Na copa de 1994, com 17 para 18 anos, eu estava numa das
piores crises psíquicas que tinha conhecido até então. Digo “psíquica” porque
eu não estava diagnosticada, nem em tratamento, nem sei do que se tratava, se
ansiedade extrema, inquietação anormal ou depressão profunda. Sei que não
conseguia me alimentar, não conseguia dormir, não conseguia me concentrar, não
conseguia ver uma luz no fim do túnel, não conseguia sair do fundo do poço em
que me encontrava (luz no fim do túnel, fundo do poço, beco sem saída: às vezes
os clichês dão uma ideia do que não sabemos dizer de outra forma). Precisava de
algo onde me agarrar até que o pior passasse: qualquer coisa passiva que
desviasse minha atenção pelo máximo de tempo possível. O que estava a meu
alcance naquele período era a beleza de um esporte cheio de técnica mas também
de improviso, que consistia em saber driblar os obstáculos até encontrar uma
solução e chegar a um resultado - tudo o que eu não sabia fazer. Me pus a ver
os jogos e eles realmente cumpriram o papel de me sequestrar por alguns
momentos de onde eu estava para uma realidade que, apesar de tudo, estava
sujeita à segurança das regras. Acho que assisti a todos os jogos. Aprendi como
o esporte funcionava, qual era o papel de cada jogador no tabuleiro, os tipos
de formação tática, o que podia e o que não se podia fazer em campo. Reconhecia
um impedimento no exato momento em que ele ocorria e identificava cada atleta
jogando. Vi jogadores reagindo de formas diferentes ao mesmo problema, vi
problemas diferentes surgirem quando menos se esperava e, por fim, vi dor,
esperança e também uma espécie de milagre: o Brasil campeão, ganhando da Itália
de Baggio nos pênaltis. A vitória, no meu entender, veio antes, num jogo
sofrido contra a Holanda, em que o Brasil saiu na frente, parecia ter tudo para
vencer, inclusive com os pequenos Romário e Bebeto vencendo a altura dos
holandeses e Romário fazendo tudo parecer muito simples. No entanto, a seleção
brasileira foi se afundando até que a Holanda virasse o jogo, o que era
incompreensível e triste demais. Foi num gol de falta, já depois dos 30 minutos
finais, que Branco definiu o jogo e pôs o Brasil no caminho da vitória. A bola
quase bateu em Romário, que se desviou dela como se estivesse num desenho
animado. Nunca mais outro evento esportivo me emocionou ou me resgatou de mim
mesma. Já não lembro muito bem o que me levou a tamanha escuridão em minha
vida, mas me recordo muito bem da face esgotada, decomposta e emocionada de
Branco ao comemorar o gol que redimiria o Brasil.

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