quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O self-made man

Para ele tudo começou num momento de silêncio estilhaçante. Alguma coisa desprendeu-se e caiu. Instintivamente, seu coração compreendeu que essa ‘coisa’ era a idéia há tanto tempo acalentada de si mesmo como um indivíduo, uma entidade norte-americana chamada ‘self-made man’. Algo aprendido através de gerações de ancestrais irascíveis com a mesma linha dura do queixo e o mesmo nariz adunco. Tinha retratos deles no consolo de pedra de sua lareira. Ferrotipos do tempo da Guerra Civil, do seu tetra-tetra-tetravô, um homem chamado Lemuel P. Dodge, que perdeu uma orelha lutando pelo norte, um braço lutando pelo sul e finalmente foi enforcado por ‘adultério’ em Ojinaga e arrastado pelas ruas de terra até a cabeça se separar do tronco. Havia outros, homens com longas barbas e chapéus de palha com abas largas enfileirados no alto de gigantescas carroças de feno, forcados de madeira na mão, quase bíblicos contra o céu da pradaria. Ferroviários em vagões de gado, abanando chapéus-coco, explodindo as montanhas de granito para abrir caminho, determinados na sua convicção do ‘Destino Manifesto’. Depois, gerações seguintes, já com o misterioso lampejo da dúvida insinuando-se nos olhos. Pilotos de caça com capacetes de couro e echarpes de seda segurando as asas de um P-38, mas o bravo sorriso para as câmeras mostra agora uma sombra, como de ovelha que sabe que sua hora chegou.
Às vezes ele ficava à noite estudando aqueles rostos, o fogo tremeluzindo sobre a laje da lareira. Apanhava os porta-retratos para examinar melhor e andava pela sala lentamente, fumando e inclinando o vidro para evitar o brilho das chamas. Sentava com os retratos no colo e os limpava suave e carinhosamente com seu grande lenço azul. Sentia haver ali uma conexão, mais real do que se podia imaginar. Mais real do que os parentes vivos espalhados pelos mais remotos cantos do país, lugares que ele não tinha a menor intenção de visitar, como Tampa ou Seattle. Lugares que era como se estivessem no outro lado da Lua. A solidão era um fato da natureza, pensava. Tinha aprendido a não olhar além dela, evitar a traição da mente no que dizia respeito a mulheres, evitar toda a fantasia da sedução. Nunca valeu apena, no passado. Não podia confiar na mente para isso. Só lhe trouxe o terrível sofrimento. Agora, finalmente, chegava a um pequeno armistício consigo mesmo.
Levantou-se e pôs a foto no lugar, sobre a lareira. A de seu avô dirigindo uma caminhonete Modelo T, rebocando uma mula. Deteve-se algum tempo na imagem, ouvindo as corujas que alimentavam os filhotes no topo da velha tulipeira no quintal. Era um ritual noturno pelo qual esperava ansiosamente toda primavera. Costumava apanhar a lanterna e sair silenciosamente para a varanda, iluminando o tronco largo e fendido até prender o ninho num perfeito círculo de luz. Nesse ano eram dois os filhotes, e ficaram quietos assim que a luz atingiu seus olhos. A mãe, inclinada sobre eles, tinha uma pequena cobra negra nas garras. Virou de costas para a luz e bateu as asas, depois se acalmou. Filhotes da primavera revoaram chilreando, na frente da cena, substituindo os gritos estridentes das corujas, depois desaparecem, suas vozes abafadas pelo ronco distante de um caminhão a caminho do sul. Ele desligou a lanterna, esperando que as corujas recomeçassem a gritar, esperando que alguma coisa viesse ocupar o silêncio imóvel e crescente. Tentou ouvir bezerros mugindo à distância. Nada aconteceu. Procurou ouvir algum sinal do vento. Nada. Pigarreou para, pelo menos, ouvir a si mesmo, sentir a própria presença. Soou como o ruído de um homem. De qualquer homem. Um ser humano sem nada que o distinguisse. Como se um estranho estivesse ao seu lado na varanda. Virou a cabeça. Não havia ninguém. Apenas sua respiração. O sangue pulsando. Fez menção de falar, mas “com quem?”, pensou. “Dizer o quê? De que adianta?” Seu coração acelerou e toda a sua linguagem interior parecia ter se acumulado num nó latejante na base da nuca. Queimava como uma noz pequena e negra, fechando sua garganta. O pânico começou a dominá-lo. Já não havia nenhuma fronteira entre sua pele e a noite, entre sua respiração e o ar denso que o rodeava. Voltou-se para a árvore negra e maciça e olhou para cima. O olho da coruja mãe piscou para ele. Amarelo, depois negro. Os olhos dele desapareceram. O vazio o encheu por completo. Parecia correr em suas veias, tomando cada pensamento, cada sentido. Não deixou nada para trás, exceto a sensação dominante da própria respiração. Uma pulsação que ele não criava nem controlava. “Paz”, pensou. Com a rapidez do pensamento, a paz o deixou.


(Sam Shepard, Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Para um menino na guerra

Amadeu, eu me lembro de você. De como era frágil, de como tinha medo. Eu também era frágil, e tinha medo. Dois terços de nós, ou mais, eram assim. Você tinha olhos grandes, que deveriam ser bonitos hoje, mas que na época pareciam desproporcionais ao tamanho do rosto, miúdo e magro. Você chorava quando, sentado sobre uma das pernas, elas formigavam. Isso era imperdoável. Chorava quando lhe diziam para que o fizesse. E todos riam. Você não tinha nem o perdão ou o azar de ser estudioso. Se fosse, pelo menos para algumas coisas não o teriam desprezado. Mas sentava-se perto da janela e ficava distraído olhando através dela com o olhar oscilando entre o vazio e o sonho. Quando a professora pedia que continuasse a leitura de onde alguém tinha parado, você nunca sabia onde estava. E, quando descobria, gaguejava, se enroscava em murmúrios incompreensíveis, pálido como os que nunca iam para a praia nas férias. Do que mais me lembro é de sua voz. Som e cheiro são coisas de que nunca me esqueço, embora não consiga descrevê-las. Que dizer de sua voz, se não que era uma melodia tocada um tom acima? Você não devia ser pobre, a julgar pelo carro com que vinham buscá-lo. Tinha carro e por isso nunca um estranho o pegaria no caminho da escola e enfiaria os dedos em partes suas que você sequer conhecia direito. Pelo menos não era menina, e não tinha borrachas cor-de-rosa com cheiro de morango que eram sempre roubadas por alguémque o ameaçasse de calúnia caso o furto fosse delatado. Mas tenho certeza de que sofria por ser o último escolhido para dançar a quadrilha nas festas juninas. Como na aula de educação física. Porque pertencia ao grupo daqueles a que faltavam a coordenação, a beleza e a graça de movimentos das crianças felizes. Aos que não possuíam um corpo com que se defender. Pelo menos não tinha amigos que o diminuíssem. Não tinha amigos, em absoluto, o que deveria facilitar muito a compreensão de sentimentos confusos. Pois como entender que se possa, deliberadamente, humilhar um amigo? O que eu queria dizer é que jamais compreendi quem tem nostalgia do passado.
No fim de 1984, disseram que você ia embora. Ia para o Líbano, que eu sabia vagamente ser mais distante do que a Argentina e mais perigoso por causa de uma guerra. Um conflito que durava mais do que sua existência inteira. Mesmo assim, nem lhe desejei boa sorte.
Faz quase trinta anos e eu ainda me lembro. Na verdade eu me lembro todos os dias. E lembro que passei muito tempo imaginando que você tivesse partido por causa das coisas ruins que lhe aconteciam na escola. Pensei que era porque ninguém tivesse feito nada contra os inimigos.
Um ano depois de sua partida, a diretora da escola, numa reunião de pais - contou minha mãe -, disse que você tinha morrido. Não da guerra, mas de um câncer silencioso, desconhecido. Pensei que provavelmente tinha sido engendrado aqui. E que eu não pudera evitar. De repente se abriu como uma flor raivosa na violenta primavera. Foi o que soube: em questão de um mês, tudo estava acabado. Ouvi ainda o resto: o tratamento brutal, o desespero da última tentativa. Foi a primeira vez que eu ouvi falar tão concretamente na morte.
E eu sobrevivi.


(Leila Guenther)