sábado, 26 de setembro de 2009

Das perdas


Ayde Veiga Lopes. Sem título.

 
Por alguns momentos, sentado num dos últimos bancos, ele teve a impressão de que o veículo tombaria, derrubado pelos ventos do temporal. Isso, aliado ao fato de pensar, com angústia, no que o aguardava, o impedira de dormir, por meia hora seguida. E, com a angústia, ele se esquecia de respirar, esse ato para ele tão voluntário como todas as coisas que tentava controlar. De repente, com a interrupção do ar, sentia-se sufocar, com o coração palpitando de tal forma que julgava suas batidas perceptíveis ao vizinho do lado. Então dava um grande suspiro e tentava pensar com mais calma no motivo por que estava fazendo aquela viagem, depois de uma longa ausência. Julgara que o afastamento o colocaria a salvo da saudade, da dor, da impotência de resguardar tudo o que lhe era caro, quando ele na verdade só fazia despertar, de uma forma aguda e nas horas felizes, esses sentimentos de que um dia tentara se libertar. Talvez a paz de espírito tivesse estado perto de onde julgava mesmo estar o problema, ou talvez essa paz não fosse algo que ele, do jeito que era, achasse digno de atingir um dia, onde quer que estivesse.
Quando o ônibus chegou aos arredores da cidade, notou que tudo estava lá, em seu devido lugar, quase sem mudanças, mas definitivamente perdido. O mal-estar da viagem cessara. No lugar dele, veio uma dor mais concreta e palpável: o sofrimento de não conseguir vislumbrar o mundo sem algo muito importante. Um mundo – o seu mundo – amputado, ao qual faltava um pedaço impossível de ser refeito. Se ao menos ele acreditasse que haveria um depois, algo além, um deus, por assim dizer, ele estaria mais tranquilo, seria até capaz de suportar, mas ele tivera a infelicidade de herdar do pai, aquele pai estranhamente submisso, uma profunda falta de fé. O pai, ao menos, tentara. Esforçara-se para adquirir algo que não tinha, e nunca teria, e por isso ficou louco, murmurando sempre e apenas “por que me abandonaste?” não a deus, mas ao próprio filho. Mas ele nunca teria ido tão longe. O mais longe que fora não era distante de onde sempre esteve. E agora estava de volta.
O ônibus que o trazia chegou à rodoviária às 11h da manhã. A viagem tinha durado mais do que as dez horas habituais, por causa da chuva que caíra durante boa parte do percurso.
Ao desembarcar, trazia consigo uma pequena maleta, uma garrafa de água e um sanduíche que não conseguira comer. Sentiu-se perdido e, como sempre acontece quando nos sentimos perdidos, só. Apesar de toda aquela gente que movimentava o terminal, ele era incapaz de enxergar alguma coisa. E, mesmo se alguém lhe dissesse “eu o levo pela mão”, ele não poderia ouvir. Tudo lhe parecia abandonado, derruído. Resolveu se sentar um pouco num dos bancos, a fim de tomar força. Precisava de força, de uma coragem que ele não tinha tido, nem mesmo quando partira, há anos. Só hoje se dera conta de que ter ido embora dali não fora um ato de coragem, mas uma retirada desastrada de alguém que, na fuga, deixa cair da valise vários pertences pelo caminho.
Esteve a ponto de chamar um táxi. Tentou fazer um gesto, mas o que seria dele se perdeu no ar. Ficou olhando a fila dos carros, nos quais entravam pessoas cujo destino se ignorava, a quem talvez aguardassem provações mais penosas que a dele. Só ele não conseguia. Ele sabia que era diferente, não para o bem, mas para o mal: era apenas um feto frágil que não poderia nunca ter vindo à luz. Diversos táxis partiram levando passageiros, sem que ele se decidisse a tomar um. Chorou impassível como um espectador no cinema que se emociona, com certo pudor, com um drama alheio e fictício. Estava cansado. Não podia se mover. Os pensamentos cessaram e sua cabeça ficou pairando num estranho vazio durante muito tempo. Depois, quase recomposto, olhou o relógio, voltando a si. Já anoitecia. O enterro devia ter terminado. Com esforço, separou algum dinheiro, jogou na lixeira a garrafa de água, o sanduíche e a maleta, e dirigiu-se ao guichê para comprar uma passagem de volta.




(Leila Guenther)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Bardos II



Suzanne

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.

(Leonard Cohen)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Hora marcada

Perto da calçada, ele para, atraído pelo relevo de um objeto no chão. É um relógio de pulso, com o vidro quebrado, destruído talvez por um carro ou apenas vítima de alguém que o tenha arremessado de uma janela. O relógio parou às 13h55. Ele acha que essa é uma boa hora para começar, ou para parar de. Não sabe o que faz ali, parado também. As pernas doem, por isso imagina que tenha andado bastante. Lembra-se vagamente de ter passado por avenidas largas e cheias de gente, cruzado pontes e atravessado túneis que propagavam ao infinito o ruído dos carros. Lugares onde não se vê a luz. De onde não se diz se lá fora faz escuro. Ele se lembra também, de uma forma menos nítida e no entanto mais vívida, de um quintal com uma mesa comprida em torno da qual várias pessoas, cujos rostos ele não identifica mais, bebiam e comiam o que ele preparava. Ele tinha pessoas ao redor de si. Ele falava. Ele existia. Havia cachorros cercando a mesa, à espera de que lhes dessem comida. Havia sol. Um sol cujos raios apareciam de vez em quando entre a folhagem que a brisa movimentava. Mas isso parecia tão distante no tempo que ele não tinha a certeza de tê-lo mesmo vivido. Um sonho, quem sabe. Agora ele está cansado. Tem sede. Senta-se na beira da calçada com os braços apoiados sobre os joelhos, de modo que as mãos pendem para baixo. Um cachorro se aproxima e enfia a cabeça sob suas mãos. Ele o afaga. O cachorro fecha suavemente os olhos e põe a língua de volta para dentro da boca. Parece cansado. Deve ter sede. Pode ter percorrido vários lugares, avenidas largas e cheias de gente, cruzado pontes e atravessado túneis que propagavam ao infinito o ruído dos carros. O homem olha de súbito para o cão, retira as mãos de cima do animal, afivela o relógio no pulso. Tem a sensação de já ter feito isso antes, de ter vestido inúmeras coisas inúteis, velhas, quebradas. Trastes que achou pelo caminho, sapatos furados, chapéu amassado, camisa sem botão. Então olha para a nova posse. Diz para si mesmo que já está na hora, que já não é sem tempo. São 13h55. Ele se levanta e parte na direção oposta de onde julga ter vindo. O cachorro o segue.
(Leila Guenther)

Triunfo


Quando Narciso nasceu, o cego Tirésias, que já vira o que era ser homem e o que era ser mulher, anunciou aos pais do belo menino que este viveria bastante e que durante muito tempo só saberia enxergar a si mesmo. Os pais, o deus Cefiso e a ninfa Liríope, não ficaram surpresos com o destino: com uma origem tão nobre, seria difícil que Narciso não se achasse, em sua longa existência, o centro do mundo.
As épocas transcorreram sem que Narciso fosse tocado pelo amor, que, no entanto, despertava tragicamente nos outros: a ninfa Eco, desesperada de paixão não-correspondida, enlouqueceu, passando a repetir o nome do amado para qualquer coisa que lhe dissessem, o jovem Amínias se suicidou com uma espada dada pelo próprio Narciso. Santos, pecadores, pintores e outros artistas o amaram sem que ele percebesse, tão concentrado estava na imagem de si mesmo. Até que, um dia, ao buscar seu reflexo numa fonte, como costumava fazer no exercício do amor-próprio, viu lá dentro o corpo de uma jovem afogada. Foi a primeira vez que Narciso viu algo mais bonito que ele próprio. Não se sabe se por amor àquela imagem ou por ódio de sua beleza, ele se matou, afogando-se ali também.
Nesse lugar nasceu uma flor, a que deram o nome de ofélia.



Leila Guenther. Texto publicado em Ciência e Cultura (http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252010000200028&script=sci_arttext)


(John Everett Millais, Ophelia) 

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bardos I

"And I will never grow so old again..."


(Van Morrison, "Sweet thing")