sábado, 9 de maio de 2026

Emmanuel Carrère sobre transtorno bipolar

 


O assombro de descobrir que alguém escreveu o que você sente, o que você vivencia, o que você passou ou poderia passar. Que você é louco, mas não é o único:

DO TIPO 2

É perturbador se ver diagnosticado aos quase sessenta anos de idade com uma doença da qual se sofreu, sem que ela fosse nomeada, durante toda a sua vida. Você se revolta, a princípio eu me revoltei dizendo que o transtorno bipolar é um desses conceitos que de repente estão na moda e começam a ser aplicados a toda e qualquer coisa — mais ou menos como a intolerância ao glúten, de que um monte de gente descobriu padecer a partir do momento em que se começou a falar dela. Depois, você lê tudo que consegue sobre o assunto, revê toda a sua vida sob esse ângulo e percebe que faz sentido. Que faz mesmo muito sentido. Que durante toda a sua vida você se viu submetido a essa alternância de fases de excitação e de depressão, que naturalmente é o caso de todos nós, pois nosso humor é sempre mutável, todos temos altos e baixos, dias de céu claro e dias de nuvens escuras, mas existem pessoas, e eu faço parte desse grupo, ao que parece dois por cento da população, para quem esses altos são mais altos e esses baixos, mais baixos que para a média, de tal modo que essa sucessão se torna patológica. O ponto em que esse diagnóstico não faz sentido, à primeira vista, é o que diz respeito à fase chamada “maníaca” disso que, até os anos 1990, se chamava psicose maníaco-depressiva. O estado maníaco é aquele em que as pessoas andam nuas na rua, ou compram três Ferraris de uma vez, ou explicam fervorosamente a quem quiser ouvir que é preciso comer goiabas, muitas goiabas, para salvar a humanidade da Terceira Guerra Mundial. Conheci um garoto que fazia esse tipo de coisa e que, passada a crise, ficava aterrorizado por tê-las feito. Ele se suicidou, como parecem fazer vinte por cento dos bipolares — uma estatística mais confiável, sinto dizer, que a de Chogyam Trungpa a respeito do tempo do cérebro dedicado ao presente. Eu me enternecia com esse garoto brilhante e desesperado, nunca pensei que sofria do mesmo mal que ele. Depressivo, sim: como honestamente assumi ao preencher o questionário Vipassana, eu atravessei, além do que se pode chamar de fases ruins, dois períodos de depressão verdadeira, depressão severa, aquela que faz você quase não se levantar durante muitos meses, não conseguir mais cumprir tarefas básicas da vida e principalmente não conseguir mais imaginar que alguma outra coisa vá acontecer. É a característica da depressão: não é possível acreditar que um dia as coisas vão melhorar. Os amigos bem-intencionados lhe dizem “você vai sair dessa” e, estraçalhado, você até se ressente deles: dizer isso é tão distante da realidade… é tão óbvio que eles não sabem do que estão falando… Quando você está dentro da depressão, pensa que não sairá dela, que não sairá de lá vivo, que não sairá de lá a não ser pelo suicídio. Se não se suicidar, no entanto, você sai de lá, cedo ou tarde, e uma vez que saiu você passa para o campo dos amigos bem-intencionados, não consegue mais evocar aquele estado de aflição intolerável e aparentemente eterno. Quando eu era jovem, tive uma viagem horrível com cogumelos alucinógenos. Eles me mandaram para o inferno, cuja característica é ser aterrador e não acabar nunca. Eu estava lúcido no meu pesadelo. Cheguei a pensar, com lucidez: “Sem pânico. Tomei uma substância tóxica. Esse efeito vai durar o tempo da digestão, em oito ou dez horas vai ter passado, só preciso aguentar até lá”. Pensava isso para me tranquilizar, e era sensato e verdadeiro, mas ao mesmo tempo eu me perguntava: “Será que eu vou aguentar? Daqui a oito ou dez horas eu ainda vou estar vivo?”. Saí vivo, e sei que quando você se vê de volta entre os vivos você relativiza o inferno, esquece bem rápido o horror que há nele, e é isso que, nestas páginas, eu gostaria de não fazer. Como diz Céline: “A grande derrota, no fundo, é esquecer, e sobretudo aquilo que fez você morrer”. Em resumo, para minha infelicidade eu conheço a depressão. Mas nas minhas primeiras consultas psiquiátricas ainda ignoro que, na definição do transtorno bipolar, o polo oposto ao engolfamento depressivo não é necessariamente o estado espetacular de euforia e desinibição que leva ao suicídio social e muitas vezes ao suicídio em si, mas também frequentemente aquilo que os psiquiatras nomeiam hipomania, o que quer dizer, simplesmente, que você pira mas não na mesma proporção. Você não sai na rua nu em pelo, você apenas é um joguete desse taquipsiquismo cujo nome aprendi há pouco. Você é bipolar do tipo 2: agitado sem ser necessariamente eufórico, mas por vezes também sedutor, cativante, muito sexual, aparentemente no auge do seu vigor mas inclinado a tomar decisões de que mais tarde vai se arrepender com a certeza de que são as decisões certas e de que nunca será preciso voltar a elas. Depois é a certeza contrária que se impõe, você entende que fez a pior coisa que poderia ter sido feita, tenta consertá-la e piora ainda mais a situação. Você pensa uma coisa e o contrário dela, você faz uma coisa e depois o contrário dela, em uma sucessão alucinante. O pior, quando você costuma se analisar, como eu, é que, uma vez feito o diagnóstico e identificado o modo de funcionamento, você adquire um distanciamento, mas esse distanciamento não serve para muita coisa. Ou apenas para passar a ter consciência de que não importa o que você pense, diga ou faça, você não pode confiar em si mesmo, pois você é duas pessoas em uma só, e essas duas pessoas são inimigas.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 20 de abril de 2026

As coisas como elas são

 


Ver as coisas como elas são: é isso que quer dizer Vipassana. E As coisas como elas são é o título do livro do meu amigo Hervé Clerc sobre o budismo. Já tracei um perfil de Hervé em O reino e, como preciso lutar contra a minha tendência pretensiosa de imaginar que meu leitor leu e recorda meus livros anteriores, vou fazê-lo de novo, mas de um jeito um pouco diferente, começando por citar Pitágoras, que coloca a seguinte questão: “Por que o homem existe sobre a terra?”. Resposta: “Para contemplar o céu”. Para contemplar o céu? Se isso é verdade, a maioria dos homens não sabe. A maioria pensa que existe sobre a terra para encontrar o amor, ficar rico, exercer algum poder, gerar picos de crescimento ou deixar sua marca nas areias do tempo. São raras as pessoas que sabem que existem para contemplar o céu. Se você não está nesse grupo, é uma sorte conhecer alguém que esteja. Isso amplia o horizonte. Eu tenho essa sorte: conheço Hervé, homem pacato, lacônico, absorto, que vive como se pudesse morrer a qualquer momento e tem sempre medo de acumular demais. Como Diógenes, pensa que é melhor beber fazendo uma concha com a própria mão do que usando uma cumbuca. Quando está viajando, ele arranca e joga fora as páginas dos livros assim que as lê, para ficar mais leve. Jornalista na Agence France Presse, morou na Espanha, na Holanda, no Paquistão, tendo o cuidado de não fazer carreira e continuar, como ele diz, abaixo do alcance do radar. Hoje ele se divide entre Nice e um vilarejo do Valais, Le Levron, onde tem um aposento em um chalé a partir do qual se descortinam dois vales de uma só vez. É um panorama de rara beleza, diante do qual ele meditou bastante e escreveu três livros que exploram aquilo que os místicos falaram sobre a Realidade última, há tempos designada com o codinome que mais nos convém: Deus. Há trinta anos, Hervé e eu nos encontramos no Levron para caminhar pelas trilhas da montanha, conversar um pouco e ficar muito tempo calados. Tem uma piada do Valais que adoro: três camponeses estão sentados em um banco e veem uma vaca passar. “É a vaca do Pierrot”, diz o primeiro. Passam-se quinze minutos, o segundo diz: “Não, é a vaca do Fernand”. Mais quinze minutos e o terceiro se levanta e vai embora, dizendo: “Cansei dessas brigas de vocês”. São assim as nossas conversas, à exceção das brigas. Nós não brigamos, nossa amizade, que é uma dádiva na minha vida e, eu acho, na dele, não conheceu nem tempestades nem eclipses, e sim se nutre das nossas profundas diferenças e mesmo de certa discordância. Hervé acredita que nós existimos sobre a terra não apenas para contemplar o céu, mas para encontrar uma saída desse cativeiro que é a vida terrestre. Ele acredita que alguns exploradores encontraram a saída e mostram o caminho. Esses exploradores se chamam Platão, Buda, Mestre Eckhart, Teresa D’Ávila e Patanjali, de quem falarei em breve, e nada é mais urgente ou necessário do que ler os relatos deles, estudar os mapas que eles traçaram para que na nossa vez seguíssemos o caminho. Em palavras indianas, pois nenhuma civilização meditou sobre isso com mais profundidade e precisão do que a da Índia: a única tarefa a que um homem dotado de bom senso deve se dedicar é tentar sair do samsara, essa roda de mutações e sofrimentos que chamamos de condição humana, para alcançar o nirvana, que é a vida enfim real, liberta da ilusão, onde se veem as coisas como elas são. É isso a ioga, diz Hervé. Enfim: isso é a ioga para quem a leva a sério, não para quem a toma por ginástica.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A mente como prisão

 


O primeiro retiro de meditação vipássana, tal como estabelecido por S.N. Goenka, num presídio brasileiro. Vipássana é a meditação aperfeiçoada por Sidarta Gautama, o Buda, como caminho para a iluminação. No método de Goenka, o retiro dura 10 dias, com doze horas diárias de meditação, em absoluto silêncio, sem nenhum contato com os outros participantes. Quem já passou pela experiência sabe quão desafiadora e intensa ela pode ser. A primeira iniciativa entre detentos se deu na Índia e pode ser vista aqui.

terça-feira, 31 de março de 2026

31 de março

À memória de Sol


Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

apesar da data

que nos trouxe até aqui

Tinha uma música na cabeça

um ritmo no corpo

e jurei que cantaria

inclusive sob tortura

 

Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

até saber que uma cachorra

engoliu comida com vidro

dada pelo mesmo tipo de gente

que numa data como esta

nos trouxe até aqui


(em Este lado para baixo. Editora Peirópolis, 2025)


segunda-feira, 30 de março de 2026

Um poema de Philip Levine



The Trade
 
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
 
(Philip Levine, 1928-2015)

 

 
A Troca
 
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
 
(tradução de Álvaro Wolmer)

  

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que aprendi num retiro budista

 


Não é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. Mas é preciso uma dose imensa de coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu sentimento dominante. No entanto também desejo entender a natureza do sofrimento e pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar cerca dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio absoluto, sem contato visual com outros praticantes, majoritariamente sentada, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma, fundada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a escola mais antiga e austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness), estabelecidos pelo Buda como primeiro passo do caminho para a libertação. O Theravada não poupa ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula, monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de um monge é valiosa, mas o formato se revelou bastante efetivo. Não havia ninguém com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”, “e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?” etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam) e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”. Parênteses: ao contrário do que orientou, num outro retiro, Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição da Floresta da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, para evitar ruídos na comunicação, sou uma espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo vajrayana (de origem tibetana, no qual já tive também experiência de retiro), e já flertei com o zen, minha primeira experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas tradições.

No quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração, luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?). Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse decantado. Em vez de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de nada nem de ninguém. Algo sereno. Menciono porque na volta do primeiro retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização, segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço, com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi assustador. Uma vez, quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante fugaz e tranquilo: estava no ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não me amedrontei. Não era algo racional, tanto que quis e tentei evocar isso de novo, mas nunca mais consegui recuperar aquela experiência.

Gostaria de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder e sem divagar. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia de medos. Mas a meditação atua sobre o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm de me aguentar.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

E nasce a criança

O mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente - consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que sou). É algo muito auspicioso nas condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de fazer.

Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.

Venham. É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando vocês.

Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora. 







segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Hamnet


As lágrimas começaram a cair comportadas e silenciosas na metade de Hamnet, este filme terrível, delicado, feio, exagerado, belo, demasiado humano.

No fim a drama queen aqui explodiu num choro tão descontrolado, soluçando tão alto, que cobriu a cara com as mãos, se abaixando, tentando se esconder, os joelhos contra o peito, numa posição meio fetal que era só de pura vergonha mesmo. Eu não abria o berreiro assim num filme desde Tempo de embebedar cavalos (de Bahman Ghobadi), que vi há quase trinta anos. E nem sei por quê, já que, com os anos, aprendi como chorar para dentro.

Chloé Zhao tem coragem. Arrisca, erra, acerta, faz sempre diferente do que já fez. Gosto muito do seu Songs my brothers taught me. E me dá uma alegriazinha que ela seja mulher, amarela e neurodivergente.

Quem já pisou no Hades da insanidade dificilmente sai de lá inteiro (quando sai). Às vezes não se salva nem com a ajuda de uma lira.

O resto é silêncio.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Para Ahmed Zoghbi


"Mas chove", poema para Ahmed Zoghbi, que há quase trinta anos fez da questão palestina a causa de sua vida. Ele é estudioso do pensamento de Edward Said e traduziu do árabe duas obras do escritor palestino Ghassan Kanafani.

Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.


sábado, 24 de janeiro de 2026

Pré-venda do novo livro

 


O mais leve dos metais, título do meu novo livro de poemas, é uma referência ao lítio, o metal de menor peso da tabela periódica. Ele é amplamente utilizado na psiquiatria para controle do transtorno bipolar, condição que me afeta, me desestabiliza, mas também me move a escrever. Nos textos reunidos neste volume, busco não apenas o diálogo com indivíduos próximos ou distantes, diferentes ou semelhantes, mas também encontrar algum equilíbrio na corda bamba do mundo.

Ele está em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá, que tão cuidadosamente me acolheu e de cujo catálogo me orgulho em fazer parte.

Em breve, darei informações sobre o lançamento.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Ao som de Björk

Começo 2026 com a alegria de saber que Este lado para baixo (Editora Peirópolis)  foi a primeira leitura do ano de Helder Guastti e que ele adorou o livro. Helder tem um trabalho lindo como educador (foi eleito Educador do Ano 2024 e está entre os 50 mais importantes educadores do mundo de 2025, segundo o Global Teacher Prize). Fez um vídeo com o poema que dediquei ao poeta Carlos Augusto Lima, utilizando a canção da Björk que integra a epígrafe do livro.