segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Para Gaza

Os nascidos em Gaza

Morri antes de ter vivido
outrora vivia em uma cova
agora me dizem que ela não é grande o bastante
para conter todas as minhas mortes












Pezinhos

Uma mãe olha para outra –
um mar de pequenos corpos
queimados ou degolados
ao seu redor –
E pergunta:
Como velaremos isto?


Nathalie Handal (1969), cuja família é palestina, publicou peças de teatro, poemas e ensaios, como Love and Strange Horses, Poet in Andalucía, Hakawatiyeh, Men in Verse e "Mahmoud Darwish: Palestine's Poet of Exile". A tradução dos poemas é minha


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

27

Coisas passadas que nos causam saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre as páginas de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.


(Sei Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M.H. Cordaro. São Paulo, Editora 34, 2013)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Celso de Alencar

UM CANTO VINDO DE LONGE

Era assim como um canto
que se ouve vindo de longe.
Voz de pássaro que se alimenta
de raízes das árvores encontradas nas montanhas.

Assim era a voz deslumbrante
que encantava os homens.
A única voz inglesa que vivia na cidade,
na nossa rua, a quatro quadras da minha casa.
Pedia a todos que a chamassem de ovelha.
E todos os homens, cheios de incontida alegria
obedeciam como se fossem beber água.

Na hora do gozo exigia que imitassem
um som que se assemelhava a voz de ovelha.
Um desvario. Uma loucura extremada.
Uma loucura mais que loucura
de homens andando de quatro pela varanda
gritando a mais absurda das palavras. Bé.

Foi um matador de ovelhas que a matou.
Matou-a como matava as suas ovelhas.
Deu-lhe um golpe profundo no pescoço
e permaneceu sentado rente à cama,
ouvindo um canto vindo de longe,
até a manhã do outro dia.



ILDA

Se acaso tivesse eu
a violeta chinesa
eu a colocaria nesse
vaso marajoara e diria:
mesmo vivos
não temos liberdade
para viver.

Se acaso tivesse eu
o único boi vermelho
com listras brancas
eu o colocaria entre
essas palhas de feijão
e esses milhos brancos e diria:
ainda que te transformes em sangue
poderei dizer: foste meu filho
e antes que essas balas
e essas explosões
atinjam meu peito
abrirei a única liga
que me prende a ti – a sacola marrom-
e deixarei o sangue escorrer.

Sobre esta montanha que piso
meus pés desconhecem.
E esse vento frio que joga
essas folhas pardas no meu rosto
é o mais forte dos nove invernos.


(Celso de Alencar)





terça-feira, 12 de agosto de 2014

Björk & e.e.cummings


(Björk, "Sun in my mouth")

i will wade out
                        till my thighs are steeped in burning flowers
I will take the sun in my mouth
and leap into the ripe air
                                       Alive
                                                 with closed eyes
to dash against darkness
                                       in the sleeping curves of my body
Shall enter fingers of smooth mastery
with chasteness of sea-girls
                                            Will i complete the mystery
                                            of my flesh
I will rise
               After a thousand years
lipping
flowers
             And set my teeth in the silver of the moon

(e.e.cummings)

The tide will show you the way


(Björk, "Bachelorette". Direção de Michel Gondry)

sábado, 9 de agosto de 2014

Ocupação 101



(Occupation 101, de Abdallah Omeish e Sufyan Omeish) 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dois poemas sobre o (des)amor

estou a seus pés
como as flores mortas do ipê

quero estar a seu lado
como o tronco firme do ipê

quero ser para você
– abrigo para o corpo,
luz para os olhos –
como os ramos
e as flores vivas do ipê






amar uma falésia é coisa incauta
o coração não sabe onde se escora
um grão de areia pode ser a diferença
entre ficar e ruir

amar um beija-flor é coisa breve
amor tão leve que não se sustenta
um brilho verde que arrebata a vida
e passa

amar um pensamento, um címbalo, um riacho
tudo quanto vibra, encanta e logo cessa:
sonho em vigília, falsa lembrança, vaga
promessa


(Cide Piquet, Malditos sapatos: 18 poemas de amor e desamor. Série Sem Chancela, apoio: Editora Hedra, 2013)

domingo, 27 de julho de 2014

Na Espanha

Saiu no El País esta matéria sobre a antologia Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014), na qual represento o Brasil com um conto. 



(El País, 26/07/2014)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Lugar sertão se divulga"

No segundo número da revista Palávoraz, que tem Guimarães Rosa como tema, participo com um poema sobre Diadorim, na página 46.


(Poty)

sábado, 19 de julho de 2014

Carta de Gaza

Caro Mustafá,
Acabo de receber sua carta, na qual me diz ter feito todo o possível para conseguir minha permanência com você em Sacramento. Também recebi notícias do Departamento de Engenharia Civil da Universidade da Califórnia. Tenho de agradecê-lo por tudo que fez, meu amigo. Mas eu o surpreenderei antes com a estranheza quando lhe anunciar estas notícias – e não tenha dúvida sobre isso, não sinto nenhuma hesitação, na verdade estou muito certo de nunca ter visto as coisas tão claramente quanto agora. Não, meu amigo, mudei de ideia. Não o acompanharei “à terra onde há verde, água e rostos amáveis”, como você escreveu. Não, eu ficarei aqui e não sairei mais.
Estou realmente chateado que nossas vidas não continuem a seguir o mesmo curso, Mustafá. Pois quase posso ouvi-lo me lembrar de nossos votos de seguirmos juntos e do jeito com que costumávamos gritar: “Vamos ficar ricos!”. Mas não há nada que eu possa fazer, amigo. Sim, ainda me lembro do dia em que estava no salão do aeroporto do Cairo, apertando sua mão e encarando o furioso motor. Naquele momento, tudo girava no tempo com o motor de barulho ensurdecedor, e você estava à minha frente, seu rosto redondo em silêncio.
Seu rosto não tinha mudado do que costumava ser quando você crescia na região de Shajiya em Gaza, livre daquelas rugas leves. Crescíamos juntos, compreendendo-nos mutuamente, e prometíamos seguir juntos até o fim. Mas...
“Faltam quinze minutos para o avião decolar. Não olhe para o espaço assim. Escute! Você irá para o Kuwait no próximo ano e juntará dinheiro suficiente para se desarraigar de Gaza e se transferir para a Califórnia. Recomeçaremos juntos e devemos continuar...”
Naquele momento estava observando seus lábios se moverem rápido. Essa sempre foi sua maneira de falar, sem pontos ou pausas. Mas de uma maneira vaga eu sentia que você não estava completamente feliz com o voo. Não conseguia encontrar nem três boas razões para ele. Eu também sofria com a situação mas o pensamento mais claro era: por que não abandonamos esta Gaza e fugimos? Por que não fazemos isso? Sua situação tinha começado a melhorar, no entanto. O Ministro da Educação do Kuwait tinha lhe conseguido um contrato de trabalho, embora eu não o tivesse. À beira da miséria em que eu vivia, você me enviava pequenas quantias de dinheiro. Queria que eu as considerasse como empréstimo porque temia que eu ficasse ofendido. Conhecia as circunstâncias da minha família dentro e fora; sabia que meu parco salário nas escolas da UNRWA [United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East - Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo] não era suficiente para manter minha mãe, a viúva de meu irmão e seus quatro filhos.
“Ouça com atenção. Escreva-me todos os dias... todas as horas... todos os minutos! O avião vai partir. Adeus! Ou melhor: até breve!”
Seus lábios frios roçaram minha bochecha, você desviou o rosto de mim na direção do avião e, quando novamente me olhou, pude ver suas lágrimas.
Mais tarde o Ministro da Educação do Kuwait me conseguiu um contrato de trabalho. Não é preciso repetir em detalhes como minha vida continuou lá. Sempre lhe escrevi sobre tudo. Minha vida lá era recoberta por uma cola, por uma vacuidade, como se eu fosse uma ostra pequena perdida numa solidão opressiva, vagarosamente lutando com um futuro tão escuro quanto o começo da noite, preso a uma rotina podre, num combate vomitado com o tempo. Tudo era quente e pegajoso. Havia uma incerteza em relação a toda minha vida e um desejo ardente pelo fim do mês.
No meio do ano, naquele ano, os judeus bombardearam o distrito central de Sabha e atacaram Gaza, nossa Gaza, com bombas e lança-chamas. O incidente deve ter causado alguma mudança em minha rotina, mas não havia nada para eu me importar; estava deixando para trás esta Gaza e indo para a Califórnia, onde viveria por minha própria conta, para o meu próprio eu, que havia sofrido por tanto tempo. Eu odiava Gaza e seus habitantes. Tudo na cidade amputada me fazia lembrar de telas fracassadas pintadas em cinza por um homem doente. Sim, eu enviaria uma magra quantia para ajudar minha mãe, a viúva de meu irmão e seus filhos a viver, mas me libertaria desse último vínculo também lá na verde Califórnia, longe do cheiro ruim da derrota que enchera minhas narinas por sete anos. A empatia que me atava aos filhos de meu irmão, sua mãe e à minha nunca seria suficiente para justificar minha tragédia de dar esse mergulho perpendicular. Não podia me arrastar para mais fundo do que eu já estava. Eu tinha de escapar!
Você conhece esses sentimentos, Mustafá, porque os experimentou de verdade. O que é esse laço mal definido que tínhamos com Gaza que embotou nosso entusiasmo pelo voo? Por que não analisamos a questão de modo a obter um entendimento claro das coisas? Por que não deixamos para trás essas feridas e avançamos em direção a um futuro mais promissor que nos desse uma consolação profunda? Por quê? Não sabemos exatamente.
Quando fui de férias em junho, reunindo todos meus pertences e ansiando pelo doce desembarque, o começo em direção a essas pequenas coisas que dão um belo e brilhante significado à vida, encontrei Gaza exatamente como tinha deixado, fechada como o revestimento interno de uma concha de caracol arremessada pelas ondas da praia visguenta e arenosa ao lado do matadouro. Essa Gaza estava mais apertada do que a mente de um adormecido nas dores de um terrível pesadelo, com suas ruas estreitas que tinham aquele cheiro peculiar, o cheiro da derrota e da pobreza, aquelas casas com suas sacadas salientes... esta Gaza! Mas quais são as causas obscuras que levam um homem até sua família, sua casa, suas memórias, como a primavera atrai um pequeno rebanho de cabras da montanha? Não sei. Tudo o que sei é que fui ver minha mãe em nossa casa naquela manhã. Quando cheguei, a irmã de meu falecido irmão me encontrou lá e me perguntou, chorando, se eu realizaria o desejo de sua filha ferida e lhe faria uma visita no hospital de Gaza naquela tarde. Você conhece Nádia, minha linda sobrinha de treze anos?
Naquela tarde comprei meio quilo de maçãs e parti para o hospital para visitar Nádia. Sabia que havia algo que minha mãe e minha cunhada estavam escondendo de mim, algo que suas línguas não podiam pronunciar, algo que eu não saberia dizer. Eu amava Nádia pelo costume, o mesmo que me fazia amar toda aquela geração que tinha sido conduzida à derrota e ao deslocamento que levaram a pensar que uma vida feliz era uma espécie de desvio social.
Que aconteceu naquele momento? Não sei. Entrei muito calmo no quarto branco. Crianças doentes têm algo de santidade, e mais ainda se a criança está doente por causa de feridas dolorosas e cruéis. Nádia estava deitada na cama, com as costas apoiadas num grande travesseiro sobre o qual seu cabelo se espalhava como um couro espesso. Havia um profundo silêncio nos seus olhos atentos e uma lágrima que não parava de brilhar nas profundezas de suas pupilas negras. Seu rosto estava calmo e parado mas eloquente como o rosto de um profeta torturado deve ser. Nádia ainda era uma criança, mas parecia mais que uma criança, muito mais, e mais velha do que uma criança, muito mais velha.
“Nádia!”
Eu não tinha ideia se falara aquilo ou se fora outra pessoa atrás de mim. Mas ela ergueu os olhos e eu os senti me dissolverem como a um cubo de açúcar que tivesse caído numa xícara de chá quente. Junto com seu sorriso fraco escutei sua voz.
“Tio! Você veio mesmo do Kuwait?”
Sua voz irrompeu da garganta, e ela se ergueu com ajuda das mãos e esticou seu pescoço em minha direção. Afaguei suas costas e me sentei perto dela.
“Nádia! Eu lhe trouxe presentes do Kuwait, um monte de presentes. Vou esperar até que saia da cama, bem e totalmente curada, e você irá para minha casa para que eu lhe dê os presentes. Trouxe a calça vermelha que você me pediu na carta. Verdade, eu trouxe.”
Era uma mentira, nascida de uma situação tensa, mas ao pronunciá-la senti como se falasse a verdade pela primeira vez na vida. Nádia tremeu como se tivesse levado um choque e abaixou a cabeça num silêncio terrível. Senti suas lágrimas molhando as costas de minha mão.
“Diga alguma coisa, Nádia! Você não quer a calça vermelha?”
Ela sustentou o olhar para mim e fez como se fosse falar, mas então parou, rangeu os dentes e eu escutei novamente sua voz, vinda de longe.
“Tio!”
Ela esticou as mãos, levantou a coberta com os dedos e apontou para a perna, amputada desde o alto da coxa.
Meu amigo... Que eu nunca me esqueça da perna de Nádia, amputada desde o alto da coxa. Não! E que eu nunca me esqueça da mágoa que havia esculpido seu rosto e se fundia para sempre em seus traços. Saí do hospital naquele dia, minha mão segurando com desdém silencioso o saco de maçãs que trouxera para dar à Nádia. O sol inflamado enchia as ruas com a cor do sangue. E Gaza estava completamente nova, Mustafá! Nem você nem eu nunca a vimos assim. As pedras empilhadas à entrada da região de Shajiya onde vivíamos tinham um significado e pareciam ter sido postas ali por não outro motivo que servir de explicação. Essa Gaza onde tínhamos vivido e com cujo povo bondoso tínhamos passado sete anos de derrota era algo novo. Para mim parecia um começo. Não sei por que achei que aquilo fosse um começo. Imaginei que a rua principal por onde caminhava para voltar a casa fosse apenas o começo de uma longa, longa estrada conduzindo a Safad. Tudo nessa Gaza palpitava de uma tristeza que não se limitava à lamentação. Era um desafio; mais do que isso, era algo como a reivindicação de uma perna amputada!
Saí pelas ruas de Gaza, ruas inundadas pela luz ofuscante do sol. Elas me diziam que Nádia tinha perdido a perna quando se jogou sobre seus irmãos pequenos para protegê-los das bombas e chamas que aferraram suas garras à casa. Nádia poderia ter escapado, poderia ter fugido, salvado sua perna. Mas não o fez.
Por quê?
Não, meu amigo, não irei para Sacramento, e não me arrependo. Não, e nem terminarei o que começamos na infância. Esse sentimento sombrio que sentiu ao deixar Gaza, esse pequeno sentimento deve crescer feito um gigante dentro de você. Precisa se expandir, e você deve procurá-lo para encontrar a si mesmo, aqui, entre os abomináveis escombros da derrota.
Não irei até você. Mas você pode retornar! Volte, para aprender, com a perna amputada de Nádia no alto da coxa, o que é a vida e quanto vale a existência.
Volte, meu amigo! Estamos todos esperando você.

(Ghassan Kanafani, Men in the Sun & Other Palestinian Stories. Lynne Rienner Publishers. Traduzido do árabe por Hilary Kilpatrick. Tradução do conto em inglês: Leila Guenther)


Do meu Livro de Travesseiro (III)

Coisas que dão sono: narração de partida de golfe. Garupa de motocicleta.  Longos discursos cujo conteúdo não se compreende. Pescaria. Chuva caindo em telhado de zinco. Cenas de filme em câmera lenta. Estrada sem curva. O movimento e o som de uma fogueira. O grilo quando canta.
(Leila Guenther)


(Mizuno Toshikata, Sleeping Beauty)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Peter Pan


(CocoRosie e Spleen, "Peter Pan")

segunda-feira, 14 de julho de 2014

No umbigo do mundo

Integram o volume Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014) os autores Gabriela Alemán (Equador), Claudia Amengual (Uruguai), Javier Cercas (Espanha), Jacinta Escudos (El Salvador), Leila Guenther (Brasil), Eduardo Halfon (Guatemala), Carlos Herrera (Peru), Ana Istarú (Costa Rica), Andrea Maturana (Chile), Juan Carlos Méndez Guédez (Venezuela), Andrés Neuman (Argentina), Edmundo Paz Soldán (Bolívia), Ena Lucia Portela (Cuba), Cristina Rivera Garza (México), Mayra Santos-Febres (Porto Rico) e Juan Gabriel Vásquez (Colômbia).

Karina Pacheco Medrano (Peru), que organizou o volume e traduziu meu conto para o espanhol, é escritora e antropóloga. Publicou La voluntad del molle, No olvides nuestros nombres, La sangre, el polvo, la nieve, Alma alga, Cabeza y orquídeas (Premio Nacional de Novela Federico Villarreal 2010), El sendero de los rayos e El bosque de tu nombre.

Fernando Iwasaki (Peru), que assina o prólogo, é escritor, historiador e ensaísta. Publicou, entre outros, Inquisiciones peruanas, Un milagro informal, España, aparta de mí estos premios, Libro de mal amor, Neguijón, El Descubrimiento de España, Republicanos: cuando dejamos de ser realistas, Nabokovia Peruviana, Extremo Oriente y Perú en el siglo XVI, e recebeu diversos prêmios por sua obra.



domingo, 22 de junho de 2014

Flores artificiais


lançamento do novo romance de Luiz Ruffato

segunda-feira, 9 de junho de 2014

México por Maiakóvski

(capa da primeira edição, de 1926)

Um mundaréu de táxis e automóveis particulares se alterna com democráticos ônibus pesadões que dão solavancos, menos confortáveis e espaçosos do que nossa jamanta.
Essa concorrência, diante do caráter mais do que exaltado dos motoristas espanhóis, ganha formas de um verdadeiro combate.
Auto persegue auto, autos juntos perseguem ônibus, e todos conjuntamente sobem nas calçadas, perseguindo passantes precipitados.
Cidade do México é a primeira cidade do mundo em número de acidentes de automóveis.
O motorista no México não se responsabiliza por batidas (cada um por si!), por isso a duração média da vida sem bater é de dez anos. Uma vez a cada dez anos atropelam alguém. Na verdade, há também casos de não-atropelados no período de vinte anos, mas isso por conta dos já-atropelados em cinco anos.
Diferentemente dos inimigos da humanidade mexicana – os automóveis –, os bondes desempenham um papel humano. Eles conduzem defuntos.
Frequentemente veem-se espetáculos insólitos. Um bonde com parentes chorosos, mas o defunto está em um carro fúnebre a reboque. Todo esse cortejo fúnebre acontece muito rápido, com um mundaréu de buzinas e sem paradas.
Eletrificação original da morte!
Há relativamente pouca gente nas ruas em comparação com os Estados Unidos – pequenas casinhas com jardins, cidade de enorme extensão, mas 600 mil habitantes ao todo.
Há pouca propaganda de rua. Apenas de noite uma se estampa. Um mexicano feito de lâmpadas elétricas laça um maço de cigarros. E todos os táxis são enfeitados com mulheres arqueadas, prontas para nadar – propaganda de trajes de banho.
A única propaganda de que gosta o mexicano pouco impressionável é a baja – a liquidação. A cidade se atulha com essas liquidações. As companhias mais sólidas são obrigadas a anunciá-la – sem liquidação não se força o mexicano a comprar nem folha de parreira.
Nas circunstâncias mexicanas isso não é brincadeira. Dizem que a municipalidade pendurou uma placa em umas das entradas que levam à Cidade do México, para conscientização de indígenas naturais demais:

É PROIBIDO ENTRAR SEM CALÇAS NA CIDADE DO MÉXICO

(...)
Às onze horas, quando fecham teatros e cinemas, restam alguns cafés e bodegas subterrâneas suburbanas e arrabaldinas – e caminhar começa a se tornar bastante perigoso. Já não deixam entrar no jardim Chapultepec, no qual está o palácio do presidente.
Pela cidade um monte de disparos. A polícia que acorre nem sempre desvenda o assassinato. Mais do que tudo disparam em tavernas, usando Colts como saca-rolhas. Golpeiam gargalos de garrafas. Disparam simplesmente do carro, para fazer barulho. Disparam por aposta – tiram a sorte, quem vai matar a tiro –, o sorteado mata com honra. Disparam para o jardim Chapultepec de caso pensado. O presidente ordenou que não permitissem a entrada no jardim quando está escuro (no jardim do palácio presidencial), que disparassem depois da terceira advertência. Não se esquecem de disparar, só que às vezes se esquecem de advertir. Os jornais escrevem com prazer sobre assassinatos, mas sem entusiasmo. Mas, em compensação, quando o dia passa sem mortes, o jornal publica com surpresa: “Hoje não houve assassinatos”.
É grande o amor pela arma. Costumam se despedir de um amigo assim: de pé, barriga com barriga, dão uns tapinhas nas costas – aliás, mais embaixo – e sempre dão uns tapinhas no pesado Colt, no bolso traseiro da calça.
Todo mundo faz isso, dos 15 até os 75 anos de idade.


(Vladímir Maiakóvski, Minha descoberta da América. Trad. Graziela Schneider. São Paulo, Martins, 2007)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Fóssil

vês?

ainda
estás
presente
aqui

presa
no âmbar
de meus olhos

(J.F. de Souza. Dantes, durantes e depois. São Paulo, Patuá, 2013) 


sábado, 24 de maio de 2014

"Pelo sagrado direito ao sonho"


(Claudio Willer: poemas em estúdio. Direção: Pipol)

domingo, 18 de maio de 2014

Ikiru (Viver)


(Tadashi Endo, Ikiru: Réquiem para Pina Bausch)

Baudelaire em seis traduções

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

(Charles Baudelaire)



A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

(Trad. Guilherme de Almeida, 1944)



A uma passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago, e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, “jamais” provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!

(Trad. Jamil Almansur Haddad, 1957)



A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

(Trad. Ivan Junqueira, 1985)



A uma passante

A rua ia gritando e eu ensurdecia.
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com mãos sumptuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado com um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efémera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

(Trad. Fernando Pinto do Amaral, 1999)



A uma passante

A rua ensurdecedora num alarido rugia em torno.
Alta, magra, toda de luto, dor majestosa,
Passou uma mulher, com a sua mão suntuosa
Levantando, balançando do vestido seu contorno.

Ágil e nobre, com as suas pernas de gata.
Eu bebia crispado e esquisito como um falcão
No olhar, céu lívido que germina um furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago... a noite! – Fugidia beleza,
Cujo olhar me fez de repente nascer outra vez,
Só te reverei na eternidade com certeza?

Longe, bem longe: tarde demais! Nunca talvez!
Não sei para onde foges, não sabes aonde eu vou,
Ó você que eu teria amado, ó você que não ousou!

(Trad. Juremir Machado da Silva, 2003)



A uma transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Um mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando o ramo e a bainha

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata

Um raio… em seguida, a noite! – Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

(Trad. Maria Gabriela Llansol, 2003)

[De uma aula de Álvaro Faleiros]