Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.
na linha da vida
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Para Ahmed Zoghbi
sábado, 24 de janeiro de 2026
Pré-venda do novo livro
O mais leve dos metais, título do meu novo livro de poemas, é uma referência ao lítio, o metal de menor peso da tabela periódica. Ele é amplamente utilizado na psiquiatria para controle do transtorno bipolar, condição que me afeta, me desestabiliza, mas também me move a escrever. Nos textos reunidos neste volume, busco não apenas o diálogo com indivíduos próximos ou distantes, diferentes ou semelhantes, mas também encontrar algum equilíbrio na corda bamba do mundo.
Ele está em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá, que tão cuidadosamente me acolheu e de cujo catálogo me orgulho em fazer parte.
Em breve, darei informações sobre o lançamento.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Ao som de Björk
Começo
2026 com a alegria de saber que Este lado para baixo (Editora Peirópolis)
foi a primeira leitura do ano de Helder Guastti e que ele adorou o livro. Helder tem um trabalho lindo como educador
(foi eleito Educador do Ano 2024 e está entre os 50 mais importantes educadores
do mundo de 2025, segundo o Global Teacher Prize). Fez um vídeo com o poema que
dediquei ao poeta Carlos Augusto Lima, utilizando a canção da Björk que integra
a epígrafe do livro.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
O passado infinito de Isabella Yoshimura
Isabella Yoshimura é
escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o
curta-documentário The Living Past (Chongqing, China), produziu um
podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo e publicou Poemas
Surdos (Ipê das Letras). Seu trabalho explora identidade, memória e
espiritualidade (Isabella dedica-se também à meditação). Ela integra o Coletivo
de Escritoras Asiáticas & Brasileiras.
Em The Living Past, acompanhamos
Zhu Songling, paleontólogo que trabalhou 40 anos no Museu de História Natural
de Chongqing, onde podem ser vistos os fósseis de dinossauros restaurados por
ele. O curta foi realizado através do programa Looking China, no qual alunos de
cinema de vários países filmam um documentário de até 12 minutos sobre a
cultura chinesa, e evoca a seguinte questão: é possível recompor
o passado se nunca o vimos?
Abaixo, um dos poemas de seu
livro:
_2020
hoje o mundo termina
e começa de novo
fogos vão ser atirados
corpos vão balançar ao som da derrota
de um dia virado, vidrado
é lua nova cheia de coisa que não
termina
o fim eterno em retorno
hoje o mundo começa
e termina de novo
sábado, 15 de novembro de 2025
Caminhando com o vento
Tenho
usado uma roupa nova a cada semana. Explico: a "roupa" é meu próprio corpo, do
qual faz parte minha cabeça, cheia de medos, idiossincrasias e condições
psiquiátricas consideradas graves. A ligação entre aflições mentais e dores ou
doenças físicas é hoje bastante conhecida. O sofrimento é integral, por
inteiro: é o que se chama de somatização. E este corpo vinha ficando
progressivamente mais difícil de ser arrastado, feito um armário cada vez mais
atulhado de tranqueira que tentamos mudar de lugar sozinhos procurando
encontrar um canto onde ele caiba. Tinha se tornado um fardo e movê-lo drenava
minha energia. No meu caso, podia ser ainda pior, é claro, se eu não tivesse
tido acesso a possibilidades que muitos não têm – yoga, psicoterapia, medicação
para fibromialgia, acupuntura etc. Os períodos, por exemplo, em que estive
impossibilitada de praticar yoga (que aprendi com Vinícius Della Líbera e, para mim, a mais eficiente das psicoterapias),
me levaram a pensar que era melhor me deitar definitivamente num caixão só para
não continuar a sofrer de pé. Estava sem nenhuma esperança de, beirando os
cinquenta anos, me sentir confortável e funcional dentro desta casca, até que
comecei, com Fernando Hashimoto, uma terapia denominada Rolfing, uma espécie de
manipulação do tecido conjuntivo (fáscia) desenvolvida pela pesquisadora Ida Rolf
(1896-1979), que é o que mais se aproxima daquilo que Wilhelm Reich (1897-1959)
chamou de couraça: um tipo de estrutura onde se alojariam nossos traumas
e tensões.
Na
amostra do que seria a primeira sessão, a dor que mais me desesperou por anos
praticamente desapareceu. Saí do consultório andando como se vestisse um corpo
novo. Nas outras sessões semanais, essa impressão foi se intensificando. As caminhadas
habituais com a canina Shoyu (força bruta e meu termômetro pessoal) se tornaram
menos extenuantes. Eu estava mais sintonizada com ela, que, como elemento
animal domesticado, é uma ponte entre o humano e a natureza da qual nos
afastamos, creio. Mas foi preciso aprender a lidar com essa novidade, porque eu
não estava acostumada a tantas transformações simultâneas e nítidas: quando o corpo muda,
a cabeça também muda, uma vez que ela é parte do corpo. Me sentia como uma
criança que está aprendendo a andar: ainda titubeante, insegura, desengonçada,
depois de ter passado tanto tempo em berço nada esplêndido. As outras sessões
foram me conectando com a terra, com o mundo à volta, para o qual eu só
costumava olhar a partir de pontos fixos e rígidos. A alienígena inábil com a
gravidade enfim aterrissava. Caminhando com certa fluidez, deixei de olhar
apenas para baixo, sempre com medo de pisar em falso e ser engolida pelo abismo
sob meus pés (penso agora que não é por acaso meu livro mais recente se chamar Este lado para baixo). O abismo ainda me habita, mas passei a olhar para além
dele, a me sentir mais parte da paisagem à volta, enxergando por todos os lados, com
todos os olhos e poros, com a “couraça” mais permeável a práticas, experiências
e ideias. Não à toa tomei neste curto período algumas decisões importantes e
executei outras tantas que já estavam fazendo fila na minha vida. Às vezes me
peguei caminhando olhando para o horizonte, e isso significava para mim ter
menos pavor, alguma esperança e ser um pouco mais terráquea. A roupa nova
afinal não era uma capa de chuva. Também não é um vestido de renda; está mais
para aquelas vestes esvoaçantes de algodão laranja do budismo: não acredito em cura,
palavra atualmente tão desgastada. Cura implica imutabilidade e ausência
definitiva das causas e consequências que nos constroem. Só que nada é permanente, nem dentro nem
fora. E, como um imenso tecido conjuntivo, tudo está interligado. “Meu problema
é que meu problema não pertence apenas a mim. Que a melancolia que se exprime
no meu corpo vem do mundo”, diz a antropóloga francesa desfigurada por um urso,
Nastassja Martin, com cujas reflexões me identifico. Acredito em uma jornada constante e contínua por equilíbrio, tão precário em casos como o meu. Mas,
para cumprir o percurso, necessitamos de força para seguir caminhando.
Penso
com frequência no que dizia Thich Nhat Hanh (1926-2022), o monge budista que
popularizou a meditação andando: “O milagre não é andar sobre a água. Milagre é
andar sobre a terra verde, profundamente imerso no momento presente,
sentindo-se verdadeiramente vivo”. Faz sentido para mim. Não sei o que há no
fim do túnel: é preciso atravessá-lo para descobrir. Mas é o que busco nesta
caminhada, enquanto ainda estou viva.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
De uma haicaísta amiga e discípula de Bashô
os
netos chegam
e me
tiram da cama —
os
anos estão terminando
*
um
passarinho cantando —
minhas
mãos se detêm um instante
na
pia da cozinha
*
vento
de inverno
sem
cor para exibir
sem
folhas para arrancar
*
sob
a lua cheia
corvos
boquiabertos
param
de gritar
(Chigetsu Kawai, 1634-1718. "Tratradução" minha do inglês)
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Entrelaçando culturas nos textos literários
Casa Guilherme de Almeida | 08 de Novembro de 2025 | 14h às 16h
Uma conversa com integrantes do coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras sobre suas reinterpretações das formas literárias de origem asiática.
A atividade será realizada presencialmente na Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187 - Sumaré, São Paulo).
Grátis. Para se inscrever, clique aqui.
Flavia Yumi Sakai é artista visual e haicaísta. Desde a infância, cultiva seu impulso criativo em uma busca contínua por expressão e identidade. Investiga a simplicidade e a força dos gestos mínimos, inspirada pela tradição do haicai e pela estética japonesa, sua cultura de origem. Acredita que contar histórias também acontece sem muitas palavras — através de formas, cores e pausas — como buscou explorar no livro O Tempo em uma Chawan, lançado neste ano em coautoria com Juliana Negrão.
Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past em Chongqing (China) e produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo. Autora de Poemas surdos, seu livro de estreia na poesia, explora temas de identidade, memória e espiritualidade, unindo delicadeza e reflexão em narrativas que transitam entre o real e o imaginário.
Jung Lee é poeta e tradutora. Graduanda em Letras pela USP, é criadora do Kocolab, laboratório de tradução em língua coreana, além de organizadora e mediadora do Clube de Poesia Asiática.
Karen Kazue Kawana é doutoranda em Teoria e História Literária do IEL/Unicamp e autora das coletâneas de poemas Pequenas coisas (Bestiário) e eu acendi o fósforo (Ofícios Terrestres), da novela O homem do jardim (Urutau) e do pseudo-renga Cancioneiro da desilusão (Urutau). Traduziu obras de escritores japoneses como Osamu Dazai, Motojirô Kajii, Yuriko Miyamoto, Toshiko Tamura, entre outros. Faz parte dos grupos de pesquisa Pensamento Japonês: Princípios e Desdobramentos (USP) e Mulherando (Unicamp).
Leila Guenther é descendente de imigrantes japoneses e alemães. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Partes homólogas (Reformatório) e O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial), e os livros de poemas Este lado para baixo (Peirópolis) e Viagem a um deserto interior (Ateliê Editorial), selecionado no Programa Petrobras Cultural e finalista do Prêmio Jabuti. Mantém o blog nalinhadavida.blogspot.com
Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de As ruas sem nome (Patuá, 2025), obra de caráter autobiográfico. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, experiência que influenciou sua pesquisa sobre memória, diáspora, gênero e raça.
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Uma amarga canção do exílio
Acabo de ler, numa sentada, Cancioneiro
da desilusão: um pseudo-renga (Urutau), de Karen Kawana. Quando ela se
referiu a um “pseudo-renga”, eu ri, porque achei que era uma resposta à
mensagem em que chamei meus tercetos de “pseudo-haicais”. No caso dela, penso
em pseudo- no sentido enriquecedor que o prefixo agrega a palavras como pseudofruto
– uma fruta que vem da parte acessória de uma flor. Um figo, um caju, um
morango. Pois o renga é um poema japonês encadeado, coletivo, composto em
estrofes de três e dois versos por vários participantes, muitas vezes de forma
lúdica em grêmios de haicai. E o termo pseudo-renga, cunhado pela
autora, se dá pelo fato de ele não ser escrito por múltiplos autores, mas
apenas por Karen, e ter apenas um eu lírico, masculino, uma espécie de homo
japonicus cuja trajetória (tão familiar para mim, que descendo de
japoneses) é de um exílio circular e infinito, de quem, em direção ao oeste, chega por fim
ao leste, ponto de partida e chegada. Esse eu lírico, no entanto, é também
coletivo em seu sentido existencial, ao ecoar a trajetória do imigrante japonês
que abandona um país onde não cabe mais (“os que deixei/ não queriam o
diferente/ para os envergonhar”), vem para uma terra com a promessa ilusória de
novas oportunidades (“lá há sabiás/ calor de dar inveja/ a este meu país”),
tentando sem sucesso integrar-se (“aqui também me veem/ e não me compreendem”),
e cujos descendentes, anos depois, refazem o caminho em sentido contrário, em
busca, no Japão, também de novas oportunidades de desilusão (“fui meu chefe/ e
meu próprio escravo/ sem qualquer lucro”). Nessa descrença o subtítulo encontra o título,
uma vez que cancioneiro evoca a literatura
mais tradicional da nossa melancólica língua portuguesa.
A terra natal deste
imigrante – seu furusato –, tantas vezes motivo de idealização e de
esperança dos que já nasceram aqui, se revela, no trajeto inverso dos dekasseguis, culminado de vergonha,
tão inóspita e tão pouco acolhedora como o Brasil o foi. A impressão amarga do
fracasso tem passagem de ida e volta (“de novo aqui/ mais uma vez pária/ outra
vez só”). O homo japonicus carrega uma inadaptação que não pode
esconder: no Brasil não é brasileiro e no Japão não é japonês; portanto, ele não
conhece pertencimento. Isso o mantém sempre desterrado (“eu, não obstante/
continuo estrangeiro/ em toda parte”), porque seu ethos não o deixa
sentir-se em casa nem dentro de si mesmo: sua mente e seu corpo cansados (“a
dor do corpo/ horas vestindo máscaras/ sob as quais não sou”), que a custo
nesta obra arrasta não por acaso no encadeamento do renga sem trégua, não
encontra porto onde se ancorar, está em constante errância, deslocado. Em Cancioneiro
da desilusão, o que há de imutável e permanente é justamente a diáspora:
uma espécie de lugar entre, um intervalo eterno, um não-lugar, talvez o
único que nos é permitido habitar.
(Leila Guenther)
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Quem foi a Baronesa de Itaguaí
Não havia falado ainda
da plaquete Aforismos & Foras da Baronesa de Itaguaí (psicografados por Leila Guenther), que publiquei
em 2024 pela Galileu Edições. Esta iniciativa de Jardel Dias Cavalcanti tem
divulgado traduções e textos éditos e inéditos de diversos autores, como
Augusto de Campos, Gerald Thomas, Rimbaud, Sylvia Plath, no formato simpático
de plaquete, aquele livro fininho, artesanal, com espaço para experimentações.
Aforismos surgiu como um besteirol da
personagem que criei nas redes, a Baronesa de Itaguaí. Seu nome é uma
referência e uma homenagem ao Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Fernando de Brinkerhoff
Torelly, perseguido pela ditadura militar por suas frases irreverentes. Aliás, a epígrafe do
livrinho é dele. Tal como o barão, o nome do lugar de onde provém a baronesa é
de origem indígena (o prefixo ita- significa “pedra”). Itaguaí, no caso,
é o cenário do conto “O alienista”, de Machado de Assis, cujo protagonista
interna no hospício todos os habitantes da região. Só tarde é que passei a
gostar do cômico e, em especial, de fazer piada, sobretudo comigo mesma. Acho que isso se relaciona a uma época da vida em que nos importamos cada vez menos
com o que pensam (ou não) de nós e cada vez menos nos levamos a sério. Alguma
vantagem a idade precisa trazer. É difícil aguentar a si próprio quando se é
constantemente chato e sem senso de humor. Trata-se de um exercício intimamente
libertador e também mentalmente instigante, porque comicidade é algo difícil de
criar. Houve quem acreditasse na existência real da baronesa, porque não a
associavam a mim (ex-chata, espero). A imagem da capa, um boneco de vodu com um
detalhe politicamente incorreto, foi criada pelo escritor, artista plástico e
historiador Ronald Polito, um dos sujeitos mais brilhantes que já conheci.
Para quem quiser adquiri-la ou a outras plaquetes, é só falar com Jardel, o editor: galileuedicoes@gmail.com
https://www.instagram.com/galileu.edicoes/
sexta-feira, 5 de setembro de 2025
A parede, uma porrada
Trecho
da sinopse:
“Ao
acordar sozinha no chalé de caça onde estava hospedada nos Alpes austríacos, a
narradora deste romance descobre-se cercada por uma barreira invisível e
intransponível. Do outro lado, o mundo parece petrificado, suspenso num
misterioso estado de destruição imóvel e silenciosa. Sem acesso à civilização,
ela precisa aprender a sobreviver em completa solidão, acompanhada apenas por
um cachorro chamado Lince, uma vaca que batiza de Bella e uma gata.
(…)
Reconhecida como uma das grandes obras da literatura distópica e feminista, e
publicada em 1963 — um prenúncio dos piores anos de tensão nuclear na Guerra
Fria —, A parede apresenta, com precisão e força narrativa, uma jornada
íntima e universal. Ao mesmo tempo, propõe uma visão também utópica: sozinha, a
protagonista forma uma nova comunidade baseada no cuidado e na conexão com a
natureza. Para ela, amar um animal se torna mais fácil — e talvez mais
verdadeiro — do que amar um ser humano.
Em uma narrativa que combina o realismo vívido da vida reconstruída a partir do
essencial — plantar, caçar, cuidar — e uma meditação filosófica sobre o tempo,
o corpo e o sentido da vida, Haushofer captura uma radical dessencialização do
humano.”
Trecho do romance:
“(…)
as chances de eu manter aqueles animais vivos no meio da floresta eram bem
menores do que as chances de eles morrerem. Até onde me lembro, sempre tive
esse tipo de medo, e sempre terei, enquanto houver alguma criatura viva sob
meus cuidados. Por vezes, muito antes de a parede existir, desejei estar morta,
para enfim me livrar do meu fardo. Nunca falei sobre esse peso que carregava;
um homem não teria entendido, e as mulheres se sentiam exatamente como eu.
Assim, preferíamos ficar falando de vestidos, amigas e teatro, e ríamos,
escondendo nos olhos a preocupação que nos consome. Cada uma de nós sabia
disso, e nunca falávamos a respeito. Afinal, era o preço que pagávamos pela
capacidade de amar. Mais tarde, conversei com Lince sobre isso, só para não desaprender
a falar. Ele conhecia apenas um remédio para todo mal, uma breve e aprazível
corrida na floresta. A gata até que me ouve com atenção, desde que eu não
demonstre nenhuma emoção. Ela desaprova o menor traço de histeria e
simplesmente vai embora quando me deixo levar. Bella tem o hábito de responder
a qualquer coisa que eu lhe diga com uma lambida no meu rosto; pode ser
reconfortante, mas não é uma solução. Não há solução, até minha vaca sabe
disso, mas eu sigo lutando contra o sofrimento.”
(Marlen
Haushofer, A parede. Trad. Sofia Mariutti. Todavia)
terça-feira, 26 de agosto de 2025
Um golpe no meu gosto II
Aqui
vai uma atualização da lista que comecei a elaborar em 2020, a partir das
leituras de mulheres prosadoras que venho fazendo. Repito o texto da época no
segundo parágrafo, acrescentando que tomei contato com a prosa YA (Young Adult),
algo como a sequência temporal da literatura infanto-juvenil, embora eu creia
que esse tipo de denominação seja limitante (seria Marguerite Yourcenar
literatura para “Idosos da Melhor Idade?”). Aqui ressalto o nome de Holly Jackson,
da trilogia Manual de assassinato para boas garotas, um triller
que mistura não apenas suspense e investigação de crimes, como também temas do
nosso tempo: racismo, machismo, abuso, preconceito e amadurecimento num mundo meio
infantilizado e fútil, de uma forma bastante hábil. Adoraria ter lido Holly Jackson aos 15 anos, se ela já
tivesse nascido na época, mas sua escrita e suas tramas envolventes ainda me deixam animadas
hoje, que tenho quase 50 anos: não leio para me instruir, mas para me encantar.
A propósito, há uma série na Netflix, baseada no primeiro volume, que considerei
muito fraca se comparada ao livro (não consegui ir além do segundo episódio).
Por
um tempo pensei que meu amor pela leitura de prosa tivesse morrido. Não
conseguia mais ler romances ou reler aqueles que um dia me encantaram. Nada me
interessava mais. Lia outras coisas, outros gêneros, porque a leitura sempre
fez parte de minha vida, de uma necessidade vital, mas não sabia mais o que era
ser transportada pela beleza das palavras que narram, ser sequestrada por uma
história até sua última página. Até que me vi envolvida e paralisada por um
pequeno e aterrador romance de Marguerite Yourcenar, Golpe de
misericórdia, que li porque era curto e eu tinha pressa. Depois vieram
outro, e mais outro, levado pelo anterior, vários numa sequência, revelando um
universo cheio de novas perspectivas de mundo, de distintas maneiras de narrar.
E antes dele, outros que me mandaram sinais que na época não compreendi: todos
livros escritos por mulheres. E descobri com alívio que eu não tinha deixado de
gostar da prosa. Eu estava apenas cansada da prosa escrita por homens.
O
percurso em progresso, por nome de autora em ordem alfabética:
Adania
Shibli, Detalhe menor. Trad. Safra Jubran. São Paulo, Todavia.
Almudena Grandes. As idades de Lulu. Trad. Lucia Jahn. Editora Brasiliense.
Arundhati
Roy, O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São
Paulo, Companhia de Bolso.
Carson
McCullers, O coração é um caçador solitário. Trad. Sonia Moreira.
Companhia das Letras.
Celeste
Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Rio de
Janeiro, Intrínseca.
Celeste
Ng, Os corações perdidos. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Chimamanda
Ngozi Adichie, Hibisco roxo. Trad. Julia Romeu. Companhia das
Letras.
Clarice Lispector, A hora da estrela. Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora
Cristina
Judar, Oito do sete. São Paulo, Reformatório.
Elena
Ferrante, A filha perdida. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Emily
Brontë, O morro dos ventos uivantes. Trad. Raquel de Queiroz. Nova
Cultural.
Emily St. John Mandel, Estação
onze. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro, Instrínseca.
Elif
Batuman, A idiota. Trad. Odorico Leal. São Paulo, Companhia das
Letras.
Gioconda Belli, O país das mulheres. Trad. Ana Resende. Rio de Janeiro, Verus.
Han Kang, A vegetariana. Trad. Jae
Hyung Woo. São Paulo, Todavia.
Hiromi
Kawakami, A valise do professor. Trad. Jefferson José Teixeira. São
Paulo, Estação Liberdade.
Hiromi
Kawakami, Quinquilharias Nakano. Trad. Jefferson José Teixeira. São
Paulo, Estação Liberdade.
Holly
Jackson, Manual de assassinato para boas garotas. Trad. Diego Magalhães
e Karoline Melo. Rio de Janeiro, Intrínseca.
Holly
Jackson, Boa garota: segredo mortal. Trad. Karoline Melo. Rio de
Janeiro, Intrínseca.
Holly
Jackson, Boa garota nunca mais. Trad. Karoline Melo. Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Isabel Allende, O amante japonês. Trad.
Ângela Barroqueiro. Porto, Porto Editora.
Jacqueline
Harpman, Eu que nunca conheci os homens. Trad. Diogo Grando. Porto Alegre/
São Paulo, Dublinense.
Julie
Otsuka, O Buda no sótão. Trad. Lilian Jenkino. São Paulo, Grua.
Karen
Blixen, A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo,
Cosac Naify.
Katie
Kitamura, Uma separação. Trad. Sonia Moreira. São Paulo, Companhia
das Letras.
Kim Thúy, Ru. Trad. Letícia Mei. Âyiné.
Laetitia
Colombani. A trança. Trad. Patricia Xavier. Lisboa, Bertrand
Editora.
Lionel
Shriver, A nova república. Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Magda
Szabó, A porta. Trad. Edith Elek, Rio de Janeiro, Intrínseca.
Marlen Haushofer, A parede.
Trad. Sofia
Mariutti. Todavia.
Margaret
Atwood, O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro, Rocco.
Marguerite
Duras, A dor. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
Marguerite Duras, O amante. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo.
Marguerite
Yourcenar, Golpe de misericórdia. Trad. Ivo Barroso. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira.
Maria
Valéria Rezende, Outros cantos. Rio de Janeiro, Objetiva.
Marilia
Arnaud, Liturgia do fim. São Paulo, Tordesilhas.
Marilia
Kubota, Eu também sou brasileira. São Paulo, Lavra Editora.
Mary
Lynn Bracht, Herdeiras do mar. São Paulo, Editora Paralela.
Megan
Crewe, O fim de todos nós. Trad. Rita Sussekind. Intrínseca.
Mieko
Kawakami, Peitos e ovos. Trad. Eunice Suenaga. Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Min
Jin Lee, Pachinko. Trad. Marina Vargas. Rio de Janeiro, Intrínseca.
Muriel
Barbery, A elegância do ouriço. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São
Paulo, Companhia das Letras.
Naomi
Alderman, O poder. Trad. Rogério Galindo. São Paulo, Planeta.
Nastassja
Martin, Escute as feras. Trad. Camila Vargas Boldrini e Daniel
Lühmann, Editora 34.
Nina Berberova. O mal negro. Trad. Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro, Rocco.
Octavia
Butler, Bloodchild e outras histórias. Trad. Heci Regina Candiani. São
Paulo, Editora Morro Branco.
Olga
Tokarczuk, Sobre os ossos dos mortos. Trad. Olga
Baginska-Shinzato. São Paulo, Todavia.
Ottessa
Moshfegh, Meu ano de descanso e relaxamento. Trad. Juliana Cunha.
São Paulo, Todavia.
Pilar
Quintana, A cachorra. Trad. Livia Deorsola. Rio de Janeiro,
Intrínseca.
Robyn Davidson, Trilhas. Trad. Celina C. Falk-Cook. São Paulo, Seoman.
Rosa Montero, O perigo de estar lúcida. Trad. Mariana Sanchez. São Paulo, Todavia.
Sanaka Hiiragi. A lanterna das memórias perdidas. Trad. André Pinto Teixeira. Porto, Porto Editora.
Sayaka Murata, Querida konbini. Trad.
Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade.
Sayaka Murata, Terráqueos. Trad. Rita Kohl. São
Paulo, Estação Liberdade.
Sei
Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L.
Hashimoto, L. N. Yoshida e M. H. Cordaro. São Paulo, Editora 34.
Simone
de Beauvoir, A mulher desiludida. Trad. Helena Silveira e Maryan A.
Bon Barbosa. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo.
Svetlana
Aleksiévitch, A guerra não tem rosto de mulher. Trad. Cecília
Rosas. São Paulo, Companhia das Letras.
Tieko
Irii, As ruas sem nome. São Paulo, Patuá.
Toni Morrison, Jazz. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso.
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway. Trad. Mário Quintana. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
Yoko
Ogawa, A fórmula preferida do professor. Trad. Shintaro Hayashi.
São Paulo, Estação Liberdade.
Yoko
Ogawa, A polícia da memória. Trad. Andrei Cunha. São Paulo, Estação
Liberdade.
Yoko
Ogawa, O museu do silêncio. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação
Liberdade.
You-jeong
Jeong, Sete anos de escuridão. Trad. Paulo Geiger. São Paulo,
Todavia.
You-jeong
Jeong, O bom filho. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia.
Xinran, As
boas mulheres da China. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo, Companhia
de Bolso.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Quatro horas, sessenta e um socos
Escrevi este poema (em Este lado para baixo, ed. Peirópolis) quando soube do caso de Elaine Perez Caparroz que, em 2019, foi espancada durante 4 horas seguidas em seu apartamento por Vinícius Batista Serra, até que alguém interviesse. Os vizinhos acharam que se tratava de “briga de marido e mulher” e por isso não se intrometeram. Agora vimos Eduardo Pereira Cabral, num vídeo chocante, desferir 61 golpes em sua namorada Juliana Garcia dos Santos, até desfigurá-la. Isso é só o que está à vista, registrado, televisionado. Os dados são estarrecedores: 4 mulheres são mortas por dia no Brasil só pelo fato de serem mulheres. A cada 6 minutos ocorre um estupro. 76% das vítimas têm menos de 14 anos (o que inclui bebês). As mulheres negras são as maiores vítimas.
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
Robert Wilson, imortal
Morreu
o revolucionário dramaturgo e encenador Bob Wilson, em cujas montagens
brasileiras de A dama do mar1 e A velha2
trabalhei, com adaptação e tradução. Foi uma experiência incrível trabalhar com
os atores, nos bastidores, e ver como tudo aquilo se transformava numa obra monumental,
uma marca pessoal, única, de algo histórico.
No
Brasil, ele também fez A vida e a época de Joseph Stálin (que aqui se
chamou Dave Clark por causa da censura, em 1974, e teve duração de 12 horas), A
ópera dos três vinténs, Macbeth [de Verdi] etc.
Dele,
disse Ionesco:
“Eu
pensava cá comigo algumas coisas sobre teatro e acabo de compreender que nada
aconteceu no intervalo de tempo entre Shakespeare e Bob Wilson.”
1
A dama do mar foi uma adaptação de
Susan Sontag para Ibsen, a primeira no Brasil com atores brasileiros, Bete
Coelho e Lígia Cortez entre eles.
2 A
velha foi uma adaptação de Darryl Pinckney para Daniil Kharms, com Mikhail Baryshnikov
e Willem Dafoe.
quinta-feira, 24 de julho de 2025
Aviso aos navegantes
Aos seguidores deste blog
analógico recém-reabilitado após uma série de problemas técnicos: se ainda recebiam alguma notificação de postagem,
deixarão de receber. A opção “seguir” foi desativada por alguma trapalhada
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quarta-feira, 23 de julho de 2025
Um deserto em pedaços
Algum tempo depois de publicar Viagem a um deserto interior, pela Ateliê Editorial, em 2015, fui, com meu então futuro marido, ao Deserto do Atacama, um lugar que há muito eu queria conhecer. O deserto mais seco do mundo. A minha vida se dividiu entre antes e depois dessa viagem. A conexão foi imediata. Foi como se as peças tivessem finalmente se encaixado. Eu tinha encontrado meu elemento, levada por alguém que me respeitava e que fazia parte daquilo – o Chile é sua terra natal. No deserto o ego se dissolvia no silêncio e na vastidão, como se numa meditação profunda, e se unia à paisagem. Senti que era feita de areia, pedra, terra, pó e nada, parte de tudo e de todos, e sem importância alguma. E isso foi transcendente, carnal e espiritualmente falando. Ali é preciso humildade. O deserto não é traiçoeiro, como dizemos sobre tudo aquilo que não entendemos direito – cobras, mar, vulcões, nossa própria mente. Ele apenas existe de acordo com as leis da física e não está nem aí para nós. É o que têm nos ensinado os povos originários. É preciso deixar a arrogância de lado diante da natureza. É claro que não me refiro a pessoas que confiam em um guia turístico que as deixa para trás, como vimos recentemente, mas àqueles que se julgam superiores a tudo. Os que acham que podem fazer qualquer coisa sem responder pelos seus atos podem se dar mal quando tentam subjugar também o que não conhecem. Na natureza selvagem, eles respondem pela consequência, ou melhor, pela inconsequência de seus atos. Trata-se apenas de ação e reação: o homem que decide se jogar do alto de uma montanha simplesmente não voará, por mais poderoso e incrível que se creia.
Descobri com humor a coincidência de ali existir inclusive uma parte chamada "deserto interior". Uma espécie de redundância, como o título de meu livro, pois para mim todos os desertos são interiores, íntimos. O trecho assim referido, de tempos em tempos, vejam só, desabrocha, acolhendo florações coloridas, criando um estranho cenário quando visto de longe. É claro que nem tudo são flores: a mão do homem até ali cria coisas inúteis, como uma escultura gigantesca que a mim parece desnecessária num lugar já tão grandioso. A interferência significativa do ser humano naquele lugar são as pedras simples cuidadosamente empilhadas, uma espécie de oferenda aos mortos ou aos deuses. Mas a mais importante se dá pelas mãos de mulheres que, num trabalho minucioso e infinito, buscam ossos de desaparecidos políticos durante a ditadura de Pinochet. Em seu governo, dissidentes, diferentes e inocentes tiveram seus corpos torturados, ou partes deles, jogados no mar ou no deserto. Nesse deserto, o do Atacama, de que faço parte. Essas mulheres buscam nele fragmentos ínfimos de filhos, pais, irmãos, maridos. Procuram recompor a dignidade de quem morreu de maneira torpe pelas mãos de gente que não sabe criar, mas apenas destruir. Em vez de uma estátua em formato de mão, elas ergueram juntas um monumento invisível mas pungente em defesa da memória. Foi isso que descobri por meio do amigo que, através de sua lente, dá outra vida ao que vê, Luís Villaça: ele me apresentou ao filme Nostalgia da luz, do chileno Patricio Guzmán, de quem eu conhecia apenas A batalha do Chile. Em Nostalgia da luz, cujo exemplar físico acabei ganhando de minha sogra (que por acaso se chama Luz), cria-se um contraste marcante: o deserto do Atacama abriga os maiores observatórios do mundo, por causa de seu céu límpido. Dele se analisa com nitidez o universo. As mulheres, aquelas mulheres que procuram pedaços de seus entes queridos, desejavam simbolicamente que os astrônomos, com seus instrumentos tão precisos em busca de corpos celestes, as ajudassem a encontrar corpos humanos que desapareceram, mas cujos rastros, como os das estrelas, ainda estão presentes, em forma de ossos, areia, pó e lembrança.
Minha viagem a um deserto interior continua. Meu deserto, o do Atacama, onde nem
os camelos resistem, não acaba quando viramos pó. Aliás, eu não acharia mal que
minhas cinzas fossem jogadas lá, ainda que, diante da minha insignificância,
considero mais natural e coerente que elas sejam jogadas no lixo.

























































