terça-feira, 9 de dezembro de 2014
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Elegia: indo para o leito
ELEGY: GOING TO BED
Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th' eyes of busy fools may be stopp'd there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th' hill's shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love's hallow'd temple, this soft bed.
In such white robes heaven's angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring'st with thee
A heaven-like Mahomet's paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th' eyes of busy fools may be stopp'd there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th' hill's shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love's hallow'd temple, this soft bed.
In such white robes heaven's angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring'st with thee
A heaven-like Mahomet's paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence
my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full
nakedness ! All joys are due to thee;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta's ball cast in men's views ;
That, when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta's ball cast in men's views ;
That, when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :
To
teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a man?
What needst thou have more covering than a man?
Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As joias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As joias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
A coberta de um homem te é bastante.
(John
Donne. Trad. Augusto de Campos)
domingo, 30 de novembro de 2014
Outras ruminações: 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão
Participam do volume:
ADOLFO MONTEJO NAVAS
ALBERTO BRESCIANI
ALBERTO MARTINS
ALESSIO BRANDOLINI
ALEXANDRE BONAFIM
ALEXANDRE GUARNIERI
ÁLVARO ALVES DE FARIA
ANDRÉ LUIZ PINTO
ANDRÉ VALLIAS
ANDRÉA CATROPA
ANNITA COSTA MALUFE
ANTONIO CARLOS SECCHIN
ARIANE ALVES
BRUNO BRUM
CARLOS AUGUSTO LIMA
CARLOS FELIPE MOISÉS
CARLOS LORIA
CARLOS MACHADO
CHANTAL CASTELLI
DALILA TELES VERAS
DINIZ GONÇALVES JUNIOR
DIRCEU VILLA
DONIZETE GALVÃO
EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA
EDUARDO LACERDA
EDUARDO STERZI
ELISA ANDRADE BUZZO
FABIANO CALIXTO
FABIO WEINTRAUB
FABRÍCIO MARQUES
GILBERTO NABLE
GUILHERME GONTIJO FLORES
HEITOR FERRAZ MELLO
HELENA TERRA
IACYR ANDERSON FREITAS
ITALO MORICONI
JOÃO FILHO
JÚLIA STUDART
JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES
JÚLIO MACHADO
KLEBER MANTOVANI
LEANDRO SARMATZ
LEILA GUENTHER
LEONARDO GANDOLFI
LILIAN AQUINO
LUIS
AGUILAR
LUIZ
GONZAGA
LUIZ
ROBERTO GUEDES
LUIZ RUFFATO
MANOEL RICARDO DE LIMA
MARCOS SISCAR
MARIO ALEX ROSA
MOACIR AMÂNCIO
NINA RIZZI
PÁDUA FERNANDES
PAULO FERRAZ
PRISCA AGUSTONI
PRISCILA FIGUEIREDO
RENAN NUERNBERGER
REYNALDO DAMAZIO
RICARDO RIZZO
RODRIGO PETRONIO
RONALD POLITO
ROSA MATTOS
ROSANA PICCOLO
RUY ESPINHEIRA FILHO
RUY PROENÇA
SÉRGIO ALCIDES
SIMONE BRANTES
SÔNIA BARROS
TARSO DE MELO
TULIO VILLAÇA
VERA LÚCIA DE OLIVEIRA
VERONICA STIGGER
VICTOR DEL FRANCO
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
O lançamento é no dia 9 de dezembro, a partir das 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37)
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poesia
domingo, 16 de novembro de 2014
Comer a Arte
Tenho uma amiga – excelente cozinheira – que
diz que alimentar pessoas é um dom. Mas acho que quem é alimentado também
recebe uma dádiva. Porque se trata de algo que transforma tanto quem prepara o
alimento quanto quem o come. E isso eu percebi com
mais clareza quando uma vizinha (também excelente cozinheira) trouxe os sushis
que seu filho, um rapaz que conheci menino, tinha preparado. Ele é sushiman. Eu já os tinha experimentado
antes. Da primeira vez, tive a certeza de que era a melhor comida japonesa que
eu já provara. Da segunda, não apenas japonesa, mas a melhor de todas, e que o
que eu estava comendo era Arte. Naquele momento, deu-se a transformação de que
falo acima: minhas atribulações sumiram. A felicidade mora num sushi, concluí, e eu queria ser feliz de
novo, de modo que fui até o restaurante onde ele trabalhava. Como falar de
sabor? Como, com palavras, dar a dimensão do que não pode ser dito? A descrição
mais próxima que eu conseguiria seria esta: eu estive na Festa de Babette. Quem leu o conto ou viu o filme talvez consiga
ter uma ideia. Penso também no documentário O
Sushi dos Sonhos de Jiro, sobre Jiro Ono, considerado o melhor sushiman do mundo. Jiro revela seu
trabalho incansável de shokunin, de fazer
todos os dias da vida a mesma coisa em busca da perfeição sem saber se, aos 86
anos, a alcançará: “Vou continuar a escalada, tentando atingir o topo. Mas
ninguém sabe onde ele fica!” Então penso no que esse rapaz estará criando
quando tiver 86 anos. Jiro diz que sonha com sushis. Eu também.
(leila guenther)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Dois poemas de Donizete Galvão
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c’est moi
Nina Simone.
Recomendações
Ao cavaleiro desencarnado,
com sua égua de gás hélio,
recomendo ouro, prata e chumbo.
No meio do seu caminho,
mero pedregulho transmuta-se
em rocha, penedo, penhasco.
Mínima ponta de agulha fura
sua armadura hiperbovárica.
Nem figos envenenados
sustentam-lhe a fome.
Tudo o que toca
Ao cavaleiro desencarnado,
com sua égua de gás hélio,
recomendo ouro, prata e chumbo.
No meio do seu caminho,
mero pedregulho transmuta-se
em rocha, penedo, penhasco.
Mínima ponta de agulha fura
sua armadura hiperbovárica.
Nem figos envenenados
sustentam-lhe a fome.
Tudo o que toca
some. Evapora-se.
Ponha os pés no chão,
para que o minério de ferro
neles sedimente e forme um casco.
Ninguém vai ouvir falar do seu nome.
Escute o resumo de sua vida:
um espasmo, um sopro que não soa
além da grade de sua casa.
Ponha os pés no chão,
para que o minério de ferro
neles sedimente e forme um casco.
Ninguém vai ouvir falar do seu nome.
Escute o resumo de sua vida:
um espasmo, um sopro que não soa
além da grade de sua casa.
(Donizete
Galvão)
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Haicais de primavera
E-book Ipê-amarelo: 26 haicais, organizado por José Marins em homenagem a Masuda Goga, mestre de
haicai, sobre quem escrevi certa vez:
No adeus ao mestre,
lamentando todos os mortos –
saudades do avô.
Participam do livro:
A. A. de Assis
Alvaro Posselt
Amauri Solon
Carlos Bueno
Carlos Viegas
David Rodrigues
Edson Kenji Iura
Elisa Campos
Joba Tridente
José Lira
José Marins
José Tucón
Leila Guenther
Leo Cunha
Luiz Gustavo Pires
Nelson Savioli
Nete Brito
Osiris Duarte
Regina Bostulim
Rosalva Brüsch
Sérgio Pichorim
Sev Gyn
Suzana Lyra Strapasson
Terezinha Manczak
Vanice Ferreira
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Um Oriente ao oriente do Oriente
domingo, 21 de setembro de 2014
Dois rios e mil e uma noites
dois rios
há em minha terra dois rios
silenciosos
um
estendido em verde tapete de aguapé
onde não mais trafegam canoas
apenas diminutas criaturas buscando seu pasto
outro
árido tapete árabe
onde todos caminham acima de sua face
a noite
que seja à noite tarde da noite e nada mais se enxergue
e nada mais se espere nem canto algum destoe
ainda que apenas fosse este silêncio certo de prece
qual áspera certeza suave como árvore sem folha
que somente recolha o último instante que lhe baste
que seja tarde tão tarde que outra porta não se escolha
e nada mais se enxergue nem amigos nem destinos
onde todos estão dormindo e uma leve brisa reste
tênue e inerte que o pensamento esquece que estou sozinho
sem incomodar ir embora na calma de quem parte
tranquilo mas que não seja à tarde a mais morta das horas
(Adriano Lobão Aragão. As
cinzas as palavras. 2.ed. Teresina: dEsEnrEdoS, 2014)
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sábado, 20 de setembro de 2014
Teu verde
Todas as mulheres são tigres
desenhados em teus olhos.
* * *
Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos-mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.
Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos-mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.
(Claudio Daniel)
domingo, 31 de agosto de 2014
Torre de Babel
Revista Zunái, agosto de 2014
TORRE DE BABEL - Tradução Volume 1 Número 4:
MAIAKÓVSKI por Augusto de Campos
ÓSCAR HAHN por Nina Rizzi
ALFREDO FRESSIA por Adalberto de Oliveira Souza
LI T’AI PO por Leila Guenther
NIELS HAV (Dinamarca) por Ricardo Labarca e Gloria Galindo
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
terça-feira, 26 de agosto de 2014
sábado, 23 de agosto de 2014
Jane Bowles
Não cortará os cabelos e os laços por Diego
Não irá para o hospício por Auguste
Não se matará com gás por Ted
O máximo que faria
Era se mudar para Tânger
(leila guenther)
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Quando éramos reis
When we were kings, de Leon Gast, sobre Muhammad Ali, o homem que mudou a História (do jab, para dizer o mínimo, o que já é o máximo)
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Quatro poemas icterofágicos
“I
am dead, Horatio”
Vestia
preto
e
sabíamos que era um luto prematuro.
Em
suas mãos os livros,
e
de sua boca as palavras ganhavam outro sentido.
Prezava
a luz do dia
como
a escuridão da noite, e quantas vezes vimos
seus
olhos-luzes surgindo no escuro.
Dizem
que falava só e estava louco,
que
trocara o amor ideal pelo do corpo
–
como troca nisso houvesse –
e
que era um homicida.
Partilhei
sua companhia em dias dúbios,
vi
o que ele viu, comi do que comeu e digo:
sua
mente, o fio da espada.
Terá
encontrado um elixir na vingança,
executada
como arte,
o
que lhe deu vida extremada
e
morte extrema.
Prova
disso é que todos choraram quando,
ao
abrirmos os portões levando o corpo,
anunciei:
O príncipe Hamlet está morto.
Durar
& permanecer
É
preciso esquecer para lembrar:
o
tempo nos acossa com a multitude
que
os olhos sem distingüir desfiguram;
do peso da terra de séculos ressurge
o
deus faraó envolto em cinzas e pó;
da
têmpera em cacos,
a
fagulha do anjo no sonho de Constantino.
Tudo surge para derreter e partir,
como
um sonho que aperta
resquícios
do dia num redemoinho
onde
andamos não raro suspensos
entre
ignorar e saber.
E isso é história: a sombra retorna,
sussurra
seu nome em bocas futuras
e
mesmo dirá fuit hic: apenas memória?
Jean-Pierre
Léaud
Os
sapatos se gastam
e
nem me dou conta.
Como
atar o nó da gravata
ou
um beijo sob a umidade
da
adega?
Nem
mais uma palavra!
Ah,
mas vocês gostam de falar!
Não
tenho tempo, perdão,
estou
indo (onde eu deixei
a
chave?)
Os Cientistas
Doubt
truth to be a liar
Há
alguma corrosão no início
–
faz parte de seu ofício;
distribuem,
como os padres,
a
profilaxia, que não é santa,
mas
igualmente certa.
Um
silêncio de murmúrio
recobre
máquinas e ataduras;
aplicam
por critério antecedente
prescrições
e vacinas em quem
um
dia vai ficar doente.
Como
na Lei,
há
a vantagem do microscópio,
que
é por onde entra o miópico
olho
da civilização: macacos gritam,
flores
abrem, deuses mortos
cospem
sangue verde em gargalhada.
“Nós
temos a resposta para o Nada.”
(Dirceu Villa. Icterofagia. São Paulo, Hedra, 2007)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Para Gaza
Os nascidos em Gaza
Morri antes de ter vivido
outrora vivia em uma cova
agora me dizem que ela não é grande o
bastante
para conter todas as minhas mortes
Pezinhos
Uma mãe olha para outra –
um mar de pequenos corpos
queimados ou degolados
ao seu redor –
E pergunta:
Como velaremos isto?
Nathalie Handal (1969), cuja família é palestina, publicou peças de teatro, poemas e ensaios,
como Love and Strange Horses, Poet in Andalucía, Hakawatiyeh, Men in Verse
e "Mahmoud Darwish: Palestine's Poet of Exile". A tradução dos poemas é minha.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
27
Coisas passadas que nos causam
saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um
retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre as
páginas de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que
outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.
(Sei
Shônagon, O livro do travesseiro. Trad.
G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M.H. Cordaro. São Paulo,
Editora 34, 2013)
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