terça-feira, 16 de junho de 2009

Cura de um cego

Consta que um homem cego de nascença perambulava por terras áridas e longínquas, num mundo escuro e largo, à procura de quem o curasse, quando ouviu o tropel da multidão que passava. Perguntou o que era. Anunciaram-lhe que Ele passava por ali. Conhecendo de ouvido seu poder, rogou-Lhe um milagre. “Que queres que eu te faça?”, Ele indagou. Respondeu o cego: “que eu veja”. “Tens certeza?”, replicou Ele, desapontado. “Por misericórdia”. “Pois assim seja feito; tua cegueira te perdeu, mas tua obstinação te salvará”. E o cego pôs-se a enxergar. Consta também que esse homem, antes sem visão, tendo então vivido e visto, furou os próprios olhos, num assomo de desespero, à maneira tebana.


(Leila Guenther. O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006)

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