terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um poema de presente

O TEMPLO DE LEILA E A CHAVE QUE PERDI


para Leila Guenther



Noite de pouquíssimas estrelas, cavalos trotam ladeira abaixo,
Leila não escreve.
Imagino-a,
seu sopro é forte.

Cabelos negros e os brincos que lhe trouxe no último Natal.
Tenho esperança:
porque ainda não me foi permitido o poema, porque o poema não é para mim[que roço entre as pedras da rua esse graveto retirando gramíneas ou planta [rasteira, que porventura cresça ali, naquele espaço.
Sei Leila que me cobre com seus cabelos negros e de seus brincos que tocam [minha testa.
Ouço o ar que ela respira, como no último Natal.
Cavalos trotam e uma pulsação ladeira acima.
São muitos os telhados.
Imagino-me.

O sol trinca a superfície, mina uma água da parede lateral do abrigo
e as mãos de Leila estão marcadas.
Desenho círculos de giz no cimento do quintal.
Quando nasci deixaram-me na piscina ligada aos azulejos do fundo.
Meus olhos são azuis e não preciso respirar.
A fumaça negra cobre a água.
Leila me afaga com suas marcas.

Feridas nas pontas dos dedos.
Tenho esperança.
Uma luz queimou meus olhos que desaprenderam a ler.
Meio dia, Leila e o som de seus cabelos espalham poeira de minério.
Bateias esquecidas na margem do rio,
balaios.
Ouço os ferros.
Imagino-me.

(Adriana Versiani dos Anjos, Dezfaces n.3, Belo Horizonte, junho/julho 2011)

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