segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma visão do mundo

(Edward Hopper, Pennsylvania Coal Town)

O céu estava azul. Parecia música. Eu havia acabado de cortar a grama e o cheiro dela impregnava o ar. Isso me faz lembrar das declarações e promessas de amor que conhecemos na juventude. No fim de uma corrida, você se joga na grama ao lado da pista de saibro, quase sem fôlego, e o ardor com que abraça o gramado do colégio é uma promessa que seguirá pelo resto de seus dias. Pensando em coisas pacas, notei que as formigas pretas tinham vencido as formigas vermelhas e estavam retirando os corpos do campo de batalha. Um sabiá passou voando, perseguido por dois galos. O gato estava espreitando um pardal nos arbustos de groselha. Uma dupla de papa-figos passou se bicando e em seguida, a uns trinta centímetros dos meus pés, me deparei com uma cobra cabeça de cobre descascando o último pedaço da pele escura de inverno. O que senti não foi medo nem pavor; foi o choque da minha falta de preparo diante dessa variedade da morte. De repente surgia esse veneno mortal, tão pertencente à natureza quanto a água límpida correndo no riacho, mas era como se eu não tivesse espaço para ele em minhas considerações. Entrei em casa para buscar a espingarda, mas tive então o azar de topar com o mais velho dos meus dois cães, uma cadela que tem medo de armas de fogo. Assim que viu a arma, ela começou a latir e a ganir, atormentada sem dó por seus instintos e anseios. Seus latidos atraíram o outro cão, uma caçador nato, que veio saltando da escada pronto para ir buscar uma lebre ou pássaro, e, seguido pelos dois cães, um latindo de alegria e outro de horror, voltei ao jardim bem a tempo de flagrar a víbora sumindo dentro de um muro de pedra.
Depois disso, fui de carro à cidade, comprei um pouco de semente de grama e então fui ao supermercado da rota 27 para buscar os pãezinhos que minha mulher tinha encomendado. Acho que hoje em dia é bom ter uma câmera para gravar um supermercado numa tarde de sábado. Nossa linguagem é tradicional, um acúmulo de séculos de diálogo. Tirando o formato dos pães, não havia nada de tradicional à vista no balcão de padaria em que precisei aguardar minha vez. Éramos seis ou sete pessoas retidas por um velhinho com uma lista comprida, um pergaminho de compras. Espiando por cima de seu ombro, consegui ler:

6 ovos
hors-d’oeuvres

Ele notou que eu estava lendo o seu documento e o protegeu contra o peito, à maneira de um jogador de cartas cuidadoso. De repente, a música encanada mudou de uma canção romântica para um cha-cha-cha, e a mulher do meu lado começou a mexer timidamente os ombros e a executar uns passinhos de dança. “Gostaria de dançar, madame?”, perguntei. Ela era bem sem graça, mas quando estendi meus braços, ela se encaixou neles e dançamos por um ou dois minutos. Dava para ver que ela gostava de dançar, mas com uma cara daquelas não devia ter muitas oportunidades. Em seguida ela ficou muito vermelha, saiu dos meus braços e foi até o balcão de vidro, onde se pôs a analisar as bombas de creme. Senti que tínhamos dado um passo na direção correta e, depois de pegar os pãezinhos, dirigindo para casa, eu estava exultante. Um policial me parou na esquina da Alewives Lane para dar passagem a um desfile. A primeira a chegar foi uma jovem de botas e shorts que enfatizavam a formosura de suas coxas. Tinha um nariz enorme, usava um colbaque na cabeça e agitava um bastão de alumínio. Foi seguida por outra garota, de coxas ainda mais formosas e fornidas, que marchava com a pélvis tão projetada para a frente em relação ao resto do corpo que sua espinha fazia uma curva estranha. Usava óculos bifocais e parecia terrivelmente entediada pela projeção da pélvis. Uma banda de garotos, contendo aqui e ali um impostor grisalho, veio na retaguarda tocando “The caissons go rolling along”. Não carregavam faixas, não possuíam nenhum objetivo ou rumo discernível e tudo me parecia terrivelmente cômico. Fui rindo no caminho todo até em casa.
Mas minha mulher estava triste.
“Qual o problema, meu bem?”, perguntei.
“É só essa sensação horrorosa de que sou um personagem de um seriado cômico de televisão”, ela disse. “Afinal, sou atraente, sei me vestir, tenho filhos bonitos e estou de bem com a vida, mas tenho uma sensação horrorosa de que podem me desligar.” Minha mulher vive triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, infeliz porque sua infelicidade não é uma infelicidade esmagadora. Ela sofre porque seu sofrimento não é um sofrimento dilacerante e, quando lhe digo que essa infelicidade trazida pela inadequação da infelicidade pode ser um matiz novo no espectro do sofrimento humano, ela não se sente consolada. Oh, às vezes penso em deixá-la. Seria totalmente concebível construir uma vida sem ela nem as crianças, e eu poderia seguir em frente sem o companheirismo de meus amigos, mas não seria capaz de abandonar meus canteiros e jardins, não poderia me separar das portas de tela da varanda, que tanto consertei e pintei, e não posso me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí ligando a porta lateral da casa às roseiras; e assim, por mais que minhas correntes estejam presas à grama e à tinta da casa, elas me prenderão até que eu morra. Na ocasião, porém, fiquei grato a minha mulher por ter dito o que disse, por haver atestado que as aparências da sua vida tinham o caráter de um sonho. As energias irreprimidas da imaginação haviam criado o supermercado, a víbora e o bilhete dentro da lata de graxa para sapatos. Comparados a isso, meus devaneios tinham a literalidade de um registro contábil de partidas dobradas. Agradava-me pensar que a nossa vida aparente tem o caráter de um sonho e que dentro dos nossos sonhos encontramos as virtudes do conservadorismo. Entrei em casa e encontrei a faxineira fumando um cigarro egípcio roubado e reconstruindo cartas rasgadas que haviam sido jogadas no cesto de lixo.


(John Cheever, 28 contos. Trad. Daniel Galera e Jorio Dauster. São Paulo, Cia das Letras, 2010)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que li de mais bacana em 2010


1. André BERNARD, Madame Bovary, c'est moi! Trad. Fábio Fernandes. José Olympio, 2005.
2. Thomas BERNHARD, O imitador de vozes. Trad. Sérgio Tellaroli. Companhia das Letras, 2009.
3. Roberto BOLAÑO, Estrela distante. Trad. Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras, 2009.
4. Ray BRADBURY, Zen in the art of writing, Bantam Books, 1992.
5. Le CLÉZIO, Diego e Frida. Trad. Vera Lúcia dos Reis. Record, 2010.
6. Jonathan COE, A chuva antes de cair. Trad. Christian Schwartz. Record, 2009.
7. Alexandra Lucas COELHO, Caderno afegão, Tinta-da-China, 2009.
8. John FANTE, O vinho da juventude. Trad. Robeto Muggiati. José Olympio, 2010.
9. Ted HUGHES, Cartas de aniversário. Trad. Manuel Dias. Relógio D’Água, 2000.
10. Hiromi KAWAKAMI, Quinquilharias Nakano. Trad. Jefferson José Teixeira. Estação Liberdade, 2010.
11. William KENNEDY, Ironweed. Trad. Sérgio Flaksman. Cosac Naify, 2010
12. Jack KEROUAC, Os vagabundos iluminados. Trad. Ana Ban. L&PM, 2007.
13. José Tolentino MENDONÇA, A estrada branca, Assírio & Alvim, 2005
14. Chuck PALAHNIUK, Cantiga de ninar. Trad. Paulo Reis. Rocco, 2004.
15. José Miguel SILVA, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio D’Água, 2003.
16. Tzvetan TODOROV, A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. Difel, 2009.
17. Enrique VILA-MATAS, O mal de Montano, Cosac Naify, 2005.
18. Edmund WHITE, O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris. Trad. Reinaldo Moraes. Companhia das Letras, 2001.
19. Edmund WHITE, Rimbaud: a vida dupla de um rebelde. Trad. Marcus Bagno. Companhia das Letras, 2010.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Alices




Li a versão integral de Alice no País das Maravilhas, que conhecia de adaptações infantis, pela primeira vez aos 33 anos, na cama da enfermaria de um hospital, nos dias anteriores à minha alta, quando eu, já recuperados alguns movimentos, conseguia pelo menos virar sozinha as páginas de um livro, depois de passar quase dez dias em coma em uma Unidade de Tratamento Intensivo. Foi um presente, em vários sentidos. Porque afirmam que eu “nasci de novo”, posso dizer que este foi o primeiro livro que li na minha (segunda) vida. E o país das maravilhas, para mim, passou a ser algo muito concreto, mas de difícil definição, pois eu não poderia jamais admitir que, quando as coisas não vão bem, não é para o colo de minha mãe, os braços do amado ou o ombro do amigo que meus pensamentos se dirigem, mas para aquele quarto coletivo de hospital público, sem espelhos, onde recebo, em paz no meio dos mais variados barulhos, os cuidados de rosângelas, marias da graça, sandras e outras funcionárias - enfermeiras e faxineiras de cujo nome já não me lembro.

Leila Guenther. Este lado para cima. Sereia Ca(n)tadora/ Revista Babel, 2011.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Apresentação de O vôo noturno das galinhas no Peru



Gabriel Ruiz Ortega, Leila Guenther, Julia Wong Kcomt e Leonardo Dolores em foto de Salomon Senepo Gonzales

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Notas de rodapé para um texto inexistente

(52)

Julio Ramón Ribeyro – escritor peruano, walseriano em sua discrição, sempre escrevendo como que na ponta dos pés para não tropeçar em seu próprio pudor ou não tropeçar, porque nunca se sabe, em Vargas Llosa – sempre abrigou a suspeita, que se foi tornando convicção, de que há uma série de livros que fazem parte da história do Não, embora não existam. Esses livros fantasmas, textos invisíveis, seriam aqueles que um dia batem a nossa porta e, quando vamos recebê-los, por um motivo frequentemente fútil, esfumam-se; abrimos aporta e não estão mais ali, foram embora. Certamente era um grande livro, o grande livro que estava dentro de nós, aquele que realmente estávamos destinados a escrever, nosso livro, o mesmo que nunca mais vamos poder escrever nem ler. Mas esse livro, que ninguém duvide disso, existe, está como que suspenso na história da arte do Não.
“Lendo Cervantes há pouco”, escreve Ribeyro em La tentación del fracaso, “passou por mim um sopro que, infelizmente, não tive tempo de captar (por quê?, alguém me interrompeu, o telefone tocou, não sei), pois lembro que me senti impulsionado a começar algo... Depois tudo se dissolveu. Todos nós guardamos um livro, talvez um grande livro, mas que no tumulto de nossa vida interior raras vezes emerge, ou o faz tão rapidamente que não temos tempos de arpoá-lo”.

(Enrique Vila-Matas, Bartleby e companhia. Trad. Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. Cosac Naify, 2004)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

I Semana de Letras da Unifesp

Estarei aqui, no dia 27, às 18h.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Otras voces

Saiu aqui uma entrevista que dei ao escritor peruano Juan Valle a propósito da tradução de O vôo noturno das galinhas para o espanhol. O lançamento será no dia 4 de novembro, na II Feria Itinerante del Libro CAELIT UNFV 2010, promovida pela Universidad Nacional Federico Villarreal, Lima, Peru. Armando Alzamora, o tradutor do livro, fez a gentileza de verter as respostas para a língua de Garcilaso.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010


Quando chegar ao topo da montanha, continue escalando.

(Provérbio zen)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Li Po


DIANTE DO VINHO

Amigo, crê-me, não afastes essa taça!
O vento de primavera chega todo sorridente.
Pessegueiros e ameixeiras, tão velhos conhecidos,
Inclinam suas flores e as entreabrem para nós.
Os verdelhões alegres cantam nas árvores verdes;
A lua brilhante observa nossas taças de ouro.
Ontem éramos jovens de pele rosada;
E eis que agora os cabelos brancos nos envelhecem.
A selva invade o palácio do rei de Tchao;
Os cervos atravessam o terraço de Kou-sou.
Nesses velhos palácios de imperadores e príncipes,
Os portões guardam apenas a poeira!
Por que não aceitar essa bebida?
Onde estão agora os homens do passado?


SAUDAÇÃO SOLITÁRIA AO LUAR

Entre as flores um jarro de vinho:
Bebo sozinho, sem amigo algum.
Erguendo minha taça, convido o luar;
Eis minha sombra diante de mim: somos três.
A lua – que pena – não sabe beber;
E a sombra em vão me segue.
Companheiros de um instante, ó lua e sombra!
Nas brincadeiras alegres, festejemos a primavera!
Quando canto, a lua vagueia.
Quando danço, minha sombra, perdida, se deforma.
Já que ficaremos velhos, alegremo-nos juntos;
E, uma vez embriagados, que cada um regresse.
Que dure para sempre nossa ligação sem alma:
Nós nos reencontraremos pela Via-Láctea distante!



(da Anthologie de la poésie chinoise classique. Trad. Leila Guenther)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Antologia canina IV

(Golias, o chihuahua, acaba de fazer cinco anos)


O OLHO QUE VÊ

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições de odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos,
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

(Ezra Pound, trad. Mário Faustino)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A esposa do mercador do rio: uma carta

Quando ainda usava franja no cabelo,
Eu brincava perto do portão principal, colhendo flores,
Você vinha sobre pernas de pau, brincando de cavalo,
Andava ao meu redor, brincando com ameixas azuis.
E assim vivíamos na aldeia de Chokan:
Duas crianças, sem desgosto nem malícia.

Aos quatorze anos o desposei, meu senhor.
Por timidez, nunca ria.
De cabeça baixa, olhava para o muro.
E, mesmo chamada mil vezes, nunca olhava para trás.

Aos quinze parei de resistir,
Desejei que minhas cinzas se misturassem às suas
Para sempre e para todo o sempre.
Para que eu deveria subir até o mirante?

Aos dezesseis você partiu.
Foi para além de Ku-to-yen, pelo rio sinuoso,
E faz cinco meses que está ausente.
Lá no alto os macacos fazem um triste barulho.
Você arrastava os pés quando foi embora.
Perto do portão, agora, o musgo cresce; diversos tipos de musgo,
Enraizados demais para serem arrancados!
As folhas caem cedo neste outono, com o vento.
As borboletas, aos pares, já amarelecem, neste agosto,
Sobre as ervas do jardim do poente;
Elas me ferem. Estou envelhecendo.
Se estiver descendo pelos estreitos do rio Kiang,
Avise-me logo, por favor,
E eu irei, para encontrá-lo,                                                                                                     Até as alturas de Cho-fu-Sa.

(Ezra Pound, trad. Leila Guenther)


domingo, 26 de setembro de 2010

WabiSabi: coreografia + fotografia + poesia



(foto: Juliano Gouveia dos Santos)

Acabou de sair em Cronópios um trabalho que fiz com o fotógrafo Juliano Gouveia dos Santos a propósito do espetáculo WabiSabi, de 2008, da coreógrafa Susana Yamauchi.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Este pão que venho abrir

Este pão que venho abrir foi outrora centeio,
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.

Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.

Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.

(Dylan Thomas, trad. de Fernando Guimarães)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mulher-dervixe


Mira Hunter dançando ao som de Mercan Dede

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Só


Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.


(Edgar Allan Poe, Ficção completa, poesia & ensaios. Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. Rio de Janeiro, Aguilar, 1965)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Morro do Isolamento

O profeta mora em uma gruta do Morro do Isolamento. Os homens bebem cachaça, vinho nacional e cerveja. Compram remédios e querosene. Os homens bebem porque precisam ficar tontos. Todos, às vezes, precisam ficar bêbados, e por isso bebem. Quando as mulheres dos homens ficam desesperadas elas despejam querosene na roupa e se matam com fogo. O profeta sabe de tudo. Ele sabe que muitas famílias usam pratos no almoço e no jantar. Os pratos não são eternos. Cedo ou tarde eles se quebram. Às vezes são partidos quando a mulher está nervosa com o homem. Às vezes a culpa é de uma criança. Às vezes é de uma empregada. De qualquer modo eles se quebram; e às vezes toda a família se quebra em redor dos pratos quebrados. O profeta sabe. Ele passa a mão suja pela barba suja. Sai da gruta. Vai andando devagar. Desce o Morro do Isolamento e passeia pelos quintais miseráveis dos subúrbios de Niterói. Não, o profeta não vai roubar galinhas. Ele recolhe frascos vazios, pratos quebrados, leva para a sua gruta os cacos, as garrafas sujas e vazias. Espalha tudo pelo chão e medita, já possui, entre outras coisas, uma corrente de chuveiro. Achou-a no lixo. O profeta não tem chuveiro, e não pensa nunca em tomar banho. Mas achou aquela corrente e medita. O profeta às vezes sente fome. Possui uma pequena criação: uma cobra pequena e sem veneno, e um tatu enfermo. Os três vivem em boa paz na gruta do Morro do Isolamento, entre cacos de vidro, pratos quebrados, a corrente de chuveiro e meditações.
Às vezes as crianças muito pobres, os homens doentes e as mulheres feias vão ouvir o profeta. Muitos acreditam nele. Muitos não acreditam. Ele acredita. O Morro do Isolamento se povoa de crentes e descrentes. À noite, uns e outros descem o morro. O profeta faz uma festinha para o tatu. O tatu, muito enfermo, suspira tristemente. A cobra, a humilde cobra sem veneno, dá um bocejo e vai dormir. A gruta está escura. A noite lá fora está escura. Apenas existe uma luzinha tremelicando. É no cérebro do profeta. Ele passa a mão pela cara suja, pela barba suja. Na escuridão do Morro do Isolamento o profeta está se rindo devagarinho. Ele sabe de tudo. Lá na cidade, onde há luz elétrica, homens e mulheres, as garrafas se esvaziam e os pratos se quebram. A vida se quebra e se esvazia. E tudo fica sujo como a barba do profeta. Na escura gruta do Morro do Isolamento, o profeta está chorando devagarinho. Se a cobra fosse grande e feroz, e tivesse veneno mortal, ele diria:
- Vai, cobra, e morde e mata os homens ruins, só respeitando as crianças e os pobres.
Se o tatu não fosse doente e fosse enorme e terrível, ele diria:
- Vai, tatu, e cavouca a terra vil, e derruba as casas e só respeita as miúdas e miseráveis.
Mas na gruta escura do Morro do Isolamento a cobrinha sem veneno está dormindo, e o tatu está enfermo. O profeta passa a mão pela barba suja, deita na terra e começa a roncar. O ronco do profeta estremece o Morro do Isolamento, abala Niterói e o mundo.

(Rubem Braga, O conde e o passarinho. Rio de Janeiro, Record, 2002)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Programa Perfil Literário

Dirigido por Oscar D'Ambrosio, o programa Perfil Literário, da Rádio Unesp, para o qual dei uma entrevista em 2009, agora também está sendo disponibilizado pelo Cronópios. Clique aqui para ouvir.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

As melhores editoras do Brasil

(...) A pesquisa promovida pelo Valor não teve a intenção de medir a eficiência empresarial, mas indicar as editoras que mais se destacam culturalmente. A votação se encaminhou naturalmente para a ênfase nas áreas artístico-literária e das ciências humanas e muitos dos votantes mencionaram a capacidade de interferir na vida cultural e de formar leitores como critérios para medir a qualidade de uma editora. Aos 21 especiliastas consultados, foi pedido que fossem escolhidas as três melhores casas editoriais. Ficaram de fora as áreas mais especializadas, como as dos livros técnicos, os de autoajuda e os didáticos e paradidáticos, embora a grande movimentação nesses setores nos últimos anos, em que ocorreram grandes fusões e incorporações, certamente influi no quadro geral. (...)


(Márcio Ferrari, "Letras maiúsculas", Valor Econômico, 23/7/2010)



RANKING DAS MELHORES EDITORAS
As mais votadas pelo júri

1. Companhia das Letras
2. Cosac Naify
3. 34, Martins Fontes, Record
4. UFMG
5. Ateliê, Hedra, Iluminuras, Unicamp
6. Contraponto, Difel, Edusp, Escrituras, Perspectiva, UnB, Vozes, WMF Martins Fontes, Zahar

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para Sylvia Plath




VISITA

Lucas, um amigo, um
daqueles três ou quatro que ficam para sempre
como um eu isolado,
uma pedra no leito do rio
submetida a todas as mudanças, tornou-se teu amigo.
Ouvi falar disso, alarmado. Desperdiçava
a minha juventude lá longe num escritório perto de Slough,
manhã e tarde entre Slough e Holborn,
juntando o ordenado para custear o salto para a liberdade
e o outro lado da terra – uma queda livre
para me desfazer da minha crisálida num torvelinho.
Nos fins-de-semana reingressava
na Alma Mater. A minha namorada
tinha o mesmo professor e uma aula todas as semanas
contigo e a tua rival americana.
Destestava-te. Alimentou com instantâneos
teus e dela não sei que
inflamável celulóide para o meu futuro
silencioso e insaciável, a minha cabra-cega,
luz interior de procura. Depois da meia-noite
fiquei num jardim com o meu amigo,
a atirar com torrões de terra a uma janela escura.

Bêbado, ele tinha certeza que era a tua.
Meio bêbado, eu não sabia que ele se enganava.
Nem sabia que estava a ser avaliado,
para o principal papel masculino do teu drama,
a mimar os primeiros gestos, tão fáceis
como se estivesse de olhos fechados para sentir melhor o meu papel.

Como uma marioneta puxada por fios,
ou as pernas electrocutadas de uma rã morta.
Dancei por entre aqueles movimentos – observado e avaliado
somente pela escuridão cheia de estrelas e uma sombra.
Desconhecido para ti e sem te conhecer.
Desejando encontrar-te, e perdendo-te, e perdendo-te outra vez.
Lançando terra a um vidro que não podia proteger-te
porque tu não estavas lá.

Dez anos depois da tua morte
encontro numa página do teu diário, como nunca antes,
a comoção da tua alegria
quando soubeste disso. Depois a comoção
das tuas orações. E sob essas orações o pânico
de que as orações não produzissem o milagre,
depois, debaixo do pânico, o pesadelo
que veio a rolar para te esmagar:
a tua alternativa – o velho e impensável
desespero e a nova agonia
juntos num mesmo inferno familiar.

De repente leio tudo isto –
as tuas palavras, autênticas como se flutuassem,
da tua garganta e língua para se plasmarem numa página –
No exacto momento em que a tua filha, já há muitos anos,
vagueando até onde eu trabalhava sozinho,
olhou-me fixamente no rosto, confusa, e perguntou de repente:
“Pai, onde está a Mãe?” A terra gelada
do jardim, como eu cravei as minhas mãos nela.
À minha volta o gigantesco relógio de geada
dessa meia-noite. E em algum lugar
dentro dela, sem querer sentir nada,
a pulsação de uma febre. Em algum lugar
dentro da dormente terra
o nosso futuro a tentar acontecer.
Ergo o olhar – como para encontrar a tua voz
com o seu urgente futuro
que rebentou dentro de mim. Depois volto a olhar
o livro com palavras impressas.
Há dez anos que estás morta. Isto é apenas uma história.
A tua história. A minha história.




UM VESTIDO DE MALHA COR-DE-ROSA

No teu vestido de malha cor-de-rosa
e antes que alguma coisa pudesse macular alguma coisa
estavas no altar. Bloomsday.

Chovia – por isso, a única coisa que levava
com menos de três anos de uso
era um chapéu de chuva acabado de comprar.
A minha gravata – solitária, pesada, negro veterano da RAF –
era o símbolo gasto de uma gravata.
O meu casaco de bombazina – três vezes tingido de preto, estafado
mal conseguia aguentar-se.

Eu era um útil genro do pós-guerra!
Não era bem o Príncipe-Rã. Talvez mais o Guardador de Porcos
a roubar desta filha os sonhos de grandeza
num futuro iluminado pelos focos das torres de vigia.

Nenhuma cerimónia podia recrutar-me,
fora deste uniforme. Vestia todo o meu guarda-roupa –
À exceção de uma ou outra peça alternativa, igual às outras.
O meu casamento, tal como a Natureza, queria esconder-se.
Mesmo assim – se nos íamos casar
era melhor que fosse na Abadia de Westminster. Por que não?
O deão explicou-nos a razão. Foi assim que
eu soube que tinha uma igreja de paróquia.
São Jorge dos Limpa-Chaminés.
Tivemos que apertar-nos para caber no casamento.
A tua mãe, corajosa até nesta
Jogada de Negócios Estrangeiros Norte-Americanos,
fez o papel de todas as damas de honor e do resto dos convidados,
representou até – magnanimamente –
a minha família
que não ouviu falar de nada.
Eu só tinha convidado os seus antepassados.
E nem sequer confidenciei que te tinha roubado
a um amigo chegado. Para padrinho – o escudeiro
que pegasse nas alianças por um momento –
solicitamos o sacristão. Cúmulo da afronta:
Ele estava a meter crianças dentro de um autocarro
Para as levar ao Jardim Zoológico – debaixo daquele aguaceiro!
Os animais aprisionados tiveram de ter paciência
enquanto nos casávamos.
Estavas transfigurada.
Tão esbelta e nova e nua,
um agitado ramo úmido de lilases.
Tremendo, soluçando de alegria, eras a profundidade do oceano,
repleta de Deus.
Disseste que viste os céus abrirem-se
Mostrando riquezas, prestes a cair sobre nós.
Levitando ao teu lado, fiquei sujeito
a um tempo verbal estranho: o futuro enfeitiçado.

Na desolada ressonância daquele altar em dia de semana
vejo-te
a lutar para conteres as chamas
no teu vestido de malha cor-de-rosa
e nas pupilas dos teus olhos – grandes jóias cujas faces
eram lacrimosas chamas, na verdade grandes jóias
agitadas num copo de dados erguido para mim.

(Ted Hughes, Cartas de Aniversário. Trad. Manuel Dias. Lisboa, Relógio D’Água, 2000)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sur la "justice"


 
O papel de Paris como geradora tanto de ideias como de maneirismos, vogas e modas também contribui para o seu status de cidade grande. As cidades pequenas não estabelecem padrões internacionais de moral, não como Paris tem feito desde o século XVIII, quando os philosophes redefiniram o contrato social e Voltaire defendeu um criminoso condenado chamado Jean Calas, que ele acreditava ser inocente. Voltaire estava certo e conseguiu limpar o nome de Calas, fazendo valer a Paris a fama mundial de lugar onde a justiça sempre triunfa — ao menos se algum escritor famoso puder ser convencido a abraçar a boa causa. Um século depois o romancista Émile Zola confirmou a regra ao empunhar a pisoteada bandeira de Alfred Dreyfus, um oficial judeu do exército francês condenado por uma corte militar antissemita por vender segredos à Alemanha. Em 1894, Dreyfus foi mandado para a ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Anos mais tarde ele seria solto e, por fim, reabilitado, depois que Zola reabriu o caso na imprensa. (Uma reprodução do seu famoso artigo de primeira página, “J’accuse!”, foi projetado por inteiro na fachada da Assembleia Nacional, na noite de 13 de janeiro de 1998, em comemoração ao centenário do histórico evento.)
Suponho que essas duas histórias podem ser interpretadas mais como testemunho da importância dos escritores na França do que como evidência da justiça francesa. Com certeza o mundo anglófono nunca presenciou nada parecido com o julgamento do escritor Jean Genet, em 1943, pelas repetidas condenações por furto. Genet se deparava com a prisão perpétua como punição por ser um reincidente contumaz, mas Jean Cocteau, que havia descoberto Genet e providenciado a publicação de seu primeiro romance, Nossa Senhora das Flores, apresentou uma declaração que foi lida na corte: “Ele é Rimbaud, não se pode condenar Rimbaud”. Cocteau insinuou que o juiz entraria para a história como um filisteu se tomasse a decisão errada. Nem por um momento Cocteau argumentou que Genet era inocente, mas simplesmente que era um gênio. Seu testemunho livrou Genet, sem qualquer punição.
Esses casos exemplares, e mesmo surpreendentes, deveriam ser ponderados em contraste com a justiça peremptória e muitas vezes arrogante exercida sobre os cidadãos comuns. Na França, não há habeas corpus, e até pouco tempo atrás pessoas perfeitamente inocentes podiam ser mantidas durante meses, anos até, em prisão preventiva se um juiz considerasse que elas sabiam mais do que estavam dizendo. Como escreveu Mavis Gallant sobre o juiz na França: “Ele pode detê-lo até que você mude de ideia. Se, no fim, você for inocente, não há recurso contra a lei. Você não pode nem abrir um processo pleiteando a simbólica quantia de um franco por danos, ainda que a detenção preventiva lhe tenha custado o emprego, o equilíbrio doméstico e a sua reputação”. Nos anos 1960, com a eclosão da Guerra da Argélia, centenas de árabes definharam nas prisões francesas por longos períodos, sem nem sequer ser julgados, muito menos condenados.


(Edmund White, O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris. Trad. Reinaldo Moraes. São Paulo, Companhia das Letras, 2001)