domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que aprendi num retiro budista

 


Não é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. Mas é preciso uma dose imensa de coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu sentimento dominante. No entanto também desejo entender a natureza do sofrimento e pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar cerca de oito, dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio absoluto, sem contato visual com outros praticantes, majoritariamente sentada, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma, fundada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a escola mais antiga e austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness), estabelecidos pelo Buda como primeiro passo do caminho para a libertação. O Theravada não poupa ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula, monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de um monge é valiosa, mas o formato se revelou bastante efetivo. Não havia ninguém com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”, “e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?” etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam) e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”. Parênteses: ao contrário do que orientou, num outro retiro, Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição da Floresta da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, para evitar ruídos na comunicação, sou uma espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo vajrayana (de origem tibetana, no qual já tive também experiência de retiro), e já flertei com o zen, minha primeira experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas tradições.

No quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração, luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?). Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse decantado. Em vez de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de nada nem de ninguém. Algo sereno. Menciono porque na volta do primeiro retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização, segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço, com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi aterrorizante. Uma vez, quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante fugaz e tranquilo: estava no ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não me amedrontei. Não era algo racional, tanto que quis e tentei “sentir” isso de novo, mas nunca mais consegui recuperar aquela experiência.

Gostaria de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder e sem divagar. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia de medos. Mas a meditação diminui o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm de me aguentar.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

E nasce a criança

O mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente - consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que sou). É algo muito auspicioso nas condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de fazer.

Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.

Venham. É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando vocês.

Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora. 







segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Hamnet


As lágrimas começaram a cair comportadas e silenciosas na metade de Hamnet, este filme terrível, delicado, feio, exagerado, belo, demasiado humano.

No fim a drama queen aqui explodiu num choro tão descontrolado, soluçando tão alto, que cobriu a cara com as mãos, se abaixando, tentando se esconder, os joelhos contra o peito, numa posição meio fetal que era só de pura vergonha mesmo. Eu não abria o berreiro assim num filme desde Tempo de embebedar cavalos (de Bahman Ghobadi), que vi há quase trinta anos. E nem sei por quê, já que, com os anos, aprendi como chorar para dentro.

Chloé Zhao tem coragem. Arrisca, erra, acerta, faz sempre diferente do que já fez. Gosto muito do seu Songs my brothers taught me. E me dá uma alegriazinha que ela seja mulher, amarela e neurodivergente.

Quem já pisou no Hades da insanidade dificilmente sai de lá inteiro (quando sai). Às vezes não se salva nem com a ajuda de uma lira.

O resto é silêncio.