(Caro Diário, Nanni Moretti)
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Joan of Arc
Agora as chamas acompanham Joana D’Arc
Enquanto ela cavalga pela escuridão;Não há lua que mantenha o brilho de sua armadura,
Não há homem que a tome nesta noite tão esfumaçada.
Ela disse: “Estou cansada da guerra,
Quero o tipo de trabalho que eu tinha antes,
Um vestido de casamento ou algo branco
Para recobrir minha fome saciada.”
Bem, estou feliz em ouvi-la falar desse jeito,
Você sabe que a observo cavalgar todos os diasE algo em mim deseja subjugar
Uma heroína assim fria e solitária.
“E quem é você?”, disse ela com severidade
Àquele sob a fumaça.
“Ora, eu sou o fogo”, ele respondeu,
“E eu amo sua solidão, eu amo seu orgulho.”
“Pois então, fogo, esfrie seu corpo:
“Vou dar-lhe o meu para segurar”,Dizendo isso ela avançou para dentro dele
Para ser sua única noiva.
E no fundo de seu coração ardente
Ele tomou os restos mortais de Joana D’Arc,
E do alto, por sobre os convidados do casamento
Suspendeu as cinzas de seu vestido de noiva.
E no fundo de seu coração ardente
Ele tomou os restos mortais de Joana D’Arc,Foi quando ela entendeu
Que se ele era fogo, ela só podia ser madeira.
Eu a vi se contrair, eu a vi chorar
Vi a glória em seu olhar.
Eu mesmo anseio por amor e luz,
Mas tem de ser algo tão cruel e, ah, tão luminoso?
(Leonard Cohen, "Joan of Arc". Tradução minha)
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A repartição dos pães
Era sábado e estávamos convidados para
o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para
gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a
marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem
tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali
me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se
balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão
dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem
prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que
eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do
cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado, ia pouco a pouco roendo e
avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria
maior.
Só a dona da casa não parecia
economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo
coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e
mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado
que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer
trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que
correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene
abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs
vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando,
chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas
alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se
fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que
ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas
como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que
mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava
esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o
redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem
primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado,
a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem
nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada
vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez
espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como
se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase
negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo
limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só
existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim
como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como
apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em
nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia,
pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível.
Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo
queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia
seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um
viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando
a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira
que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta
do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora
Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne
trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal
de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e
fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente
a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e
vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come:
comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é.
A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me
pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da
piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem
valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não
posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida
porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos.
Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós
somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.
(Clarice Lispector)
domingo, 8 de dezembro de 2013
Sopa de cavalo cansado
(Dead Combo, o duo português que se apresentou no Brasil na Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM).
sábado, 7 de dezembro de 2013
Seis haicais de Teruko Oda
Manhã de inverno –
Em meio a velhas lembranças
Em meio a velhas lembranças
hora do remédio.
Livro de receitas –
As rosquinhas da vovó
a traça comeu.
Cena memorável –
Meus pais tomando saquê
à luz do luar.
Uma coleira nova
para o cão que guarda a casa –
Dia de Natal.
O outono chegou –
Entre os bens acumulados
datas e idade.
Amigos falantes
em muda contemplação –
Cerejeira em flor!
(Teruko Oda, Furusato
no uta: canção da terra natal. São Paulo, Escrituras, 2010)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
"Torso arcaico de Apolo" em quatro traduções
Archaïscher Torso Apollos
Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,
sich hilt and glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, and im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.
Sonst stünde dieser Stein entstellt and kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
and flimmerte nicht so wie Raubtierfelle;
und bräche nicht aus alien seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.
(Rainer
Maria Rilke)
Torso arcaico de Apolo
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
(Trad. Manuel Bandeira)
Torso arcaico de Apolo
Não conhecemos sua cabeça legendária
na qual as pupilas maturavam. Porém
seu torso ainda arde como uma luminária,
em que seu olhar, mais tênue, se detém,
fica e brilha. Senão o leve reflexo
da curva do seu peito não te cegaria,
nem o sorrir, no giro dos quadris, iria
correr para esse centro que portava o sexo.
Seria apenas uma pedra deformada
sob os ombros de diáfana derrocada
e como pelos de fera não brilharia
e nem teria toda sua forma rompida
como uma estrela: lugar não haveria
que não te veja. Precisas mudar tua vida.
(Trad. Karlos Rischbieter)
Torso arcaico de Apolo
Não sabemos como era a cabeça inaudita,
onde as pupilas amadureciam. Glabro
no entanto o torso aclara como um candelabro,
onde apenas mais tênue, o seu olhar nos fita
e brilha. Senão como poderia o plexo
do peito assim cegar-te, e iria, no impreciso
arquear de parte da cintura, um leve riso
correr para esse centro, onde existia o sexo?
Seria um simples bloco mutilado e falto
e de seus ombros nunca o translucente salto
reluziria assim como um lombo de fera
nem romperia as órbitas qual explodida
estrela: pois ali ponto nenhum se espera
que não te veja. Tens que mudar tua vida.
(Trad. Ivo Barroso)
Torso arcaico de Apolo
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado
Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.
De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.
E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: Precisas mudar de vida.
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado
Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.
De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.
E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: Precisas mudar de vida.
(Trad. Mário Faustino)
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Dos Hinos à noite
Agora sei quando virá a última manhã
– quando a luz não espantar mais a noite e o amor – quando o sono não tiver
despertar, mas for apenas um sonho contínuo. Sinto em mim uma exaustão
celestial. Longa e fatigante foi minha peregrinação ao túmulo sagrado e
esmagadora foi a cruz. A onda cristalina, que, imperceptível ao senso comum,
emerge do âmago escuro da colina contra cujos pés irrompe o dilúvio: aquele que
provou dela, que permaneceu no alto da montanha e olhou para a terra prometida,
para a morada da noite, não retornará mais ao tumulto do mundo, à terra onde
reside a luz, em sua constante inquietação.
Novalis (tentativa de tradução a quatro mãos: as minhas e as de meu pai)
(Caspar David Friedrich, O viajante sobre o mar de névoa)
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Da primeira carta
Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o
a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos,
compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são
recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de
aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente
o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, —
ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o
motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais
profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado
escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua
noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta
profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um
forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta
necessidade.
(Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. Trad. Paulo Rónai. Rio de Janeiro, Editora Globo, 1995)
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Seis poemas de Dylan Thomas
EM
Exercido na
E os
De
Escrevo estas
E ignoram
Uma
A
Uma
Espigada no
Chegou
Aquela
Possuída pelos
E no
E arrebatado
Posso de
No
Da
Nas
O
De
Se dissipam
(tradução de Ivan Junqueira)
E A
E a
hão-de
e a
E a
os
e,
e a
E a
é no
e a
A
A
impele os
é o
E
A
impele o
E
A
levanta as
E
fica o
acalmará as
E
E não tenho voz para dizer ao túmulo da amada
A MÃO AO
A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade ;
cinco dedos
soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração ;
duplicaram o A
e as
uma
A
e cresceu a
Os
a
há
(tradução de Fernando Guimarães)
Da Galícia
Abri as frescas rosas,
fazei brilhar os cravosdo seu jardim, ó árvore, vesti-vos
de lindas folhas verdes;
videira que nos destes sombra outrora,
a cobrir-vos de pâmpanos voltai.
Natureza formosa,
eternamente a mesma,
dizei aos loucos, aos mortais dizei
que eles não perecerão.
Não cuidarei dos rosais
que ele deixou, nem dos
pombos;que eles sequem, como eu seco,
que eles morram, como eu morro.
(Rosalía de Castro, trad. Ecléa Bosi)
domingo, 24 de novembro de 2013
CocoRosie no Brasil
(CocoRosie na turnê do novo álbum, o lindo Tales of a GrassWidow)
(CocoRosie & Antony, "Tears for animals")
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Livro com A maiúsculo
(Adriana Versiani dos Anjos, Alessandra M. Soares, Cláudio Santos Rodrigues, Clô Paoliello, Glória Campos, Mário Azevedo. Diário de A. Belo Horizonte, 2 Linhas, 2013)
domingo, 10 de novembro de 2013
Denise, essa Maga
{26}
{devo confessar. sua sutileza intuitiva me surpreendeu: ter
suposto que talvez a minha essência pudesse ser alcançada não pelo excesso e
pelo acúmulo de informação, mas pela noção fragmentada, pela nota marginal,
pelo rabisco despretensioso: ter optado pela possibilidade do alcance do todo
mediante o traçado da errância e da descontinuidade: alcançar-me quiçá (com
evasiva alegria, você medita) pelo fortuito embaraçar-se, pelo vulgar
encontrão, pelo patético equívoco: penso ser um razoável azimute: o do ao sabor
do acaso. não marque portanto hora, pois lá não estarei.}
(Roberto Amaral, Le
mot juste. Orobó Edições, 2011)
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Ana Cristina Cesar
Eu também
me mato
às
volto às mesmas
de
na
(Leila Guenther, O voo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006)
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
domingo, 27 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
A poesia de Mahmud Darwish
ONZE ASTROS
INCIDINDO NA ÚLTIMA CENA ANDALUZINA
I
Na última noite
nesta terra
Na última noite nesta terra, arrancamos os dias
das pequenas árvores, e contamos as costelas que levaremos junto
e aquelas que deixaremos aqui, na última noite
não diremos adeus, não teremos tempo para acabar.
Tudo ficará como está, já que o lugar trocará os nossos sonhos
e trocará os nossos hóspedes. De uma hora para outra, não saberemos mais brincar
porque o lugar estará pronto para receber a poeira... Aqui, na última noite,
contemplamos as montanhas rodeadas de nuvens: a conquista... a reconquista
o tempo antigo a entregar ao tempo novo as chaves dos portões.
Entrem, senhores conquistadores, entrem nas nossas casas, bebam do vinho
das nossas doces “muachahat”. Seremos a noite e, finda a meia-noite,
já não haverá mais auroras levadas em dorso de cavalo, ouvido o último muezim.
O nosso chá é verde, é quente, bebam, o amendoim é fresco, comam,
as camas são verdes, a madeira é de cedro, entreguem-se ao sono
depois de tão longo cerco, durmam nas plumas dos nossos sonhos,
os lençóis estão estendidos, os perfumes esperam por vocês à porta, há muitos espelhos, entrem, nós vamos sair de vez, e vamos depois procurar saber
como era a nossa história frente à história de vocês na longínqua terra,
vamos nos perguntar por fim: onde era o Alandalus
aqui ou lá? nesta terra ou no poema?
II
Como devo escrever
nas nuvens?
Como devo escrever nas nuvens o testamento dos meus? se eles
abandonam o tempo como abandonam os casacos nas casas, se eles
a toda vez que erguem um forte o destroem para erguer em seu lugar
uma tenda de saudades da primeira palmeira... Os meus traem os meus:
nas guerras em defesa do sal. Mas Granada é toda ouro,
seda de falas bordada com amêndoa, prata de lágrimas impressa nas
cordas do alaúde. Granada é a grande ascensão a si mesma...
Pode ser o que se deseja: saudade de
qualquer coisa que passou ou que vai passar: a asa de uma andorinha
roça o seio de uma mulher na cama, e ela grita: Granada é meu corpo.
Alguém perde a gazela nos prados, e grita: Granada é minha terra.
Eu sou de lá. E você, cante para que os rouxinóis façam destas costelas
uma escada que leva ao céu nada distante. Cante o heroísmo de quem sobe o cortejo,
lua após lua, pelo beco da amante. Cante as aves do jardim
em cada pedra. Como eu o amo! Você, que pouco a pouco
me quebrou a caminho da noite quente, cante!
Não haverá mais a manhã para se sentir o cheiro do café, depois da sua partida. Cante, cante a minha saída.
Deixei o arrulho das pombas nos seus joelhos, deixei o ninho da minha alma
nas letras do seu doce nome, Granada do meu canto, cante!
III
Depois do céu
tenho um céu...
Depois do céu tenho um céu para voltar, mas
ainda lustro o metal deste lugar, e vivo
a hora que vê o oculto. Sei que o tempo
não repete o nosso acordo, sei que sairei do
meu estandarte como uma ave que não pousa nas árvores do jardim,
sairei da minha pele, e da minha língua
cairão palavras de amor como o amor da
poesia de Lorca que habitará o meu quarto
e verá o que eu vi da lua beduína. Sairei das
amendoeiras como o algodão sai das espumas do mar. Um estranho passou
levando setecentos anos de cavalos. Um estranho passou
aqui, como passa também lá. Sairei em breve
das rugas do meu tempo, como um estranho, rumo à Síria e ao Alandalus.
Esta terra não cobre o meu céu, mas esta tarde é minha,
as chaves são minhas, meus são os minaretes e os lampiões, eu
também sou meu. Sou o Adão de dois paraísos, que perdi duas vezes.
Expulsem-me, mas devagar,
matem-me, mas devagar,
debaixo da minha oliveira,
com Lorca...
IV
Sou
dos últimos reis
Sou dos últimos reis... apeei da
égua no último inverno, sou o último suspiro árabe.
Não apareço no mirto por cima dos telhados, não
olho ao redor para ver se alguém me vê, alguém que me conhecesse de antes,
que soubesse que lapidei o mármore da fala para a minha mulher atravessar
descalça as manchas de luz, não apareço na noite para
não ver a lua que acendia os segredos de Granada
em cada corpo. Deixo de olhar a sombra para não ver
alguém carregando o meu nome e vindo atrás de mim:
retire de mim o seu nome e dê-me
a prata do álamo. Não me viro para trás para não
lembrar que passei sobre este chão. Não há chão nesta
terra desde que o tempo se partiu ao meu redor em mil fragmentos.
Não fui um apaixonado para acreditar que as águas fossem espelhos,
como eu disse aos antigos amigos, nenhum amor intercede por mim,
desde que aceitei o “acordo de paz” não tenho presente
para passar perto a manhã do meu passado. Castela erguerá
uma coroa sobre o minarete de Deus. Ouço o barulho das chaves na
porta dourada da História, adeus à nossa história, serei eu
que vai trancar a ultima porta do céu? Sou o último suspiro árabe.
V
Um dia, sentarei
na calçada
Um dia sentarei na calçada... na calçada de uma estranha.
Não terei sido um narciso, embora eu defenda a minha imagem
nos espelhos. Você já não esteve um dia aqui, estranho?
Quinhentos anos se passaram, e a nossa separação ainda está incompleta,
as nossas cartas não foram interrompidas, as guerras
não modificaram os jardins de Granada. Um dia passarei por suas luas
e roçarei o meu desejo num limão... Abrace-me para eu poder renascer
dos aromas de um sol e de um rio sobre os seus ombros, e dos pés
que arranham a tarde, e a tarde que chorará como leite para a noite do poema...
Não terei sido um passante na palavra dos cantadores... eu seria
a própria palavra dos cantadores, a paz de Atenas e Pérsia,
um Oriente que abraça um Ocidente na partida rumo a uma essência única.
Abrace-me para eu poder renascer das espadas damascenas nos mercados.
Nada sobrou de mim além do escudo antigo e da cela dourada do meu cavalo.
Nada sobrou de mim além de um manuscrito de Averróis, o Colar da Pomba, e as traduções...
Eu costumava sentar na calçada da Praça Margarida
e contava as pombas: uma, duas, trinta... contava as meninas
que disputavam a sombra das árvores sobre o mármore,
e as folhas da idade me abandonavam amarelas.
O outono passou por mim, e eu não percebi,
todo o outono passou, e a nossa história passou na calçada...
e eu não percebi!
VI
A verdade tem duas caras
e a neve é negra
A verdade tem duas caras e a neve é negra na nossa cidade.
Já não somos capazes de desespero como antes, e o fim caminha para
a muralha, com passos firmes,
sobre este azulejo molhado de lágrimas, com passos firmes.
Quem baixará as nossas bandeiras: nós, ou eles? E quem
nos lerá “o acordo de paz”, ó rei da agonia?
Tudo está preparado, quem arrancará os nossos nomes
da nossa identidade: você ou eles? E quem semeará em nós
o discurso da arrogância: “Não conseguimos romper o cerco,
entreguemos as chaves do paraíso para o ministro da paz, e salvemo-nos...”
A verdade tem duas caras, o lema santo era uma espada para nós e
sobre nós, e então o que você fez do nosso forte antes desse dia?
Você não lutou porque temia a morte, mas o seu trono é um caixão,
carregue então o seu caixão para salvar o trono, ó rei da espera.
Esta paz fará de nós um punhado de pó....
Quem vai nos enterrar os dias depois que tivermos ido: você ou eles? Quem
levantará as bandeiras deles sobre as nossas muralhas: você ou
um cavalheiro sem esperanças? Quem pendurará os sinos em cima da nossa partida:
você ou um guarda miserável? Tudo está preparado para nós,
então por que delonga a negociação, ó rei do agonia?
VII
Quem sou eu
terminada a noite da estranha?
Quem sou eu terminada a noite da estranha? Acordo do meu sonho
com medo da ambigüidade do dia no mármore da casa, da
penumbra do sol nas rosas, da água do meu chafariz,
com medo do leite nos lábios do figo, com medo
da minha língua, com medo do ar a pentear um salgueiro, com medo
da obviedade do tempo denso, e de um presente que não é mais
presente, com medo da minha passagem por um mundo que não é mais
o meu mundo. Ó desespero, seja misericórdia. Ó morte, seja
bênção para o estranho que vê o oculto mais claro
que uma realidade que deixou de ser realidade. Cairei de uma estrela
do céu numa tenda a caminho de onde?
Onde está o caminho para qualquer coisa? Vejo o oculto mais evidente que
uma rua que não é mais a minha. Quem sou eu terminada a noite da estranha?
Eu caminhava até a essência nos outros, e aqui estou
perdendo a essência e os outros. Meu cavalo desapareceu na costa atlântica,
o meu cavalo na costa mediterrânea finca em mim a lança cruzada.
Quem sou eu terminada a noite da estranha? Não consigo retornar aos
meus irmãos perto da palmeira da velha casa, não consigo descer
até o fundo do meu abismo. Ó oculto! Não há coração para o amor... não
há coração para o amor onde eu possa morar, terminada a noite da estranha...
VIII
Seja a corda para a minha guitarra,
ó água
Seja a corda para a minha guitarra, ó água: os conquistadores chegaram,
os antigos partiram. É difícil lembrar o meu rosto
nos espelhos. Seja-me a memória para eu lembrar o que perdi...
Quem sou eu depois da coletiva partida? Tenho uma rocha
que carrega o meu nome sobre colinas que veem o que passou
e acabou. Setecentos anos me acompanham atrás dos muros da cidade...
Em vão o tempo gira para eu salvar o meu passado num instante
que faz nascer agora a história do meu exílio em mim... e nos outros...
Seja a corda para a minha guitarra, ó água, os conquistadores chegaram,
os antigos partiram para o sul, povos restaurando os seus dias
nos escolhos da transformação: sei quem fui ontem, mas o que serei
amanhã sob as bandeiras atlânticas de Colombo? Seja a corda
para a minha guitarra, ó água. Não há Egito no Egito, nem
Fez em Fez, e Damasco está distante. Não há nenhum sacre
na bandeira da minha gente. Não há rio ao leste do palmeiral cercado
com os cavalos rápidos dos mongóis. Em que Alandalus vou terminar? Aqui
ou lá? Saberei que morri e que deixei aqui
o que há de melhor em mim: o meu passado. Nada me sobrou além da minha guitarra.
Seja a corda para a minha guitarra, ó água. Os conquistadores se foram,
os conquistadores chegaram...
IX
Na grande partida,
eu te amo mais...
Na grande partida eu a amo mais, e em breve
você fechará a cidade. Não há um coração para mim na sua mão, nem
um caminho que me leve. Na grande partida eu a amo mais.
Não há leite para a romã na nossa varanda depois que você tiver ido. O palmeiral diminuiu,
diminuiu o peso das colinas, nossas ruas diminuíram no crepúsculo,
a terra diminuiu quando se despediu de sua terra. As palavras diminuíram,
as histórias diminuíram na escada da noite. E o meu coração está carregado.
Deixe-o aqui ao redor da sua casa a bater e chorar o tempo bom.
Não tenho outra pátria além dele. Na partida eu a amo mais.
Esvazio a alma das últimas palavras: eu a amo mais.
Na partida, as borboletas guiam as nossas almas, na partida
lembramos o botão da camisa que se despreendeu, e esquecemos
a dança dos cavalos nas noites das nossas núpcias, na partida
nos igualamos às aves, sentimos compaixão dos nossos dias, basta-nos o pouco,
de você, basta-me a adaga dourada que faz dançar o meu coração assassinado.
Mate-me, devagar, para que eu possa dizer: eu a amo mais do que
eu disse antes da grande partida. Eu a amo. Nada dói em mim.
Nem o ar, nem a água... a sua manhã é uma manhã sem manjericão, na sua tarde nenhum lírio dói em mim... depois da grande partida.
X
Do amor não quero nada
além do início
Do amor não quero nada além do início, nas praças da minha Granada
as pombas remendam as vestes do dia.
As jarras estão cheias de vinho para a festa depois da nossa partida.
Sobram muitas janelas nas canções para explodir a flor de granada
Deixo o jasmim no vaso, deixo o meu coração pequeno
no armário da minha mãe, deixo o meu sonho rindo na água,
deixo a aurora no mel do figo, deixo o meu dia e anoiteço
na senda até a Praça da Laranja onde as pombas revoam.
Teria sido eu quem desceu até os seus pés para erguer a fala?
Lua branca no leite das suas noites... bate o vento
e eu vejo a rua azul da flauta... bate a tarde
e eu vejo como adoece entre nós o mármore.
As janelas abandonaram os pomares do seu xale. Em outro
tempo eu sabia muito sobre você, colhia gardênias
dos seus dedos. Em outro tempo obtinha pérolas
torneando o seu colo, e um nome num anel por onde iluminava o escuro.
Do amor não quero nada além do início, as pombas voaram
acima da última esfera do céu, as pombas voaram, revoaram.
Restará muito vinho nas jarras, depois da nossa partida,
basta bem pouca terra para nos encontrar e se dar a paz.
XI
Violinos
Violinos choram: vão-se os ciganos a Alandalus.
Violinos choram: vão-se os árabes de Alandalus.
Violinos choram: o tempo ido é sem retorno.
Violinos choram: a pátria ida terá retorno.
Violinos queimam: a mata é escuridão distante.
Violinos sangram: sentem pulsar o sangue.
Violinos choram: vão-se os ciganos a Alandalus
Violinos choram: vão-se os árabes de Alandalus.
Violinos: cavalos nas cordas da miragem, na água gemente.
Violinos: campo violáceo selvagem, longe, circundante.
Violinos: fera fustigada, unha de mulher, o roçar do toque.
Violinos: escala menor, sons de exército em cemitério de mármore.
Violinos: loucos corações no rodopiar de pés da dançarina.
Violinos: bando de aves a migrar da bandeira não erguida.
Violinos: bando de aves a migrar da bandeira não erguida.
Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha.
Violinos: voz de vinho distante a evocar o dia vencido.
Violinos: me seguem, aqui, ali, para vingarem-se de mim.
Violinos: para matarem-me, onde quer que eu termine.
Violinos choram pelos árabes que se vão de Alandalus.
Violinos choram com os ciganos que se vão a Alandalus.
*
Mahmud Darwish ou Mahmoud Darwich (Al-Birweh, 1942 - Houston, 2008), poeta e escritor palestino. A vila em que nasceu foi inteiramente arrasada pelas forças de ocupação israelenses, em 1948, durante a Nakba, e a família do poeta refugiou-se no Líbano, onde permaneceu por um ano. Voltou clandestinamente ao seu país e descobriu que o vilarejo onde nasceu fora substituído pela colônia agrícola israelense de Ahihud. Mahmoud Darwish foi preso diversas vezes entre 1961 e 1967, e a partir da década seguinte passou a viver como refugiado até ser autorizado a retornar à Palestina, para comparecer a um funeral, em maio de 1996. Darwish é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino. Membro da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), afastou-se do grupo em 1993, por discordar dos Acordos de Oslo. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina. Seu trabalho foi traduzido em mais de 20 línguas.
(Revista Zunái, http://www.revistazunai.com/editorial/23ed_mahmouddarwish.htm)
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