É neste sábado o lançamento do novo livro de Ana Elisa Ribeiro, organizadora da coleção Madrinha Lua da Editora Peirópolis, de que tenho tanto orgulho em participar, ao lado de uma grande seleção de poetas contemporâneas. Estarei lá.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Lembrar, esperar, esquecer
Dias atrás publiquei no Facebook o comentário abaixo, junto com “Circe”, do meu livro Viagem a um
deserto interior, e o professor e crítico Fernando Morato, tendo gostado do
meu poema, fez uma análise belíssima e generosa dele neste vídeo em seu canal.
Sempre me surpreende o quanto aprendo sobre minha própria escrita através dos
outros.
A Odisseia em
cartaz me fez pensar o que seria num passado remoto ouvir, em volta de uma
fogueira, uma epopeia, ou seja, uma espécie de filme de ação narrado de cor.
Tenho uma vaga ideia pela experiência infantil de ter ouvido meus pais lerem
histórias antes de eu dormir.
Falo de um filme a que
ainda não assisti, mas é de Christopher Nolan, o diretor de Amnésia (Memento),
primeiro filme seu que vi há mais de 20 anos (acho que é seu segundo longa) e
que me surpreendeu bastante pelo formato, no qual subverte tanto a memória
quanto o esquecimento.
Tenho especial
curiosidade de saber como é a Circe do filme, a feiticeira que aprisiona homens
e os transforma em bichos, que falha em enfeitiçar Ulisses mas ironicamente se
deixa enfeitiçar por ele. Uma personagem tão enigmática que me levou a escrever
este texto [“Circe”] para tentar entendê-la. Há tempos escrever tem sido a
forma de melhor me acercar daquilo que não compreendo.
terça-feira, 31 de março de 2026
31 de março
À memória de Sol
Hoje fazia sol
e eu me sentia viva
apesar da data
que nos trouxe até aqui
Tinha uma música na cabeça
um ritmo no corpo
e jurei que cantaria
inclusive sob tortura
Hoje fazia sol
e eu me sentia viva
até saber que uma cachorra
engoliu comida com vidro
dada pelo mesmo tipo de gente
que numa data como esta
nos trouxe até aqui
(em Este lado para baixo. Editora Peirópolis, 2025)
segunda-feira, 30 de março de 2026
Um poema de Philip Levine
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
A Troca
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
E nasce a criança
O
mais leve dos metais (o lítio) foi se construindo aos poucos, numa longa gestação, por
meio do medo, do espanto, da doença que começou na infância, mas também por
causa do fascínio que a palavra escrita sempre exerceu sobre mim. Tenho a
oportunidade de estar com ela, na forma de literatura, até no trabalho que me
provê. Ironicamente escrevo pouco, “falo menos ainda”, mas - surpreendente -
consegui publicar dois livros em dois anos consecutivos. O mais leve dos
metais estava morrendo, quando o editor e escritor Eduardo Lacerda o salvou. Não fiz um
agradecimento formal a ele na última página, porque minha gratidão à Editora Patuá está além das palavras (justo essa entidade sempre tão presente no que
sou). É algo muito auspicioso nas
condições em que o lançamento se dará: no aniversário de 15 anos de uma editora que
carrega a sorte até no nome, ao lado de tantos escritores, numa festa que trará
à luz uma quantidade louca de livros, como só Eduardo, o Quixote, teria coragem de
fazer.
Pois agora o livro nasceu de fato para o mundo. E está lindo, como podem ver. Ele conta com a arte de Tieko Irii na capa e texto da orelha de Marilia Kubota, duas mulheres que admiro muito.
Venham.
É no dia 28 de fevereiro, na Livraria Patuscada (Rua Murat, 40, Pinheiros, São Paulo - SP). Estarei lá das 17h às 19h30, esperando
vocês.
Aos que quiserem adquirir o livro fora do lançamento, ele está em pré-venda aqui no site da editora.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Para Ahmed Zoghbi
Com pequenas alterações, este texto integra meu novo livro de poemas, O mais leve dos metais, em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Pré-venda do novo livro
O mais leve dos metais, título do meu novo livro de poemas, é uma referência ao lítio, o metal de menor peso da tabela periódica. Ele é amplamente utilizado na psiquiatria para controle do transtorno bipolar, condição que me afeta, me desestabiliza, mas também me move a escrever. Nos textos reunidos neste volume, busco não apenas o diálogo com indivíduos próximos ou distantes, diferentes ou semelhantes, mas também encontrar algum equilíbrio na corda bamba do mundo.
Ele está em pré-venda aqui, no site da Editora Patuá, que tão cuidadosamente me acolheu e de cujo catálogo me orgulho em fazer parte.
Em breve, darei informações sobre o lançamento.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Ao som de Björk
Começo
2026 com a alegria de saber que Este lado para baixo (Editora Peirópolis)
foi a primeira leitura do ano de Helder Guastti e que ele adorou o livro. Helder tem um trabalho lindo como educador
(foi eleito Educador do Ano 2024 e está entre os 50 mais importantes educadores
do mundo de 2025, segundo o Global Teacher Prize). Fez um vídeo com o poema que
dediquei ao poeta Carlos Augusto Lima, utilizando a canção da Björk que integra
a epígrafe do livro.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
O passado infinito de Isabella Yoshimura
Isabella Yoshimura é
escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o
curta-documentário The Living Past (Chongqing, China), produziu um
podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo e publicou Poemas
Surdos (Ipê das Letras). Seu trabalho explora identidade, memória e
espiritualidade (Isabella dedica-se também à meditação). Ela integra o Coletivo
de Escritoras Asiáticas & Brasileiras.
Em The Living Past, acompanhamos
Zhu Songling, paleontólogo que trabalhou 40 anos no Museu de História Natural
de Chongqing, onde podem ser vistos os fósseis de dinossauros restaurados por
ele. O curta foi realizado através do programa Looking China, no qual alunos de
cinema de vários países filmam um documentário de até 12 minutos sobre a
cultura chinesa, e evoca a seguinte questão: é possível recompor
o passado se nunca o vimos?
Abaixo, um dos poemas de seu
livro:
_2020
hoje o mundo termina
e começa de novo
fogos vão ser atirados
corpos vão balançar ao som da derrota
de um dia virado, vidrado
é lua nova cheia de coisa que não
termina
o fim eterno em retorno
hoje o mundo começa
e termina de novo
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Uma amarga canção do exílio
Acabo de ler, numa sentada, Cancioneiro
da desilusão: um pseudo-renga (Urutau), de Karen Kawana. Quando ela se
referiu a um “pseudo-renga”, eu ri, porque achei que era uma resposta à
mensagem em que chamei meus tercetos de “pseudo-haicais”. No caso dela, penso
em pseudo- no sentido enriquecedor que o prefixo agrega a palavras como pseudofruto
– uma fruta que vem da parte acessória de uma flor. Um figo, um caju, um
morango. Pois o renga é um poema japonês encadeado, coletivo, composto em
estrofes de três e dois versos por vários participantes, muitas vezes de forma
lúdica em grêmios de haicai. E o termo pseudo-renga, cunhado pela
autora, se dá pelo fato de ele não ser escrito por múltiplos autores, mas
apenas por Karen, e ter apenas um eu lírico, masculino, uma espécie de homo
japonicus cuja trajetória (tão familiar para mim, que descendo de
japoneses) é de um exílio circular e infinito, de quem, em direção ao oeste, chega por fim
ao leste, ponto de partida e chegada. Esse eu lírico, no entanto, é também
coletivo em seu sentido existencial, ao ecoar a trajetória do imigrante japonês
que abandona um país onde não cabe mais (“os que deixei/ não queriam o
diferente/ para os envergonhar”), vem para uma terra com a promessa ilusória de
novas oportunidades (“lá há sabiás/ calor de dar inveja/ a este meu país”),
tentando sem sucesso integrar-se (“aqui também me veem/ e não me compreendem”),
e cujos descendentes, anos depois, refazem o caminho em sentido contrário, em
busca, no Japão, também de novas oportunidades de desilusão (“fui meu chefe/ e
meu próprio escravo/ sem qualquer lucro”). Nessa descrença o subtítulo encontra o título,
uma vez que cancioneiro evoca a literatura
mais tradicional da nossa melancólica língua portuguesa.
A terra natal deste
imigrante – seu furusato –, tantas vezes motivo de idealização e de
esperança dos que já nasceram aqui, se revela, no trajeto inverso dos dekasseguis, culminado de vergonha,
tão inóspita e tão pouco acolhedora como o Brasil o foi. A impressão amarga do
fracasso tem passagem de ida e volta (“de novo aqui/ mais uma vez pária/ outra
vez só”). O homo japonicus carrega uma inadaptação que não pode
esconder: no Brasil não é brasileiro e no Japão não é japonês; portanto, ele não
conhece pertencimento. Isso o mantém sempre desterrado (“eu, não obstante/
continuo estrangeiro/ em toda parte”), porque seu ethos não o deixa
sentir-se em casa nem dentro de si mesmo: sua mente e seu corpo cansados (“a
dor do corpo/ horas vestindo máscaras/ sob as quais não sou”), que a custo
nesta obra arrasta não por acaso no encadeamento do renga sem trégua, não
encontra porto onde se ancorar, está em constante errância, deslocado. Em Cancioneiro
da desilusão, o que há de imutável e permanente é justamente a diáspora:
uma espécie de lugar entre, um intervalo eterno, um não-lugar, talvez o
único que nos é permitido habitar.
(Leila Guenther)
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Quatro horas, sessenta e um socos
Escrevi este poema (em Este lado para baixo, ed. Peirópolis) quando soube do caso de Elaine Perez Caparroz que, em 2019, foi espancada durante 4 horas seguidas em seu apartamento por Vinícius Batista Serra, até que alguém interviesse. Os vizinhos acharam que se tratava de “briga de marido e mulher” e por isso não se intrometeram. Agora vimos Eduardo Pereira Cabral, num vídeo chocante, desferir 61 golpes em sua namorada Juliana Garcia dos Santos, até desfigurá-la. Isso é só o que está à vista, registrado, televisionado. Os dados são estarrecedores: 4 mulheres são mortas por dia no Brasil só pelo fato de serem mulheres. A cada 6 minutos ocorre um estupro. 76% das vítimas têm menos de 14 anos (o que inclui bebês). As mulheres negras são as maiores vítimas.
terça-feira, 15 de julho de 2025
Como dizer adeus em catalão
FORMAS DE DIZER ADEUS
Mudar de nome
Deixar de
responder às perguntas
Nunca mais olhar o
telefone e o que há dentro dele
Faltar ao encontro
marcado há cinco anos
Pedir demissão dos
que nos demitiram
Não pensar no que
se planta
nem no que se
colhe
Afundar em uma
rede que balançamos
com a ponta dos
pés quebrados
Sair de casa e não
voltar
Não sair de casa
Não sair de casa
nunca mais
Enterrar no
quintal um cão que nos enterra
Deixar de dar água
às plantas
onde vivem os que
não abandonamos
Esquecer que um
dia houve música
E emudecer, sem
aprender a linguagem dos sinais
Queimar os livros
porque navios não há
Descer do veículo
fora da parada
Sem falar o
necessário ao motorista
Parar de tomar
remédios receitados
E tomar outros,
sem receita
Habitar Atlântida
Falar a Deus
Desligar os
aparelhos – todos –
Subir no ponto
mais alto de nós mesmos
e saltar
(Leila
Guenther, em Este lado para baixo. Ed. Peirópolis, 2025)
FORMES DE DIR ADEU
Canviar de nom
Deixar de
respondre les preguntes
No mirar mai més
el telèfon i el que hi ha a dins
Faltar a la cita
que tenies fa cinc anys
Demanar que despatxin els que ens han despatxat
No pensar en el que es planta
ni en el que es cull
Enfonsar-se en una hamaca que gronxem
amb la punta dels peus trencats
Sortir de casa i
no tornar
No sortir de casa
No sortir de casa
mai més
Enterrar al jardí
un gos que ens enterra
Deixar de donar
aigua a les plantes
on viuen els que
no hem abandonat
Oblidar que un dia va haver-hi música
i emmudir, sense aprendre el llenguatge de senyals
Cremar els llibres perquè no hi ha vaixells
Baixar del vehicle fora de la parada
sense parlar només quan calgui al conductor
Deixar de prendre medicaments receptats
i prendre’n d’altres, sense recepta
Habitar
l’Atlàntida
Parlar amb Déu
Desendollar els
aparells (tots)
Pujar al punt més
alt de nosaltres mateixos
i saltar
(vertido
para o catalão por Josep Domenèch Ponsatí)
Lição
Para Adriana Versiani dos Anjos
Aprender
com as plantas a crescer no vaso
pequeno
demais para conter suas raízes
A
suportar a chuva que as afoga
A
suportar a falta de chuva que as estanca
O
vento que quebra seus caules
O
sol que queima seus veios
E
dele também extrair a matéria que as sustém
Aprender
das plantas a impassibilidade
enquanto
insetos torturam suas folhas
Das
plantas que brotam nas frestas do cimento toda vez que são arrancadas, a lição:
renascer
(Leila Guenther)
terça-feira, 8 de julho de 2025
Mais uma mulher de Lot
Para Adriane Garcia
Onde você perdeu seus olhos?
Em que noite eles se esconderam
Camuflados na paisagem?
Onde o mundo se enxergava e se redescobria
O que viram para desaparecer assim?
Teriam sido arrancados
Quando você olhou para trás
Antes de chegar até aqui?
Ou você mesma os arrancou?
A ameaça dos homens é vã
Porque nenhum deus tem o poder
De transformar alguém em estátua:
Isso é apenas o que dizemos às crianças
Para assustá-las se não se comportam
Enquanto preparamos as refeições
Seu corpo chegou em carne e osso
Embora recoberto de arranhões, feridas, roxos, cortes
E o que mais se acumula numa fuga
Quando não enxergamos
As solas dos pés, perfuradas de espinhos, infeccionaram
Você veio apenas para morrer
Todas nós choramos por velar uma mulher sem nome
Por respeito tentamos cerrar suas pálpebras
Mas elas afundaram
Sugadas por dois buracos
Cheios de vazio
sexta-feira, 4 de julho de 2025
Também esperávamos os bárbaros
Para
Marilia Kubota
com dedos civilizados e meticulosos
que não pudemos impedir
Jamais se recuperaram do que viram ao microscópio
Vieram pólvora fogueira ferro em brasa forno de assar gente incêndio cogumelo de fogo choque elétrico queimadura de cigarro sol sem filtro
Todas as tecnologias criadas por mãos sem calos e cérebros sem pudor
Mas vós, também luz, não viestes
Se pelo menos não houvesse tanta areia
Se pelo menos houvesse água onde nos afogar
Não vos teríamos esperado
Por vós nos sentamos no primeiro degrau e não subimos os outros
Na soleira do deserto vos aguardávamos
(A nós, moeda de troca, era proibido o abrigo na torre de vigia)
Os cabelos embranqueceram
as veias estouraram
os seios caíram
O pó empilhado se petrificou
E a flor do chão não renasceu depois de pisada
Não viestes
Só muitos séculos depois é que soubemos:
Nunca vos deixaram entrar
(Leila Guenther)
sábado, 17 de maio de 2025
Mas chove
Para Ahmed Zoghbi
Um
sopro uma brisa uma nuvem
trazem
notícias
de
tufões tormentas tsunamis
de
outros lugares
Mas
lhes fechamos as portas porque aqui dentro faz frio
Me
lembro de soltar os talheres
e
todos continuarem comendo
enquanto
o terremoto sacudia as mesas
do
país de Allende
Com
o tempo devíamos ficar mais resistentes às intempéries
Criar
casca grossa
Fazer
da pele um casaco impermeável
Mas
a única casca que consigo criar é a da ferida
E
ela é tão fina
Que
quando a arranco
Jorra junto o sangue do mundo inteiro.
“Estamos
perdendo a capacidade de contar”,
diz
meu irmão, vizinho de Sherazade
Estamos
perdendo a única habilidade que nos difere
como
homens e entre homens
de transformar Babel em balada ou lullaby
Nem
fly nem fight
Nem
mesmo esquecer ou lembrar
Dizem os palestinos que devemos guardar as lágrimas
para o dia da vitória
mesmo sabendo que ela não virá
A
falta de saúde os remédios o cortisol
o medo de perder o emprego me paralisam
Caminhamos
dentro do oceano
contra
uma massa de água
que
nos atrasa os passos
e
nos impede de salvar os que se afogam
Ikram,
tentei te pôr em palavras
tu
que não sabes ler
tu que
vieste de outro oriente
mastigada
e vomitada por uma baleia
Eu
que venho do silêncio
quis
dar-te voz
quando
soubeste de teus dois filhos assassinados
Falhei. Falhei e não me perdoo
Tentei
escrever porque não podia urrar
nem
arrancar os cabelos
Porque
narrar era o mínimo que devíamos saber
Como
humanos que já fomos um
dia.
(Leila Guenther)
quinta-feira, 15 de maio de 2025
A rosa da náusea
A rosa de Hiroshima desabrocha
Rápida como uma bomba
Em toda parte ao mesmo tempo:
Na garota palestina que perdeu a carne e os cabelos
Na coluna partida de uma cachorra violentada em São Paulo
Na menina que brota de uma menina estuprada em Santa Catarina
(“Garanto que uma flor nasceu”)
Esta rosa dá náusea.
Leila Guenther
(Imagem da @fepal_brasil)
quarta-feira, 7 de maio de 2025
No litoral de Gaza
Estou convencido de que uma palmeira jamais se
curva,
e de que nem suas tâmaras apodrecem.
Imagino o céu ocupado apenas por pássaros
e nuvens carregadas.
Ando sozinho ao longo da praia e nunca tenho medo
de que as ondas frias e silenciosas me molhem.
Se me encontrar adormecido, tenha certeza de que ou
estou
sonhando com rosas e pombas ou olhando dentro do
vazio
abaixo de mim.
Vestirei meu terno rosado e andarei até o porto,
embora eu saiba que nenhum navio vá aparecer.
Minha esperança é de que você venha voando para mim
com suas incansáveis asas.
Para construir uma casa na praia para nós,
recolherei conchas e seixos até você chegar.
Não sei quantas casas terei erguido
antes de sua vinda.
Receio que eu vá reconstruir Gaza inteira até lá.
(Mosab Abu Toha, poeta palestino detido pelas tropas israelenses em 2023, em tradução minha. Ele acaba de ganhar o prêmio Pulitzer pelos ensaios sobre o genocídio palestino publicados em The New Yorker. O poema foi tirado do livro Things you may find hidden in my ear)















