quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um trecho de Marguerite Duras

Um dia, já idosa, no saguão de um lugar público, um homem veio em minha direção. Ele se apresentou e me disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando era jovem, eu vim para lhe dizer que, para mim, é mais bonita agora do que quando era jovem, eu gostava menos de seu rosto de moça do que esse que você tem agora, devastado.”
Penso com frequência nessa imagem que apenas eu vejo e da qual nunca falei. Ela está lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É, entre todas, aquela que mais me agrada, aquela na qual me reconheço, aquela que me encanta.
Muito depressa na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos já era muito tarde. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se com todo mundo é assim, eu nunca perguntei. Parece que já me falaram desse acometimento do tempo que às vezes nos acerta enquanto atravessamos os anos mais jovens, os mais celebrados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços um a um, mudar a relação que existia entre eles, tornar os olhos mais proeminentes, o olhar mais triste, a boca mais definida, marcar a fronte com sulcos profundos. Em vez de me apavorar com isso, vi esse envelhecimento se operar no meu rosto com o interesse que eu teria levado no desenrolar de uma leitura. Eu sabia também que não me enganava, que um dia ele desaceleraria e tomaria seu curso normal. As pessoas que me conheceram com dezessete anos na época de minha viagem a França ficaram impressionadas quando me viram de novo, dois anos depois, aos dezenove anos. Aquele rosto, o novo, eu o guardei. Ele foi o meu rosto. Continuou envelhecendo, sim, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, uma pele sulcada. Não é caído como certos rostos de feições finas, os contornos se mantiveram, mas sua matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.


(Marguerite Duras, O amante. A tradução do trecho é minha)

Um comentário:

  1. Fortíssimo texto.
    Lembro-me dessa frase, de quando eu era mais jovem: "muito cedo em minha vida foi tarde demais". Não me lembrava que era dela.

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