"𝑀𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑚𝑎̃𝑒 𝑠𝑒𝑚𝑝𝑟𝑒 𝑐𝑜𝑠𝑡𝑢𝑟𝑜𝑢 𝑎 𝑣𝑖𝑑𝑎 𝑐𝑜𝑚 𝑓𝑖𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝑓𝑒𝑟𝑟𝑜.”
— 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐄𝐯𝐚𝐫𝐢𝐬𝐭𝐨
"𝑃𝑜𝑟 𝑖𝑠𝑠𝑜 𝑚𝑒𝑠𝑚𝑜, 𝑡𝑟𝑎𝑧𝑒𝑚𝑜𝑠 𝑐𝑜𝑛𝑜𝑠𝑐𝑜 𝑎 𝑚𝑎𝑟𝑐𝑎 𝑑𝑎 𝑙𝑖𝑏𝑒𝑟𝑡𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑜𝑠 𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑎𝑠. 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑎𝑛𝑡𝑜, 𝑛𝑜𝑠𝑠𝑜 𝑙𝑒𝑚𝑎 𝑑𝑒𝑣𝑒 𝑠𝑒𝑟: 𝑜𝑟𝑔𝑎𝑛𝑖𝑧𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑗𝑎́!”
— 𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳
Há algum tempo, li algo sobre as águias jamais enfrentarem uma serpente no chão: elas a tomam e a levam para o alto. O céu, aqui, não é lugar de fuga. O que ocorre é que, mudado o campo de batalha, mudam também as relações de força.
Essa imagem me remete, inexoravelmente, às espirais da 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐀𝐧𝐚𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐉𝐮𝐧𝐠. A espiral não é uma linha reta em direção a um ponto final, tampouco um círculo condenado a repetir-se. Ela retorna; mas retorna diferente. O que parecia repetição pode ser aprofundamento. O conflito é reencontrado em outra altura.
Essa é uma metáfora que me parece particularmente fecunda para pensar 𝐍𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐒𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫𝐚 𝐀𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐝𝐚 como uma imagem negra que emergiu das águas pelas mãos de homens pobres e que, ao longo dos séculos, foi sendo incorporada à vida de milhões de mulheres brasileiras.
Nas periferias, a política nunca se apresenta com solenidade; acontece na cozinha comunitária, na associação de moradores, na fila do posto de saúde, na escola, na igreja, no cuidado com os filhos, na proteção dos velhos, na organização da comunidade. Acontece sobremaneira quando uma mulher aprende a transformar escassez em rede.
É aí que Nossa Senhora Aparecida pode ser lida como um 𝐚𝐫𝐪𝐮𝐞́𝐭𝐢𝐩𝐨 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐨 — não no sentido de que Jung tenha estabelecido essa correspondência, mas como uma imagem simbólica capaz de revelar uma experiência coletiva.
A mulher negra coroada não aparece como soberana porque tenha conquistado o poder segundo as regras do poder. Ela o exerce de outro modo: sustenta, articula, protege e reúne — conforme dizemos nas 𝐆𝐞𝐫𝐚𝐢𝐬, pelas beiradas.
𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳 nos ensinou a olhar para a experiência das mulheres negras brasileiras a partir da 𝐚𝐦𝐞𝐟𝐫𝐢𝐜𝐚𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, recusando uma história contada exclusivamente pelos centros de poder. 𝐒𝐮𝐞𝐥𝐢 𝐂𝐚𝐫𝐧𝐞𝐢𝐫𝐨 mostrou como raça, gênero e poder se entrelaçam na produção de lugares sociais — e como a mulher negra também produz conhecimento e resistência a partir desses lugares. 𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 devolveu ao quilombo sua dimensão de território político, memória e liberdade. 𝐋𝐮𝐢𝐳𝐚 𝐁𝐚𝐢𝐫𝐫𝐨𝐬, por sua vez, pensou a organização das mulheres negras como força coletiva, e não como mera soma de dores individuais.
É nesse ponto que a velha imagem da serpente deve ser perturbada. Sim. Porque a serpente não precisa ser simplesmente destruída — nesta eleição, ficamos ainda muito distantes de derrotar a serpente do 𝐜𝐨𝐥𝐨𝐧𝐢𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥 e é preciso maturidade para reconhecer que, decerto, jamais o faremos. Inteligência política não é propriamente esmagar o mal sob os nossos pés; é saber, com rigor, em que chão nossos pés pisam.
A política das mulheres das periferias brasileiras sempre consistiu em elevar a questão sem abandonar o chão: transformar uma necessidade privada em reivindicação pública; uma experiência individual em consciência coletiva; uma casa em território; uma rede de cuidado em força política.
Nossa Senhora Aparecida pisa a serpente, mas não esmaga o mundo: calca aquilo que ameaça a vida. Há uma diferença imensa entre os dois movimentos.
A espiral nos ensina que não precisamos permanecer eternamente no mesmo campo minado. Podemos subir um pouco. Não para escapar da terra, mas para enxergá-la de outro lugar. Depois descemos novamente.
"𝐀𝐬𝐬𝐢𝐦 𝐧𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨 𝐜𝐞́𝐮."
Nunca para abandonar o chão, mas para voltar a ele mais fortalecidos, mais organizados, com outra consciência.
O poder que dominará a Câmara e o Senado pelos próximos quatro anos quer submeter. Existe, contudo, outro poder que sabe se relacionar. Aquele mede sua força pelo tamanho do inimigo que consegue destruir.
Este exerce sua potência na qualidade da vida que consegue preservar.
É nesse ponto que a discussão sobre alianças precisa alcançar também aquilo que acontece para além das nossas fronteiras. A própria democracia brasileira entra neste segundo turno sob algumas perguntas que merecem ser investigadas sem alarme e sem ingenuidade: a 𝐏𝐨𝐥𝐢́𝐜𝐢𝐚 𝐅𝐞𝐝𝐞𝐫𝐚𝐥 arquivou a apuração sobre possível interferência e financiamento dos Estados Unidos no processo eleitoral. As perguntas, entretanto, permanecem — e, parece-me, são maiores que a investigação:
"𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐠𝐚𝐧𝐡𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐛𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐞́ 𝐞𝐬𝐭𝐢𝐦𝐮𝐥𝐚𝐝𝐚 𝐚 𝐞𝐧𝐱𝐞𝐫𝐠𝐚𝐫 𝐬𝐮𝐚 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐢𝐧𝐢𝐦𝐢𝐠𝐚?"
"𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐥𝐮𝐜𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐨 𝐝𝐞𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐨 𝐬𝐞 𝐫𝐞𝐝𝐮𝐳 𝐚̀ 𝐢𝐧𝐝𝐢𝐠𝐧𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐚̂𝐧𝐞𝐚, 𝐚̀ 𝐛𝐮𝐟𝐨𝐧𝐚𝐫𝐢𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞, 𝐚𝐨 𝐜𝐚𝐧𝐜𝐞𝐥𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞 𝐚̀ 𝐠𝐮𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐩𝐞𝐫𝐞𝐧𝐞 𝐝𝐞 𝐧𝐚𝐫𝐫𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚𝐬?"
A tão aclamada 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐜𝐢𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐜𝐥𝐚𝐬𝐬𝐞 implica também compreender que a serpente a ser reconhecida não é — não pode ser — o motorista de Uber que se acredita empresário, o crente que a minha pretensa lucidez ateística rejeita, ou mesmo o companheiro de campo ideológico com quem divirjo em questões pontuais. A serpente é a 𝐞𝐧𝐠𝐫𝐞𝐧𝐚𝐠𝐞𝐦 𝐢𝐦𝐩𝐞𝐫𝐢𝐚𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚 que, por tantos caminhos, nos inocula a ilusão de supremacia e nos alimenta o impulso de exterminar aquilo que não se ajusta à nossa própria imagem do mundo. É esse ardil que nos mantém prisioneiros da uniformidade da planície, mesmo quando empunhamos, com a melhor das intenções, a bandeira da diversidade.
É aqui que a sabedoria política das mulheres negras das periferias brasileiras volta a nos ensinar algo precioso: elas sabem que a vida se sustenta pela habilidade de tecer alianças sem exigir que os outros deixem de ser quem são.
Uma mãe de santo pode costurar vidas dilaceradas com o fio oferecido por uma pastora evangélica; uma associação de moradores pode reunir pessoas que não votam do mesmo modo; uma mulher pode defender sua comunidade sem precisar transformar a vizinha em inimiga, porque se compreende, nas periferias, uma coisa que os centros urbanizados tantas vezes desaprendem: ninguém escapa à serpente do 𝐚𝐭𝐨𝐦𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 sozinho.
Beatriz Nascimento percebeu, nos quilombos, a potência do corpo que se faz território no encontro com outros corpos. E há uma profundidade simbólica — que Jung certamente reconheceria — no fato de nossa 𝐌𝐚𝐝𝐨𝐧𝐚 𝐍𝐞𝐠𝐫𝐚 ter surgido das águas do 𝐏𝐚𝐫𝐚𝐢́𝐛𝐚 𝐝𝐨 𝐒𝐮𝐥 desmembrada — primeiro o corpo, depois a cabeça — para tornar-se, no imaginário brasileiro, uma imagem inteira.
Penso que a política que nos falta é justamente essa arte de juntar o que foi separado: diferenças sem apagamento, alianças sem conversão, divergências sem desumanização.
Costurar é uma tecnologia política antiga. É preciso voltar a aprendê-la. Neste primeiro turno, mais de 33 milhões de brasileiras e brasileiros não foram às urnas. O número não autoriza uma explicação única, mas deveria nos fazer escutar o silêncio: há um cansaço que claramente não se resolve aumentando o volume da disputa nas redes sociais. Quando a política passa mais tempo produzindo inimigos do que construindo vínculos, o algoritmo agradece. Perde a democracia.
Uma política que vale a pena entretecer começa quando voltamos a enxergar as pessoas ao nosso entorno como vidas inteiras e não como meros "pobres de direita" — fios dispersos de um tecido esgarçado que precisamos remendar às pressas, quando o desespero nos obriga a virar votos.
A espiral nos convida a mudar de terreno e ampliar a visão.
Nossa Senhora Aparecida não apareceu inteira. Nós também não. O Brasil tampouco.
Há partes nossas ainda submersas.
Há histórias que precisam ser pescadas.
Há cabeças que precisam voltar aos corpos.
Há fios que precisam encontrar outros fios.
E há uma tarefa política imensa diante de nós. Ao abocanhar a vitória que tínhamos como certa no primeiro turno, a extrema-direita deu-nos a oportunidade rara de, sem a ilusão de vitórias definitivas e sem o desespero de derrotas terminais, nos elevarmos muito acima da unidade artificial das bolhas para recompor nossa inteireza. E sem romantização: inteireza não é ausência de conflitos; é a capacidade de nos preservarmos humanos dentro deles.
Que o corpo e a cabeça deste país, enfim, se reconheçam!

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