Não
é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. É preciso
coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu
sentimento dominante. Mas também desejo entender a natureza do sofrimento e
pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que
me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar
cerca de oito, dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio
absoluto, sem contato visual com outros praticantes, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando
às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na
mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos
retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de
nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma,
criada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a vertente mais antiga e
austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto
para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados
Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness),
estabelecidos pelo Buda como caminho para a libertação. O Theravada não poupa
ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula,
monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da
reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua
autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da
área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de
modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade
com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de
um monge é valiosa, mas o formato se revelou mais efetivo. Não havia ninguém
com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”,
“e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?”
etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando
necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam)
e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no
assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa
gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma
crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação
budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a
esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele
estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”.
Parênteses: ao contrário do que orienta Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição
da Floresta, da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, sou uma
espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo
vajrayana (de origem tibetana), e já flertei com o zen, minha primeira
experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças
entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas
tradições.
No
quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do
almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha
experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração,
luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?).
Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse
decantado. Ao contrário de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite
entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de
nada nem de ninguém. Algo suave, tranquilo. Menciono porque na volta do primeiro
retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização,
segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de
quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e
em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço,
com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi assustador. Uma vez,
quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante tranquilo: estava no
ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte
delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não me amedrontei. Não
era algo intelectual, tanto que quis e tentei “sentir” isso de novo, mas nunca
mais consegui recuperar aquela experiência.
Gostaria
de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge
depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia
de medos. Mas a meditação diminui o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm
de me aguentar.

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