domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que aprendi num retiro budista

 


Não é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. É preciso coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu sentimento dominante. Mas também desejo entender a natureza do sofrimento e pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar cerca de oito, dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio absoluto, sem contato visual com outros praticantes, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma, criada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a vertente mais antiga e austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness), estabelecidos pelo Buda como caminho para a libertação. O Theravada não poupa ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula, monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de um monge é valiosa, mas o formato se revelou mais efetivo. Não havia ninguém com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”, “e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?” etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam) e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”. Parênteses: ao contrário do que orienta Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição da Floresta, da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, sou uma espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo vajrayana (de origem tibetana), e já flertei com o zen, minha primeira experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas tradições.

No quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração, luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?). Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse decantado. Ao contrário de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de nada nem de ninguém. Algo suave, tranquilo. Menciono porque na volta do primeiro retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização, segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço, com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi assustador. Uma vez, quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante tranquilo: estava no ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não me amedrontei. Não era algo intelectual, tanto que quis e tentei “sentir” isso de novo, mas nunca mais consegui recuperar aquela experiência.

Gostaria de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia de medos. Mas a meditação diminui o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm de me aguentar.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

E nasce a criança

O mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente - consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que sou). É algo muito auspicioso nas condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de fazer.

Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.

Venham. É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando vocês.

Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora. 







segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Hamnet


As lágrimas começaram a cair comportadas e silenciosas na metade de Hamnet, este filme terrível, delicado, feio, exagerado, belo, demasiado humano.

No fim a drama queen aqui explodiu num choro tão descontrolado, soluçando tão alto, que cobriu a cara com as mãos, se abaixando, tentando se esconder, os joelhos contra o peito, numa posição meio fetal que era só de pura vergonha mesmo. Eu não abria o berreiro assim num filme desde Tempo de embebedar cavalos (de Bahman Ghobadi), que vi há quase trinta anos. E nem sei por quê, já que, com os anos, aprendi como chorar para dentro.

Chloé Zhao tem coragem. Arrisca, erra, acerta, faz sempre diferente do que já fez. Gosto muito do seu Songs my brothers taught me. E me dá uma alegriazinha que ela seja mulher, amarela e neurodivergente.

Quem já pisou no Hades da insanidade dificilmente sai de lá inteiro (quando sai). Às vezes não se salva nem com a ajuda de uma lira.

O resto é silêncio.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Para Ahmed Zoghbi


"Mas chove", poema para Ahmed Zoghbi, que há quase trinta anos fez da questão palestina a causa de sua vida. Ele é estudioso do pensamento de Edward Said e traduziu do árabe duas obras do escritor palestino Ghassan Kanafani.

Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.


sábado, 24 de janeiro de 2026

Pré-venda do novo livro

 


O mais leve dos metais, título do meu novo livro de poemas, é uma referência ao lítio, o metal de menor peso da tabela periódica. Ele é amplamente utilizado na psiquiatria para controle do transtorno bipolar, condição que me afeta, me desestabiliza, mas também me move a escrever. Nos textos reunidos neste volume, busco não apenas o diálogo com indivíduos próximos ou distantes, diferentes ou semelhantes, mas também encontrar algum equilíbrio na corda bamba do mundo.

Ele está em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá, que tão cuidadosamente me acolheu e de cujo catálogo me orgulho em fazer parte.

Em breve, darei informações sobre o lançamento.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Ao som de Björk

Começo 2026 com a alegria de saber que Este lado para baixo (Editora Peirópolis)  foi a primeira leitura do ano de Helder Guastti e que ele adorou o livro. Helder tem um trabalho lindo como educador (foi eleito Educador do Ano 2024 e está entre os 50 mais importantes educadores do mundo de 2025, segundo o Global Teacher Prize). Fez um vídeo com o poema que dediquei ao poeta Carlos Augusto Lima, utilizando a canção da Björk que integra a epígrafe do livro.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O passado infinito de Isabella Yoshimura

 


Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past (Chongqing, China), produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo e publicou Poemas Surdos (Ipê das Letras). Seu trabalho explora identidade, memória e espiritualidade (Isabella dedica-se também à meditação). Ela integra o Coletivo de Escritoras Asiáticas & Brasileiras.

Em The Living Past, acompanhamos Zhu Songling, paleontólogo que trabalhou 40 anos no Museu de História Natural de Chongqing, onde podem ser vistos os fósseis de dinossauros restaurados por ele. O curta foi realizado através do programa Looking China, no qual alunos de cinema de vários países filmam um documentário de até 12 minutos sobre a cultura chinesa, e evoca a seguinte questão: é possível recompor o passado se nunca o vimos?

Abaixo, um dos poemas de seu livro:

 

_2020

hoje o mundo termina
e começa de novo
fogos vão ser atirados
corpos vão balançar ao som da derrota
de um dia virado, vidrado
é lua nova cheia de coisa que não
termina
o fim eterno em retorno
hoje o mundo começa
e termina de novo

@isa.yoshimura



sábado, 15 de novembro de 2025

Caminhando com o vento

Tenho usado uma roupa nova a cada semana. Explico: a "roupa" é meu próprio corpo, do qual faz parte minha cabeça, cheia de medos, idiossincrasias e condições psiquiátricas consideradas graves. A ligação entre aflições mentais e dores ou doenças físicas é hoje bastante conhecida. O sofrimento é integral, por inteiro: é o que se chama de somatização. E este corpo vinha ficando progressivamente mais difícil de ser arrastado, feito um armário cada vez mais atulhado de tranqueira que tentamos mudar de lugar sozinhos procurando encontrar um canto onde ele caiba. Tinha se tornado um fardo e movê-lo drenava minha energia. No meu caso, podia ser ainda pior, é claro, se eu não tivesse tido acesso a possibilidades que muitos não têm – yoga, psicoterapia, medicação para fibromialgia, acupuntura etc. Os períodos, por exemplo, em que estive impossibilitada de praticar yoga (que aprendi com Vinícius Della Líbera e, para mim, a mais eficiente das psicoterapias), me levaram a pensar que era melhor me deitar definitivamente num caixão só para não continuar a sofrer de pé. Estava sem nenhuma esperança de, beirando os cinquenta anos, me sentir confortável e funcional dentro desta casca, até que comecei, com Fernando Hashimoto, uma terapia denominada Rolfing, uma espécie de manipulação do tecido conjuntivo (fáscia) desenvolvida pela pesquisadora Ida Rolf (1896-1979), que é o que mais se aproxima daquilo que Wilhelm Reich (1897-1959) chamou de couraça: um tipo de estrutura onde se alojariam nossos traumas e tensões.

Na amostra do que seria a primeira sessão, a dor que mais me desesperou por anos praticamente desapareceu. Saí do consultório andando como se vestisse um corpo novo. Nas outras sessões semanais, essa impressão foi se intensificando. As caminhadas habituais com a canina Shoyu (força bruta e meu termômetro pessoal) se tornaram menos extenuantes. Eu estava mais sintonizada com ela, que, como elemento animal domesticado, é uma ponte entre o humano e a natureza da qual nos afastamos, creio. Mas foi preciso aprender a lidar com essa novidade, porque eu não estava acostumada a tantas transformações simultâneas e nítidas: quando o corpo muda, a cabeça também muda, uma vez que ela é parte do corpo. Me sentia como uma criança que está aprendendo a andar: ainda titubeante, insegura, desengonçada, depois de ter passado tanto tempo em berço nada esplêndido. As outras sessões foram me conectando com a terra, com o mundo à volta, para o qual eu só costumava olhar a partir de pontos fixos e rígidos. A alienígena inábil com a gravidade enfim aterrissava. Caminhando com certa fluidez, deixei de olhar apenas para baixo, sempre com medo de pisar em falso e ser engolida pelo abismo sob meus pés (penso agora que não é por acaso meu livro mais recente se chamar Este lado para baixo). O abismo ainda me habita, mas passei a olhar para além dele, a me sentir mais parte da paisagem à volta, enxergando por todos os lados, com todos os olhos e poros, com a “couraça” mais permeável a práticas, experiências e ideias. Não à toa tomei neste curto período algumas decisões importantes e executei outras tantas que já estavam fazendo fila na minha vida. Às vezes me peguei caminhando olhando para o horizonte, e isso significava para mim ter menos pavor, alguma esperança e ser um pouco mais terráquea. A roupa nova afinal não era uma capa de chuva. Também não é um vestido de renda; está mais para aquelas vestes esvoaçantes de algodão laranja do budismo: não acredito em cura, palavra atualmente tão desgastada. Cura implica imutabilidade e ausência definitiva das causas e consequências que nos constroem. Só que nada é permanente, nem dentro nem fora. E, como um imenso tecido conjuntivo, tudo está interligado. “Meu problema é que meu problema não pertence apenas a mim. Que a melancolia que se exprime no meu corpo vem do mundo”, diz a antropóloga francesa desfigurada por um urso, Nastassja Martin, com cujas reflexões me identifico. Acredito em uma jornada constante e contínua por equilíbrio, tão precário em casos como o meu. Mas, para cumprir o percurso, necessitamos de força para seguir caminhando.

Penso com frequência no que dizia Thich Nhat Hanh (1926-2022), o monge budista que popularizou a meditação andando: “O milagre não é andar sobre a água. Milagre é andar sobre a terra verde, profundamente imerso no momento presente, sentindo-se verdadeiramente vivo”. Faz sentido para mim. Não sei o que há no fim do túnel: é preciso atravessá-lo para descobrir. Mas é o que busco nesta caminhada, enquanto ainda estou viva.


(fotografia de Thomas Oxford)

  

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

De uma haicaísta amiga e discípula de Bashô

 


os netos chegam

e me tiram da cama —

os anos estão terminando

 

*

um passarinho cantando —

minhas mãos se detêm um instante

na pia da cozinha

 

*

vento de inverno

sem cor para exibir

sem folhas para arrancar

 

*

sob a lua cheia

corvos boquiabertos

param de gritar

 

(Chigetsu Kawai, 1634-1718. "Tratradução" minha do inglês)




terça-feira, 21 de outubro de 2025

Entrelaçando culturas nos textos literários

Casa Guilherme de Almeida | 08 de Novembro de 2025 | 14h às 16h 

Com o Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras



Uma conversa com integrantes do coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras sobre suas reinterpretações das formas literárias de origem asiática.

 

A atividade será realizada presencialmente na Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187 - Sumaré, São Paulo).

 

Grátis. Para se inscrever, clique aqui.


 

Flavia Yumi Sakai é artista visual e haicaísta. Desde a infância, cultiva seu impulso criativo em uma busca contínua por expressão e identidade. Investiga a simplicidade e a força dos gestos mínimos, inspirada pela tradição do haicai e pela estética japonesa, sua cultura de origem. Acredita que contar histórias também acontece sem muitas palavras — através de formas, cores e pausas — como buscou explorar no livro O Tempo em uma Chawan, lançado neste ano em coautoria com Juliana Negrão.






 

Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past em Chongqing (China) e produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo. Autora de Poemas surdos, seu livro de estreia na poesia, explora temas de identidade, memória e espiritualidade, unindo delicadeza e reflexão em narrativas que transitam entre o real e o imaginário.






 

Jung Lee é poeta e tradutora. Graduanda em Letras pela USP, é criadora do Kocolab, laboratório de tradução em língua coreana, além de organizadora e mediadora do Clube de Poesia Asiática.






 

Karen Kazue Kawana é doutoranda em Teoria e História Literária do IEL/Unicamp e autora das coletâneas de poemas Pequenas coisas (Bestiário) e eu acendi o fósforo (Ofícios Terrestres), da novela O homem do jardim (Urutau) e do pseudo-renga Cancioneiro da desilusão (Urutau). Traduziu obras de escritores japoneses como Osamu Dazai, Motojirô Kajii, Yuriko Miyamoto, Toshiko Tamura, entre outros. Faz parte dos grupos de pesquisa Pensamento Japonês: Princípios e Desdobramentos (USP) e Mulherando (Unicamp).






 

Leila Guenther é descendente de imigrantes japoneses e alemães. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Partes homólogas (Reformatório) e O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial), e os livros de poemas Este lado para baixo (Peirópolis) e Viagem a um deserto interior (Ateliê Editorial), selecionado no Programa Petrobras Cultural e finalista do Prêmio Jabuti. Mantém o blog nalinhadavida.blogspot.com






 

Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de As ruas sem nome (Patuá, 2025), obra de caráter autobiográfico. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, experiência que influenciou sua pesquisa sobre memória, diáspora, gênero e raça.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Uma amarga canção do exílio

 


Acabo de ler, numa sentada, Cancioneiro da desilusão: um pseudo-renga (Urutau), de Karen Kawana. Quando ela se referiu a um “pseudo-renga”, eu ri, porque achei que era uma resposta à mensagem em que chamei meus tercetos de “pseudo-haicais”. No caso dela, penso em pseudo- no sentido enriquecedor que o prefixo agrega a palavras como pseudofruto – uma fruta que vem da parte acessória de uma flor. Um figo, um caju, um morango. Pois o renga é um poema japonês encadeado, coletivo, composto em estrofes de três e dois versos por vários participantes, muitas vezes de forma lúdica em grêmios de haicai. E o termo pseudo-renga, cunhado pela autora, se dá pelo fato de ele não ser escrito por múltiplos autores, mas apenas por Karen, e ter apenas um eu lírico, masculino, uma espécie de homo japonicus cuja trajetória (tão familiar para mim, que descendo de japoneses) é de um exílio circular e infinito, de quem, em direção ao oeste, chega por fim ao leste, ponto de partida e chegada. Esse eu lírico, no entanto, é também coletivo em seu sentido existencial, ao ecoar a trajetória do imigrante japonês que abandona um país onde não cabe mais (“os que deixei/ não queriam o diferente/ para os envergonhar”), vem para uma terra com a promessa ilusória de novas oportunidades (“lá há sabiás/ calor de dar inveja/ a este meu país”), tentando sem sucesso integrar-se (“aqui também me veem/ e não me compreendem”), e cujos descendentes, anos depois, refazem o caminho em sentido contrário, em busca, no Japão, também de novas oportunidades de desilusão (“fui meu chefe/ e meu próprio escravo/ sem qualquer lucro”). Nessa descrença o subtítulo encontra o título, uma vez que cancioneiro evoca a literatura mais tradicional da nossa melancólica língua portuguesa.

A terra natal deste imigrante – seu furusato –, tantas vezes motivo de idealização e de esperança dos que já nasceram aqui, se revela, no trajeto inverso dos dekasseguis, culminado de vergonha, tão inóspita e tão pouco acolhedora como o Brasil o foi. A impressão amarga do fracasso tem passagem de ida e volta (“de novo aqui/ mais uma vez pária/ outra vez só”). O homo japonicus carrega uma inadaptação que não pode esconder: no Brasil não é brasileiro e no Japão não é japonês; portanto, ele não conhece pertencimento. Isso o mantém sempre desterrado (“eu, não obstante/ continuo estrangeiro/ em toda parte”), porque seu ethos não o deixa sentir-se em casa nem dentro de si mesmo: sua mente e seu corpo cansados (“a dor do corpo/ horas vestindo máscaras/ sob as quais não sou”), que a custo nesta obra arrasta não por acaso no encadeamento do renga sem trégua, não encontra porto onde se ancorar, está em constante errância, deslocado. Em Cancioneiro da desilusão, o que há de imutável e permanente é justamente a diáspora: uma espécie de lugar entre, um intervalo eterno, um não-lugar, talvez o único que nos é permitido habitar.

 

(Leila Guenther)



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Quem foi a Baronesa de Itaguaí

 


Não havia falado ainda da plaquete Aforismos & Foras da Baronesa de Itaguaí (psicografados por Leila Guenther), que publiquei em 2024 pela Galileu Edições. Esta iniciativa de Jardel Dias Cavalcanti tem divulgado traduções e textos éditos e inéditos de diversos autores, como Augusto de Campos, Gerald Thomas, Rimbaud, Sylvia Plath, no formato simpático de plaquete, aquele livro fininho, artesanal, com espaço para experimentações.

Aforismos surgiu como um besteirol da personagem que criei nas redes, a Baronesa de Itaguaí. Seu nome é uma referência e uma homenagem ao Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, perseguido pela ditadura militar por suas frases irreverentes. Aliás, a epígrafe do livrinho é dele. Tal como o barão, o nome do lugar de onde provém a baronesa é de origem indígena (o prefixo ita- significa “pedra”). Itaguaí, no caso, é o cenário do conto “O alienista”, de Machado de Assis, cujo protagonista interna no hospício todos os habitantes da região. Só tarde é que passei a gostar do cômico e, em especial, de fazer piada, sobretudo comigo mesma. Acho que isso se relaciona a uma época da vida em que nos importamos cada vez menos com o que pensam (ou não) de nós e cada vez menos nos levamos a sério. Alguma vantagem a idade precisa trazer. É difícil aguentar a si próprio quando se é constantemente chato e sem senso de humor. Trata-se de um exercício intimamente libertador e também mentalmente instigante, porque comicidade é algo difícil de criar. Houve quem acreditasse na existência real da baronesa, porque não a associavam a mim (ex-chata, espero). A imagem da capa, um boneco de vodu com um detalhe politicamente incorreto, foi criada pelo escritor, artista plástico e historiador Ronald Polito, um dos sujeitos mais brilhantes que já conheci.

Para quem quiser adquiri-la ou a outras plaquetes, é só falar com Jardel, o editor: galileuedicoes@gmail.com

https://www.instagram.com/galileu.edicoes/

 















 




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A parede, uma porrada

 


Trecho da sinopse:

“Ao acordar sozinha no chalé de caça onde estava hospedada nos Alpes austríacos, a narradora deste romance descobre-se cercada por uma barreira invisível e intransponível. Do outro lado, o mundo parece petrificado, suspenso num misterioso estado de destruição imóvel e silenciosa. Sem acesso à civilização, ela precisa aprender a sobreviver em completa solidão, acompanhada apenas por um cachorro chamado Lince, uma vaca que batiza de Bella e uma gata.

(…)
Reconhecida como uma das grandes obras da literatura distópica e feminista, e publicada em 1963 — um prenúncio dos piores anos de tensão nuclear na Guerra Fria —, A parede apresenta, com precisão e força narrativa, uma jornada íntima e universal. Ao mesmo tempo, propõe uma visão também utópica: sozinha, a protagonista forma uma nova comunidade baseada no cuidado e na conexão com a natureza. Para ela, amar um animal se torna mais fácil — e talvez mais verdadeiro — do que amar um ser humano.
Em uma narrativa que combina o realismo vívido da vida reconstruída a partir do essencial — plantar, caçar, cuidar — e uma meditação filosófica sobre o tempo, o corpo e o sentido da vida, Haushofer captura uma radical dessencialização do humano.”

Trecho do romance:

“(…) as chances de eu manter aqueles animais vivos no meio da floresta eram bem menores do que as chances de eles morrerem. Até onde me lembro, sempre tive esse tipo de medo, e sempre terei, enquanto houver alguma criatura viva sob meus cuidados. Por vezes, muito antes de a parede existir, desejei estar morta, para enfim me livrar do meu fardo. Nunca falei sobre esse peso que carregava; um homem não teria entendido, e as mulheres se sentiam exatamente como eu. Assim, preferíamos ficar falando de vestidos, amigas e teatro, e ríamos, escondendo nos olhos a preocupação que nos consome. Cada uma de nós sabia disso, e nunca falávamos a respeito. Afinal, era o preço que pagávamos pela capacidade de amar. Mais tarde, conversei com Lince sobre isso, só para não desaprender a falar. Ele conhecia apenas um remédio para todo mal, uma breve e aprazível corrida na floresta. A gata até que me ouve com atenção, desde que eu não demonstre nenhuma emoção. Ela desaprova o menor traço de histeria e simplesmente vai embora quando me deixo levar. Bella tem o hábito de responder a qualquer coisa que eu lhe diga com uma lambida no meu rosto; pode ser reconfortante, mas não é uma solução. Não há solução, até minha vaca sabe disso, mas eu sigo lutando contra o sofrimento.”

(Marlen Haushofer, A parede. Trad. Sofia Mariutti. Todavia) 


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Um golpe no meu gosto II

 


Aqui vai uma atualização da lista que comecei a elaborar em 2020, a partir das leituras de mulheres prosadoras que venho fazendo. Repito o texto da época no segundo parágrafo, acrescentando que tomei contato com a prosa YA (Young Adult), algo como a sequência temporal da literatura infanto-juvenil, embora eu creia que esse tipo de denominação seja limitante (seria Marguerite Yourcenar literatura para “Idosos da Melhor Idade?”). Aqui ressalto o nome de Holly Jackson, da trilogia Manual de assassinato para boas garotas, um triller que mistura não apenas suspense e investigação de crimes, como também temas do nosso tempo: racismo, machismo, abuso, preconceito e amadurecimento num mundo meio infantilizado e fútil, de uma forma bastante hábil. Adoraria ter lido Holly Jackson aos 15 anos, se ela já tivesse nascido na época, mas sua escrita e suas tramas envolventes ainda me deixam animadas hoje, que tenho quase 50 anos: não leio para me instruir, mas para me encantar. A propósito, há uma série na Netflix, baseada no primeiro volume, que considerei muito fraca se comparada ao livro (não consegui ir além do segundo episódio).

Por um tempo pensei que meu amor pela leitura de prosa tivesse morrido. Não conseguia mais ler romances ou reler aqueles que um dia me encantaram. Nada me interessava mais. Lia outras coisas, outros gêneros, porque a leitura sempre fez parte de minha vida, de uma necessidade vital, mas não sabia mais o que era ser transportada pela beleza das palavras que narram, ser sequestrada por uma história até sua última página. Até que me vi envolvida e paralisada por um pequeno e aterrador romance de Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia, que li porque era curto e eu tinha pressa. Depois vieram outro, e mais outro, levado pelo anterior, vários numa sequência, revelando um universo cheio de novas perspectivas de mundo, de distintas maneiras de narrar. E antes dele, outros que me mandaram sinais que na época não compreendi: todos livros escritos por mulheres. E descobri com alívio que eu não tinha deixado de gostar da prosa. Eu estava apenas cansada da prosa escrita por homens.

O percurso em progresso, por nome de autora em ordem alfabética:

Adania Shibli, Detalhe menor. Trad. Safra Jubran. São Paulo, Todavia.

Almudena Grandes. As idades de Lulu. Trad. Lucia Jahn. Editora Brasiliense.

Arundhati Roy, O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso.

Carson McCullers, O coração é um caçador solitário. Trad. Sonia Moreira. Companhia das Letras.

Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Celeste Ng, Os corações perdidos. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco roxo. Trad. Julia Romeu. Companhia das Letras.

Clarice Lispector, A hora da estrela. Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora

Cristina Judar, Oito do sete. São Paulo, Reformatório.

Elena Ferrante, A filha perdida. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes. Trad. Raquel de Queiroz. Nova Cultural.

Emily St. John Mandel, Estação onze. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro, Instrínseca.

Elif Batuman, A idiota. Trad. Odorico Leal. São Paulo, Companhia das Letras.

Gioconda Belli, O país das mulheres. Trad. Ana Resende. Rio de Janeiro, Verus.

Han Kang, A vegetariana. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia.

Hiromi Kawakami, A valise do professor. Trad. Jefferson José Teixeira. São Paulo, Estação Liberdade.

Hiromi Kawakami, Quinquilharias Nakano. Trad. Jefferson José Teixeira. São Paulo, Estação Liberdade.

Holly Jackson, Manual de assassinato para boas garotas. Trad. Diego Magalhães e Karoline Melo. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Holly Jackson, Boa garota: segredo mortal. Trad. Karoline Melo. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Holly Jackson, Boa garota nunca mais. Trad. Karoline Melo. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Isabel Allende, O amante japonês. Trad. Ângela Barroqueiro. Porto, Porto Editora.

Jacqueline Harpman, Eu que nunca conheci os homens. Trad. Diogo Grando. Porto Alegre/ São Paulo, Dublinense.

Julie Otsuka, O Buda no sótão. Trad. Lilian Jenkino. São Paulo, Grua.

Karen Blixen, A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify.

Katie Kitamura, Uma separação. Trad. Sonia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras.

Kim Thúy, Ru. Trad. Letícia Mei. Âyiné.

Laetitia Colombani. A trança. Trad. Patricia Xavier. Lisboa, Bertrand Editora.

Lionel Shriver, A nova república. Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Intrínseca.

Magda Szabó, A porta. Trad. Edith Elek, Rio de Janeiro, Intrínseca.

Marlen Haushofer, A parede. Trad. Sofia Mariutti. Todavia.

Margaret Atwood, O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro, Rocco.

Marguerite Duras, A dor. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Marguerite Duras, O amante. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo.

Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Maria Valéria Rezende, Outros cantos. Rio de Janeiro, Objetiva.

Marilia Arnaud, Liturgia do fim. São Paulo, Tordesilhas.

Marilia Kubota, Eu também sou brasileira. São Paulo, Lavra Editora.

Mary Lynn Bracht, Herdeiras do mar. São Paulo, Editora Paralela.

Megan Crewe, O fim de todos nós. Trad. Rita Sussekind. Intrínseca.

Mieko Kawakami, Peitos e ovos. Trad. Eunice Suenaga. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Min Jin Lee, Pachinko. Trad. Marina Vargas. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Muriel Barbery, A elegância do ouriço. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo, Companhia das Letras.

Naomi Alderman, O poder. Trad. Rogério Galindo. São Paulo, Planeta.

Nastassja Martin, Escute as feras. Trad. Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann, Editora 34.

Nina Berberova. O mal negro. Trad. Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro, Rocco.

Octavia Butler, Bloodchild e outras histórias. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo, Editora Morro Branco.

Olga Tokarczuk, Sobre os ossos dos mortos. Trad. Olga Baginska-Shinzato. São Paulo, Todavia.

Ottessa Moshfegh, Meu ano de descanso e relaxamento. Trad. Juliana Cunha. São Paulo, Todavia.

Pilar Quintana, A cachorra. Trad. Livia Deorsola. Rio de Janeiro, Intrínseca.

Robyn Davidson, Trilhas. Trad. Celina C. Falk-Cook. São Paulo, Seoman.

Rosa Montero, O perigo de estar lúcida. Trad. Mariana Sanchez. São Paulo, Todavia.

Sanaka Hiiragi. A lanterna das memórias perdidas. Trad. André Pinto Teixeira. Porto, Porto Editora.

Sayaka Murata, Querida konbini. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade.

Sayaka Murata, Terráqueos. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade.

Sei Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M. H. Cordaro. São Paulo, Editora 34.

Simone de Beauvoir, A mulher desiludida. Trad. Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo.

Svetlana Aleksiévitch, A guerra não tem rosto de mulher. Trad. Cecília Rosas. São Paulo, Companhia das Letras.

Tieko Irii, As ruas sem nome. São Paulo, Patuá.

Toni Morrison, Jazz. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso.

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway. Trad. Mário Quintana. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Yoko Ogawa, A fórmula preferida do professor. Trad. Shintaro Hayashi. São Paulo, Estação Liberdade.

Yoko Ogawa, A polícia da memória. Trad. Andrei Cunha. São Paulo, Estação Liberdade.

Yoko Ogawa, O museu do silêncio. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade.

You-jeong Jeong, Sete anos de escuridão. Trad. Paulo Geiger. São Paulo, Todavia.

You-jeong Jeong, O bom filho. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia.

Xinran, As boas mulheres da China. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo, Companhia de Bolso.

 


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Quatro horas, sessenta e um socos

Escrevi este poema (em Este lado para baixo, ed. Peirópolis) quando soube do caso de Elaine Perez Caparroz que, em 2019, foi espancada durante 4 horas seguidas em seu apartamento por Vinícius Batista Serra, até que alguém interviesse. Os vizinhos acharam que se tratava de “briga de marido e mulher” e por isso não se intrometeram. Agora vimos Eduardo Pereira Cabral, num vídeo chocante, desferir 61 golpes em sua namorada Juliana Garcia dos Santos, até desfigurá-la. Isso é só o que está à vista, registrado, televisionado. Os dados são estarrecedores: 4 mulheres são mortas por dia no Brasil só pelo fato de serem mulheres. A cada 6 minutos ocorre um estupro. 76% das vítimas têm menos de 14 anos (o que inclui bebês). As mulheres negras são as maiores vítimas.

Este país é uma máquina de moer mulheres.
Este país nos odeia.




sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Robert Wilson, imortal

 

Morreu o revolucionário dramaturgo e encenador Bob Wilson, em cujas montagens brasileiras de A dama do mar1 e A velha2 trabalhei, com adaptação e tradução. Foi uma experiência incrível trabalhar com os atores, nos bastidores, e ver como tudo aquilo se transformava numa obra monumental, uma marca pessoal, única, de algo histórico.

No Brasil, ele também fez A vida e a época de Joseph Stálin (que aqui se chamou Dave Clark por causa da censura, em 1974, e teve duração de 12 horas), A ópera dos três vinténs, Macbeth [de Verdi] etc.

Dele, disse Ionesco:

“Eu pensava cá comigo algumas coisas sobre teatro e acabo de compreender que nada aconteceu no intervalo de tempo entre Shakespeare e Bob Wilson.”

 

1 A dama do mar foi uma adaptação de Susan Sontag para Ibsen, a primeira no Brasil com atores brasileiros, Bete Coelho e Lígia Cortez entre eles.

2 A velha foi uma adaptação de Darryl Pinckney para Daniil Kharms, com Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe.