Minicontos que tematizam literal ou metaforicamente as consequências da isenção dos indecisos (iniciativa de Adriane Garcia e Ádlei Carvalho).
Para nós, descendentes de japoneses, não nos esquecermos de nossa origem.
Nossos antepassados, que vieram ao Brasil substituir a mão de obra escravizada,
eram considerados inferiores aos brancos, dissimulados, pouco confiáveis,
perigosos. Tão perigosos que, durante o Estado Novo, foram levados a campos de
concentração criados só para eles (capítulo pouco mencionado na História da comunidade
nipo-brasileira).
O título deste meu miniconto se refere à forma pela qual os nipodescendentes
ainda dizem "banheiro", como os camponeses pobres do século XIX: o é o
prefixo de respeito e benjo, "latrina", "lugar de excretar".
HONORÁVEL LATRINA (O-BENJO)
Hiroshi
nunca se interessou por política nem por futebol. Acreditava que era japonês e
trabalhador demais para isso. Votava em branco, não gostava de se misturar com
os “gaijin”, que via como pouco confiáveis, e, embora já tivesse nascido no
Brasil, dentro de casa procurava se comunicar só na língua dos pais. Quando os
norte-americanos anexaram o território brasileiro e nele instalaram suas bases,
Hiroshi e sua família foram considerados inimigos do povo e tiveram de deixar o
país, assim como os descendentes de chineses e de coreanos, todos
ameaçadoramente amarelos (isto é, traiçoeiros, dissimulados, desleais).
Precisaram fazer o caminho de volta à terra do sol nascente para trabalhar na
limpeza dos banheiros das fábricas, onde todos riam do japonês macarrônico que
outrora Hiroshi falava com orgulho.
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