plural.
Entre o anacronismo (o excedente do que não se
realizou) e a urgência (o impulso do que quer se realizar), esses poetas
reunidos em Sobre poesia, ainda elaboram muitas outras respostas possíveis às
indagações do presente, sintetizadas nas perguntas de Tarso. Mas, no fundo,
diante de tanto horror, a própria reunião dessas vozes (des)encontradas é um
sinal positivo que parece dizer: somos diversos e ainda estamos vivos.
(Renan Nuernberger, em Sobre poesia, ainda: cinco perguntas, cinquenta poetas. org. Tarso de Melo. Lumme Editor, 2018)
Participam:
Adelaide Ivánova, Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Rüsche, André Luiz Pinto, Andréa Catrópa, Annita Costa Malufe, Antonio Moura, Bruna Beber, Bruna Mitrano, Carla Diacov, Carlos Augusto Lima, Carlos Ávila, Carlos Felipe Moisés, Casé Lontra Marques, Dalila Teles Veras, Danielle Magalhães, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Edimilson De Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fernando Fiorese, Guilherme Gontijo Flores, Heitor Ferraz Mello, Helio Neri, Júlia De Carvalho Hansen, Júlia Studart, Leila Guenther, Leonardo Gandolfi, Lilian Aquino, Lubi Prates, Lucas Bronzatto, Manoel Ricardo de Lima, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Pádua Fernandes, Paulo Ferraz, Prisca Agustoni, Reynaldo Damazio, Ricardo Aleixo, Ronald Polito, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sergio Cohn, Simone Brantes, Thiago E, Thiago Ponce de Moraes e Yasmin Nigri.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
Quatro horas
O expediente de um emprego meio período
Metade do que se diz necessário dormir
Um dia de vestibular de uma universidade pública
Duas sessões de cinema
Uma viagem de carro de São Paulo ao Rio
Uma viagem de avião do Brasil ao Chile
A duração de uma cirurgia de intestino
O tempo de um espancamento
O tempo que leva para alguém fazer algo a respeito
Metade do que se diz necessário dormir
Um dia de vestibular de uma universidade pública
Duas sessões de cinema
Uma viagem de carro de São Paulo ao Rio
Uma viagem de avião do Brasil ao Chile
A duração de uma cirurgia de intestino
O tempo de um espancamento
O tempo que leva para alguém fazer algo a respeito
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A humanidade (im)possível de Kore-Eda
Um filme em que o que se move
não é a câmera, mas a história por trás dela. Uma mulher, mãe de um menino
pequeno, tentando entender o aparente suicídio de um marido que não deixou
pistas nem motivo. Esse foi meu primeiro contato, há mais de vinte anos, com o
mundo de Hirokazu Kore-Eda, ganhador de Cannes 2018, cujo Assunto de família
ainda não vi. O filme então era Maborosi, a luz da ilusão. Até hoje não sei
qual era a ilusão ali e por que ela era iluminada, mas desde então esse mundo,
tão japonês e ao mesmo tempo tão universal, passou a me interessar.
Em seguida vieram Depois da
vida, em que os mortos, à espera de seu destino numa espécie de limbo com ares
de repartição pública, têm de decidir qual a única e, portanto, mais significativa
memória, que, em forma de gravação, deverão levar para a eternidade. Ninguém
pode saber, baseado num caso real, conta a história do abandono, pela mãe, de
cinco crianças, deixadas sozinhas em casa aos cuidados do mais velho, de doze
anos, e de seu trágico destino. Still walking era sobre uma reunião de família
japonesa com seus ditos e não ditos. Em Pais e filhos, o drama de duas famílias
que têm seus filhos trocados na maternidade. Nenhum filme lembrava o anterior
em nada, nem pela temática, nem pela forma. Pode-se reconhecer um filme de
Takeshi Kitano ou de Ozu pelo enredo, luz ou enquadramento, mas não um filme de
Kore-Eda, em que a marca pessoal está além desses conceitos. Porque Kore-Eda
nunca se parece com Kore-Eda. E os filmes que tornaram para mim mais clara essa
distinção foram dois que vieram na sequência um do outro como contraposição:
Nossa irmã mais nova e Depois da tempestade.
Nossa irmã mais nova é quase uma
história de ninar, um conto de fadas, sobre três irmãs que, vivendo sozinhas
num espaço e num tempo pouco definidos, acolhem sua meia-irmã, depois da morte
do pai, depois das traições desse pai, apesar dos protestos da mãe. É um filme sobre
o profundo significado da fraternidade, que parte da família, passa pela
comunidade, até atingir a nós, espectadores, com uma lição de tamanha ternura que
ficamos desejando morar dentro dele. O Japão ou algum país pode ser assim?
Provavelmente não. Essa compaixão, esse entendimento solidário do outro nos
afeta não apenas pelo estranhamento, por beirar o irreal, mas porque acena para
uma possibilidade de existência mais humana.
Já em Depois da tempestade, a
personagem principal é uma espécie de pícaro que busca a sobrevivência por meio
de pequenos golpes. Um escritor da metrópole que perdeu a inspiração e trabalha
agora como detetive, resolvendo casos sem importância. Gasta seu salário em apostas e vive atrasando a ajuda financeira que deveria dar ao filho,
razão pela qual recebe o desprezo da ex-mulher. Mas, em todo o seu trajeto, o
que busca, lentamente e com atraso, é se tornar melhor. É o ser humano em
processo. Sou eu, somos nós, num caminho em que a viagem é tão importante
quanto à chegada ao destino final. “Ainda não sou o homem que queria ser” é a resposta que dá ao filho sobre o que gostaria de ter feito na vida.
Em O terceiro assassinato, síntese
radical desses dois percursos apontados em Nossa irmã mais nova e Depois da
tempestade, um advogado desconfia da culpa de um assassino confesso. Por que um
criminoso reincidente, em vias de ser condenado à morte, mentiria sobre sua própria inocência? Talvez porque seu
crime aponte para uma outra humanidade, feita de laços que ainda não conseguimos compreender.
Talvez porque Kore-Eda, além de
nunca se parecer com si mesmo, seja sempre mais do que Kore-Eda.
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
Ao irmão que parte
Lavineg, há algo preso na garganta do tempo
Como naquele tempo em que as sombras caminhavam conosco
Lembras? Tuas sandálias puídas de caminhar sobre as
[pedras das escarpas
Eras o mais velho entre nós, o mais experiente em buscar alimento
[nas cercanias da miséria
Brincavas pouco a deixar-nos espalhar os ossos dos bichos
[como alegorias
Cresceste mais duro e mais depressa que nós, Lavineg,
[foste o mais bravo
Não fomos criados para sermos humanos, senão animais astutos
[a sobreviver à agreste herdade de espinhaços nos couros do cangaço
Perdi-me nos dias de retirante a sobejar lonjuras
Foste para mim a rosa dos ventos, a esperada chuva do sertão, a regar
[a força para a luta
Caminhei teus passos fisgados pelo coração seco feito carne de sol
Envelhecemos pois, Lavineg, cada qual ao seu modo,
[tu o tempo da idade, eu o tempo da História preso nos pés
Ensinaram nossos pais que a vida é desaviso, canto de carcará,
[fuga de asa branca no pouso da manhã
Fui mundo afora, Brasil fundura de imensidão, foste todo o universo
[dentro do meu peito
Não pediste permissão para arribar ventania, ganhar paisagem
[de despedida
Lavineg, vá, vá, avisa lá em casa que eu me demoro
[o tempo da precisão
Como naquele tempo em que as sombras caminhavam conosco
Lembras? Tuas sandálias puídas de caminhar sobre as
[pedras das escarpas
Eras o mais velho entre nós, o mais experiente em buscar alimento
[nas cercanias da miséria
Brincavas pouco a deixar-nos espalhar os ossos dos bichos
[como alegorias
Cresceste mais duro e mais depressa que nós, Lavineg,
[foste o mais bravo
Não fomos criados para sermos humanos, senão animais astutos
[a sobreviver à agreste herdade de espinhaços nos couros do cangaço
Perdi-me nos dias de retirante a sobejar lonjuras
Foste para mim a rosa dos ventos, a esperada chuva do sertão, a regar
[a força para a luta
Caminhei teus passos fisgados pelo coração seco feito carne de sol
Envelhecemos pois, Lavineg, cada qual ao seu modo,
[tu o tempo da idade, eu o tempo da História preso nos pés
Ensinaram nossos pais que a vida é desaviso, canto de carcará,
[fuga de asa branca no pouso da manhã
Fui mundo afora, Brasil fundura de imensidão, foste todo o universo
[dentro do meu peito
Não pediste permissão para arribar ventania, ganhar paisagem
[de despedida
Lavineg, vá, vá, avisa lá em casa que eu me demoro
[o tempo da precisão
(Rita Alves, 29/01/2019)
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Longe dos homens, perto de tudo
Quem me conhece sabe que vivo bastante afastada do convívio humano, que
dificilmente vou a eventos para os quais me convidam e, quando o faço, passo
pouco tempo, que não falo em público, que fico confusa no meio de uma multidão,
que sou, enfim, totalmente reclusa. Não que eu não goste de pessoas (algumas
têm e sempre terão lugar cativo aqui dentro), mas é que estar entre elas às vezes
me aflige, às vezes me faz sentir sufocada. Talvez seja apenas medo. No entanto, nunca tive problema com bichos. Com eles parece
haver uma afinidade que me devolve a um estado que deveria, a meu ver, ser
natural da mente e me põe mais à vontade do que com gente. Não tenho dúvidas de
que preferiria encontrar um bando de pitbulls numa rua escura a encontrar um
homem. Ainda que os cães me estraçalhassem, eu não sentiria medo. Poderia
sentir dor, mas não medo. Pois nesta necessidade de paz interior, tenho ficado
com frequência longe da civilização, no meio do mato, que é onde me escondo por
uma questão de sanidade mesmo. Lá os insetos têm força. E a demonstram quando
estou lendo ao sol ou buscando sinal de celular, através de picadas, mordidas,
ferroadas. Mas, curiosamente, não fazem nada quando estou meditando, sentada na
grama, em busca desse estado natural, o que ocorre em geral no fim da tarde, justo quando os insetos estão mais vivos. Quando entro no estado meditativo, naquela
sensação poderosa de que eu e a terra respiramos na mesma frequência, nenhum
inseto me ataca. Ao terminar a prática, constato que não carrego uma picada
sequer, como se tivesse sido esquecida, e que estou incrivelmente viva, assim
dissipada na paisagem.
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budismo,
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Um Oriente ao oriente do Oriente
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
A mulher que falou primeiro
Eu sei que falar do poder das
palavras é um lugar-comum. No entanto, não posso me esquivar de fazê-lo quando
se trata da obra de Adriana Versiani dos Anjos. Talvez até por motivos
pessoais: quando me iniciei na literatura, com pequenos contos, era como ela
que eu queria escrever. Foi sua prosa curta, poética e estranha que ainda não
tinha visto em nenhum outro lugar que me chamou a atenção no projeto mineiro Poesia Orbital. Mais tarde, quando
estive à beira da morte, Adriana, que eu tinha visto pessoalmente apenas uma
vez, dedicou-me um belíssimo poema, “O templo de Leila e a chave que perdi”,
publicado no jornal Dezfaces.
E eu, a despeito de todos os prognósticos médicos, sobrevivi. E foram seus textos
poéticos, como os de A lâmina que matou meu pai, com imagens tão inquietantes, com aquela leveza terrível que os anjos possuem, que me ensinaram a produzir todo um livro quando, posteriormente,
me aventurei pela poesia. Por isso me refiro ao poder que as palavras
têm. De mudar nossa vida, de nos matar, de nos salvar. Inclusive à nossa
revelia. De Adriana, deixo este texto que evoca a mulher primeira, mágica, que,
antes da calada Eva, teve a coragem de dizer: “Meu nome é linguagem”.
(Leila Guenther)
Lilith
I
Hora
do Angelus:
As
amaldiçoadas Evas de Santana do Rio Verde
[batem com o joelho
no chão.
Ainda
uma menina o tempo se abre para mim.
Anoitece
e tento mais uma vez esta história.
Meu
nome é linguagem.
II
Atravessei
a estrada carregando umas coisas.
A
vida não era mais o que houve até então.
A
dez minutos do pasto seco, esta casa é a cidade
[de
matutos e livros empoeirados.
Nesta
tarde, um novilho rumina três vezes
[antes
de morrer.
Sento
à sua sombra.
III
Mais
cedo meu pai deseja a minha morte.
Da
palavra de homem apanho calada até
[os sinos rebentarem.
Sou
linguagem.
IV
Quinze
mulheres me ensinaram a ler o destino
[nos
farelos de pão espalhados pela
[mesa
do café, todas as manhãs.
Todas
as manhãs, as roupas no varal.
As
notícias no velho rádio de válvulas,
[todas
as manhãs.
Com
minha avó aprendi a cantar.
O
resto li nos livros.
V
Imóvel,
amarrada a esta cadeira não tenho força
[para cortar os pulsos.
O
imbecil trancou-se na gaiola.
Mãe,
a Guerra Santa mal começou.
VI
Briga
de socos.
Coração
é músculo.
O
líquido que escorre entre as minhas pernas
[mancha
a história do quintal.
Um
dente cai sobre o chão de terra batida.
Se
fosse sonho seria presságio.
VII
Travesseiro
de macela e uma noite de amor.
Este
homem parece um menino quando dorme.
Passo
o café no coador de pano.
Casa,
seu cheiro é linguagem
VIII
O
tempo se abre para mim e do outro lado da
[mesa
me vejo no meu irmão.
Depois
do mata-burro tem um lago.
Brincamos
de sermos os sanhaços azuis que
[tomam banho lá, eu e meu irmão.
IX
Juro
que eu queria que todas as flores
[procurassem
o sol.
Água
corrente, juro que eu queria.
Juro
que eu queria alimentar a chama.
Minha
sina de mulher, juro que eu queria.
Guardei
todos os escritos no baú que herdei do
[meu
avô, para que meus filhos vejam.
No
dia da minha morte, tudo que eu queria.
X
A
menininha tossiu e me levantei para cobri-la.
Senti
frio.
Fingimos
dormir, enquanto as botas tingem de
[terra
os tacos.
XI
Pálida,
fraca.
O
viço se misturando à lã do cobertor marrom.
Não
abre mais os olhos.
Matar-se
resolveria o problema.
Sua
vingança:
Viver
para sempre deitada no sofá da sala.
(Adriana Versiani dos Anjos)
sábado, 24 de novembro de 2018
Dois poemas para o futuro
CALMA E FUGA
lendo
cruzo a avenida
pensando
no poema
que
fala de uma mulher livre
e
de um homem feito dardo
que
ela atira para longe de si
a
tarde morna já se despede
e
tudo parece tecido
em
fios de ausência e desespero
enquanto
os mortos de hoje
juntam-se
aos corpos de ontem
fingimos
calma, somos fuga
e
ninguém sabe bem em que esquina
a
conversa falhou e deixou
essa
lembrança sem margens
nos
olhos, nos ossos, no vento
um
país
é
descoberto
a
cada manhã
a
cada manhã
um
mesmo país
se
descobre
e
chove forte
sobre
o território
indefeso
todo
dia
um
país é tragado
em
seus lençóis
e
os dias passam
úmidos
e tristes
sob
a terra fértil
à
espera do sol
que
o evapore
e
invente
(Tarso
de Melo, Alguns rastros: uma antologia.
Goiânia, Ed. Martelo, 2018)
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