segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Duas poetas de Minas

A MENOR PARTE

Que letra foi gravada em minha alma?
Qual palavra me formou?
Ando, caminho por corredores iluminados
pelos laranjas e amarelos das fotografias.
Trago as unhas escuras como as de quem procurou
por objetos na casa incendiada.

Venta sobre o mármore:

Esqueceram-me.


(Adriana Versiani dos Anjos)




permanece na língua
o sabor de lima

e é doce -
como diz a memória

essa fruta
colhida
fora do tempo


(Mariana Botelho)

domingo, 22 de novembro de 2009

Quando Alice encontrou K


Quando ali se encontrou cá, ou seja, quando desse lado do espelho – aqui –, Alice encontrou K, K lhe mostrou um inseto num tribunal. E assim ensinou a Alice que a vida às vezes é absurda, mas nunca matemática. Alice se esqueceu do coelho, do gato, mas não do baralho, e então entendeu que tinha sido expulsa de lá pelo próprio pai. Uma vez do lado de cá do espelho da verdade, foi posar madura e quase nua para um fotógrafo pálido e arquejante, aos nove anos de idade.




(Leila Guenther)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antologia canina III - Os cães de Tokushima


Os cães de Tokushima merecem aqui menção particular, já pelo porte, já pelos costumes.
Como porte, são em regra magníficos, de grande corpulência; possivelmente, parentes próximos dos cães de luta da província de Tosa, não muito distante, pouco mestiçados com a canzoada reles que eu encontrava em Kobe.
Como costumes, convém saber que os cães de Tokushima vivem em geral em perfeita liberdade, conhecendo muito pouco a coleira e ainda menos a corrente. Têm seus donos nominais; mas acontece que, por miséria, ou por mesquinhez, ou por indolência, quase deles não cuidam. Os cães de Tokushima pouco se ralam por este fato; conhecem os donos vagamente; dormem em qualquer parte, pelas ruas; todos os dias, por duas ou três vezes, fazem visitas domiciliárias a uma certa clientela humana, furando pelos cercos dos jardins, saltando os muros, invadindo os pátios, indo até às vizinhanças das cozinhas, cheirando, rebuscando pelo lixo, devorando aqui uma espinha, ali um resto de batata; e vão embora, graves, dignos, com ares de verdadeiros agentes, que são, da manutenção da higiene pública.
Os cães de Tokushima, menos favorecidos da fortuna do que os cães de outros países, desconhecem o prazer do osso. É o caso que a gente desta terra, que até há poucos anos, como a grande maioria dos japoneses, não comia carne de vaca, come-a agora, mas vendida apenas em pedaços miúdos de febra, que se prepara em casa, em suki-yaki, isto é, guisando-a com cebolas, com açúcar e outros condimentos; o osso é excluído da caçarola doméstica.
Quanto às pesquisas domiciliárias destes industriosos visitantes, devo dizer, para lhes completar o caráter, que por várias vezes tenho estendido mão carinhosa àqueles, uns sete ou oito em número, que frequentam o meu lar.
A princípio, o gesto fazia-os fugir, apavorados; agora, suportam-no sem espanto, morno o olhar. O cão de Tokushima desconhece o uso das festas e as carícias; se as recebe por acaso, não sabe retribuí-las; quer comer, não quer festas. No respeitante ao seu grau de civilização, encontra-se ainda quase selvagem, quase nômade; não é ainda o companheiro, o amigo do homem; é, quando muito, o seu parasita, cauteloso e desconfiado.
É bem de ver que o homem de Tokushima também ainda não é o amigo do cão. Sê-lo-á um dia, certamente, com o andar dos tempos, quando confiar menos na sua boa estrela e nos homens, seus irmãos. Quanto a mim, a afeição humana pelos brutos é um sentimento emanado do agro das desilusões e dos revezes recebidos na existência social; quem sofre com os homens busca consolação fora deles.



(Wenceslau de Moraes, O Bon-Odori em Tokushima. Porto, Companhia Portuguesa Editora Ltda.)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Antologia canina II - Do canto XVII da Odisseia



Respondendo-lhe assim falou o sofredor e divino Ulisses:
“Compreendo o alcance do que dizes: falas a bom entendedor.
Mas vai tu à frente; eu ficarei para trás, aqui neste sítio.
Estou habituado a levar pancada e a apanhar com coisas em cima.
O meu coração aguenta: pois já muito sofri no mar
E na guerra. Que isto agora se junte ao que já aguentei.
Um estômago cheio de fome é que nenhum homem pode esconder,
Coisa terrível, que muitos males traz aos mortais.
É por causa da fome que as naus de belos bancos são lançadas
No mar nunca vindimado, trazendo flagelos a pobres desgraçados.”

Assim falaram entre si, dizendo estas coisas.
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
Criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
Para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
O cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
Jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
Até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Ali jazia o cão Argos, coberto de carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
Começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
Só que já não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

“Eumeu, que coisa estranha que este cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
Se tem rapidez que condiga com o seu belo aspecto,
Ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
Que os príncipes alimentam somente pela sua figura.”

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
“É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspecto e as capacidades que tinha
Quando o deixou Ulisses, ao partir para Troia,
Admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
Que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas agora está nesta desgraça: o dono morreu longe,
E as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhe dão ordens,
Não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
Quando chega para ele o dia da sua escravização.”

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
E foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
Depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.




(Homero, Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003.)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O céu que nos protege


(Ryuichi Sakamoto, "The sheltering sky")


A morte está sempre a caminho, mas o fato de você não saber quando ela chegará parece excluir da vida sua finitude. É aquela terrível precisão que tanto odiamos. Mas, porque não sabemos, pensamos na vida como um poço inesgotável. Mesmo assim, tudo acontece apenas um número fixo de vezes, e um número bem pequeno, na realidade. Quantas vezes mais você se lembrará de uma certa tarde de sua infância, uma tarde tão profundamente enraizada no seu ser que você sequer pode conceber a vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais você vai contemplar o surgimento da lua cheia? Talvez vinte vezes. E, ainda assim, tudo parece ilimitado.


(Paul Bowles, O céu que nos protege. A tradução do trecho é minha)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Antologia canina (na feliz expressão de Carpeaux) I - A ilha Oxias


Essas perseguições nos países do Leste não são nada se comparadas ao que, em outra época, aconteceu na Turquia. O desenhista e escritor Sem as testemunhou. As ruas de Constantinopla eram célebres por sua população de cachorros, animais tranquilos, sociáveis. Pierre Loti dizia que gostava muito deles. Eram milhares. Em 1910, a polícia decidiu eliminá-los. Mas eles não foram mortos: foram deportados para uma ilha do mar de Marmara, a ilha Oxias. Sol a pino, sem água, sem comida.
Sem viu a rede de cães que os curdos prendiam com enormes ganchos de ferro. Eles eram jogados, “ofegantes como simples armênios”, em carroças puxadas por búfalos. Regularmente, gabarras carregadas de jaulas levavam novas vítimas para a ilha. Oxias, a distância, chamava a atenção por seu fedor. Milhares de cães e pássaros disputando as carniças lutavam até mesmo na água, sobre a qual flutuavam os cadáveres. Muitos se afogavam.
Eis o que os homens faziam aos cães enquanto não aplicavam os mesmos métodos aos seus semelhantes.



(Roger Grenier. Da dificuldade de ser cão. Trad. Lucia Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um trecho de Marguerite Duras

Um dia, já idosa, no saguão de um lugar público, um homem veio em minha direção. Ele se apresentou e me disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando era jovem, eu vim para lhe dizer que, para mim, é mais bonita agora do que quando era jovem, eu gostava menos de seu rosto de moça do que esse que você tem agora, devastado.”
Penso com frequência nessa imagem que apenas eu vejo e da qual nunca falei. Ela está lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É, entre todas, aquela que mais me agrada, aquela na qual me reconheço, aquela que me encanta.
Muito rápido na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos já era muito tarde. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se com todo mundo é assim, eu nunca perguntei. Parece que já me falaram desse acometimento do tempo que às vezes nos acerta enquanto atravessamos os anos mais jovens, os mais celebrados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços um a um, mudar a relação que existia entre eles, tornar os olhos mais proeminentes, o olhar mais triste, a boca mais definida, marcar a fronte com sulcos profundos. Em vez de me apavorar com isso, vi esse envelhecimento se operar no meu rosto com o interesse que eu teria levado no desenrolar de uma leitura. Eu sabia também que não me enganava, que um dia ele desaceleraria e tomaria seu curso normal. As pessoas que me conheceram com dezessete anos na época de minha viagem a França ficaram impressionadas quando me viram de novo, dois anos depois, aos dezenove anos. Aquele rosto, o novo, eu o guardei. Ele foi o meu rosto. Continuou envelhecendo, sim, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, uma pele sulcada. Não é caído como certos rostos de feições finas, os contornos se mantiveram, mas sua matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.


(Marguerite Duras, O amante. A tradução do trecho é minha)

Lobos

- Você gosta de mim?, perguntou, agachando-se, até que seus olhos ficassem na altura dos de seu interlocutor. O cão a fitou com o mesmo olhar límpido de sempre. Ela sorriu, talvez de si mesma. Fazia vários dias que os lábios não executavam esse movimento. Fazia tempo que ela não tinha vontade de contrair nenhum músculo em sinal de alegria por estar viva. Ela era injusta. Era uma perfeita estranha até para si mesma. Precisava tanto dos outros que fugia deles. Ela simplesmente não saberia como. Como reclamar para si o direito a uma amizade, por exemplo. Como dizer para a colega da classe do inglês que fossem tomar um café. Os outros eram perfeitos estranhos. E ela não saberia. Por isso perguntava ao cão. Esse cão que a suportava todos os dias, todos os momentos, e cuja companhia, para ser sincera, ela preferia à de qualquer outro ser humano, na falta de lobos. Ela não precisava fazer nada. Ele não precisava também. Eles se seguiam pela casa. Só isso. Ela falava com ele, quando a vontade de comunicação, de articular algum som, parecia estar prestes a irromper de sua garganta como um vômito, do qual alguém tem pressa em se livrar, mas para o qual não se quer olhar mais, uma vez expelido. E ficava intimamente grata que ele não pudesse responder.
Quando a solidão e o estranhamento a abalavam a ponto de sentir náusea, era a ele que se agarrava e que abraçava com uma fúria tal que temia quebrar-lhe os ossos pequenos e frágeis. Era assim que ela fazia. Só para se lembrar de quem era. (Ela sonhava com uma matilha. Com lobos nos quais se pudesse fiar apenas pelo cheiro.)

(Leila Guenther)

sábado, 26 de setembro de 2009

Das perdas

(Ayde Veiga Lopes. Sem título)


Por alguns momentos, sentado numa das últimas poltronas, ele teve a impressão de que o veículo tombaria, derrubado pelos ventos do temporal. Isso, aliado ao fato de pensar, com angústia, no que o aguardava, o impedira de dormir, por meia hora seguida. E, com a angústia, ele se esquecia de respirar, esse ato para ele tão voluntário como todas as coisas que tentava controlar. De repente, com a interrupção do ar, sentia-se sufocar, com o coração palpitando de tal forma que julgava suas batidas perceptíveis ao vizinho do lado. Então dava um grande suspiro e tentava pensar com mais calma no motivo por que estava fazendo aquela viagem, depois de tão longa ausência. Julgara que o afastamento o colocaria a salvo da saudade, da dor, da impotência de resguardar tudo o que lhe era caro, quando ele na verdade só fazia despertar, de forma aguda e nas horas felizes, esses sentimentos de que um dia tentara se libertar. Talvez a paz de espírito tivesse estado perto de onde julgava mesmo estar o problema, ou talvez essa paz não fosse algo que ele, do jeito que era, achasse digno de atingir um dia, onde quer que estivesse. 
Quando o ônibus chegou aos arredores da cidade, notou que tudo estava lá, em seu devido lugar, quase sem mudanças, mas definitivamente perdido. O mal-estar da viagem cessara. No lugar dele, veio uma dor mais concreta e palpável: o sofrimento de não conseguir vislumbrar o mundo sem algo muito importante. Um mundo – o seu mundo – amputado, ao qual faltava um pedaço impossível de ser refeito. Se ao menos ele acreditasse que haveria um depois, algo além, um deus, por assim dizer, ele estaria mais tranquilo, seria até capaz de suportar, mas ele tivera a infelicidade de herdar do pai, aquele pai estranhamente submisso, uma profunda falta de fé. O pai, ao menos, tentara. Esforçara-se para adquirir algo que não tinha, e nunca teria, e por isso ficou louco, murmurando sempre e apenas “por que me abandonaste?” não a deus, mas ao próprio filho. Mas ele nunca teria ido tão longe. O mais longe que fora não era distante de onde sempre esteve. E agora estava de volta.
O ônibus chegou à rodoviária às 9h da manhã. A viagem tinha durado mais do que as dez horas habituais, por causa da chuva que caíra durante boa parte do percurso.
Ao desembarcar, trazia consigo uma pequena maleta, uma garrafa de água e um sanduíche que não conseguira comer. Sentiu-se perdido e, como sempre acontecia nessas situações, só. Apesar de toda aquela gente que movimentava o terminal, ele era incapaz de enxergar alguma coisa. E, mesmo se alguém lhe dissesse “eu o levo pela mão”, ele não poderia ouvir. Tudo lhe parecia abandonado, derruído. Resolveu se sentar um pouco no banco mais próximo da saída a fim de tomar força. Precisava de força, de uma coragem que ele não tinha tido nem mesmo quando partira, há anos. Só hoje se dera conta de que ter ido embora dali não fora um ato de coragem, mas uma retirada desastrada de alguém que, na fuga, deixa cair da valise vários pertences pelo caminho.
Esteve a ponto de chamar um táxi. Tentou fazer um gesto, mas o que seria dele se perdeu no ar. Ficou olhando a fila dos carros, nos quais entravam pessoas cujo destino se ignorava, a quem talvez aguardassem provações mais penosas que a dele. Só ele não conseguia. Ele sabia que era diferente, não para o bem, mas para o mal: era apenas um feto pela metade, que não poderia nunca ter vindo à luz. Diversos táxis partiram levando passageiros, sem que ele se decidisse a tomar um. Chorou impassível como um espectador no cinema que se emociona, com certo pudor, com um drama alheio e fictício. Estava cansado. Não podia se mover. Os pensamentos cessaram e sua cabeça ficou pairando num estranho vazio durante muito tempo. Depois, quase recomposto, olhou o relógio, voltando a si. Já anoitecia. O enterro devia ter terminado. Com esforço, separou algum dinheiro, jogou na lixeira a garrafa de água, o sanduíche e a maleta, e dirigiu-se ao guichê para comprar uma passagem de volta.

(Leila Guenther)


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Bardos II



Suzanne

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.

(Leonard Cohen)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Hora marcada

Perto da calçada, ele para, atraído pelo relevo de um objeto no chão. É um relógio de pulso, com o vidro quebrado, destruído talvez por um carro ou apenas vítima de alguém que o tenha arremessado de uma janela. O relógio parou às 13h55. Ele acha que essa é uma boa hora para começar, ou para parar de. Não sabe o que faz ali, parado também. As pernas doem, por isso imagina que tenha andado bastante. Lembra-se vagamente de ter passado por avenidas largas e cheias de gente, cruzado pontes e atravessado túneis que propagavam ao infinito o ruído dos carros. Lugares onde não se vê a luz. De onde não se diz se lá fora faz escuro. Ele se lembra também, de uma forma menos nítida e no entanto mais vívida, de um quintal com uma mesa comprida em torno da qual várias pessoas, cujos rostos ele não identifica mais, bebiam e comiam o que ele preparava. Ele tinha pessoas ao redor de si. Ele falava. Ele existia. Havia cachorros cercando a mesa, à espera de que lhes dessem comida. Havia sol. Um sol cujos raios apareciam de vez em quando entre a folhagem que a brisa movimentava. Mas isso parecia tão distante no tempo que ele não tinha a certeza de tê-lo mesmo vivido. Um sonho, quem sabe. Agora ele está cansado. Tem sede. Senta-se na beira da calçada com os braços apoiados sobre os joelhos, de modo que as mãos pendem para baixo. Um cachorro se aproxima e enfia a cabeça sob suas mãos. Ele o afaga. O cachorro fecha suavemente os olhos e põe a língua de volta para dentro da boca. Parece cansado. Deve ter sede. Pode ter percorrido vários lugares, avenidas largas e cheias de gente, cruzado pontes e atravessado túneis que propagavam ao infinito o ruído dos carros. O homem olha de súbito para o cão, retira as mãos de cima do animal, afivela o relógio no pulso. Tem a sensação de já ter feito isso antes, de ter vestido inúmeras coisas inúteis, velhas, quebradas. Trastes que achou pelo caminho, sapatos furados, chapéu amassado, camisa sem botão. Então olha para a nova posse. Diz para si mesmo que já está na hora, que já não é sem tempo. São 13h55. Ele se levanta e parte na direção oposta de onde julga ter vindo. O cachorro o segue.
(Leila Guenther)

Triunfo


Quando Narciso nasceu, o cego Tirésias, que já vira o que era ser homem e o que era ser mulher, anunciou aos pais do belo menino que este viveria bastante e que durante muito tempo só saberia enxergar a si mesmo. Os pais, o deus Cefiso e a ninfa Liríope, não ficaram surpresos com o destino: com uma origem tão nobre, seria difícil que Narciso não se achasse, em sua longa existência, o centro do mundo.
As épocas transcorreram sem que Narciso fosse tocado pelo amor, que, no entanto, despertava tragicamente nos outros: a ninfa Eco, desesperada de paixão não-correspondida, enlouqueceu, passando a repetir o nome do amado para qualquer coisa que lhe dissessem, o jovem Amínias se suicidou com uma espada dada pelo próprio Narciso. Santos, pecadores, pintores e outros artistas o amaram sem que ele percebesse, tão concentrado estava na imagem de si mesmo. Até que, um dia, ao buscar seu reflexo numa fonte, como costumava fazer no exercício do amor-próprio, viu lá dentro o corpo de uma jovem afogada. Foi a primeira vez que Narciso viu algo mais bonito que ele próprio. Não se sabe se por amor àquela imagem ou por ódio de sua beleza, ele se matou, afogando-se ali também.
Nesse lugar nasceu uma flor, a que deram o nome de ofélia.



Leila Guenther. Texto publicado em Ciência e Cultura (http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252010000200028&script=sci_arttext)


(John Everett Millais, Ophelia) 

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bardos I

"And I will never grow so old again..."


(Van Morrison, "Sweet thing")

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O dom do jasmim

Ela era destruição. Não podia negar que não fosse. Que não carregasse, como uma cicatriz, o sinal dos párias. O toque de Midas ao contrário, de modo a arruinar tudo o que tocasse. E ela não sabia não ser assim. Por várias vezes tentara, mas, antes de olhar para baixo, vinha a vertigem que lhe roubava a corda sobre a qual se equilibrava. E, quando dava por si, já tinha posto tudo a perder. Não era como uma tentação que se acercava: era como se ela fosse o próprio diabo caído. Tinha uma necessidade brutal de chacoalhar tudo, de tornar as coisas vivas a seu modo, pela violência, pela crueldade, pela dor. Para sobreviver a isso, alguns fugiram, mas, quando davam por si, tudo o que desejavam era ter de volta aquilo que os matava, buscando, de forma patética, o que haviam desdenhado com horror. Porque o extremo das coisas sempre fascina. Porque os vivos preferem existir no limite. Ele, ao contrário dos outros, tinha permanecido, mas, para compor a frágil estabilidade que lhe permitisse viver dela sem morrer disso, viajava com frequência sob diversos pretextos. Ela fingia acreditar neles. Quando ele partia, ela punha o perfume que ele tanto odiava porque lhe lembrava o cheiro da morte, dos cemitérios abandonados onde algumas plantas secam e outras vicejam em desordem. Ela punha o perfume para si mesma, sem saber que com isso realçava sua sina. Ela o usava até que ele voltasse. E ele voltava, pois sabia afinal que o espetáculo de um vulcão em erupção não era menos belo só porque assolava uma cidade.


Leila Guenther. Texto publicado em Ciência e Cultura (http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252010000200028&script=sci_arttext).


 

terça-feira, 7 de julho de 2009

Da salvação pelas obras




Em um outono, em um dos outonos do tempo, as divindades do Xintó congregaram-se, não pela primeira vez, em Izumo. Diz-se que eram oito milhões, mas sou um homem muito tímido e me sentiria um pouco perdido entre tanta gente. Além disso, não convém lidar com cifras inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que o oito é, nessas ilhas, de bom agouro.
Estavam tristes, mas não o demonstravam, porque os rostos das divindades são kanjis que não se deixam decifrar. No verde cume de um monte sentaram-se em roda. De seu firmamento, ou de uma pedra ou um floco de neve, vinham vigiando os homens. Uma das divindades disse:
“Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui para criar o Japão e o mundo. As águas, os peixes, as sete cores do arco, as gerações das plantas e dos animais, tudo isso saiu a contento. Para que tantas coisas não os enfastiassem, demos aos homens a sucessão, o dia plural e a noite una. Outorgamos-lhes também o dom de ensaiar algumas variações. A abelha continua repetindo colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou uma arma invisível que pode ser o fim da história. Antes que esse fato insensato aconteça, eliminemos os homens”.
Ficaram pensando. Outra divindade disse sem pressa:
“É verdade. Eles imaginaram essa coisa atroz, mas também esta, que cabe no espaço que suas dezessete sílabas abarcam”.
Entoou-as. Estavam em um idioma desconhecido e não pude entendê-las.
A divindade maior sentenciou:
“Que os homens perdurem”.
Assim, por obra de um haiku, a espécie humana se salvou.



(Jorge Luis Borges, Atlas. Trad. Sérgio Molina. Globo, 1999)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Você, de quem nunca estou distante

Não consigo lembrar de como era antes de conhecer você. Será que sempre fui como sou hoje? Lembro-me de estar perdido. Tenho certeza disso. Vagando. Indo de uma mulher para outra. Ficando, às vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que a perplexidade delas era maior que a minha. Pelo menos, era o que parecia. Mas não me lembro de me sentir tão nervoso antes, tão desgastado. Eu as observava de uma certa distância, tomando banho de esponja em suas pias, raspando bolas negras com lâminas de barbear, movendo-se como rainhas em câmara lenta. Então, elas se transformavam nas garotas de antigamente, com risadinhas nervosas e dobrando as pernas longas sob o corpo. O modo como andavam com passos macios com os saltos altos e depois sacudiam o cabelo como os cavalos agitam a cauda.
Mas de você não guardo nenhuma distância. A cada movimento seu, sinto como se viajasse em sua pele. Cada olhar seu para fora da janela é como se estivesse completamente sozinha e sonhando com outros tempos. Não adianta balançar meus braços, acenando. Agora, tudo está ao contrário.



(Sam Shepard. Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)






sexta-feira, 19 de junho de 2009

A mulher mais linda da cidade

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos – “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado... Tudo por fora e nada por dentro...” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza só servia para realçá-la.
Conheci Cass uma noite no West End Bar. Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade – o que bem pode ter contribuído.
– Quer um drinque? – perguntei.
– Claro, por que não?
Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou várias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda a minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
– Me acha bonita? – perguntou.
– Lógico que acho, mas não é só isso... é mais que uma simples questão de beleza...
– As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
– Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
Ela me olhou e riu.
– E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido à cena. Ele veio até a mesa:
– Olha – disse para Cass, – se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
– Ah, vai te foder, cara!
– É melhor não dar mais bebida pra ela – aconselhou o sujeito.
– Não tem perigo – prometi.
– O nariz é meu – protestou Cass, – faço dele o que bem entendo.
– Não faz, não – retruquei, – porque isso me dói.
– Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
– Sinto, sim. Palavra.
– Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

(Charles Bukowski. “A mulher mais linda da cidade”. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. Trad. Albino Poly Jr. Porto Alegre, L&PM, 1996.)
 
 


terça-feira, 16 de junho de 2009

Cura de um cego

Consta que um homem cego de nascença perambulava por terras áridas e longínquas, num mundo escuro e largo, à procura de quem o curasse, quando ouviu o tropel da multidão que passava. Perguntou o que era. Anunciaram-lhe que Ele passava por ali. Conhecendo de ouvido seu poder, rogou-Lhe um milagre. “Que queres que eu te faça?”, Ele indagou. Respondeu o cego: “que eu veja”. “Tens certeza?”, replicou Ele, desapontado. “Por misericórdia”. “Pois assim seja feito; tua cegueira te perdeu, mas tua obstinação te salvará”. E o cego pôs-se a enxergar. Consta também que esse homem, antes sem visão, tendo então vivido e visto, furou os próprios olhos, num assomo de desespero, à maneira tebana.


(Leila Guenther. O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006)

sábado, 6 de junho de 2009

Móvel e provisório

Tenho um carro. É simples, mas é meu (ainda o estou pagando) e me permite me locomover para qualquer lugar que seja. Não que eu precise ir para muito longe. Mas a sensação de pelo menos poder ir é reconfortante. A mobilidade é um grande dom. Posso levar também. Posso levar um doente ao hospital, antes que a morte o leve. Posso ser mais rápida que a morte. Na verdade eu fiz isso há alguns dias. Levei alguém a um hospital com o meu carro. Alguém que não voltou. Eu fiquei esperando – eu passei a vida esperando – mas ele não voltou. Era para ele voltar, não havia dúvidas quanto a isso, mas não deu certo. Ele ficou e eu fui. Depois de algum tempo parada, a gente se espanta com a capacidade que ainda tem de ser móvel. E se espanta mais ainda com o caráter provisório das coisas. A vida era provisória e eu não sabia. O amor era provisório e eu não sabia. Joguei no lixo do banheiro o presente com que eu esperava aquele que não voltou, peguei algumas roupas, o notebook, o cachorro e as coisas dele – casinha, cobertor, ração, brinquedo (ele precisa de mais coisas que eu, percebi com infinita surpresa) –, pus tudo no carro e parti. Na estrada vi tudo ficando para trás numa velocidade absurda. O que eu era, o que sou, se despregou de mim como pele velha e ficou parado no mesmo lugar, enquanto a viagem prosseguia. Não preciso mais do que eu era, do que sou, constato também com infinita surpresa. Chego a algum lugar. Sei apenas que é também provisório. Depois de usar a rede via linha telefônica, sei que vou precisar de uma banda larga. Mas já me decidi: será uma internet 3g, dessas que a gente pluga no notebook, também móvel, e vai para onde quiser. Se eu voltar a ter uma casa, sei que não haverá telefone fixo. Só celular. Móvel. Minhas roupas, onde estou, continuam na mala. Abriram-me um espaço no guarda-roupa mas não quero usá-lo. Minha mala é meu melhor guarda-roupa agora. De repente me dou conta de que móvel e provisório são sinônimos. Eu sou móvel, portanto sou provisória. Agora que estou perdida eu me encontrei. A gente se acostuma com tudo e muito rapidamente. A gente se acostuma com a falta que os outros fazem. O cachorro não. Ele precisa de mais coisas do que eu. Nem parece que um dia descendeu de um lobo nômade. Ele tem necessidade de que tudo esteja no seu devido lugar. Ele ainda não aceitou que não há lugar para a gente. Por isso ele chora sem parar.




(Leila Guenther)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Depois do fim

Já conhecia bem a sua parte – seu quarto. Nele, deitava-se agora na cama, pois, após experimentar todo o chão e demais reentrâncias, achou que a cama (sob a qual permaneciam imóveis os livros com manchas amarelecidas não porque velhos, mas porque mofavam tão logo entravam naquele cômodo ou em qualquer outro daquela casa) era o melhor que lhe caía. Bastava perambular com os olhos para entender que atrás da cômoda se apinhavam teias de aranhas poeirentas porque nunca limpavam ali, e tampouco eram retirados do lugar os objetos que repousavam sobre ela: os porta-retratos, dispostos estranhamente, cujas fotografias antigas se escondiam umas atrás das outras, a caixa de prata já preta que não continha jóias, mas pedaços de bijuterias estragadas, papeizinhos e um rosário em desuso. A caixinha escurecia, como tudo que de prata fosse em seu corpo.
Sobre a bicicleta ergométrica sedentária, ao canto, amontoavam-se as roupas limpas, mas nunca passadas a ferro, que ninguém passava roupa naquela casa. Não as guardava no armário, que seria inútil ter de tirá-las de dentro dele para que fossem novamente usadas. Ao lado do guarda-roupa se formava um vão onde cabia o velho violão sem cordas e, se mexesse ali, aí sim veria com nitidez a poeira alçando voo para se depositar no umbral da janela, fazendo-a, ao longo do tempo, emperrar como sempre. Através de seu vidro era possível ver as manchas gordurosas dos dedos antes limpos como o resto do corpo que agora jazia sobre a cama. Todas essas coisas entulhadas davam-lhe a impressão de que, embora o movimento fosse ínfimo, seria certamente acompanhado de uma pausa. E devia haver um momento em que tudo para. Tinha certeza disso quando observava a inércia que se apossava de seus membros, um a um. Sequer erguia as mãos para algum gesto de desalento, o corpo não se mexia, exceto os olhos. Breve eles também cessariam o movimento inútil de vagar por esse lugar já tão conhecido, até a hora em que resolvessem tornar a se abrir.
(Leila Guenther. O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006.)