segunda-feira, 27 de julho de 2026

O ponto cruz e o ponto da não crucificação

 "𝑂 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑎 𝑡𝑒𝑟 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑒́ 𝑜 𝑑𝑖𝑟𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝑝𝑒𝑟𝑡𝑒𝑛𝑐𝑒𝑟 𝑎 𝑢𝑚𝑎 𝑐𝑜𝑚𝑢𝑛𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑛𝑎 𝑞𝑢𝑎𝑙 𝑎𝑠 𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑠𝑒𝑗𝑎𝑚 𝑗𝑢𝑙𝑔𝑎𝑑𝑎𝑠 𝑒 𝑎𝑠 𝑜𝑝𝑖𝑛𝑖𝑜̃𝑒𝑠 𝑡𝑒𝑛ℎ𝑎𝑚 𝑝𝑒𝑠𝑜." (𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭)


Há uma cena que se repete diariamente no meu quintal: um sabiá invade o território do outro. Um beija-flor expulsa um rival das flores do manacá. As maritacas fazem um escândalo desproporcional por causa de alguma fruta madura. Há conflitos por toda parte. A natureza está longe da ingenuidade romântica que tantas vezes lhe atribuímos, mas existe uma diferença decisiva entre a floresta e a praça pública. Na floresta não existe 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐃𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨. Entre nós, deveria existir.

Parece-me que é disso que andamos esquecidos.

Li recentemente um comentário nas redes sociais segundo o qual seria irrelevante perguntar se determinado homem acusado de importunação sexual seria imputável ou não. Afinal — dizia a comentarista — milhões de homens perfeitamente imputáveis fazem o mesmo.

Compreendo a indignação. Quem conhece minimamente a experiência feminina sabe que ela não nasce da abstração, mas do corpo.

Toda mulher conhece o medo de uma rua vazia, de um ônibus lotado, de um elevador silencioso, de um olhar que ultrapassa a fronteira do olhar. Não é uma estatística: é memória corporal gritando. Seria intelectualmente desonesto minimizar essa realidade, mas justamente porque ela é tão grave, exige que pensemos melhor — não pior.

𝐋𝐞́𝐥𝐢𝐚 𝐆𝐨𝐧𝐳𝐚𝐥𝐞𝐳 ensinava que a sociedade brasileira organiza suas violências através de estruturas históricas profundamente enraizadas no racismo e no sexismo.

Não são apenas indivíduos violentos: são instituições, linguagens, imaginários.

É precisamente por isso que Lélia nunca confundiu transformação social com vingança pública. Seu pensamento buscava alterar as estruturas, não apenas trocar quem ocupa o pelourinho.

𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨, por sua vez, acrescenta outra camada. Ao estudar os quilombos, ela mostrou que resistência não significa apenas enfrentamento. Significa, em primeira e em última análise, a construção de outra forma de comunidade.

O quilombo não era apenas fuga: era invenção política — 𝐮𝐦 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐨 𝐦𝐨𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐨𝐫𝐠𝐚𝐧𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚, 𝐩𝐞𝐫𝐭𝐞𝐧𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞 𝐝𝐢𝐠𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

É por isso que sinto um desconforto inenarrável quando vejo parte das redes sociais transformar qualquer conflito num ritual de exposição permanente. Afasto-me, mineiramente, de quem quer que, declarando-se progressista, troque justiça por humilhação pública, crítica por excomunhão e responsabilidade por aniquilação simbólica.

Essas distinções, que parecem pequenas, são justamente uma das grandes conquistas da tradição jurídica e humanista. São elas que impedem que a sociedade se transforme numa sucessão infinita de pelourinhos — digitais ou não.

Nós, brasileiros, conhecemos a história do pelourinho.

Sabemos que a praça pública já foi lugar onde corpos eram transformados em espetáculo.

Sabemos também a cor dos corpos que costumavam ocupar aquele poste.

Não deixa de ser irônico que, séculos depois, tenhamos naturalizado versões digitais, mais ou menos embranquecidas, do mesmo mecanismo.

Mudaram as plataformas. Nem sempre mudou a lógica.

𝐌𝐮𝐧𝐢𝐳 𝐒𝐨𝐝𝐫𝐞́ lembra que toda sociedade produz formas de mediação.

As redes sociais também são uma forma de mediação, mas possuem uma característica peculiar: recompensam aquilo que produz maior intensidade emocional.

A indignação circula mais depressa do que a reflexão.

A denúncia recebe mais compartilhamentos do que a dúvida.

A sentença viaja mais rápido do que a pergunta.

E perguntar passou a parecer suspeito. Quando não, ofensivo.

Pois foi exatamente uma pergunta que despertou minha atenção.

Não uma defesa.

Uma pergunta:

"𝐄́ 𝐟𝐮𝐧𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐮𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐫 𝐨 𝐫𝐨𝐬𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐧𝐨𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐞́𝐦 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨?"

Essa pergunta não diminui a dor da vítima.

Também não absolve o acusado.

Ela apenas recorda que o Estado de Direito existe justamente para impedir que a justiça seja substituída pela catarse. 𝐇𝐚𝐧𝐧𝐚𝐡 𝐀𝐫𝐞𝐧𝐝𝐭 alertava que uma sociedade deixa de ser política quando abandona o julgamento para abraçar apenas a reação.

Vivemos uma época em que muitas pessoas confundem três instâncias completamente diferentes:

● a apuração jornalística;

● o processo judicial;

● a punição moral nas redes.

Quando essas três esferas se fundem, surge aquilo que alguns juristas chamam de 𝐩𝐞𝐧𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐚𝐧𝐭𝐞𝐜𝐢𝐩𝐚𝐝𝐚.

Há um paradoxo curioso aí.

Os mesmos grupos que, com razão, criticam o sistema penal por ser seletivo, racista e violento, muitas vezes defendem um mecanismo informal que pode ser ainda mais arbitrário: o tribunal permanente das redes sociais.

Não há contraditório.

Não há direito de defesa.

Não há proporcionalidade.

Não há prescrição.

Não há possibilidade de reinserção.

Há apenas um arquivo infinito.

Isso me lembra, novamente, um trecho muito singular de Hannah Arendt. Ela observava que uma das condições da vida política é a possibilidade de um novo começo. Quando toda pessoa passa a ser reduzida ao pior ato que praticou, elimina-se justamente essa possibilidade de recomeço. Isso não significa "passar pano para criminosos". Significa perguntar qual é a finalidade da exposição pública.

Ela protege futuras vítimas?

Ajuda a investigação?

Ou apenas satisfaz uma necessidade coletiva de punição exemplar?

São perguntas diferentes que nos ajudam a refletir sobre o deslocamento do eixo da justiça para o eixo da 𝐯𝐢𝐫𝐭𝐮𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐫𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐚.

Já não basta condenar um ato.

É preciso demonstrar publicamente a intensidade da condenação.

É preciso mostrar indignação e provar que se pertence "ao lado certo da história".

𝐏𝐢𝐞𝐫𝐫𝐞 𝐁𝐨𝐮𝐫𝐝𝐢𝐞𝐮 diria que isso produz um tipo de capital simbólico: a exibição pública da virtude também funciona como forma de distinção social. E aí ocorre algo curioso: o foco deixa de ser a vítima. Não raro, a vítima desaparece, permanecendo apenas quem condena com mais eloquência.

É uma inversão sutil.

𝐉𝐮𝐧𝐠 provavelmente enxergaria nisso um fenômeno da sombra coletiva. Quando uma comunidade encontra um personagem suficientemente condenável, projeta sobre ele tudo aquilo que não suporta reconhecer em si mesma. O indivíduo torna-se um receptáculo do mal comum. É o velho mecanismo do bode expiatório, descrito em diferentes tradições religiosas e antropológicas.

𝐉𝐮𝐫𝐞𝐦𝐚 𝐖𝐞𝐫𝐧𝐞𝐜𝐤, a seu turno, insiste que enfrentar a violência contra as mulheres exige fortalecer instituições capazes de garantir direitos.

Direitos.

Não linchamentos.

Proteção.

Não espetacularização.

Quando o debate se desloca para a lógica da humilhação pública, perde-se justamente aquilo que poderia impedir novas violências: investigação séria, responsabilização proporcional, políticas públicas, educação e transformação cultural.

No quintal da minha casa, quase nada é desperdiçado.

As cascas da banana voltam em forma de bolo.

As folhas secas tornam-se húmus.

O tronco velho abriga fungos, insetos, musgos e pássaros.

A natureza conhece uma palavra que nós temos desaprendido: transformação.

A terra não lacra nem cancela; metaboliza.

Certamente por isso eu continuo acreditando mais no chão firme do diálogo honesto e rigoroso do que na pureza performática das redes. Não porque toda pessoa mereça absolvição, mas porque 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐢𝐬𝐚 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐝𝐢𝐫 𝐬𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐳𝐢𝐫 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚 𝐨𝐮 𝐚𝐩𝐞𝐧𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐯𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐬𝐨̃𝐞𝐬 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨𝐮𝐫𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬.

E, sendo mulher preta num país misógino e racista, sendo herdeira de tantas mulheres que bordaram resistência em silêncio enquanto o mundo fazia barulho, prefiro acreditar que a agulha continua sendo mais civilizatória do que o chicote.

A democracia — como um bom bordado mineiro — nunca nasce da violência do nó cego.

Ela floresce da paciência de muitos fios que, sem perder sua singularidade, sustentam o mesmo tecido.

Menos vigilância da psicologia alheia.

Mais intimidade com as tramas da nossa própria psique.

Os nossos avessos também são lugar de bordado.

 

𝐐𝐮𝐢𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐝𝐞 𝐜𝐚𝐬𝐚 | Há avessos que definitivamente não me pertencem. Dos meus, porém, convém cuidar. Viver perenemente denunciando "a maldade dos outros" me roubaria o tempo precioso para as tramas que sustentam o meu próprio bordado. Evidentemente, não estou falando "só" de bordado, mas vejam só esta beleza:

 

(Elenízia Bernardes)

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Elogio à Copa

 


Na copa de 1994, com 17 para 18 anos, eu estava numa das piores crises psíquicas que tinha conhecido até então. Digo “psíquica” porque eu não tinha sido diagnosticada, não estava em tratamento, nem sei do que se tratava, se ansiedade patológica, inquietação extrema ou depressão profunda. Sei que não conseguia me alimentar, não conseguia dormir, não conseguia me concentrar, não conseguia ver uma luz no fim do túnel, não conseguia sair do fundo do poço em que me encontrava (luz no fim do túnel, fundo do poço, beco sem saída: às vezes os clichês dão uma ideia do que não sabemos dizer de outra forma). Precisava de algo onde me agarrar até que o pior passasse: qualquer coisa que desviasse minha atenção pelo máximo de tempo possível. O que estava a meu alcance naquele período era a beleza de um esporte cheio de técnica mas também de improviso, que consistia em saber driblar os obstáculos, de mãos atadas, até encontrar uma direção, uma solução, e chegar a um resultado - tudo o que eu não sabia fazer. Me pus a ver os jogos e eles realmente cumpriram o papel de me sequestrar por alguns momentos de onde eu estava para uma realidade que, apesar de tudo, estava sujeita à segurança das regras. Acho que assisti a todos os jogos. Aprendi como o esporte funcionava, qual era o papel de cada jogador no tabuleiro, os tipos de formação tática, o que podia e o que não se podia fazer em campo. Reconhecia um impedimento no exato momento em que ele ocorria e identificava cada atleta jogando. Vi jogadores reagindo de formas diferentes ao mesmo problema, vi problemas diferentes surgirem quando menos se esperava. Vi dor, esperança e, por fim, contentamento numa espécie de milagre: o Brasil campeão, ganhando da Itália de Baggio nos pênaltis. A vitória, no meu entender, veio antes, num jogo sofrido contra a Holanda, em que o Brasil saiu na frente, parecia ter tudo para vencer, inclusive com os pequenos Romário e Bebeto se igualando em altura aos holandeses e Romário fazendo a coisa toda parecer muito simples. No entanto, a seleção brasileira foi se afundando até que a Holanda virasse o jogo, o que era incompreensível e triste demais. Foi num gol de falta, quando tudo parecia perdido, faltando uns 10 minutos para o final, que Branco definiu o jogo e pôs o Brasil no caminho da vitória. A bola quase bateu em Romário, que se desviou dela como se estivesse num desenho animado. Nunca mais outro evento esportivo me emocionou ou me resgatou de mim mesma assim. Já não lembro o que me levou a tamanha escuridão em minha vida, mas me recordo muito bem da fisionomia esgotada, decomposta e emocionada de Branco ao comemorar o gol que redimiria o Brasil.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sólidas construções


A vida é curta, embora eu esconda isso dos meus filhos.
A vida é curta e eu encurtei a minha
de mil maneiras deliciosas e imprudentes,
de mil maneiras deliciosamente imprudentes;
vou esconder isso dos meus filhos também.
O mundo é pelo menos 50% das vezes horrível e isso é uma estimativa
conservadora, embora eu esconda isso dos meus filhos.
Para cada pássaro há uma pedra atirada em um pássaro.
Para cada criança amada, há uma criança violada, num saco
no fundo de um lago. A vida é curta e o mundo,
pelo menos metade das vezes, horrível, e para cada estranho
gentil, há outro que te partiria inteiro,
embora eu esconda isso dos meus filhos. Estou tentando
vender o mundo para eles. Qualquer corretor decente,
te mostrando uma verdadeira espelunca, fantasia
sobre sólidas construções: este lugar pode ficar bonito,
não é? Você poderia deixar bonito este lugar.

 (Maggie Smith, em tradução minha e de Álvaro Wolmer)



sábado, 9 de maio de 2026

Emmanuel Carrère sobre transtorno bipolar

 


O assombro de descobrir que alguém escreveu o que você sente, o que você vivencia, o que você passou ou poderia passar. Que você é louco, mas não é o único:

DO TIPO 2

É perturbador se ver diagnosticado aos quase sessenta anos de idade com uma doença da qual se sofreu, sem que ela fosse nomeada, durante toda a sua vida. Você se revolta, a princípio eu me revoltei dizendo que o transtorno bipolar é um desses conceitos que de repente estão na moda e começam a ser aplicados a toda e qualquer coisa — mais ou menos como a intolerância ao glúten, de que um monte de gente descobriu padecer a partir do momento em que se começou a falar dela. Depois, você lê tudo que consegue sobre o assunto, revê toda a sua vida sob esse ângulo e percebe que faz sentido. Que faz mesmo muito sentido. Que durante toda a sua vida você se viu submetido a essa alternância de fases de excitação e de depressão, que naturalmente é o caso de todos nós, pois nosso humor é sempre mutável, todos temos altos e baixos, dias de céu claro e dias de nuvens escuras, mas existem pessoas, e eu faço parte desse grupo, ao que parece dois por cento da população, para quem esses altos são mais altos e esses baixos, mais baixos que para a média, de tal modo que essa sucessão se torna patológica. O ponto em que esse diagnóstico não faz sentido, à primeira vista, é o que diz respeito à fase chamada “maníaca” disso que, até os anos 1990, se chamava psicose maníaco-depressiva. O estado maníaco é aquele em que as pessoas andam nuas na rua, ou compram três Ferraris de uma vez, ou explicam fervorosamente a quem quiser ouvir que é preciso comer goiabas, muitas goiabas, para salvar a humanidade da Terceira Guerra Mundial. Conheci um garoto que fazia esse tipo de coisa e que, passada a crise, ficava aterrorizado por tê-las feito. Ele se suicidou, como parecem fazer vinte por cento dos bipolares — uma estatística mais confiável, sinto dizer, que a de Chogyam Trungpa a respeito do tempo do cérebro dedicado ao presente. Eu me enternecia com esse garoto brilhante e desesperado, nunca pensei que sofria do mesmo mal que ele. Depressivo, sim: como honestamente assumi ao preencher o questionário Vipassana, eu atravessei, além do que se pode chamar de fases ruins, dois períodos de depressão verdadeira, depressão severa, aquela que faz você quase não se levantar durante muitos meses, não conseguir mais cumprir tarefas básicas da vida e principalmente não conseguir mais imaginar que alguma outra coisa vá acontecer. É a característica da depressão: não é possível acreditar que um dia as coisas vão melhorar. Os amigos bem-intencionados lhe dizem “você vai sair dessa” e, estraçalhado, você até se ressente deles: dizer isso é tão distante da realidade… é tão óbvio que eles não sabem do que estão falando… Quando você está dentro da depressão, pensa que não sairá dela, que não sairá de lá vivo, que não sairá de lá a não ser pelo suicídio. Se não se suicidar, no entanto, você sai de lá, cedo ou tarde, e uma vez que saiu você passa para o campo dos amigos bem-intencionados, não consegue mais evocar aquele estado de aflição intolerável e aparentemente eterno. Quando eu era jovem, tive uma viagem horrível com cogumelos alucinógenos. Eles me mandaram para o inferno, cuja característica é ser aterrador e não acabar nunca. Eu estava lúcido no meu pesadelo. Cheguei a pensar, com lucidez: “Sem pânico. Tomei uma substância tóxica. Esse efeito vai durar o tempo da digestão, em oito ou dez horas vai ter passado, só preciso aguentar até lá”. Pensava isso para me tranquilizar, e era sensato e verdadeiro, mas ao mesmo tempo eu me perguntava: “Será que eu vou aguentar? Daqui a oito ou dez horas eu ainda vou estar vivo?”. Saí vivo, e sei que quando você se vê de volta entre os vivos você relativiza o inferno, esquece bem rápido o horror que há nele, e é isso que, nestas páginas, eu gostaria de não fazer. Como diz Céline: “A grande derrota, no fundo, é esquecer, e sobretudo aquilo que fez você morrer”. Em resumo, para minha infelicidade eu conheço a depressão. Mas nas minhas primeiras consultas psiquiátricas ainda ignoro que, na definição do transtorno bipolar, o polo oposto ao engolfamento depressivo não é necessariamente o estado espetacular de euforia e desinibição que leva ao suicídio social e muitas vezes ao suicídio em si, mas também frequentemente aquilo que os psiquiatras nomeiam hipomania, o que quer dizer, simplesmente, que você pira mas não na mesma proporção. Você não sai na rua nu em pelo, você apenas é um joguete desse taquipsiquismo cujo nome aprendi há pouco. Você é bipolar do tipo 2: agitado sem ser necessariamente eufórico, mas por vezes também sedutor, cativante, muito sexual, aparentemente no auge do seu vigor mas inclinado a tomar decisões de que mais tarde vai se arrepender com a certeza de que são as decisões certas e de que nunca será preciso voltar a elas. Depois é a certeza contrária que se impõe, você entende que fez a pior coisa que poderia ter sido feita, tenta consertá-la e piora ainda mais a situação. Você pensa uma coisa e o contrário dela, você faz uma coisa e depois o contrário dela, em uma sucessão alucinante. O pior, quando você costuma se analisar, como eu, é que, uma vez feito o diagnóstico e identificado o modo de funcionamento, você adquire um distanciamento, mas esse distanciamento não serve para muita coisa. Ou apenas para passar a ter consciência de que não importa o que você pense, diga ou faça, você não pode confiar em si mesmo, pois você é duas pessoas em uma só, e essas duas pessoas são inimigas.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 20 de abril de 2026

As coisas como elas são

 


Ver as coisas como elas são: é isso que quer dizer Vipassana. E As coisas como elas são é o título do livro do meu amigo Hervé Clerc sobre o budismo. Já tracei um perfil de Hervé em O reino e, como preciso lutar contra a minha tendência pretensiosa de imaginar que meu leitor leu e recorda meus livros anteriores, vou fazê-lo de novo, mas de um jeito um pouco diferente, começando por citar Pitágoras, que coloca a seguinte questão: “Por que o homem existe sobre a terra?”. Resposta: “Para contemplar o céu”. Para contemplar o céu? Se isso é verdade, a maioria dos homens não sabe. A maioria pensa que existe sobre a terra para encontrar o amor, ficar rico, exercer algum poder, gerar picos de crescimento ou deixar sua marca nas areias do tempo. São raras as pessoas que sabem que existem para contemplar o céu. Se você não está nesse grupo, é uma sorte conhecer alguém que esteja. Isso amplia o horizonte. Eu tenho essa sorte: conheço Hervé, homem pacato, lacônico, absorto, que vive como se pudesse morrer a qualquer momento e tem sempre medo de acumular demais. Como Diógenes, pensa que é melhor beber fazendo uma concha com a própria mão do que usando uma cumbuca. Quando está viajando, ele arranca e joga fora as páginas dos livros assim que as lê, para ficar mais leve. Jornalista na Agence France Presse, morou na Espanha, na Holanda, no Paquistão, tendo o cuidado de não fazer carreira e continuar, como ele diz, abaixo do alcance do radar. Hoje ele se divide entre Nice e um vilarejo do Valais, Le Levron, onde tem um aposento em um chalé a partir do qual se descortinam dois vales de uma só vez. É um panorama de rara beleza, diante do qual ele meditou bastante e escreveu três livros que exploram aquilo que os místicos falaram sobre a Realidade última, há tempos designada com o codinome que mais nos convém: Deus. Há trinta anos, Hervé e eu nos encontramos no Levron para caminhar pelas trilhas da montanha, conversar um pouco e ficar muito tempo calados. Tem uma piada do Valais que adoro: três camponeses estão sentados em um banco e veem uma vaca passar. “É a vaca do Pierrot”, diz o primeiro. Passam-se quinze minutos, o segundo diz: “Não, é a vaca do Fernand”. Mais quinze minutos e o terceiro se levanta e vai embora, dizendo: “Cansei dessas brigas de vocês”. São assim as nossas conversas, à exceção das brigas. Nós não brigamos, nossa amizade, que é uma dádiva na minha vida e, eu acho, na dele, não conheceu nem tempestades nem eclipses, e sim se nutre das nossas profundas diferenças e mesmo de certa discordância. Hervé acredita que nós existimos sobre a terra não apenas para contemplar o céu, mas para encontrar uma saída desse cativeiro que é a vida terrestre. Ele acredita que alguns exploradores encontraram a saída e mostram o caminho. Esses exploradores se chamam Platão, Buda, Mestre Eckhart, Teresa D’Ávila e Patanjali, de quem falarei em breve, e nada é mais urgente ou necessário do que ler os relatos deles, estudar os mapas que eles traçaram para que na nossa vez seguíssemos o caminho. Em palavras indianas, pois nenhuma civilização meditou sobre isso com mais profundidade e precisão do que a da Índia: a única tarefa a que um homem dotado de bom senso deve se dedicar é tentar sair do samsara, essa roda de mutações e sofrimentos que chamamos de condição humana, para alcançar o nirvana, que é a vida enfim real, liberta da ilusão, onde se veem as coisas como elas são. É isso a ioga, diz Hervé. Enfim: isso é a ioga para quem a leva a sério, não para quem a toma por ginástica.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A mente como prisão

 


O primeiro retiro de meditação vipássana, tal como estabelecido por S.N. Goenka, num presídio brasileiro. Vipássana é a meditação aperfeiçoada por Sidarta Gautama, o Buda, como caminho para a iluminação. No método de Goenka, o retiro dura 10 dias, com doze horas diárias de meditação, em absoluto silêncio, sem nenhum contato com os outros participantes. Quem já passou pela experiência sabe quão desafiadora e intensa ela pode ser. A primeira iniciativa entre detentos se deu na Índia e pode ser vista aqui.

terça-feira, 31 de março de 2026

31 de março

À memória de Sol


Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

apesar da data

que nos trouxe até aqui

Tinha uma música na cabeça

um ritmo no corpo

e jurei que cantaria

inclusive sob tortura

 

Hoje fazia sol

e eu me sentia viva

até saber que uma cachorra

engoliu comida com vidro

dada pelo mesmo tipo de gente

que numa data como esta

nos trouxe até aqui


(em Este lado para baixo. Editora Peirópolis, 2025)


segunda-feira, 30 de março de 2026

Um poema de Philip Levine



The Trade
 
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
 
(Philip Levine, 1928-2015)

 

 
A Troca
 
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
 
(tradução de Álvaro Wolmer)

  

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que aprendi num retiro budista

 


Não é necessário ser corajoso para fazer um retiro budista de meditação. Mas é preciso uma dose imensa de coragem pontual, o que é diferente. Sou terrivelmente covarde e o medo é meu sentimento dominante. No entanto também desejo entender a natureza do sofrimento e pacificar uma mente instável e disfuncional. Tenho um transtorno psíquico que me desequilibra e um transtorno físico que provoca dor. Assim, imagine passar cerca dez horas por dia de olhos fechados ou quase, em silêncio absoluto, sem contato visual com outros praticantes, majoritariamente sentada, sem celular, em “reclusão coletiva”, acordando às 5h30, apenas examinando o que surge e desaparece na mente e no corpo, tomando cuidado para não matar insetos (sim, um dos preceitos a seguir nos retiros budistas de qualquer vertente é não tirar conscientemente a vida de nenhum ser). O mais recente de que participei foi promovido pela Casa de Dharma, fundada por Arthur Shaker, que introduziu no Brasil a escola mais antiga e austera do budismo, o Theravada. Suas práticas meditativas são árduas tanto para monges quanto para leigos. O foco reside principalmente nos chamados Quatro Fundamentos da Atenção Plena (aqui não se trata de mindfulness), estabelecidos pelo Buda como primeiro passo do caminho para a libertação. O Theravada não poupa ninguém. O primeiro retiro que fiz foi sob orientação de Bhante Yogavacara Rahula, monge que nos ensina até como respirar de maneira adequada (um pouco antes da reclusão, me dei conta de que o primeiro e-book que adquiri na vida, Superando a ilusão do eu, era de sua autoria, e não de um Machado de Assis, como seria de se esperar de alguém da área de Letras). Mas, neste ano, não havia condução formal de um monge, de modo que a prática dependia apenas dos meditadores, de quem se esperava familiaridade com o processo. Pensei que isso seria um ponto negativo, já que a orientação de um monge é valiosa, mas o formato se revelou bastante efetivo. Não havia ninguém com quem devêssemos nos preocupar (“se eu me levantar, o monge vai me julgar?”, “e se eu ficar espirrando sem parar num evento que requer silêncio absoluto?” etc.) e o apoio vinha em conversas breves mas atentas, apenas quando necessárias e em lugar reservado, entre a própria sangha (ou “o” sangha, como eles pronunciam) e do cuidado dos meditadores da Casa de Dharma, que possuem larga experiência no assunto (Cassiano, Rafael, o próprio Arthur e Isaura, por quem nutro imensa gratidão). No segundo dia, com a mente pulando de galho em galho, tive uma crise de fibromialgia tão horrível, que pensei em ir embora. Mas a postulação budista de que todas as coisas condicionadas são impermanentes me levou a esperar. No terceiro dia, a dor tinha arrefecido e eu enfim entrei naquele estado meditativo que os budistas tibetanos chamam de “estado natural da mente”. Parênteses: ao contrário do que orientou, num outro retiro, Ajahn Mudito, monge theravada treinado na Tradição da Floresta da Tailândia, de ficarmos dedicados a uma vertente só, para evitar ruídos na comunicação, sou uma espécie de Dona Flor, porque gosto tanto do budismo theravada quanto do budismo vajrayana (de origem tibetana, no qual já tive também experiência de retiro), e já flertei com o zen, minha primeira experiência de meditação. Adoro estudar as semelhanças e apreciar as diferenças entre eles. O enfoque na meditação, como caminho, é intenso em todas essas tradições.

No quarto dia de retiro, acordei antes do sino e não precisei de soneca depois do almoço. Minha mente se estabilizou de uma forma que eu nunca tinha experimentado antes. Estava afiada, sem embotamento nem agitação. Havia concentração, luminosidade, bem-aventurança, uma espécie de “vazio cheio” (sukha, será?). Era plácida e límpida como um lago cuja lama, depois de tanto ser revolvida, tivesse decantado. Em vez de ficar ensimesmada, autocentrada, senti que o limite entre mim e o mundo tinha ficado mais tênue e que eu não estava apartada de nada nem de ninguém. Algo sereno. Menciono porque na volta do primeiro retiro que fiz, tive uma espécie de surto, uma despersonalização, segundo o médico: meu ego parecia fragmentado, eu não tinha certeza de quem era, se é que era alguém. Parecia que eu podia estar em todos os seres e em nenhum, como um pedaço qualquer de átomo insignificante perdido no espaço, com um nêutron aqui e um próton sabe-se lá onde. Foi amedrontador, mas passou, exatamente como o Buda explicava. Uma vez, quando criança, tive algo parecido, mas foi bastante fugaz e tranquilo: estava no ônibus quando, ao olhar para fora, para as pessoas na rua, me senti parte delas. Era como se eu pudesse enxergar a partir dos olhos do Outro. Não temi. Não era algo racional, tanto que quis e tentei evocar isso de novo, mas nunca mais consegui recuperar aquela experiência.

Gostaria de fazer retiros mais longos, se um dia for possível, e descobrir o que surge depois que a cabeça se aquieta mesmo, sem se perder e sem divagar. Pode ser aterrorizante, sim, para alguém cheia de medos. Mas a meditação atua sobre o que há de mais sinistro neste corpo – a mente – e isso, por si só, faz bem para mim e, de quebra, para aqueles que têm de me aguentar.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

E nasce a criança

O mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente - consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que sou). É algo muito auspicioso nas condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de fazer.

Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.

Venham. É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando vocês.

Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora. 







segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Hamnet


As lágrimas começaram a cair comportadas e silenciosas na metade de Hamnet, este filme terrível, delicado, feio, exagerado, belo, demasiado humano.

No fim a drama queen aqui explodiu num choro tão descontrolado, soluçando tão alto, que cobriu a cara com as mãos, se abaixando, tentando se esconder, os joelhos contra o peito, numa posição meio fetal que era só de pura vergonha mesmo. Eu não abria o berreiro assim num filme desde Tempo de embebedar cavalos (de Bahman Ghobadi), que vi há quase trinta anos. E nem sei por quê, já que, com os anos, aprendi como chorar para dentro.

Chloé Zhao tem coragem. Arrisca, erra, acerta, faz sempre diferente do que já fez. Gosto muito do seu Songs my brothers taught me. E me dá uma alegriazinha que ela seja mulher, amarela e neurodivergente.

Quem já pisou no Hades da insanidade dificilmente sai de lá inteiro (quando sai). Às vezes não se salva nem com a ajuda de uma lira.

O resto é silêncio.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Para Ahmed Zoghbi


"Mas chove", poema para Ahmed Zoghbi, que há quase trinta anos fez da questão palestina a causa de sua vida. Ele é estudioso do pensamento de Edward Said e traduziu do árabe duas obras do escritor palestino Ghassan Kanafani.

Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.