"𝑂 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑎 𝑡𝑒𝑟 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑒́ 𝑜 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝑝𝑒𝑟𝑡𝑒𝑛𝑐𝑒𝑟 𝑎 𝑢𝑚𝑎 𝑐𝑜𝑚𝑢𝑛𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑛𝑎 𝑞𝑢𝑎𝑙 𝑎𝑠 𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑠𝑒𝑗𝑎𝑚 𝑗𝑢𝑙𝑔𝑎𝑑𝑎𝑠 𝑒 𝑎𝑠 𝑜𝑝𝑖𝑛𝑖𝑜̃𝑒𝑠 𝑡𝑒𝑛ℎ𝑎𝑚 𝑝𝑒𝑠𝑜." (𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭)
Há uma cena que se repete
diariamente no meu quintal: um sabiá invade o território do outro. Um
beija-flor expulsa um rival das flores do manacá. As maritacas fazem um
escândalo desproporcional por causa de alguma fruta madura. Há conflitos por
toda parte. A natureza está longe da ingenuidade romântica que tantas vezes lhe
atribuímos, mas existe uma diferença decisiva entre a floresta e a praça
pública. Na floresta não existe 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐃𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨. Entre nós, deveria existir.
Parece-me que é disso que
andamos esquecidos.
Li recentemente um
comentário nas redes sociais segundo o qual seria irrelevante perguntar se
determinado homem acusado de importunação sexual seria imputável ou não. Afinal
— dizia a comentarista — milhões de homens perfeitamente imputáveis fazem o
mesmo.
Compreendo a indignação.
Quem conhece minimamente a experiência feminina sabe que ela não nasce da
abstração, mas do corpo.
Toda mulher conhece o medo
de uma rua vazia, de um ônibus lotado, de um elevador silencioso, de um olhar
que ultrapassa a fronteira do olhar. Não é uma estatística: é memória corporal
gritando. Seria intelectualmente desonesto minimizar essa realidade, mas
justamente porque ela é tão grave, exige que pensemos melhor — não pior.
𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳 ensinava que a sociedade brasileira
organiza suas violências através de estruturas históricas profundamente
enraizadas no racismo e no sexismo.
Não são apenas indivíduos
violentos: são instituições, linguagens, imaginários.
É precisamente por isso
que Lélia nunca confundiu transformação social com vingança pública. Seu
pensamento buscava alterar as estruturas, não apenas trocar quem ocupa o
pelourinho.
𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨, por sua vez, acrescenta outra
camada. Ao estudar os quilombos, ela mostrou que resistência não significa
apenas enfrentamento. Significa, em primeira e em última análise, a construção
de outra forma de comunidade.
O quilombo não era apenas
fuga: era invenção política — 𝐮𝐦 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐨 𝐦𝐨𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐨𝐫𝐠𝐚𝐧𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚, 𝐩𝐞𝐫𝐭𝐞𝐧𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞 𝐝𝐢𝐠𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.
É por isso que sinto um
desconforto inenarrável quando vejo parte das redes sociais transformar
qualquer conflito num ritual de exposição permanente. Afasto-me, mineiramente,
de quem quer que, declarando-se progressista, troque justiça por humilhação pública,
crítica por excomunhão e responsabilidade por aniquilação simbólica.
Essas distinções, que
parecem pequenas, são justamente uma das grandes conquistas da tradição
jurídica e humanista. São elas que impedem que a sociedade se transforme numa
sucessão infinita de pelourinhos — digitais ou não.
Nós, brasileiros,
conhecemos a história do pelourinho.
Sabemos que a praça
pública já foi lugar onde corpos eram transformados em espetáculo.
Sabemos também a cor dos
corpos que costumavam ocupar aquele poste.
Não deixa de ser irônico
que, séculos depois, tenhamos naturalizado versões digitais, mais ou menos
embranquecidas, do mesmo mecanismo.
Mudaram as plataformas.
Nem sempre mudou a lógica.
𝐌𝐮𝐧𝐢𝐳 𝐒𝐨𝐝𝐫𝐞́ lembra que toda sociedade produz
formas de mediação.
As redes sociais também
são uma forma de mediação, mas possuem uma característica peculiar: recompensam
aquilo que produz maior intensidade emocional.
A indignação circula mais
depressa do que a reflexão.
A denúncia recebe mais
compartilhamentos do que a dúvida.
A sentença viaja mais
rápido do que a pergunta.
E perguntar passou a
parecer suspeito. Quando não, ofensivo.
Pois foi exatamente uma
pergunta que despertou minha atenção.
Não uma defesa.
Uma pergunta:
"𝐄́ 𝐟𝐮𝐧𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐮𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐫 𝐨 𝐫𝐨𝐬𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐧𝐨𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐞́𝐦 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨?"
Essa pergunta não diminui
a dor da vítima.
Também não absolve o
acusado.
Ela apenas recorda que o
Estado de Direito existe justamente para impedir que a justiça seja substituída
pela catarse. 𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭 alertava que uma sociedade deixa de
ser política quando abandona o julgamento para abraçar apenas a reação.
Vivemos uma época em que
muitas pessoas confundem três instâncias completamente diferentes:
● a apuração jornalística;
● o processo judicial;
● a punição moral nas
redes.
Quando essas três esferas
se fundem, surge aquilo que alguns juristas chamam de 𝐩𝐞𝐧𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐜𝐢𝐩𝐚𝐝𝐚.
Há um paradoxo curioso aí.
Os mesmos grupos que, com
razão, criticam o sistema penal por ser seletivo, racista e violento, muitas
vezes defendem um mecanismo informal que pode ser ainda mais arbitrário: o
tribunal permanente das redes sociais.
Não há contraditório.
Não há direito de defesa.
Não há proporcionalidade.
Não há prescrição.
Não há possibilidade de
reinserção.
Há apenas um arquivo
infinito.
Isso me lembra, novamente,
um trecho muito singular de Hannah Arendt. Ela observava que uma das condições
da vida política é a possibilidade de um novo começo. Quando toda pessoa passa
a ser reduzida ao pior ato que praticou, elimina-se justamente essa possibilidade
de recomeço. Isso não significa "passar pano para criminosos".
Significa perguntar qual é a finalidade da exposição pública.
Ela protege futuras
vítimas?
Ajuda a investigação?
Ou apenas satisfaz uma
necessidade coletiva de punição exemplar?
São perguntas diferentes
que nos ajudam a refletir sobre o deslocamento do eixo da justiça para o eixo
da 𝐯𝐢𝐫𝐭𝐮𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐫𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚.
Já não basta condenar um
ato.
É preciso demonstrar
publicamente a intensidade da condenação.
É preciso mostrar
indignação e provar que se pertence "ao lado certo da história".
𝐏𝐢𝐞𝐫𝐫𝐞 𝐁𝐨𝐮𝐫𝐝𝐢𝐞𝐮 diria que isso produz um tipo de
capital simbólico: a exibição pública da virtude também funciona como forma de
distinção social. E aí ocorre algo curioso: o foco deixa de ser a vítima. Não
raro, a vítima desaparece, permanecendo apenas quem condena com mais
eloquência.
É uma inversão sutil.
𝐉𝐮𝐧𝐠 provavelmente enxergaria nisso um
fenômeno da sombra coletiva. Quando uma comunidade encontra um personagem
suficientemente condenável, projeta sobre ele tudo aquilo que não suporta
reconhecer em si mesma. O indivíduo torna-se um receptáculo do mal comum. É o
velho mecanismo do bode expiatório, descrito em diferentes tradições religiosas
e antropológicas.
𝐉𝐮𝐫𝐞𝐦𝐚 𝐖𝐞𝐫𝐧𝐞𝐜𝐤, a seu turno, insiste que enfrentar a
violência contra as mulheres exige fortalecer instituições capazes de garantir
direitos.
Direitos.
Não linchamentos.
Proteção.
Não espetacularização.
Quando o debate se desloca
para a lógica da humilhação pública, perde-se justamente aquilo que poderia
impedir novas violências: investigação séria, responsabilização proporcional,
políticas públicas, educação e transformação cultural.
No quintal da minha casa,
quase nada é desperdiçado.
As cascas da banana voltam
em forma de bolo.
As folhas secas tornam-se
húmus.
O tronco velho abriga
fungos, insetos, musgos e pássaros.
A natureza conhece uma
palavra que nós temos desaprendido: transformação.
A terra não lacra nem
cancela; metaboliza.
Certamente por isso eu
continuo acreditando mais no chão firme do diálogo honesto e rigoroso do que na
pureza performática das redes. Não porque toda pessoa mereça absolvição, mas
porque 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐢𝐬𝐚 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐝𝐢𝐫 𝐬𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐳𝐢𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚 𝐨𝐮 𝐚𝐩𝐞𝐧𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐯𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐬𝐨̃𝐞𝐬 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨𝐮𝐫𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬.
E, sendo mulher preta num
país misógino e racista, sendo herdeira de tantas mulheres que bordaram
resistência em silêncio enquanto o mundo fazia barulho, prefiro acreditar que a
agulha continua sendo mais civilizatória do que o chicote.
A democracia — como um bom
bordado mineiro — nunca nasce da violência do nó cego.
Ela floresce da paciência
de muitos fios que, sem perder sua singularidade, sustentam o mesmo tecido.
Menos vigilância da
psicologia alheia.
Mais intimidade com as
tramas da nossa própria psique.
Os nossos avessos também
são lugar de bordado.
𝐐𝐮𝐢𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐜𝐚𝐬𝐚 | Há avessos que definitivamente não
me pertencem. Dos meus, porém, convém cuidar. Viver perenemente denunciando
"a maldade dos outros" me roubaria o tempo precioso para as tramas
que sustentam o meu próprio bordado. Evidentemente, não estou falando
"só" de bordado, mas vejam só esta beleza:
(Elenízia Bernardes)

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