terça-feira, 13 de outubro de 2026

12/10: Assim na terra como no céu: a política da espiral (2/2), por Elenízia Bernardes


"𝑀𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑚𝑎̃𝑒 𝑠𝑒𝑚𝑝𝑟𝑒 𝑐𝑜𝑠𝑡𝑢𝑟𝑜𝑢 𝑎 𝑣𝑖𝑑𝑎 𝑐𝑜𝑚 𝑓𝑖𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝑓𝑒𝑟𝑟𝑜.”

— 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐄𝐯𝐚𝐫𝐢𝐬𝐭𝐨
"𝑃𝑜𝑟 𝑖𝑠𝑠𝑜 𝑚𝑒𝑠𝑚𝑜, 𝑡𝑟𝑎𝑧𝑒𝑚𝑜𝑠 𝑐𝑜𝑛𝑜𝑠𝑐𝑜 𝑎 𝑚𝑎𝑟𝑐𝑎 𝑑𝑎 𝑙𝑖𝑏𝑒𝑟𝑡𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑜𝑠 𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑎𝑠. 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑎𝑛𝑡𝑜, 𝑛𝑜𝑠𝑠𝑜 𝑙𝑒𝑚𝑎 𝑑𝑒𝑣𝑒 𝑠𝑒𝑟: 𝑜𝑟𝑔𝑎𝑛𝑖𝑧𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑗𝑎́!”
— 𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳
Há algum tempo, li algo sobre as águias jamais enfrentarem uma serpente no chão: elas a tomam e a levam para o alto. O céu, aqui, não é lugar de fuga. O que ocorre é que, mudado o campo de batalha, mudam também as relações de força.
Essa imagem me remete, inexoravelmente, às espirais da 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐀𝐧𝐚𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐉𝐮𝐧𝐠. A espiral não é uma linha reta em direção a um ponto final, tampouco um círculo condenado a repetir-se. Ela retorna; mas retorna diferente. O que parecia repetição pode ser aprofundamento. O conflito é reencontrado em outra altura.
Essa é uma metáfora que me parece particularmente fecunda para pensar 𝐍𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐒𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫𝐚 𝐀𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐝𝐚 como uma imagem negra que emergiu das águas pelas mãos de homens pobres e que, ao longo dos séculos, foi sendo incorporada à vida de milhões de mulheres brasileiras.
Nas periferias, a política nunca se apresenta com solenidade; acontece na cozinha comunitária, na associação de moradores, na fila do posto de saúde, na escola, na igreja, no cuidado com os filhos, na proteção dos velhos, na organização da comunidade. Acontece sobremaneira quando uma mulher aprende a transformar escassez em rede.
É aí que Nossa Senhora Aparecida pode ser lida como um 𝐚𝐫𝐪𝐮𝐞́𝐭𝐢𝐩𝐨 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐨 — não no sentido de que Jung tenha estabelecido essa correspondência, mas como uma imagem simbólica capaz de revelar uma experiência coletiva.
A mulher negra coroada não aparece como soberana porque tenha conquistado o poder segundo as regras do poder. Ela o exerce de outro modo: sustenta, articula, protege e reúne — conforme dizemos nas 𝐆𝐞𝐫𝐚𝐢𝐬, pelas beiradas.
𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳 nos ensinou a olhar para a experiência das mulheres negras brasileiras a partir da 𝐚𝐦𝐞𝐟𝐫𝐢𝐜𝐚𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, recusando uma história contada exclusivamente pelos centros de poder. 𝐒𝐮𝐞𝐥𝐢 𝐂𝐚𝐫𝐧𝐞𝐢𝐫𝐨 mostrou como raça, gênero e poder se entrelaçam na produção de lugares sociais — e como a mulher negra também produz conhecimento e resistência a partir desses lugares. 𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 devolveu ao quilombo sua dimensão de território político, memória e liberdade. 𝐋𝐮𝐢𝐳𝐚 𝐁𝐚𝐢𝐫𝐫𝐨𝐬, por sua vez, pensou a organização das mulheres negras como força coletiva, e não como mera soma de dores individuais.
É nesse ponto que a velha imagem da serpente deve ser perturbada. Sim. Porque a serpente não precisa ser simplesmente destruída — nesta eleição, ficamos ainda muito distantes de derrotar a serpente do 𝐜𝐨𝐥𝐨𝐧𝐢𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥 e é preciso maturidade para reconhecer que, decerto, jamais o faremos. Inteligência política não é propriamente esmagar o mal sob os nossos pés; é saber, com rigor, em que chão nossos pés pisam.
A política das mulheres das periferias brasileiras sempre consistiu em elevar a questão sem abandonar o chão: transformar uma necessidade privada em reivindicação pública; uma experiência individual em consciência coletiva; uma casa em território; uma rede de cuidado em força política.
Nossa Senhora Aparecida pisa a serpente, mas não esmaga o mundo: calca aquilo que ameaça a vida. Há uma diferença imensa entre os dois movimentos.
A espiral nos ensina que não precisamos permanecer eternamente no mesmo campo minado. Podemos subir um pouco. Não para escapar da terra, mas para enxergá-la de outro lugar. Depois descemos novamente.
"𝐀𝐬𝐬𝐢𝐦 𝐧𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨 𝐜𝐞́𝐮."
Nunca para abandonar o chão, mas para voltar a ele mais fortalecidos, mais organizados, com outra consciência.
O poder que dominará a Câmara e o Senado pelos próximos quatro anos quer submeter. Existe, contudo, outro poder que sabe se relacionar. Aquele mede sua força pelo tamanho do inimigo que consegue destruir.
Este exerce sua potência na qualidade da vida que consegue preservar.
É nesse ponto que a discussão sobre alianças precisa alcançar também aquilo que acontece para além das nossas fronteiras. A própria democracia brasileira entra neste segundo turno sob algumas perguntas que merecem ser investigadas sem alarme e sem ingenuidade: a 𝐏𝐨𝐥𝐢́𝐜𝐢𝐚 𝐅𝐞𝐝𝐞𝐫𝐚𝐥 arquivou a apuração sobre possível interferência e financiamento dos Estados Unidos no processo eleitoral. As perguntas, entretanto, permanecem — e, parece-me, são maiores que a investigação:
"𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐠𝐚𝐧𝐡𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐛𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐞́ 𝐞𝐬𝐭𝐢𝐦𝐮𝐥𝐚𝐝𝐚 𝐚 𝐞𝐧𝐱𝐞𝐫𝐠𝐚𝐫 𝐬𝐮𝐚 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐢𝐧𝐢𝐦𝐢𝐠𝐚?"
"𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐥𝐮𝐜𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐨 𝐝𝐞𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐨 𝐬𝐞 𝐫𝐞𝐝𝐮𝐳 𝐚̀ 𝐢𝐧𝐝𝐢𝐠𝐧𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐚̂𝐧𝐞𝐚, 𝐚̀ 𝐛𝐮𝐟𝐨𝐧𝐚𝐫𝐢𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞, 𝐚𝐨 𝐜𝐚𝐧𝐜𝐞𝐥𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞 𝐚̀ 𝐠𝐮𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐩𝐞𝐫𝐞𝐧𝐞 𝐝𝐞 𝐧𝐚𝐫𝐫𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚𝐬?"
A tão aclamada 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐜𝐢𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐜𝐥𝐚𝐬𝐬𝐞 implica também compreender que a serpente a ser reconhecida não é — não pode ser — o motorista de Uber que se acredita empresário, o crente que a minha pretensa lucidez ateística rejeita, ou mesmo o companheiro de campo ideológico com quem divirjo em questões pontuais. A serpente é a 𝐞𝐧𝐠𝐫𝐞𝐧𝐚𝐠𝐞𝐦 𝐢𝐦𝐩𝐞𝐫𝐢𝐚𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚 que, por tantos caminhos, nos inocula a ilusão de supremacia e nos alimenta o impulso de exterminar aquilo que não se ajusta à nossa própria imagem do mundo. É esse ardil que nos mantém prisioneiros da uniformidade da planície, mesmo quando empunhamos, com a melhor das intenções, a bandeira da diversidade.
É aqui que a sabedoria política das mulheres negras das periferias brasileiras volta a nos ensinar algo precioso: elas sabem que a vida se sustenta pela habilidade de tecer alianças sem exigir que os outros deixem de ser quem são.
Uma mãe de santo pode costurar vidas dilaceradas com o fio oferecido por uma pastora evangélica; uma associação de moradores pode reunir pessoas que não votam do mesmo modo; uma mulher pode defender sua comunidade sem precisar transformar a vizinha em inimiga, porque se compreende, nas periferias, uma coisa que os centros urbanizados tantas vezes desaprendem: ninguém escapa à serpente do 𝐚𝐭𝐨𝐦𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 sozinho.
Beatriz Nascimento percebeu, nos quilombos, a potência do corpo que se faz território no encontro com outros corpos. E há uma profundidade simbólica — que Jung certamente reconheceria — no fato de nossa 𝐌𝐚𝐝𝐨𝐧𝐚 𝐍𝐞𝐠𝐫𝐚 ter surgido das águas do 𝐏𝐚𝐫𝐚𝐢́𝐛𝐚 𝐝𝐨 𝐒𝐮𝐥 desmembrada — primeiro o corpo, depois a cabeça — para tornar-se, no imaginário brasileiro, uma imagem inteira.
Penso que a política que nos falta é justamente essa arte de juntar o que foi separado: diferenças sem apagamento, alianças sem conversão, divergências sem desumanização.
Costurar é uma tecnologia política antiga. É preciso voltar a aprendê-la. Neste primeiro turno, mais de 33 milhões de brasileiras e brasileiros não foram às urnas. O número não autoriza uma explicação única, mas deveria nos fazer escutar o silêncio: há um cansaço que claramente não se resolve aumentando o volume da disputa nas redes sociais. Quando a política passa mais tempo produzindo inimigos do que construindo vínculos, o algoritmo agradece. Perde a democracia.
Uma política que vale a pena entretecer começa quando voltamos a enxergar as pessoas ao nosso entorno como vidas inteiras e não como meros "pobres de direita" — fios dispersos de um tecido esgarçado que precisamos remendar às pressas, quando o desespero nos obriga a virar votos.
A espiral nos convida a mudar de terreno e ampliar a visão.
Nossa Senhora Aparecida não apareceu inteira. Nós também não. O Brasil tampouco.
Há partes nossas ainda submersas.
Há histórias que precisam ser pescadas.
Há cabeças que precisam voltar aos corpos.
Há fios que precisam encontrar outros fios.
E há uma tarefa política imensa diante de nós. Ao abocanhar a vitória que tínhamos como certa no primeiro turno, a extrema-direita deu-nos a oportunidade rara de, sem a ilusão de vitórias definitivas e sem o desespero de derrotas terminais, nos elevarmos muito acima da unidade artificial das bolhas para recompor nossa inteireza. E sem romantização: inteireza não é ausência de conflitos; é a capacidade de nos preservarmos humanos dentro deles.
Que o corpo e a cabeça deste país, enfim, se reconheçam!
📸🪡 Dos meus bordados | 𝐍𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐒𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫𝐚 𝐝𝐚 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐀𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐝𝐚, 𝐩𝐢𝐬𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐬𝐞𝐫𝐩𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐨 𝐟𝐚𝐬𝐜𝐢𝐬𝐦𝐨.

Os perigos da isenção

Minicontos que tematizam literal ou metaforicamente as consequências da isenção dos indecisos (iniciativa de Adriane Garcia e Ádlei Carvalho).


Para nós, descendentes de japoneses, não nos esquecermos de nossa origem. Nossos antepassados, que vieram ao Brasil substituir a mão de obra escravizada, eram considerados inferiores aos brancos, dissimulados, pouco confiáveis, perigosos. Tão perigosos que, durante o Estado Novo, foram levados a campos de concentração criados só para eles (capítulo pouco mencionado na História da comunidade nipo-brasileira).


O título deste meu miniconto se refere à forma pela qual os nipodescendentes ainda dizem "banheiro", como os camponeses pobres do século XIX: o é o prefixo de respeito e benjo, "latrina", "lugar de excretar".

 

HONORÁVEL LATRINA (O-BENJO) 

Hiroshi nunca se interessou por política nem por futebol. Acreditava que era japonês e trabalhador demais para isso. Votava em branco, não gostava de se misturar com os “gaijin”, que via como pouco confiáveis, e, embora já tivesse nascido no Brasil, dentro de casa procurava se comunicar só na língua dos pais. Quando os norte-americanos anexaram o território brasileiro e nele instalaram suas bases, Hiroshi e sua família foram considerados inimigos do povo e tiveram de deixar o país, assim como os descendentes de chineses e de coreanos, todos ameaçadoramente amarelos (isto é, traiçoeiros, dissimulados, desleais). Precisaram fazer o caminho de volta à terra do sol nascente para trabalhar na limpeza dos banheiros das fábricas, onde todos riam do japonês macarrônico que outrora Hiroshi falava com orgulho.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Na Bienal

Amanhã, sábado, dia 11, estarei na Bienal, com meu mais recente livro de poemas, O mais leve dos metais (Editora Patuá).


 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Vaga memória, de Ana Elisa Ribeiro, em São Paulo

É neste sábado o lançamento do novo livro de Ana Elisa Ribeiro, organizadora da coleção Madrinha Lua da Editora Peirópolis, de que tenho tanto orgulho em participar, ao lado de uma grande seleção de poetas contemporâneas. Estarei lá.




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Lembrar, esperar, esquecer

Dias atrás publiquei no Facebook o comentário abaixo, junto com “Circe”, do meu livro Viagem a um deserto interior, e o professor e crítico Fernando Morato, tendo gostado do meu poema, fez uma análise belíssima e generosa dele neste vídeo em seu canal. Sempre me surpreende o quanto aprendo sobre minha própria escrita através dos outros.

A Odisseia em cartaz me fez pensar o que seria num passado remoto ouvir, em volta de uma fogueira, uma epopeia, ou seja, uma espécie de filme de ação narrado de cor. Tenho uma vaga ideia pela experiência infantil de ter ouvido meus pais lerem histórias antes de eu dormir.

Falo de um filme a que ainda não assisti, mas é de Christopher Nolan, o diretor de Amnésia (Memento), primeiro filme seu que vi há mais de 20 anos (acho que é seu segundo longa) e que me surpreendeu bastante pelo formato, no qual subverte tanto a memória quanto o esquecimento.

Tenho especial curiosidade de saber como é a Circe do filme, a feiticeira que aprisiona homens e os transforma em bichos, que falha em enfeitiçar Ulisses mas ironicamente se deixa enfeitiçar por ele. Uma personagem tão enigmática que me levou a escrever este texto [“Circe”] para tentar entendê-la. Há tempos escrever tem sido a forma de melhor me acercar daquilo que não compreendo. 

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O ponto cruz e o ponto da não crucificação, por Elenízia Bernardes


 "𝑂 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑎 𝑡𝑒𝑟 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑒́ 𝑜 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝑝𝑒𝑟𝑡𝑒𝑛𝑐𝑒𝑟 𝑎 𝑢𝑚𝑎 𝑐𝑜𝑚𝑢𝑛𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑛𝑎 𝑞𝑢𝑎𝑙 𝑎𝑠 𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑠𝑒𝑗𝑎𝑚 𝑗𝑢𝑙𝑔𝑎𝑑𝑎𝑠 𝑒 𝑎𝑠 𝑜𝑝𝑖𝑛𝑖𝑜̃𝑒𝑠 𝑡𝑒𝑛ℎ𝑎𝑚 𝑝𝑒𝑠𝑜." (𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭)


Há uma cena que se repete diariamente no meu quintal: um sabiá invade o território do outro. Um beija-flor expulsa um rival das flores do manacá. As maritacas fazem um escândalo desproporcional por causa de alguma fruta madura. Há conflitos por toda parte. A natureza está longe da ingenuidade romântica que tantas vezes lhe atribuímos, mas existe uma diferença decisiva entre a floresta e a praça pública. Na floresta não existe 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐃𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨. Entre nós, deveria existir.

Parece-me que é disso que andamos esquecidos.

Li recentemente um comentário nas redes sociais segundo o qual seria irrelevante perguntar se determinado homem acusado de importunação sexual seria imputável ou não. Afinal — dizia a comentarista — milhões de homens perfeitamente imputáveis fazem o mesmo.

Compreendo a indignação. Quem conhece minimamente a experiência feminina sabe que ela não nasce da abstração, mas do corpo.

Toda mulher conhece o medo de uma rua vazia, de um ônibus lotado, de um elevador silencioso, de um olhar que ultrapassa a fronteira do olhar. Não é uma estatística: é memória corporal gritando. Seria intelectualmente desonesto minimizar essa realidade, mas justamente porque ela é tão grave, exige que pensemos melhor — não pior.

𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳 ensinava que a sociedade brasileira organiza suas violências através de estruturas históricas profundamente enraizadas no racismo e no sexismo.

Não são apenas indivíduos violentos: são instituições, linguagens, imaginários.

É precisamente por isso que Lélia nunca confundiu transformação social com vingança pública. Seu pensamento buscava alterar as estruturas, não apenas trocar quem ocupa o pelourinho.

𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨, por sua vez, acrescenta outra camada. Ao estudar os quilombos, ela mostrou que resistência não significa apenas enfrentamento. Significa, em primeira e em última análise, a construção de outra forma de comunidade.

O quilombo não era apenas fuga: era invenção política — 𝐮𝐦 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐨 𝐦𝐨𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐨𝐫𝐠𝐚𝐧𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚, 𝐩𝐞𝐫𝐭𝐞𝐧𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞 𝐝𝐢𝐠𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

É por isso que sinto um desconforto inenarrável quando vejo parte das redes sociais transformar qualquer conflito num ritual de exposição permanente. Afasto-me, mineiramente, de quem quer que, declarando-se progressista, troque justiça por humilhação pública, crítica por excomunhão e responsabilidade por aniquilação simbólica.

Essas distinções, que parecem pequenas, são justamente uma das grandes conquistas da tradição jurídica e humanista. São elas que impedem que a sociedade se transforme numa sucessão infinita de pelourinhos — digitais ou não.

Nós, brasileiros, conhecemos a história do pelourinho.

Sabemos que a praça pública já foi lugar onde corpos eram transformados em espetáculo.

Sabemos também a cor dos corpos que costumavam ocupar aquele poste.

Não deixa de ser irônico que, séculos depois, tenhamos naturalizado versões digitais, mais ou menos embranquecidas, do mesmo mecanismo.

Mudaram as plataformas. Nem sempre mudou a lógica.

𝐌𝐮𝐧𝐢𝐳 𝐒𝐨𝐝𝐫𝐞́ lembra que toda sociedade produz formas de mediação.

As redes sociais também são uma forma de mediação, mas possuem uma característica peculiar: recompensam aquilo que produz maior intensidade emocional.

A indignação circula mais depressa do que a reflexão.

A denúncia recebe mais compartilhamentos do que a dúvida.

A sentença viaja mais rápido do que a pergunta.

E perguntar passou a parecer suspeito. Quando não, ofensivo.

Pois foi exatamente uma pergunta que despertou minha atenção.

Não uma defesa.

Uma pergunta:

"𝐄́ 𝐟𝐮𝐧𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐮𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐫 𝐨 𝐫𝐨𝐬𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐧𝐨𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐞́𝐦 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨?"

Essa pergunta não diminui a dor da vítima.

Também não absolve o acusado.

Ela apenas recorda que o Estado de Direito existe justamente para impedir que a justiça seja substituída pela catarse. 𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭 alertava que uma sociedade deixa de ser política quando abandona o julgamento para abraçar apenas a reação.

Vivemos uma época em que muitas pessoas confundem três instâncias completamente diferentes:

● a apuração jornalística;

● o processo judicial;

● a punição moral nas redes.

Quando essas três esferas se fundem, surge aquilo que alguns juristas chamam de 𝐩𝐞𝐧𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐜𝐢𝐩𝐚𝐝𝐚.

Há um paradoxo curioso aí.

Os mesmos grupos que, com razão, criticam o sistema penal por ser seletivo, racista e violento, muitas vezes defendem um mecanismo informal que pode ser ainda mais arbitrário: o tribunal permanente das redes sociais.

Não há contraditório.

Não há direito de defesa.

Não há proporcionalidade.

Não há prescrição.

Não há possibilidade de reinserção.

Há apenas um arquivo infinito.

Isso me lembra, novamente, um trecho muito singular de Hannah Arendt. Ela observava que uma das condições da vida política é a possibilidade de um novo começo. Quando toda pessoa passa a ser reduzida ao pior ato que praticou, elimina-se justamente essa possibilidade de recomeço. Isso não significa "passar pano para criminosos". Significa perguntar qual é a finalidade da exposição pública.

Ela protege futuras vítimas?

Ajuda a investigação?

Ou apenas satisfaz uma necessidade coletiva de punição exemplar?

São perguntas diferentes que nos ajudam a refletir sobre o deslocamento do eixo da justiça para o eixo da 𝐯𝐢𝐫𝐭𝐮𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐫𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚.

Já não basta condenar um ato.

É preciso demonstrar publicamente a intensidade da condenação.

É preciso mostrar indignação e provar que se pertence "ao lado certo da história".

𝐏𝐢𝐞𝐫𝐫𝐞 𝐁𝐨𝐮𝐫𝐝𝐢𝐞𝐮 diria que isso produz um tipo de capital simbólico: a exibição pública da virtude também funciona como forma de distinção social. E aí ocorre algo curioso: o foco deixa de ser a vítima. Não raro, a vítima desaparece, permanecendo apenas quem condena com mais eloquência.

É uma inversão sutil.

𝐉𝐮𝐧𝐠 provavelmente enxergaria nisso um fenômeno da sombra coletiva. Quando uma comunidade encontra um personagem suficientemente condenável, projeta sobre ele tudo aquilo que não suporta reconhecer em si mesma. O indivíduo torna-se um receptáculo do mal comum. É o velho mecanismo do bode expiatório, descrito em diferentes tradições religiosas e antropológicas.

𝐉𝐮𝐫𝐞𝐦𝐚 𝐖𝐞𝐫𝐧𝐞𝐜𝐤, a seu turno, insiste que enfrentar a violência contra as mulheres exige fortalecer instituições capazes de garantir direitos.

Direitos.

Não linchamentos.

Proteção.

Não espetacularização.

Quando o debate se desloca para a lógica da humilhação pública, perde-se justamente aquilo que poderia impedir novas violências: investigação séria, responsabilização proporcional, políticas públicas, educação e transformação cultural.

No quintal da minha casa, quase nada é desperdiçado.

As cascas da banana voltam em forma de bolo.

As folhas secas tornam-se húmus.

O tronco velho abriga fungos, insetos, musgos e pássaros.

A natureza conhece uma palavra que nós temos desaprendido: transformação.

A terra não lacra nem cancela; metaboliza.

Certamente por isso eu continuo acreditando mais no chão firme do diálogo honesto e rigoroso do que na pureza performática das redes. Não porque toda pessoa mereça absolvição, mas porque 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐢𝐬𝐚 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐝𝐢𝐫 𝐬𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐳𝐢𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚 𝐨𝐮 𝐚𝐩𝐞𝐧𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐯𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐬𝐨̃𝐞𝐬 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨𝐮𝐫𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬.

E, sendo mulher preta num país misógino e racista, sendo herdeira de tantas mulheres que bordaram resistência em silêncio enquanto o mundo fazia barulho, prefiro acreditar que a agulha continua sendo mais civilizatória do que o chicote.

A democracia — como um bom bordado mineiro — nunca nasce da violência do nó cego.

Ela floresce da paciência de muitos fios que, sem perder sua singularidade, sustentam o mesmo tecido.

Menos vigilância da psicologia alheia.

Mais intimidade com as tramas da nossa própria psique.

Os nossos avessos também são lugar de bordado.

 

𝐐𝐮𝐢𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐜𝐚𝐬𝐚 | Há avessos que definitivamente não me pertencem. Dos meus, porém, convém cuidar. Viver perenemente denunciando "a maldade dos outros" me roubaria o tempo precioso para as tramas que sustentam o meu próprio bordado. Evidentemente, não estou falando "só" de bordado, mas vejam só esta beleza:

 


 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Elogio à Copa

 


Na copa de 1994, com 17 para 18 anos, eu estava numa das piores crises psíquicas que tinha conhecido até então. Digo “psíquica” porque eu não tinha sido diagnosticada, não estava em tratamento, nem sei do que se tratava, se ansiedade patológica, inquietação extrema ou depressão profunda. Sei que não conseguia me alimentar, não conseguia dormir, não conseguia me concentrar, não conseguia ver uma luz no fim do túnel, não conseguia sair do fundo do poço em que me encontrava (luz no fim do túnel, fundo do poço, beco sem saída: às vezes os clichês dão uma ideia do que não sabemos dizer de outra forma). Precisava de algo onde me agarrar até que o pior passasse: qualquer coisa que desviasse minha atenção pelo máximo de tempo possível. O que estava a meu alcance naquele período era a beleza de um esporte cheio de técnica mas também de improviso, que consistia em saber driblar os obstáculos, de mãos atadas, até encontrar uma direção, uma solução, e chegar a um resultado - tudo o que eu não sabia fazer. Me pus a ver os jogos e eles realmente cumpriram o papel de me sequestrar por alguns momentos de onde eu estava para uma realidade que, apesar de tudo, estava sujeita à segurança das regras. Acho que assisti a todos os jogos. Aprendi como o esporte funcionava, qual era o papel de cada jogador no tabuleiro, os tipos de formação tática, o que podia e o que não se podia fazer em campo. Reconhecia um impedimento no exato momento em que ele ocorria e identificava cada atleta jogando. Vi jogadores reagindo de formas diferentes ao mesmo problema, vi problemas diferentes surgirem quando menos se esperava. Vi dor, esperança e, por fim, contentamento numa espécie de milagre: o Brasil campeão, ganhando da Itália de Baggio nos pênaltis. A vitória, no meu entender, veio antes, num jogo sofrido contra a Holanda, em que o Brasil saiu na frente, parecia ter tudo para vencer, inclusive com os pequenos Romário e Bebeto se igualando em altura aos holandeses e Romário fazendo a coisa toda parecer muito simples. No entanto, a seleção brasileira foi se afundando até que a Holanda virasse o jogo, o que era incompreensível e triste demais. Foi num gol de falta, quando tudo parecia perdido, faltando uns 10 minutos para o final, que Branco definiu o jogo e pôs o Brasil no caminho da vitória. A bola quase bateu em Romário, que se desviou dela como se estivesse num desenho animado. Nunca mais outro evento esportivo me emocionou ou me resgatou de mim mesma assim. Já não lembro o que me levou a tamanha escuridão em minha vida, mas me recordo muito bem da fisionomia esgotada, decomposta e emocionada de Branco ao comemorar o gol que redimiria o Brasil.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sólidas construções


A vida é curta, embora eu esconda isso dos meus filhos.
A vida é curta e eu encurtei a minha
de mil maneiras deliciosas e imprudentes,
de mil maneiras deliciosamente imprudentes;
vou esconder isso dos meus filhos também.
O mundo é pelo menos 50% das vezes horrível e isso é uma estimativa
conservadora, embora eu esconda isso dos meus filhos.
Para cada pássaro há uma pedra atirada em um pássaro.
Para cada criança amada, há uma criança violada, num saco
no fundo de um lago. A vida é curta e o mundo,
pelo menos metade das vezes, horrível, e para cada estranho
gentil, há outro que te partiria inteiro,
embora eu esconda isso dos meus filhos. Estou tentando
vender o mundo para eles. Qualquer corretor decente,
te mostrando uma verdadeira espelunca, fantasia
sobre sólidas construções: este lugar pode ficar bonito,
não é? Você poderia deixar bonito este lugar.

 (Maggie Smith, em tradução minha e de Álvaro Wolmer)



sábado, 9 de maio de 2026

Emmanuel Carrère sobre transtorno bipolar

 


O assombro de descobrir que alguém escreveu o que você sente, o que você vivencia, o que você passou ou poderia passar. Que você é louco, mas não é o único:

DO TIPO 2

É perturbador se ver diagnosticado aos quase sessenta anos de idade com uma doença da qual se sofreu, sem que ela fosse nomeada, durante toda a sua vida. Você se revolta, a princípio eu me revoltei dizendo que o transtorno bipolar é um desses conceitos que de repente estão na moda e começam a ser aplicados a toda e qualquer coisa — mais ou menos como a intolerância ao glúten, de que um monte de gente descobriu padecer a partir do momento em que se começou a falar dela. Depois, você lê tudo que consegue sobre o assunto, revê toda a sua vida sob esse ângulo e percebe que faz sentido. Que faz mesmo muito sentido. Que durante toda a sua vida você se viu submetido a essa alternância de fases de excitação e de depressão, que naturalmente é o caso de todos nós, pois nosso humor é sempre mutável, todos temos altos e baixos, dias de céu claro e dias de nuvens escuras, mas existem pessoas, e eu faço parte desse grupo, ao que parece dois por cento da população, para quem esses altos são mais altos e esses baixos, mais baixos que para a média, de tal modo que essa sucessão se torna patológica. O ponto em que esse diagnóstico não faz sentido, à primeira vista, é o que diz respeito à fase chamada “maníaca” disso que, até os anos 1990, se chamava psicose maníaco-depressiva. O estado maníaco é aquele em que as pessoas andam nuas na rua, ou compram três Ferraris de uma vez, ou explicam fervorosamente a quem quiser ouvir que é preciso comer goiabas, muitas goiabas, para salvar a humanidade da Terceira Guerra Mundial. Conheci um garoto que fazia esse tipo de coisa e que, passada a crise, ficava aterrorizado por tê-las feito. Ele se suicidou, como parecem fazer vinte por cento dos bipolares — uma estatística mais confiável, sinto dizer, que a de Chogyam Trungpa a respeito do tempo do cérebro dedicado ao presente. Eu me enternecia com esse garoto brilhante e desesperado, nunca pensei que sofria do mesmo mal que ele. Depressivo, sim: como honestamente assumi ao preencher o questionário Vipassana, eu atravessei, além do que se pode chamar de fases ruins, dois períodos de depressão verdadeira, depressão severa, aquela que faz você quase não se levantar durante muitos meses, não conseguir mais cumprir tarefas básicas da vida e principalmente não conseguir mais imaginar que alguma outra coisa vá acontecer. É a característica da depressão: não é possível acreditar que um dia as coisas vão melhorar. Os amigos bem-intencionados lhe dizem “você vai sair dessa” e, estraçalhado, você até se ressente deles: dizer isso é tão distante da realidade… é tão óbvio que eles não sabem do que estão falando… Quando você está dentro da depressão, pensa que não sairá dela, que não sairá de lá vivo, que não sairá de lá a não ser pelo suicídio. Se não se suicidar, no entanto, você sai de lá, cedo ou tarde, e uma vez que saiu você passa para o campo dos amigos bem-intencionados, não consegue mais evocar aquele estado de aflição intolerável e aparentemente eterno. Quando eu era jovem, tive uma viagem horrível com cogumelos alucinógenos. Eles me mandaram para o inferno, cuja característica é ser aterrador e não acabar nunca. Eu estava lúcido no meu pesadelo. Cheguei a pensar, com lucidez: “Sem pânico. Tomei uma substância tóxica. Esse efeito vai durar o tempo da digestão, em oito ou dez horas vai ter passado, só preciso aguentar até lá”. Pensava isso para me tranquilizar, e era sensato e verdadeiro, mas ao mesmo tempo eu me perguntava: “Será que eu vou aguentar? Daqui a oito ou dez horas eu ainda vou estar vivo?”. Saí vivo, e sei que quando você se vê de volta entre os vivos você relativiza o inferno, esquece bem rápido o horror que há nele, e é isso que, nestas páginas, eu gostaria de não fazer. Como diz Céline: “A grande derrota, no fundo, é esquecer, e sobretudo aquilo que fez você morrer”. Em resumo, para minha infelicidade eu conheço a depressão. Mas nas minhas primeiras consultas psiquiátricas ainda ignoro que, na definição do transtorno bipolar, o polo oposto ao engolfamento depressivo não é necessariamente o estado espetacular de euforia e desinibição que leva ao suicídio social e muitas vezes ao suicídio em si, mas também frequentemente aquilo que os psiquiatras nomeiam hipomania, o que quer dizer, simplesmente, que você pira mas não na mesma proporção. Você não sai na rua nu em pelo, você apenas é um joguete desse taquipsiquismo cujo nome aprendi há pouco. Você é bipolar do tipo 2: agitado sem ser necessariamente eufórico, mas por vezes também sedutor, cativante, muito sexual, aparentemente no auge do seu vigor mas inclinado a tomar decisões de que mais tarde vai se arrepender com a certeza de que são as decisões certas e de que nunca será preciso voltar a elas. Depois é a certeza contrária que se impõe, você entende que fez a pior coisa que poderia ter sido feita, tenta consertá-la e piora ainda mais a situação. Você pensa uma coisa e o contrário dela, você faz uma coisa e depois o contrário dela, em uma sucessão alucinante. O pior, quando você costuma se analisar, como eu, é que, uma vez feito o diagnóstico e identificado o modo de funcionamento, você adquire um distanciamento, mas esse distanciamento não serve para muita coisa. Ou apenas para passar a ter consciência de que não importa o que você pense, diga ou faça, você não pode confiar em si mesmo, pois você é duas pessoas em uma só, e essas duas pessoas são inimigas.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 20 de abril de 2026

As coisas como elas são

 


Ver as coisas como elas são: é isso que quer dizer Vipassana. E As coisas como elas são é o título do livro do meu amigo Hervé Clerc sobre o budismo. Já tracei um perfil de Hervé em O reino e, como preciso lutar contra a minha tendência pretensiosa de imaginar que meu leitor leu e recorda meus livros anteriores, vou fazê-lo de novo, mas de um jeito um pouco diferente, começando por citar Pitágoras, que coloca a seguinte questão: “Por que o homem existe sobre a terra?”. Resposta: “Para contemplar o céu”. Para contemplar o céu? Se isso é verdade, a maioria dos homens não sabe. A maioria pensa que existe sobre a terra para encontrar o amor, ficar rico, exercer algum poder, gerar picos de crescimento ou deixar sua marca nas areias do tempo. São raras as pessoas que sabem que existem para contemplar o céu. Se você não está nesse grupo, é uma sorte conhecer alguém que esteja. Isso amplia o horizonte. Eu tenho essa sorte: conheço Hervé, homem pacato, lacônico, absorto, que vive como se pudesse morrer a qualquer momento e tem sempre medo de acumular demais. Como Diógenes, pensa que é melhor beber fazendo uma concha com a própria mão do que usando uma cumbuca. Quando está viajando, ele arranca e joga fora as páginas dos livros assim que as lê, para ficar mais leve. Jornalista na Agence France Presse, morou na Espanha, na Holanda, no Paquistão, tendo o cuidado de não fazer carreira e continuar, como ele diz, abaixo do alcance do radar. Hoje ele se divide entre Nice e um vilarejo do Valais, Le Levron, onde tem um aposento em um chalé a partir do qual se descortinam dois vales de uma só vez. É um panorama de rara beleza, diante do qual ele meditou bastante e escreveu três livros que exploram aquilo que os místicos falaram sobre a Realidade última, há tempos designada com o codinome que mais nos convém: Deus. Há trinta anos, Hervé e eu nos encontramos no Levron para caminhar pelas trilhas da montanha, conversar um pouco e ficar muito tempo calados. Tem uma piada do Valais que adoro: três camponeses estão sentados em um banco e veem uma vaca passar. “É a vaca do Pierrot”, diz o primeiro. Passam-se quinze minutos, o segundo diz: “Não, é a vaca do Fernand”. Mais quinze minutos e o terceiro se levanta e vai embora, dizendo: “Cansei dessas brigas de vocês”. São assim as nossas conversas, à exceção das brigas. Nós não brigamos, nossa amizade, que é uma dádiva na minha vida e, eu acho, na dele, não conheceu nem tempestades nem eclipses, e sim se nutre das nossas profundas diferenças e mesmo de certa discordância. Hervé acredita que nós existimos sobre a terra não apenas para contemplar o céu, mas para encontrar uma saída desse cativeiro que é a vida terrestre. Ele acredita que alguns exploradores encontraram a saída e mostram o caminho. Esses exploradores se chamam Platão, Buda, Mestre Eckhart, Teresa D’Ávila e Patanjali, de quem falarei em breve, e nada é mais urgente ou necessário do que ler os relatos deles, estudar os mapas que eles traçaram para que na nossa vez seguíssemos o caminho. Em palavras indianas, pois nenhuma civilização meditou sobre isso com mais profundidade e precisão do que a da Índia: a única tarefa a que um homem dotado de bom senso deve se dedicar é tentar sair do samsara, essa roda de mutações e sofrimentos que chamamos de condição humana, para alcançar o nirvana, que é a vida enfim real, liberta da ilusão, onde se veem as coisas como elas são. É isso a ioga, diz Hervé. Enfim: isso é a ioga para quem a leva a sério, não para quem a toma por ginástica.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A mente como prisão

 


O primeiro retiro de meditação vipássana, tal como estabelecido por S.N. Goenka, num presídio brasileiro. Vipássana é a meditação aperfeiçoada por Sidarta Gautama, o Buda, como caminho para a iluminação. No método de Goenka, o retiro dura 10 dias, com doze horas diárias de meditação, em absoluto silêncio, sem nenhum contato com os outros participantes. Quem já passou pela experiência sabe quão desafiadora e intensa ela pode ser. A primeira iniciativa entre detentos se deu na Índia e pode ser vista aqui.

terça-feira, 31 de março de 2026

31 de março

À memória de Sol


Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

apesar da data

que nos trouxe até aqui

Tinha uma música na cabeça

um ritmo no corpo

e jurei que cantaria

inclusive sob tortura

 

Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

até saber que uma cachorra

engoliu comida com vidro

dada pelo mesmo tipo de gente

que numa data como esta

nos trouxe até aqui


(em Este lado para baixo. Editora Peirópolis, 2025)


segunda-feira, 30 de março de 2026

Um poema de Philip Levine



The Trade
 
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
 
(Philip Levine, 1928-2015)

 

 
A Troca
 
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
 
(tradução de Álvaro Wolmer)