na linha da vida
terça-feira, 16 de junho de 2026
Elogio à Copa
terça-feira, 9 de junho de 2026
Sólidas construções
A vida é curta e eu encurtei a minha
de mil maneiras deliciosas e imprudentes,
de mil maneiras deliciosamente imprudentes;
vou esconder isso dos meus filhos também.
O mundo é pelo menos 50% das vezes horrível e isso é uma estimativa
conservadora, embora eu esconda isso dos meus filhos.
Para cada pássaro há uma pedra atirada em um pássaro.
Para cada criança amada, há uma criança violada, num saco
no fundo de um lago. A vida é curta e o mundo,
pelo menos metade das vezes, horrível, e para cada estranho
gentil, há outro que te partiria inteiro,
embora eu esconda isso dos meus filhos. Estou tentando
vender o mundo para eles. Qualquer corretor decente,
te mostrando uma verdadeira espelunca, fantasia
sobre sólidas construções: este lugar pode ficar bonito,
não é? Você poderia deixar bonito este lugar.
(Maggie Smith, em tradução minha e de Álvaro Wolmer)
sábado, 9 de maio de 2026
Emmanuel Carrère sobre transtorno bipolar
O assombro de descobrir que alguém escreveu o que você sente, o que você vivencia, o que você passou ou poderia passar. Que você
é louco, mas não é o único:
DO TIPO 2
É
perturbador se ver diagnosticado aos quase sessenta anos de idade com uma
doença da qual se sofreu, sem que ela fosse nomeada, durante toda a sua vida.
Você se revolta, a princípio eu me revoltei dizendo que o transtorno bipolar é
um desses conceitos que de repente estão na moda e começam a ser aplicados a
toda e qualquer coisa — mais ou menos como a intolerância ao glúten, de que um
monte de gente descobriu padecer a partir do momento em que se começou a falar
dela. Depois, você lê tudo que consegue sobre o assunto, revê toda a sua vida
sob esse ângulo e percebe que faz sentido. Que faz mesmo muito sentido. Que
durante toda a sua vida você se viu submetido a essa alternância de fases de
excitação e de depressão, que naturalmente é o caso de todos nós, pois nosso
humor é sempre mutável, todos temos altos e baixos, dias de céu claro e dias de
nuvens escuras, mas existem pessoas, e eu faço parte desse grupo, ao que parece
dois por cento da população, para quem esses altos são mais altos e esses
baixos, mais baixos que para a média, de tal modo que essa sucessão se torna
patológica. O ponto em que esse diagnóstico não faz sentido, à primeira vista,
é o que diz respeito à fase chamada “maníaca” disso que, até os anos 1990, se
chamava psicose maníaco-depressiva. O estado maníaco é aquele em que as pessoas
andam nuas na rua, ou compram três Ferraris de uma vez, ou explicam
fervorosamente a quem quiser ouvir que é preciso comer goiabas, muitas goiabas,
para salvar a humanidade da Terceira Guerra Mundial. Conheci um garoto que
fazia esse tipo de coisa e que, passada a crise, ficava aterrorizado por tê-las
feito. Ele se suicidou, como parecem fazer vinte por cento dos bipolares — uma
estatística mais confiável, sinto dizer, que a de Chogyam Trungpa a respeito do
tempo do cérebro dedicado ao presente. Eu me enternecia com esse garoto
brilhante e desesperado, nunca pensei que sofria do mesmo mal que ele.
Depressivo, sim: como honestamente assumi ao preencher o questionário
Vipassana, eu atravessei, além do que se pode chamar de fases ruins, dois
períodos de depressão verdadeira, depressão severa, aquela que faz você quase
não se levantar durante muitos meses, não conseguir mais cumprir tarefas
básicas da vida e principalmente não conseguir mais imaginar que alguma outra coisa
vá acontecer. É a característica da depressão: não é possível acreditar que um
dia as coisas vão melhorar. Os amigos bem-intencionados lhe dizem “você vai
sair dessa” e, estraçalhado, você até se ressente deles: dizer isso é tão
distante da realidade… é tão óbvio que eles não sabem do que estão falando…
Quando você está dentro da depressão, pensa que não sairá dela, que não sairá
de lá vivo, que não sairá de lá a não ser pelo suicídio. Se não se suicidar, no
entanto, você sai de lá, cedo ou tarde, e uma vez que saiu você passa para o
campo dos amigos bem-intencionados, não consegue mais evocar aquele estado de
aflição intolerável e aparentemente eterno. Quando eu era jovem, tive uma
viagem horrível com cogumelos alucinógenos. Eles me mandaram para o inferno,
cuja característica é ser aterrador e não acabar nunca. Eu estava lúcido no meu
pesadelo. Cheguei a pensar, com lucidez: “Sem pânico. Tomei uma substância
tóxica. Esse efeito vai durar o tempo da digestão, em oito ou dez horas vai ter
passado, só preciso aguentar até lá”. Pensava isso para me tranquilizar, e era
sensato e verdadeiro, mas ao mesmo tempo eu me perguntava: “Será que eu vou
aguentar? Daqui a oito ou dez horas eu ainda vou estar vivo?”. Saí vivo, e sei
que quando você se vê de volta entre os vivos você relativiza o inferno,
esquece bem rápido o horror que há nele, e é isso que, nestas páginas, eu
gostaria de não fazer. Como diz Céline: “A grande derrota, no fundo, é
esquecer, e sobretudo aquilo que fez você morrer”. Em resumo, para minha infelicidade
eu conheço a depressão. Mas nas minhas primeiras consultas psiquiátricas ainda
ignoro que, na definição do transtorno bipolar, o polo oposto ao engolfamento
depressivo não é necessariamente o estado espetacular de euforia e desinibição
que leva ao suicídio social e muitas vezes ao suicídio em si, mas também
frequentemente aquilo que os psiquiatras nomeiam hipomania, o que quer dizer,
simplesmente, que você pira mas não na mesma proporção. Você não sai na rua nu
em pelo, você apenas é um joguete desse taquipsiquismo cujo nome aprendi há
pouco. Você é bipolar do tipo 2: agitado sem ser necessariamente eufórico, mas
por vezes também sedutor, cativante, muito sexual, aparentemente no auge do seu
vigor mas inclinado a tomar decisões de que mais tarde vai se arrepender com a
certeza de que são as decisões certas e de que nunca será preciso voltar a
elas. Depois é a certeza contrária que se impõe, você entende que fez a pior
coisa que poderia ter sido feita, tenta consertá-la e piora ainda mais a
situação. Você pensa uma coisa e o contrário dela, você faz uma coisa e depois
o contrário dela, em uma sucessão alucinante. O pior, quando você costuma se
analisar, como eu, é que, uma vez feito o diagnóstico e identificado o modo de
funcionamento, você adquire um distanciamento, mas esse distanciamento não
serve para muita coisa. Ou apenas para passar a ter consciência de que não
importa o que você pense, diga ou faça, você não pode confiar em si mesmo, pois
você é duas pessoas em uma só, e essas duas pessoas são inimigas.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
As coisas como elas são
Ver as coisas como elas são: é isso que quer dizer Vipassana. E As coisas como elas são é o título do livro do meu amigo Hervé Clerc sobre o budismo. Já tracei um perfil de Hervé em O reino e, como preciso lutar contra a minha tendência pretensiosa de imaginar que meu leitor leu e recorda meus livros anteriores, vou fazê-lo de novo, mas de um jeito um pouco diferente, começando por citar Pitágoras, que coloca a seguinte questão: “Por que o homem existe sobre a terra?”. Resposta: “Para contemplar o céu”. Para contemplar o céu? Se isso é verdade, a maioria dos homens não sabe. A maioria pensa que existe sobre a terra para encontrar o amor, ficar rico, exercer algum poder, gerar picos de crescimento ou deixar sua marca nas areias do tempo. São raras as pessoas que sabem que existem para contemplar o céu. Se você não está nesse grupo, é uma sorte conhecer alguém que esteja. Isso amplia o horizonte. Eu tenho essa sorte: conheço Hervé, homem pacato, lacônico, absorto, que vive como se pudesse morrer a qualquer momento e tem sempre medo de acumular demais. Como Diógenes, pensa que é melhor beber fazendo uma concha com a própria mão do que usando uma cumbuca. Quando está viajando, ele arranca e joga fora as páginas dos livros assim que as lê, para ficar mais leve. Jornalista na Agence France Presse, morou na Espanha, na Holanda, no Paquistão, tendo o cuidado de não fazer carreira e continuar, como ele diz, abaixo do alcance do radar. Hoje ele se divide entre Nice e um vilarejo do Valais, Le Levron, onde tem um aposento em um chalé a partir do qual se descortinam dois vales de uma só vez. É um panorama de rara beleza, diante do qual ele meditou bastante e escreveu três livros que exploram aquilo que os místicos falaram sobre a Realidade última, há tempos designada com o codinome que mais nos convém: Deus. Há trinta anos, Hervé e eu nos encontramos no Levron para caminhar pelas trilhas da montanha, conversar um pouco e ficar muito tempo calados. Tem uma piada do Valais que adoro: três camponeses estão sentados em um banco e veem uma vaca passar. “É a vaca do Pierrot”, diz o primeiro. Passam-se quinze minutos, o segundo diz: “Não, é a vaca do Fernand”. Mais quinze minutos e o terceiro se levanta e vai embora, dizendo: “Cansei dessas brigas de vocês”. São assim as nossas conversas, à exceção das brigas. Nós não brigamos, nossa amizade, que é uma dádiva na minha vida e, eu acho, na dele, não conheceu nem tempestades nem eclipses, e sim se nutre das nossas profundas diferenças e mesmo de certa discordância. Hervé acredita que nós existimos sobre a terra não apenas para contemplar o céu, mas para encontrar uma saída desse cativeiro que é a vida terrestre. Ele acredita que alguns exploradores encontraram a saída e mostram o caminho. Esses exploradores se chamam Platão, Buda, Mestre Eckhart, Teresa D’Ávila e Patanjali, de quem falarei em breve, e nada é mais urgente ou necessário do que ler os relatos deles, estudar os mapas que eles traçaram para que na nossa vez seguíssemos o caminho. Em palavras indianas, pois nenhuma civilização meditou sobre isso com mais profundidade e precisão do que a da Índia: a única tarefa a que um homem dotado de bom senso deve se dedicar é tentar sair do samsara, essa roda de mutações e sofrimentos que chamamos de condição humana, para alcançar o nirvana, que é a vida enfim real, liberta da ilusão, onde se veem as coisas como elas são. É isso a ioga, diz Hervé. Enfim: isso é a ioga para quem a leva a sério, não para quem a toma por ginástica.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
A mente como prisão
O primeiro retiro de meditação vipássana, tal como estabelecido por S.N. Goenka, num presídio brasileiro. Vipássana é a meditação aperfeiçoada por Sidarta Gautama, o Buda, como caminho para a iluminação. No método de Goenka, o retiro dura 10 dias, com doze horas diárias de meditação, em absoluto silêncio, sem nenhum contato com os outros participantes. Quem já passou pela experiência sabe quão desafiadora e intensa ela pode ser. A primeira iniciativa entre detentos se deu na Índia e pode ser vista aqui.
terça-feira, 31 de março de 2026
31 de março
À memória de Sol
Hoje fazia sol
e eu me sentia viva
apesar da data
que nos trouxe até aqui
Tinha uma música na cabeça
um ritmo no corpo
e jurei que cantaria
inclusive sob tortura
Hoje fazia sol
e eu me sentia viva
até saber que uma cachorra
engoliu comida com vidro
dada pelo mesmo tipo de gente
que numa data como esta
nos trouxe até aqui
(em Este lado para baixo. Editora Peirópolis, 2025)
segunda-feira, 30 de março de 2026
Um poema de Philip Levine
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
A Troca
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
O que aprendi num retiro budista
Não
é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. Mas é preciso uma dose imensa de coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu
sentimento dominante. No entanto também desejo entender a natureza do sofrimento e
pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que
me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar
cerca dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio
absoluto, sem contato visual com outros praticantes, majoritariamente sentada, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando
às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na
mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos
retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de
nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma,
fundada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a escola mais antiga e
austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto
para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados
Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness),
estabelecidos pelo Buda como primeiro passo do caminho para a libertação. O Theravada não poupa
ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula,
monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da
reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua
autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da
área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de
modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade
com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de
um monge é valiosa, mas o formato se revelou bastante efetivo. Não havia ninguém
com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”,
“e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?”
etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando
necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam)
e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no
assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa
gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma
crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação
budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a
esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele
estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”.
Parênteses: ao contrário do que orientou, num outro retiro, Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição
da Floresta da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, para evitar ruídos na comunicação, sou uma
espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo
vajrayana (de origem tibetana, no qual já tive também experiência de retiro), e já flertei com o zen, minha primeira
experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças
entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas
tradições.
No
quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do
almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha
experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração,
luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?).
Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse
decantado. Em vez de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite
entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de
nada nem de ninguém. Algo sereno. Menciono porque na volta do primeiro
retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização,
segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de
quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e
em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço,
com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi assustador. Uma vez,
quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante fugaz e tranquilo: estava no
ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte
delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não me amedrontei. Não
era algo racional, tanto que quis e tentei evocar isso de novo, mas nunca
mais consegui recuperar aquela experiência.
Gostaria
de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge
depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder e sem divagar. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia
de medos. Mas a meditação atua sobre o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm
de me aguentar.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
E nasce a criança
O
mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por
meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por
causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a
oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me
provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente -
consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos
metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um
agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que
sou). É algo muito auspicioso nas
condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que
carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará
à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de
fazer.
Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.
Venham.
É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando
vocês.
Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Hamnet
As lágrimas começaram a cair
comportadas e silenciosas na metade de Hamnet, este filme terrível, delicado, feio, exagerado, belo, demasiado humano.
No fim a drama queen
aqui explodiu num choro tão descontrolado, soluçando tão alto, que cobriu a
cara com as mãos, se abaixando, tentando se esconder, os joelhos contra o peito, numa posição meio
fetal que era só de pura vergonha mesmo. Eu não abria o berreiro assim num
filme desde Tempo de embebedar cavalos (de Bahman Ghobadi), que vi há quase
trinta anos. E nem sei por quê, já que, com os anos, aprendi como chorar para dentro.
Chloé Zhao tem coragem.
Arrisca, erra, acerta, faz sempre diferente do que já fez. Gosto muito do seu Songs
my brothers taught me. E me dá uma alegriazinha que ela seja mulher,
amarela e neurodivergente.
Quem já pisou no Hades da
insanidade dificilmente sai de lá inteiro (quando sai). Às vezes não se salva nem
com a ajuda de uma lira.
O resto é silêncio.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Para Ahmed Zoghbi
Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Pré-venda do novo livro
O mais leve dos metais, título do meu novo livro de poemas, é uma referência ao lítio, o metal de menor peso da tabela periódica. Ele é amplamente utilizado na psiquiatria para controle do transtorno bipolar, condição que me afeta, me desestabiliza, mas também me move a escrever. Nos textos reunidos neste volume, busco não apenas o diálogo com indivíduos próximos ou distantes, diferentes ou semelhantes, mas também encontrar algum equilíbrio na corda bamba do mundo.
Ele está em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá, que tão cuidadosamente me acolheu e de cujo catálogo me orgulho em fazer parte.
Em breve, darei informações sobre o lançamento.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Ao som de Björk
Começo
2026 com a alegria de saber que Este lado para baixo (Editora Peirópolis)
foi a primeira leitura do ano de Helder Guastti e que ele adorou o livro. Helder tem um trabalho lindo como educador
(foi eleito Educador do Ano 2024 e está entre os 50 mais importantes educadores
do mundo de 2025, segundo o Global Teacher Prize). Fez um vídeo com o poema que
dediquei ao poeta Carlos Augusto Lima, utilizando a canção da Björk que integra
a epígrafe do livro.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
O passado infinito de Isabella Yoshimura
Isabella Yoshimura é
escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o
curta-documentário The Living Past (Chongqing, China), produziu um
podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo e publicou Poemas
Surdos (Ipê das Letras). Seu trabalho explora identidade, memória e
espiritualidade (Isabella dedica-se também à meditação). Ela integra o Coletivo
de Escritoras Asiáticas & Brasileiras.
Em The Living Past, acompanhamos
Zhu Songling, paleontólogo que trabalhou 40 anos no Museu de História Natural
de Chongqing, onde podem ser vistos os fósseis de dinossauros restaurados por
ele. O curta foi realizado através do programa Looking China, no qual alunos de
cinema de vários países filmam um documentário de até 12 minutos sobre a
cultura chinesa, e evoca a seguinte questão: é possível recompor
o passado se nunca o vimos?
Abaixo, um dos poemas de seu
livro:
_2020
hoje o mundo termina
e começa de novo
fogos vão ser atirados
corpos vão balançar ao som da derrota
de um dia virado, vidrado
é lua nova cheia de coisa que não
termina
o fim eterno em retorno
hoje o mundo começa
e termina de novo
sábado, 15 de novembro de 2025
Caminhando com o vento
Tenho
usado uma roupa nova a cada semana. Explico: a "roupa" é meu próprio corpo, do
qual faz parte minha cabeça, cheia de medos, idiossincrasias e condições
psiquiátricas consideradas graves. A ligação entre aflições mentais e dores ou
doenças físicas é hoje bastante conhecida. O sofrimento é integral, por
inteiro: é o que se chama de somatização. E este corpo vinha ficando
progressivamente mais difícil de ser arrastado, feito um armário cada vez mais
atulhado de tranqueira que tentamos mudar de lugar sozinhos procurando
encontrar um canto onde ele caiba. Tinha se tornado um fardo e movê-lo drenava
minha energia. No meu caso, podia ser ainda pior, é claro, se eu não tivesse
tido acesso a possibilidades que muitos não têm – yoga, psicoterapia, medicação
para fibromialgia, acupuntura etc. Os períodos, por exemplo, em que estive
impossibilitada de praticar yoga (que aprendi com Vinícius Della Líbera e, para mim, a mais eficiente das psicoterapias),
me levaram a pensar que era melhor me deitar definitivamente num caixão só para
não continuar a sofrer de pé. Estava sem nenhuma esperança de, beirando os
cinquenta anos, me sentir confortável e funcional dentro desta casca, até que
comecei, com Fernando Hashimoto, uma terapia denominada Rolfing, uma espécie de
manipulação do tecido conjuntivo (fáscia) desenvolvida pela pesquisadora Ida Rolf
(1896-1979), que é o que mais se aproxima daquilo que Wilhelm Reich (1897-1959)
chamou de couraça: um tipo de estrutura onde se alojariam nossos traumas
e tensões.
Na
amostra do que seria a primeira sessão, a dor que mais me desesperou por anos
praticamente desapareceu. Saí do consultório andando como se vestisse um corpo
novo. Nas outras sessões semanais, essa impressão foi se intensificando. As caminhadas
habituais com a canina Shoyu (força bruta e meu termômetro pessoal) se tornaram
menos extenuantes. Eu estava mais sintonizada com ela, que, como elemento
animal domesticado, é uma ponte entre o humano e a natureza da qual nos
afastamos, creio. Mas foi preciso aprender a lidar com essa novidade, porque eu
não estava acostumada a tantas transformações simultâneas e nítidas: quando o corpo muda,
a cabeça também muda, uma vez que ela é parte do corpo. Me sentia como uma
criança que está aprendendo a andar: ainda titubeante, insegura, desengonçada,
depois de ter passado tanto tempo em berço nada esplêndido. As outras sessões
foram me conectando com a terra, com o mundo à volta, para o qual eu só
costumava olhar a partir de pontos fixos e rígidos. A alienígena inábil com a
gravidade enfim aterrissava. Caminhando com certa fluidez, deixei de olhar
apenas para baixo, sempre com medo de pisar em falso e ser engolida pelo abismo
sob meus pés (penso agora que não é por acaso meu livro mais recente se chamar Este lado para baixo). O abismo ainda me habita, mas passei a olhar para além
dele, a me sentir mais parte da paisagem à volta, enxergando por todos os lados, com
todos os olhos e poros, com a “couraça” mais permeável a práticas, experiências
e ideias. Não à toa tomei neste curto período algumas decisões importantes e
executei outras tantas que já estavam fazendo fila na minha vida. Às vezes me
peguei caminhando olhando para o horizonte, e isso significava para mim ter
menos pavor, alguma esperança e ser um pouco mais terráquea. A roupa nova
afinal não era uma capa de chuva. Também não é um vestido de renda; está mais
para aquelas vestes esvoaçantes de algodão laranja do budismo: não acredito em cura,
palavra atualmente tão desgastada. Cura implica imutabilidade e ausência
definitiva das causas e consequências que nos constroem. Só que nada é permanente, nem dentro nem
fora. E, como um imenso tecido conjuntivo, tudo está interligado. “Meu problema
é que meu problema não pertence apenas a mim. Que a melancolia que se exprime
no meu corpo vem do mundo”, diz a antropóloga francesa desfigurada por um urso,
Nastassja Martin, com cujas reflexões me identifico. Acredito em uma jornada constante e contínua por equilíbrio, tão precário em casos como o meu. Mas,
para cumprir o percurso, necessitamos de força para seguir caminhando.
Penso
com frequência no que dizia Thich Nhat Hanh (1926-2022), o monge budista que
popularizou a meditação andando: “O milagre não é andar sobre a água. Milagre é
andar sobre a terra verde, profundamente imerso no momento presente,
sentindo-se verdadeiramente vivo”. Faz sentido para mim. Não sei o que há no
fim do túnel: é preciso atravessá-lo para descobrir. Mas é o que busco nesta
caminhada, enquanto ainda estou viva.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
De uma haicaísta amiga e discípula de Bashô
os
netos chegam
e me
tiram da cama —
os
anos estão terminando
*
um
passarinho cantando —
minhas
mãos se detêm um instante
na
pia da cozinha
*
vento
de inverno
sem
cor para exibir
sem
folhas para arrancar
*
sob
a lua cheia
corvos
boquiabertos
param
de gritar
(Chigetsu Kawai, 1634-1718. "Tratradução" minha do inglês)
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Entrelaçando culturas nos textos literários
Casa Guilherme de Almeida | 08 de Novembro de 2025 | 14h às 16h
Uma conversa com integrantes do coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras sobre suas reinterpretações das formas literárias de origem asiática.
A atividade será realizada presencialmente na Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187 - Sumaré, São Paulo).
Grátis. Para se inscrever, clique aqui.
Flavia Yumi Sakai é artista visual e haicaísta. Desde a infância, cultiva seu impulso criativo em uma busca contínua por expressão e identidade. Investiga a simplicidade e a força dos gestos mínimos, inspirada pela tradição do haicai e pela estética japonesa, sua cultura de origem. Acredita que contar histórias também acontece sem muitas palavras — através de formas, cores e pausas — como buscou explorar no livro O Tempo em uma Chawan, lançado neste ano em coautoria com Juliana Negrão.
Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past em Chongqing (China) e produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo. Autora de Poemas surdos, seu livro de estreia na poesia, explora temas de identidade, memória e espiritualidade, unindo delicadeza e reflexão em narrativas que transitam entre o real e o imaginário.
Jung Lee é poeta e tradutora. Graduanda em Letras pela USP, é criadora do Kocolab, laboratório de tradução em língua coreana, além de organizadora e mediadora do Clube de Poesia Asiática.
Karen Kazue Kawana é doutoranda em Teoria e História Literária do IEL/Unicamp e autora das coletâneas de poemas Pequenas coisas (Bestiário) e eu acendi o fósforo (Ofícios Terrestres), da novela O homem do jardim (Urutau) e do pseudo-renga Cancioneiro da desilusão (Urutau). Traduziu obras de escritores japoneses como Osamu Dazai, Motojirô Kajii, Yuriko Miyamoto, Toshiko Tamura, entre outros. Faz parte dos grupos de pesquisa Pensamento Japonês: Princípios e Desdobramentos (USP) e Mulherando (Unicamp).
Leila Guenther é descendente de imigrantes japoneses e alemães. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Partes homólogas (Reformatório) e O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial), e os livros de poemas Este lado para baixo (Peirópolis) e Viagem a um deserto interior (Ateliê Editorial), selecionado no Programa Petrobras Cultural e finalista do Prêmio Jabuti. Mantém o blog nalinhadavida.blogspot.com
Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de As ruas sem nome (Patuá, 2025), obra de caráter autobiográfico. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, experiência que influenciou sua pesquisa sobre memória, diáspora, gênero e raça.
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Uma amarga canção do exílio
Acabo de ler, numa sentada, Cancioneiro
da desilusão: um pseudo-renga (Urutau), de Karen Kawana. Quando ela se
referiu a um “pseudo-renga”, eu ri, porque achei que era uma resposta à
mensagem em que chamei meus tercetos de “pseudo-haicais”. No caso dela, penso
em pseudo- no sentido enriquecedor que o prefixo agrega a palavras como pseudofruto
– uma fruta que vem da parte acessória de uma flor. Um figo, um caju, um
morango. Pois o renga é um poema japonês encadeado, coletivo, composto em
estrofes de três e dois versos por vários participantes, muitas vezes de forma
lúdica em grêmios de haicai. E o termo pseudo-renga, cunhado pela
autora, se dá pelo fato de ele não ser escrito por múltiplos autores, mas
apenas por Karen, e ter apenas um eu lírico, masculino, uma espécie de homo
japonicus cuja trajetória (tão familiar para mim, que descendo de
japoneses) é de um exílio circular e infinito, de quem, em direção ao oeste, chega por fim
ao leste, ponto de partida e chegada. Esse eu lírico, no entanto, é também
coletivo em seu sentido existencial, ao ecoar a trajetória do imigrante japonês
que abandona um país onde não cabe mais (“os que deixei/ não queriam o
diferente/ para os envergonhar”), vem para uma terra com a promessa ilusória de
novas oportunidades (“lá há sabiás/ calor de dar inveja/ a este meu país”),
tentando sem sucesso integrar-se (“aqui também me veem/ e não me compreendem”),
e cujos descendentes, anos depois, refazem o caminho em sentido contrário, em
busca, no Japão, também de novas oportunidades de desilusão (“fui meu chefe/ e
meu próprio escravo/ sem qualquer lucro”). Nessa descrença o subtítulo encontra o título,
uma vez que cancioneiro evoca a literatura
mais tradicional da nossa melancólica língua portuguesa.
A terra natal deste
imigrante – seu furusato –, tantas vezes motivo de idealização e de
esperança dos que já nasceram aqui, se revela, no trajeto inverso dos dekasseguis, culminado de vergonha,
tão inóspita e tão pouco acolhedora como o Brasil o foi. A impressão amarga do
fracasso tem passagem de ida e volta (“de novo aqui/ mais uma vez pária/ outra
vez só”). O homo japonicus carrega uma inadaptação que não pode
esconder: no Brasil não é brasileiro e no Japão não é japonês; portanto, ele não
conhece pertencimento. Isso o mantém sempre desterrado (“eu, não obstante/
continuo estrangeiro/ em toda parte”), porque seu ethos não o deixa
sentir-se em casa nem dentro de si mesmo: sua mente e seu corpo cansados (“a
dor do corpo/ horas vestindo máscaras/ sob as quais não sou”), que a custo
nesta obra arrasta não por acaso no encadeamento do renga sem trégua, não
encontra porto onde se ancorar, está em constante errância, deslocado. Em Cancioneiro
da desilusão, o que há de imutável e permanente é justamente a diáspora:
uma espécie de lugar entre, um intervalo eterno, um não-lugar, talvez o
único que nos é permitido habitar.
(Leila Guenther)
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Quem foi a Baronesa de Itaguaí
Não havia falado ainda
da plaquete Aforismos & Foras da Baronesa de Itaguaí (psicografados por Leila Guenther), que publiquei
em 2024 pela Galileu Edições. Esta iniciativa de Jardel Dias Cavalcanti tem
divulgado traduções e textos éditos e inéditos de diversos autores, como
Augusto de Campos, Gerald Thomas, Rimbaud, Sylvia Plath, no formato simpático
de plaquete, aquele livro fininho, artesanal, com espaço para experimentações.
Aforismos surgiu como um besteirol da
personagem que criei nas redes, a Baronesa de Itaguaí. Seu nome é uma
referência e uma homenagem ao Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Fernando de Brinkerhoff
Torelly, perseguido pela ditadura militar por suas frases irreverentes. Aliás, a epígrafe do
livrinho é dele. Tal como o barão, o nome do lugar de onde provém a baronesa é
de origem indígena (o prefixo ita- significa “pedra”). Itaguaí, no caso,
é o cenário do conto “O alienista”, de Machado de Assis, cujo protagonista
interna no hospício todos os habitantes da região. Só tarde é que passei a
gostar do cômico e, em especial, de fazer piada, sobretudo comigo mesma. Acho que isso se relaciona a uma época da vida em que nos importamos cada vez menos
com o que pensam (ou não) de nós e cada vez menos nos levamos a sério. Alguma
vantagem a idade precisa trazer. É difícil aguentar a si próprio quando se é
constantemente chato e sem senso de humor. Trata-se de um exercício intimamente
libertador e também mentalmente instigante, porque comicidade é algo difícil de
criar. Houve quem acreditasse na existência real da baronesa, porque não a
associavam a mim (ex-chata, espero). A imagem da capa, um boneco de vodu com um
detalhe politicamente incorreto, foi criada pelo escritor, artista plástico e
historiador Ronald Polito, um dos sujeitos mais brilhantes que já conheci.
Para quem quiser adquiri-la ou a outras plaquetes, é só falar com Jardel, o editor: galileuedicoes@gmail.com
https://www.instagram.com/galileu.edicoes/

























