quarta-feira, 4 de julho de 2012

A descoberta dos livros

Nasci um ano após a morte de meu avô Gracilia­no Ramos. Só fui conhecer sua obra depois de adulto. Meu pai, o também escritor Ricardo Ramos, quis que o lêssemos (meu irmão e eu) quando estivésse­mos prontos. Entenda-se isso por quando tivéssemos adquirido o hábito de leitura e fôssemos capazes de identificar, compreender e gostar de um bom texto. Ele achava, com razão, que o velho Graça não era um autor para crianças, nem fácil o suficiente para despertar o interesse de não iniciados.
As minhas mais remotas lembranças estão rela­cionadas com livros. Em casa, lia-se muito. Os velhos cedo encontraram uma forma eficiente de nos envol­ver com eles, através de um artifício inteligente. Era um tempo diferente. Pensem em cerca de quarenta e poucos anos atrás. Na época as crianças tinham horário para tudo, inclusive de ir para cama. Dia­riamente, às oito e meia da noite, quando cantavam na televisão, ainda em branco e preto, a musiquinha dos cobertores Parayba, não adiantava discutir. Em todas as casas, meninas e meninos de pijama e banho tomado dirigiam-se para seus quartos.
Conformados ou revoltados, arrastando ou ba­tendo os chinelos, reclamando o que podiam, após a odiada senha televisiva “Já é hora de dormir…”, levantavam-se e recolhiam-se para o sono diário. Não esperavam mamãe mandar. Meu irmão e eu, porém, gozávamos de um privilégio que talvez mui­tos de nossos amigos não tivessem: podíamos ficar acordados uma hora a mais, desde que em nossas camas, lendo.
Assim iniciamos o hábito de nossas vidas. Abastecidos sistematicamente por papai, sempre preocupado em nos alimentar com o que havia de melhor, rapidamente ampliamos em muito esse tempo dedicado aos heróis imaginários. Aquela hora inicial multiplicou-se em muitas. Líamos sempre que podíamos. Começamos, é claro, com Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que li. Lembro que aos sete anos de idade pedi a minha avó Heloísa, viúva de Graciliano, que me contasse uma história. Ela começou a ler e depois terminei sozinho. A imagem que criei de Dona Benta, por sinal, foi guiada pelos sentimentos que tinha em relação à Vó Lozinha, como chamávamos vovó. O mesmo tipo de carinho, atenção aos netos, disposição para gastar tempo com eles. Eu gostava muito também de Tia Nastácia, admirava a audácia da Emília, era um pouco indiferente à Narizinho e queria ser igual ao Pedrinho. Achava o Visconde meio chato.
Monteiro Lobato durou boa parte de nossa infân­cia. Não se lançavam contra o autor as injustiças que se cometem hoje. Acusações ligeiras feitas a partir de frases sem o contexto de época, bastante diferente deste nosso, do mundo em que vivemos agora.
A nossa formação foi bem ampla. A coleção do Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, chegou numa caixa, parecia um brinquedo. E realmente nos diver­timos muito com aquele homem meio-macaco. São também relacionadas a ele as primeiras lembranças que tenho de cinema. Influenciados tanto pelas aventuras que líamos, como pelo que víamos na tela grande, imitávamos, batendo no peito, o grito de desafio de Johnny Weissmuller.
Júlio Verne fez-nos olhar para o futuro, o contato inicial com um prenúncio de ficção científica. Coração, de Edmondo de Amicis, foi o primeiro livro que me fez chorar, tive um choque, a noção, ainda que intuitiva, de que estava frente a frente com um texto importante. E muitos outros autores: Mark Twain, Jack London, Viriato Correa, Daniel Defoe, Francisco Marins e Alexandre Dumas. O romance A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, foi uma de nossas paixões. Lembro da cara de papai quando nos entregou aquele tijolo, ele tinha a certeza da boa escolha.
Depois veio Moby Dick, de Herman Melville e até hoje, quando vejo o mar, lembro-me da grande baleia branca. Uma autora pouco conhecida no Brasil arrebatou nossos corações e mentes: Laura Ingalls Wilder. Era muito difícil parar de ler as aventuras daquela família de colonos americanos. Nossa hora permitida de leitura antes de apagar a luz rapida­mente foi burlada. Mamãe vinha dar boa noite, nos beijava, e retirava-se, fechando a porta do quarto. Ficávamos um tempo em silêncio. Então acendíamos nossos abajures e continuávamos, bem quietinhos, na casa da floresta, à beira do riacho, ou às margens da lagoa prateada. Era comum vararmos as madruga­das. A manhã várias vezes surpreendeu-nos trazendo o momento de irmos para a escola..
Aos poucos sem que percebêssemos, fomos migrando para obras adultas. Apareceram livros que mostravam o nosso idioma muito bem tratado, os nossos melhores clássicos: Machado de Assis, José de Alencar, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Mário e Oswald de Andrade e, o óbvio, Graciliano Ramos. Papai, de maneira didática, falava alguma coisa sobre o autor que nos iria apresentar. Um dia ficamos sabendo que existia Ernest Hemingway. Visivelmente admirava aquele escritor mais do que a média. Indicou-nos primeiro O velho e o mar. Hoje, quando olho para trás, penso nos truques de Ricardo Ramos. Publicitário que foi, imagino ter usado técnicas de propaganda para vender o produto livro aos filhos.
O certo é que comprávamos direitinho as indica­ções dele. Quando concluímos Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, Ilhas da corrente e Paris é uma festa, deu-se por satisfeito. Tinha começado o ciclo americano. Havia uma certa ordem a seguir. Conhe­cemos então Scott Fitzgerald e William Faulkner. E vieram os russos Turguêniev e Dostoiévski. Guerra e paz, de Tolstói, era a preferência maior de papai, declarada em todas as oportunidades. Mais tarde os ingleses Charles Dickens, Jane Austen, Conan Doyle e Virginia Woolf. Ler os franceses foi delicioso: Os Thibault, de Roger Martin du Gard, preparou o terreno, ótimo início, completado anos depois por Zola, Flaubert, Balzac, Stendhal e Proust. E passamos por todos os gêneros. Difícil escolher o meu livro, o de que mais gostei. Talvez A montanha mágica, de Thomas Mann.
Hoje, depois de percorrer incontáveis páginas, cheguei à conclusão que é fundamental variar. De­pois de uma obra difícil, um policial pode cair bem. Alternar contos com poesia, romances e ficção cien­tífica, novelas depois de teatro, melhora o cardápio substancialmente. Sempre leio alguma coisa antes de dormir. O hábito vindo da infância nunca me abandonou. Quando estou muito cansado, o sono batendo forte, pego alguma coisa mais leve. Daí a conveniência de se ter alternativas diferentes.
A consequência imediata de tanta leitura, na es­cola, foi escrever direito. Tanto meu irmão quanto eu tirávamos boas notas. Minhas redações eram sempre elogiadas. Havia uma professora, em especial, que ao terminar meus textos, lidos invariavelmente em voz alta na classe, o que me deixava encabulado e infeliz, dizia: “Filho e neto de peixe, peixinho é”. Sempre me incomodou essa frase. Pelo que guarda de inverídico, de falso, de injusto. Ouvi a vida toda falarem em genética. Peguei-me muitas vezes pensando sobre isso. Tenho irmãos que escrevem bem. Minha irmã, temporã, que nasceu dez anos depois da gente, seguiu o mesmo caminho. Tenho tios, primos e sobrinhos com textos publicados. Seria o sangue de Graciliano tão forte assim? Decididamente não. Aceitar essa ideia seria crer no mágico, no sobrenatural, fazer uma análise superficial sobre a realidade. Nada se constrói sem esforço. Quando somos competentes, há sempre uma razão concreta para isso. Ligada à força de vontade, ao estudo, ao trabalho pessoal.
Tenho amigos que se queixam dos filhos. Falam da falta de capacidade dos seus meninos, incapazes de dar sentido a uma frase. Pergunto então se gostam de ler. Não gostam. A resposta está aí. Em nossa família, nascemos e vivemos em casas rodeadas por livros. Gostamos de tudo num livro. Do formato, da textura, do cheiro. Estantes, livrarias, sebos, bancas de revistas e bibliotecas exercem tremendo fascínio sobre nós. Escrever bem, como já disse, é consequên­cia. Duvido que a carga sanguínea adiantasse alguma coisa se tivéssemos ficado longe da leitura.
Papai não acreditava em inspiração. Dizia que se fosse esperar a vontade chegar, não teria escrito. Poucos vi serem tão metódicos. Diariamente, de domingo a domingo, sentava-se para escrever. Dizia que era um trabalho como outro qualquer. Hora para começar e terminar, disciplina, planejamento. Com ele aprendi que é preciso estar atento ao cotidiano.
Tudo o que vai para o papel parte de observação. Era comum vê-lo agradecer. Dizia, sorrindo: “Obriga­do, você acaba de me dar um conto”. E corria para a máquina. Se os sons fazem parte de nossa memória, o martelar das teclas de ferro imprimindo as palavras ficou lá gravado para sempre. Ainda hoje sou capaz de ouvi-lo. E buscando no passado a sensação que me provocava, percebo que variava, não havendo um padrão único. Às vezes, um ritmo constante, triunfante, celebrando o resultado obtido, feliz. Espécie de música, os dedos de meu pai dançando no teclado da velha Remington. E então, como se houvesse um impedimento súbito, o ba­rulho metálico cessava por completo. Um silêncio pesado e triste pairava no ar. Segundos, minutos, instantes de incerteza. E o matraquear podia recomeçar cheio de ale­gria, ou não. E aí, como consequência da não aprovação do autor, a página corria rápida no rolo de impressão, era arrancada rispidamente do equipamento, e rasgada com resignação. A busca era retomada.
Com muita paciência, dia após dia, vi Ricardo Ramos atrás da precisão, da melhor maneira de dizer o que havia para ser dito, sem nunca perder o rigor, o valor estético, o bom gosto. Essa exigência extremada, na minha opinião, levou-o mais frequentemente ao conto do que a outro gênero. É fácil comprovar isso. Ele mes­mo tinha essa consciência: “Sou metódico no hábito de escrever. Capricorniano típico, apesar de não crer em horóscopo, gosto de escrever rapidamente a tarefa a que me propus, até para ficar livre dela e começar outra. Não que o texto não seja retrabalhado. Talvez com conto isso seja mais fácil, mais possivelmente finito, do que com romance”.
Muito de que li de papai parecia ser releitura, como se tivesse havido um contato anterior com aquele texto. Por dois motivos: o retrato do cotidiano muitas vezes compartilhado; o fato de em tantas ocasiões ouvir a leitura do texto, em voz alta, para mamãe. Opinião bastante presente, capaz de sugerir alterações e avaliar. O autor sempre anseia por uma resposta, quer mostrar o que produziu, precisa de público. Talvez por isso eu utilize tanto a facilidade de ter um blog. Os comentários são quase que imediatos.
Sempre me perguntam qual obra prefiro de Ricardo Ramos. Há nos dias de hoje uma necessidade imediata de classificação. Fugindo um pouco dos contos, sua especialidade, tenho um carinho especial pela novela Os caminhantes de Santa Luzia. Depois de ler esta história várias vezes, percebi que poderia, facilmente, ser filmada. Trabalhei um bom tempo no roteiro. Acabo de concluí-lo.
Convivi com escritores em casa. Gostava de ficar quieto, num canto, escutando as discussões literárias que muitas vezes aconteceram lá. Nas feijoadas de sábado compareciam, com maior ou menor assiduidade, gente como José Paulo Paes, Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira, Ignacio de Loyola Brandão, Raduan Nassar, os irmãos Marcos Rey e Hernâni Donato, Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Gilberto Mansur e Vivina de Assis Viana.
Entre as várias histórias que ouvi sobre meu avô, uma sempre é comentada e está entre as mi­nhas preferidas. Em janeiro de 1929, então com trinta e sete anos, Graciliano enviou ao governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município de Palmeiras dos Índios, onde exercia o cargo de prefeito. Esse texto, com muita qualidade literária, chegou às mãos do poeta e editor Augus­to Frederico Schmidt. Impressionado, procurou o autor para saber se ele tinha outros escritos que pudessem ser publicados. O livro Caetés estava na gaveta, aguardando oportunidade. Schmidt rece­beu os originais e partiu, no mesmo dia, para uma noitada na Lapa. Mais tarde, atarantado, percebeu haver perdido aquela cópia. Um ano depois, Jorge Amado, o ilustrador Santa Rosa, José Américo de Almeida, e o intelectual e militante comunista Alberto Passos Guimarães, amigos e admiradores de Graciliano, insistiram na edição do romance, e Schmidt encontrou-o esquecido no bolso de uma capa de chuva. Finalmente, a publicação aconteceu, mas a fama de editor desorganizado ficou.
E então eu estava pronto, resolvi reler Graciliano. O contato com a obra de meu avô foi o mais diferente dos impactos com textos que eu tive. Ele dizia as coisas de maneira tão característica que dispensava assinatura. Eu podia identificar qualquer parágrafo lido, em qualquer lugar, isolado, como sendo dele. Aos poucos, avançando página após página, conse­gui abandonar o orgulho bobo de neto. Consegui analisá-lo como escritor, guardar distância suficiente para ler, apenas ler. E aquele parente do qual ouvira falar a vida toda perdeu o distanciamento e ganhou uma intimidade real. Deixou de ser o avô imaginado, o motivo de vaidade na escola, o herói das histórias que vovó contava, o vovô Grace. Passou a ser o escritor Graciliano Ramos, com a reverência respei­tosa devidamente guardada. Exemplo impossível e possível. A consciência de que ninguém escreverá como ele. O ensinamento de que o texto é para ser trabalhado e retrabalhado. Enxuto. Que as palavras não obedecem ao acaso, há sempre um jeito melhor de se apresentar uma ideia e temos de encontrá-lo, procurá-lo à exaustão. Escrever não é fácil, é penoso e preciso. E então percebi a necessidade de escrever. Procuro, modestamente, seguir os conselhos que Graciliano deu em entrevista concedida em 1948: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar, como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

(Ricardo Filho, “A descoberta dos livros”. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios Graciliano Ramos. Duetto Editorial)

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