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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Para Ahmed Zoghbi


"Mas chove", poema para Ahmed Zoghbi, que há quase trinta anos fez da questão palestina a causa de sua vida. Ele é estudioso do pensamento de Edward Said e traduziu do árabe duas obras do escritor palestino Ghassan Kanafani.

Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.


sábado, 17 de maio de 2025

Mas chove

 


Para Ahmed Zoghbi

Um sopro uma brisa uma nuvem

trazem notícias

de tufões tormentas tsunamis

de outros lugares

Mas lhes fechamos as portas porque aqui dentro faz frio

 

Me lembro de soltar os talheres

e todos continuarem comendo

enquanto o terremoto sacudia as mesas

do país de Allende

Com o tempo devíamos ficar mais resistentes às intempéries

Criar casca grossa

Fazer da pele um casaco impermeável

Mas a única casca que consigo criar é a da ferida

E ela é tão fina

Que quando a arranco

Jorra junto o sangue do mundo inteiro.


“Estamos perdendo a capacidade de contar”,

diz meu irmão, vizinho de Sherazade

Estamos perdendo a única habilidade que nos difere

como homens e entre homens

de transformar Babel em balada ou lullaby

Nem fly nem fight

Nem mesmo esquecer ou lembrar


Dizem os palestinos que devemos guardar as lágrimas

para o dia da vitória

mesmo sabendo que ela não virá

 

A falta de saúde os remédios o cortisol

o medo de perder o emprego me paralisam

Caminhamos dentro do oceano

contra uma massa de água

que nos atrasa os passos

e nos impede de salvar os que se afogam

 

Ikram, tentei te pôr em palavras

tu que não sabes ler

tu que vieste de outro oriente

mastigada e vomitada por uma baleia

Eu que venho do silêncio

quis dar-te voz

quando soubeste de teus dois filhos assassinados

 

Falhei. Falhei e não me perdoo

Tentei escrever porque não podia urrar

nem arrancar os cabelos

 

Porque narrar era o mínimo que devíamos saber

Como humanos que já fomos um dia.


(Leila Guenther)

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A rosa da náusea

 



A rosa de Hiroshima desabrocha
Rápida como uma bomba
Em toda parte ao mesmo tempo:

Na garota palestina que perdeu a carne e os cabelos
Na coluna partida de uma cachorra violentada em São Paulo
Na menina que brota de uma menina estuprada em Santa Catarina

(“Garanto que uma flor nasceu”)

Esta rosa dá náusea.

Leila Guenther
(Imagem da @fepal_brasil)


quarta-feira, 7 de maio de 2025

No litoral de Gaza

 



Estou convencido de que uma palmeira jamais se curva,

e de que nem suas tâmaras apodrecem.

Imagino o céu ocupado apenas por pássaros

e nuvens carregadas.

Ando sozinho ao longo da praia e nunca tenho medo de que as ondas frias e silenciosas me molhem.

Se me encontrar adormecido, tenha certeza de que ou estou

sonhando com rosas e pombas ou olhando dentro do vazio

abaixo de mim.

Vestirei meu terno rosado e andarei até o porto,

embora eu saiba que nenhum navio vá aparecer.

Minha esperança é de que você venha voando para mim

com suas incansáveis asas.

Para construir uma casa na praia para nós,

recolherei conchas e seixos até você chegar.

Não sei quantas casas terei erguido

antes de sua vinda.

Receio que eu vá reconstruir Gaza inteira até lá.

 

(Mosab Abu Toha, poeta palestino detido pelas tropas israelenses em 2023, em tradução minha. Ele acaba de ganhar o prêmio Pulitzer pelos ensaios sobre o genocídio palestino publicados em The New Yorker. O poema foi tirado do livro Things you may find hidden in my ear)


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Hiam Abass no Brasil


Hiam Abass é atriz e diretora palestina. Atuou em filmes como Paradise Now, Blade Runner 2049, Lemon Tree, Munique, Free Zone e O Visitante, e dirigiu Inheritance.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Para Gaza

Os nascidos em Gaza

Morri antes de ter vivido
outrora vivia em uma cova
agora me dizem que ela não é grande o bastante
para conter todas as minhas mortes












Pezinhos

Uma mãe olha para outra –
um mar de pequenos corpos
queimados ou degolados
ao seu redor –
E pergunta:
Como velaremos isto?


Nathalie Handal (1969), cuja família é palestina, publicou peças de teatro, poemas e ensaios, como Love and Strange Horses, Poet in Andalucía, Hakawatiyeh, Men in Verse e "Mahmoud Darwish: Palestine's Poet of Exile". A tradução dos poemas é minha


sábado, 19 de julho de 2014

Carta de Gaza

Caro Mustafá,
Acabo de receber sua carta, na qual me diz ter feito todo o possível para conseguir minha permanência com você em Sacramento. Também recebi notícias do Departamento de Engenharia Civil da Universidade da Califórnia. Tenho de agradecê-lo por tudo que fez, meu amigo. Mas eu o surpreenderei antes com a estranheza quando lhe anunciar estas notícias – e não tenha dúvida sobre isso, não sinto nenhuma hesitação, na verdade estou muito certo de nunca ter visto as coisas tão claramente quanto agora. Não, meu amigo, mudei de ideia. Não o acompanharei “à terra onde há verde, água e rostos amáveis”, como você escreveu. Não, eu ficarei aqui e não sairei mais.
Estou realmente chateado que nossas vidas não continuem a seguir o mesmo curso, Mustafá. Pois quase posso ouvi-lo me lembrar de nossos votos de seguirmos juntos e do jeito com que costumávamos gritar: “Vamos ficar ricos!”. Mas não há nada que eu possa fazer, amigo. Sim, ainda me lembro do dia em que estava no salão do aeroporto do Cairo, apertando sua mão e encarando o furioso motor. Naquele momento, tudo girava no tempo com o motor de barulho ensurdecedor, e você estava à minha frente, seu rosto redondo em silêncio.
Seu rosto não tinha mudado do que costumava ser quando você crescia na região de Shajiya em Gaza, livre daquelas rugas leves. Crescíamos juntos, compreendendo-nos mutuamente, e prometíamos seguir juntos até o fim. Mas...
“Faltam quinze minutos para o avião decolar. Não olhe para o espaço assim. Escute! Você irá para o Kuwait no próximo ano e juntará dinheiro suficiente para se desarraigar de Gaza e se transferir para a Califórnia. Recomeçaremos juntos e devemos continuar...”
Naquele momento estava observando seus lábios se moverem rápido. Essa sempre foi sua maneira de falar, sem pontos ou pausas. Mas de uma maneira vaga eu sentia que você não estava completamente feliz com o voo. Não conseguia encontrar nem três boas razões para ele. Eu também sofria com a situação mas o pensamento mais claro era: por que não abandonamos esta Gaza e fugimos? Por que não fazemos isso? Sua situação tinha começado a melhorar, no entanto. O Ministro da Educação do Kuwait tinha lhe conseguido um contrato de trabalho, embora eu não o tivesse. À beira da miséria em que eu vivia, você me enviava pequenas quantias de dinheiro. Queria que eu as considerasse como empréstimo porque temia que eu ficasse ofendido. Conhecia as circunstâncias da minha família dentro e fora; sabia que meu parco salário nas escolas da UNRWA [United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East - Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo] não era suficiente para manter minha mãe, a viúva de meu irmão e seus quatro filhos.
“Ouça com atenção. Escreva-me todos os dias... todas as horas... todos os minutos! O avião vai partir. Adeus! Ou melhor: até breve!”
Seus lábios frios roçaram minha bochecha, você desviou o rosto de mim na direção do avião e, quando novamente me olhou, pude ver suas lágrimas.
Mais tarde o Ministro da Educação do Kuwait me conseguiu um contrato de trabalho. Não é preciso repetir em detalhes como minha vida continuou lá. Sempre lhe escrevi sobre tudo. Minha vida lá era recoberta por uma cola, por uma vacuidade, como se eu fosse uma ostra pequena perdida numa solidão opressiva, vagarosamente lutando com um futuro tão escuro quanto o começo da noite, preso a uma rotina podre, num combate vomitado com o tempo. Tudo era quente e pegajoso. Havia uma incerteza em relação a toda minha vida e um desejo ardente pelo fim do mês.
No meio do ano, naquele ano, os judeus bombardearam o distrito central de Sabha e atacaram Gaza, nossa Gaza, com bombas e lança-chamas. O incidente deve ter causado alguma mudança em minha rotina, mas não havia nada para eu me importar; estava deixando para trás esta Gaza e indo para a Califórnia, onde viveria por minha própria conta, para o meu próprio eu, que havia sofrido por tanto tempo. Eu odiava Gaza e seus habitantes. Tudo na cidade amputada me fazia lembrar de telas fracassadas pintadas em cinza por um homem doente. Sim, eu enviaria uma magra quantia para ajudar minha mãe, a viúva de meu irmão e seus filhos a viver, mas me libertaria desse último vínculo também lá na verde Califórnia, longe do cheiro ruim da derrota que enchera minhas narinas por sete anos. A empatia que me atava aos filhos de meu irmão, sua mãe e à minha nunca seria suficiente para justificar minha tragédia de dar esse mergulho perpendicular. Não podia me arrastar para mais fundo do que eu já estava. Eu tinha de escapar!
Você conhece esses sentimentos, Mustafá, porque os experimentou de verdade. O que é esse laço mal definido que tínhamos com Gaza que embotou nosso entusiasmo pelo voo? Por que não analisamos a questão de modo a obter um entendimento claro das coisas? Por que não deixamos para trás essas feridas e avançamos em direção a um futuro mais promissor que nos desse uma consolação profunda? Por quê? Não sabemos exatamente.
Quando fui de férias em junho, reunindo todos meus pertences e ansiando pelo doce desembarque, o começo em direção a essas pequenas coisas que dão um belo e brilhante significado à vida, encontrei Gaza exatamente como tinha deixado, fechada como o revestimento interno de uma concha de caracol arremessada pelas ondas da praia visguenta e arenosa ao lado do matadouro. Essa Gaza estava mais apertada do que a mente de um adormecido nas dores de um terrível pesadelo, com suas ruas estreitas que tinham aquele cheiro peculiar, o cheiro da derrota e da pobreza, aquelas casas com suas sacadas salientes... esta Gaza! Mas quais são as causas obscuras que levam um homem até sua família, sua casa, suas memórias, como a primavera atrai um pequeno rebanho de cabras da montanha? Não sei. Tudo o que sei é que fui ver minha mãe em nossa casa naquela manhã. Quando cheguei, a irmã de meu falecido irmão me encontrou lá e me perguntou, chorando, se eu realizaria o desejo de sua filha ferida e lhe faria uma visita no hospital de Gaza naquela tarde. Você conhece Nádia, minha linda sobrinha de treze anos?
Naquela tarde comprei meio quilo de maçãs e parti para o hospital para visitar Nádia. Sabia que havia algo que minha mãe e minha cunhada estavam escondendo de mim, algo que suas línguas não podiam pronunciar, algo que eu não saberia dizer. Eu amava Nádia pelo costume, o mesmo que me fazia amar toda aquela geração que tinha sido conduzida à derrota e ao deslocamento que levaram a pensar que uma vida feliz era uma espécie de desvio social.
Que aconteceu naquele momento? Não sei. Entrei muito calmo no quarto branco. Crianças doentes têm algo de santidade, e mais ainda se a criança está doente por causa de feridas dolorosas e cruéis. Nádia estava deitada na cama, com as costas apoiadas num grande travesseiro sobre o qual seu cabelo se espalhava como um couro espesso. Havia um profundo silêncio nos seus olhos atentos e uma lágrima que não parava de brilhar nas profundezas de suas pupilas negras. Seu rosto estava calmo e parado mas eloquente como o rosto de um profeta torturado deve ser. Nádia ainda era uma criança, mas parecia mais que uma criança, muito mais, e mais velha do que uma criança, muito mais velha.
“Nádia!”
Eu não tinha ideia se falara aquilo ou se fora outra pessoa atrás de mim. Mas ela ergueu os olhos e eu os senti me dissolverem como a um cubo de açúcar que tivesse caído numa xícara de chá quente. Junto com seu sorriso fraco escutei sua voz.
“Tio! Você veio mesmo do Kuwait?”
Sua voz irrompeu da garganta, e ela se ergueu com ajuda das mãos e esticou seu pescoço em minha direção. Afaguei suas costas e me sentei perto dela.
“Nádia! Eu lhe trouxe presentes do Kuwait, um monte de presentes. Vou esperar até que saia da cama, bem e totalmente curada, e você irá para minha casa para que eu lhe dê os presentes. Trouxe a calça vermelha que você me pediu na carta. Verdade, eu trouxe.”
Era uma mentira, nascida de uma situação tensa, mas ao pronunciá-la senti como se falasse a verdade pela primeira vez na vida. Nádia tremeu como se tivesse levado um choque e abaixou a cabeça num silêncio terrível. Senti suas lágrimas molhando as costas de minha mão.
“Diga alguma coisa, Nádia! Você não quer a calça vermelha?”
Ela sustentou o olhar para mim e fez como se fosse falar, mas então parou, rangeu os dentes e eu escutei novamente sua voz, vinda de longe.
“Tio!”
Ela esticou as mãos, levantou a coberta com os dedos e apontou para a perna, amputada desde o alto da coxa.
Meu amigo... Que eu nunca me esqueça da perna de Nádia, amputada desde o alto da coxa. Não! E que eu nunca me esqueça da mágoa que havia esculpido seu rosto e se fundia para sempre em seus traços. Saí do hospital naquele dia, minha mão segurando com desdém silencioso o saco de maçãs que trouxera para dar à Nádia. O sol inflamado enchia as ruas com a cor do sangue. E Gaza estava completamente nova, Mustafá! Nem você nem eu nunca a vimos assim. As pedras empilhadas à entrada da região de Shajiya onde vivíamos tinham um significado e pareciam ter sido postas ali por não outro motivo que servir de explicação. Essa Gaza onde tínhamos vivido e com cujo povo bondoso tínhamos passado sete anos de derrota era algo novo. Para mim parecia um começo. Não sei por que achei que aquilo fosse um começo. Imaginei que a rua principal por onde caminhava para voltar a casa fosse apenas o começo de uma longa, longa estrada conduzindo a Safad. Tudo nessa Gaza palpitava de uma tristeza que não se limitava à lamentação. Era um desafio; mais do que isso, era algo como a reivindicação de uma perna amputada!
Saí pelas ruas de Gaza, ruas inundadas pela luz ofuscante do sol. Elas me diziam que Nádia tinha perdido a perna quando se jogou sobre seus irmãos pequenos para protegê-los das bombas e chamas que aferraram suas garras à casa. Nádia poderia ter escapado, poderia ter fugido, salvado sua perna. Mas não o fez.
Por quê?
Não, meu amigo, não irei para Sacramento, e não me arrependo. Não, e nem terminarei o que começamos na infância. Esse sentimento sombrio que sentiu ao deixar Gaza, esse pequeno sentimento deve crescer feito um gigante dentro de você. Precisa se expandir, e você deve procurá-lo para encontrar a si mesmo, aqui, entre os abomináveis escombros da derrota.
Não irei até você. Mas você pode retornar! Volte, para aprender, com a perna amputada de Nádia no alto da coxa, o que é a vida e quanto vale a existência.
Volte, meu amigo! Estamos todos esperando você.

(Ghassan Kanafani, Men in the Sun & Other Palestinian Stories. Lynne Rienner Publishers. Traduzido do árabe por Hilary Kilpatrick. Tradução do conto em inglês: Leila Guenther)


sábado, 26 de outubro de 2013

A poesia de Mahmud Darwish

ONZE ASTROS
INCIDINDO NA ÚLTIMA CENA ANDALUZINA
 
 
I
Na última noite
nesta terra 
 
Na última noite nesta terra, arrancamos os dias
das pequenas árvores, e contamos as costelas que levaremos junto
e aquelas que deixaremos aqui, na última noite
não diremos adeus, não teremos tempo para acabar.
Tudo ficará como está, já que o lugar trocará os nossos sonhos
e trocará os nossos hóspedes. De uma hora para outra, não saberemos mais brincar
porque o lugar estará pronto para receber a poeira... Aqui, na última noite,
contemplamos as montanhas rodeadas de nuvens: a conquista... a reconquista
o tempo antigo a entregar ao tempo novo as chaves dos portões.
Entrem, senhores conquistadores, entrem nas nossas casas, bebam do vinho
das nossas doces “muachahat”. Seremos a noite e, finda a meia-noite,
já não haverá mais auroras levadas em dorso de cavalo, ouvido o último muezim.
O nosso chá é verde, é quente, bebam, o amendoim é fresco, comam,
as camas são verdes, a madeira é de cedro, entreguem-se ao sono
depois de tão longo cerco, durmam nas plumas dos nossos sonhos,
os lençóis estão estendidos, os perfumes esperam por vocês à porta, há muitos espelhos, entrem, nós vamos sair de vez, e vamos depois procurar saber
como era a nossa história frente à história de vocês na longínqua terra,
vamos nos perguntar por fim: onde era o Alandalus
aqui ou lá? nesta terra ou no poema?
 
II
Como devo escrever
nas nuvens? 
 
Como devo escrever nas nuvens o testamento dos meus? se eles
abandonam o tempo como abandonam os casacos nas casas, se eles
a toda vez que erguem um forte o destroem para erguer em seu lugar
uma tenda de saudades da primeira palmeira... Os meus traem os meus:
nas guerras em defesa do sal. Mas Granada é toda ouro,
seda de falas bordada com amêndoa, prata de lágrimas impressa nas
cordas do alaúde. Granada é a grande ascensão a si mesma...
Pode ser o que se deseja: saudade de
qualquer coisa que passou ou que vai passar: a asa de uma andorinha
roça o seio de uma mulher na cama, e ela grita: Granada é meu corpo.
Alguém perde a gazela nos prados, e grita: Granada é minha terra.
Eu sou de lá. E você, cante para que os rouxinóis façam destas costelas
uma escada que leva ao céu nada distante. Cante o heroísmo de quem sobe o cortejo,
lua após lua, pelo beco da amante. Cante as aves do jardim
em cada pedra. Como eu o amo! Você, que pouco a pouco
me quebrou a caminho da noite quente, cante!
Não haverá mais a manhã para se sentir o cheiro do café, depois da sua partida. Cante, cante a minha saída.
Deixei o arrulho das pombas nos seus joelhos, deixei o ninho da minha alma
nas letras do seu doce nome, Granada do meu canto, cante! 
 
III
Depois do céu
tenho um céu... 
 
Depois do céu tenho um céu para voltar, mas
ainda lustro o metal deste lugar, e vivo
a hora que vê o oculto. Sei que o tempo
não repete o nosso acordo, sei que sairei do
meu estandarte como uma ave que não pousa nas árvores do jardim,
sairei da minha pele, e da minha língua
cairão palavras de amor como o amor da
poesia de Lorca que habitará o meu quarto
e verá o que eu vi da lua beduína. Sairei das
amendoeiras como o algodão sai das espumas do mar. Um estranho passou
levando setecentos anos de cavalos. Um estranho passou
aqui, como passa também lá. Sairei em breve
das rugas do meu tempo, como um estranho, rumo à Síria e ao Alandalus.
Esta terra não cobre o meu céu, mas esta tarde é minha,
as chaves são minhas, meus são os minaretes e os lampiões, eu
também sou meu. Sou o Adão de dois paraísos, que perdi duas vezes.
Expulsem-me, mas devagar,
matem-me, mas devagar,
debaixo da minha oliveira,
com Lorca... 
 
IV
Sou
dos últimos reis  
 
Sou dos últimos reis... apeei da
égua no último inverno, sou o último suspiro árabe.
Não apareço no mirto por cima dos telhados, não
olho ao redor para ver se alguém me vê, alguém que me conhecesse de antes,
que soubesse que lapidei o mármore da fala para a minha mulher atravessar
descalça as manchas de luz, não apareço na noite para
não ver a lua que acendia os segredos de Granada
em cada corpo. Deixo de olhar a sombra para não ver
alguém carregando o meu nome e vindo atrás de mim:
retire de mim o seu nome e dê-me
a prata do álamo. Não me viro para trás para não
lembrar que passei sobre este chão. Não há chão nesta
terra desde que o tempo se partiu ao meu redor em mil fragmentos.
Não fui um apaixonado para acreditar que as águas fossem espelhos,
como eu disse aos antigos amigos, nenhum amor intercede por mim,
desde que aceitei o “acordo de paz” não tenho presente
para passar perto a manhã do meu passado. Castela erguerá
uma coroa sobre o minarete de Deus. Ouço o barulho das chaves na
porta dourada da História, adeus à nossa história, serei eu
que vai trancar a ultima porta do céu? Sou o último suspiro árabe. 
 
V
Um dia, sentarei
na calçada 
 
Um dia sentarei na calçada... na calçada de uma estranha.
Não terei sido um narciso, embora eu defenda a minha imagem
nos espelhos. Você já não esteve um dia aqui, estranho?
Quinhentos anos se passaram, e a nossa separação ainda está incompleta,
as nossas cartas não foram interrompidas, as guerras
não modificaram os jardins de Granada. Um dia passarei por suas luas
e roçarei o meu desejo num limão... Abrace-me para eu poder renascer
dos aromas de um sol e de um rio sobre os seus ombros, e dos pés
que arranham a tarde, e a tarde que chorará como leite para a noite do poema...
Não terei sido um passante na palavra dos cantadores... eu seria
a própria palavra dos cantadores, a paz de Atenas e Pérsia,
um Oriente que abraça um Ocidente na partida rumo a uma essência única.
Abrace-me para eu poder renascer das espadas damascenas nos mercados.
Nada sobrou de mim além do escudo antigo e da cela dourada do meu cavalo.
Nada sobrou de mim além de um manuscrito de Averróis, o Colar da Pomba, e as traduções...
Eu costumava sentar na calçada da Praça Margarida
e contava as pombas: uma, duas, trinta... contava as meninas
que disputavam a sombra das árvores sobre o mármore,
e as folhas da idade me abandonavam amarelas.
O outono passou por mim, e eu não percebi,
todo o outono passou, e a nossa história passou na calçada...
                                     e eu não percebi! 
 
VI
A verdade tem duas caras
e a neve é negra 
 
A verdade tem duas caras e a neve é negra na nossa cidade.
Já não somos capazes de desespero como antes, e o fim caminha para
a muralha, com passos firmes,
sobre este azulejo molhado de lágrimas, com passos firmes.
Quem baixará as nossas bandeiras: nós, ou eles? E quem
nos lerá “o acordo de paz”, ó rei da agonia?
Tudo está preparado, quem arrancará os nossos nomes
da nossa identidade: você ou eles? E quem semeará em nós
o discurso da arrogância: “Não conseguimos romper o cerco,
entreguemos as chaves do paraíso para o ministro da paz, e salvemo-nos...”
A verdade tem duas caras, o lema santo era uma espada para nós e
sobre nós, e então o que você fez do nosso forte antes desse dia?
Você não lutou porque temia a morte, mas o seu trono é um caixão,
carregue então o seu caixão para salvar o trono, ó rei da espera.
Esta paz fará de nós um punhado de pó....
Quem vai nos enterrar os dias depois que tivermos ido: você ou eles? Quem
levantará as bandeiras deles sobre as nossas muralhas: você ou
um cavalheiro sem esperanças? Quem pendurará os sinos em cima da nossa partida:
você ou um guarda miserável? Tudo está preparado para nós,
então por que delonga a negociação, ó rei do agonia? 
 
VII
Quem sou eu
terminada a noite da estranha? 
 
Quem sou eu terminada a noite da estranha? Acordo do meu sonho
com medo da ambigüidade do dia no mármore da casa, da
penumbra do sol nas rosas, da água do meu chafariz,
com medo do leite nos lábios do figo, com medo
da minha língua, com medo do ar a pentear um salgueiro, com medo
da obviedade do tempo denso, e de um presente que não é mais
presente, com medo da minha passagem por um mundo que não é mais
o meu mundo. Ó desespero, seja misericórdia. Ó morte, seja
bênção para o estranho que vê o oculto mais claro
que uma realidade que deixou de ser realidade. Cairei de uma estrela
do céu numa tenda a caminho de onde?
Onde está o caminho para qualquer coisa? Vejo o oculto mais evidente que
uma rua que não é mais a minha. Quem sou eu terminada a noite da estranha?
Eu caminhava até a essência nos outros, e aqui estou
perdendo a essência e os outros. Meu cavalo desapareceu na costa atlântica,
o meu cavalo na costa mediterrânea finca em mim a lança cruzada.
Quem sou eu terminada a noite da estranha? Não consigo retornar aos
meus irmãos perto da palmeira da velha casa, não consigo descer
até o fundo do meu abismo. Ó oculto! Não há coração para o amor... não
há coração para o amor onde eu possa morar, terminada a noite da estranha...
 
VIII
Seja a corda para a minha guitarra,
ó água
 
Seja a corda para a minha guitarra, ó água: os conquistadores chegaram,
os antigos partiram. É difícil lembrar o meu rosto
nos espelhos. Seja-me a memória para eu lembrar o que perdi...
Quem sou eu depois da coletiva partida? Tenho uma rocha
que carrega o meu nome sobre colinas que veem o que passou
e acabou. Setecentos anos me acompanham atrás dos muros da cidade...
Em vão o tempo gira para eu salvar o meu passado num instante
que faz nascer agora a história do meu exílio em mim... e nos outros...
Seja a corda para a minha guitarra, ó água, os conquistadores chegaram,
os antigos partiram para o sul, povos restaurando os seus dias
nos escolhos da transformação: sei quem fui ontem, mas o que serei
amanhã sob as bandeiras atlânticas de Colombo? Seja a corda
para a minha guitarra, ó água. Não há Egito no Egito, nem
Fez em Fez, e Damasco está distante. Não há nenhum sacre
na bandeira da minha gente. Não há rio ao leste do palmeiral cercado
com os cavalos rápidos dos mongóis. Em que Alandalus vou terminar? Aqui
ou lá? Saberei que morri e que deixei aqui
o que há de melhor em mim: o meu passado. Nada me sobrou além da minha guitarra.
Seja a corda para a minha guitarra, ó água. Os conquistadores se foram,
os conquistadores chegaram... 
 
IX
Na grande partida,
eu te amo mais... 
 
Na grande partida eu a amo mais, e em breve
você fechará a cidade. Não há um coração para mim na sua mão, nem
um caminho que me leve. Na grande partida eu a amo mais.
Não há leite para a romã na nossa varanda depois que você tiver ido. O palmeiral diminuiu,
diminuiu o peso das colinas, nossas ruas diminuíram no crepúsculo,
a terra diminuiu quando se despediu de sua terra. As palavras diminuíram,
as histórias diminuíram na escada da noite. E o meu coração está carregado.
Deixe-o aqui ao redor da sua casa a bater e chorar o tempo bom.
Não tenho outra pátria além dele. Na partida eu a amo mais.
Esvazio a alma das últimas palavras: eu a amo mais.
Na partida, as borboletas guiam as nossas almas, na partida
lembramos o botão da camisa que se despreendeu, e esquecemos
a dança dos cavalos nas noites das nossas núpcias, na partida
nos igualamos às aves, sentimos compaixão dos nossos dias, basta-nos o pouco,
de você, basta-me a adaga dourada que faz dançar o meu coração assassinado.
Mate-me, devagar, para que eu possa dizer: eu a amo mais do que
eu disse antes da grande partida. Eu a amo. Nada dói em mim.
Nem o ar, nem a água... a sua manhã é uma manhã sem manjericão,  na sua tarde nenhum lírio dói em mim... depois da grande partida.
 
X
Do amor não quero nada
além do início 
 
Do amor não quero nada além do início, nas praças da minha Granada
as pombas remendam as vestes do dia.
As jarras estão cheias de vinho para a festa depois da nossa partida.
Sobram muitas janelas nas canções para explodir a flor de granada  
 
Deixo o jasmim no vaso, deixo o meu coração pequeno
no armário da minha mãe, deixo o meu sonho rindo na água,
deixo a aurora no mel do figo, deixo o meu dia e anoiteço
na senda até a Praça da Laranja onde as pombas revoam.
 
Teria sido eu quem desceu até os seus pés para erguer a fala?
Lua branca no leite das suas noites... bate o vento
e eu vejo a rua azul da flauta... bate a tarde
e eu vejo como adoece entre nós o mármore. 
 
As janelas abandonaram os pomares do seu xale. Em outro
tempo eu sabia muito sobre você, colhia gardênias
dos seus dedos. Em outro tempo obtinha pérolas
torneando o seu colo, e um nome num anel por onde iluminava o escuro.
 
Do amor não quero nada além do início, as pombas voaram
acima da última esfera do céu, as pombas voaram, revoaram.
Restará muito vinho nas jarras, depois da nossa partida,
basta bem pouca terra para nos encontrar e se dar a paz. 
 
XI
Violinos
 
Violinos choram: vão-se os ciganos a Alandalus.
Violinos choram: vão-se os árabes de Alandalus.
 
Violinos choram: o tempo ido é sem retorno.
Violinos choram: a pátria ida terá retorno.
 
Violinos queimam: a mata é escuridão distante.
Violinos sangram: sentem pulsar o sangue.  
 
Violinos choram: vão-se os ciganos a Alandalus
Violinos choram: vão-se os árabes de Alandalus. 
 
Violinos: cavalos nas cordas da miragem, na água gemente.
Violinos: campo violáceo selvagem, longe, circundante.
 
Violinos: fera fustigada, unha de mulher, o roçar do toque.
Violinos: escala menor, sons de exército em cemitério de mármore.
 
Violinos: loucos corações no rodopiar de pés da dançarina.
Violinos: bando de aves a migrar da bandeira não erguida.
 
Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha.
Violinos: voz de vinho distante a evocar o dia vencido.
 
Violinos: me seguem, aqui, ali, para vingarem-se de mim.
Violinos: para matarem-me, onde quer que eu termine.
 
Violinos choram pelos árabes que se vão de Alandalus.
Violinos choram com os ciganos que se vão a Alandalus.
 
 
 
(Do livro Onze Astros, de 1992).
 
 
Traduções de Michel Sleiman e Safa Jubran.
 
 
 
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Mahmud Darwish ou Mahmoud Darwich (Al-Birweh, 1942 - Houston, 2008), poeta e escritor palestino. A vila em que nasceu foi inteiramente arrasada pelas forças  de ocupação israelenses,  em 1948, durante a Nakba, e a família do poeta refugiou-se no Líbano, onde permaneceu por um ano. Voltou clandestinamente ao seu país e descobriu que o vilarejo onde nasceu fora substituído pela colônia agrícola israelense de Ahihud. Mahmoud Darwish foi preso diversas vezes entre 1961 e 1967,  e a partir da década seguinte passou a viver como refugiado até ser autorizado a retornar à Palestina, para comparecer a um funeral, em maio de 1996. Darwish é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino. Membro da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), afastou-se do grupo em 1993, por discordar dos Acordos de Oslo. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina. Seu trabalho foi traduzido em mais de 20 línguas.