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terça-feira, 9 de junho de 2026

Sólidas construções


A vida é curta, embora eu esconda isso dos meus filhos.
A vida é curta e eu encurtei a minha
de mil maneiras deliciosas e imprudentes,
de mil maneiras deliciosamente imprudentes;
vou esconder isso dos meus filhos também.
O mundo é pelo menos 50% das vezes horrível e isso é uma estimativa
conservadora, embora eu esconda isso dos meus filhos.
Para cada pássaro há uma pedra atirada em um pássaro.
Para cada criança amada, há uma criança violada, num saco
no fundo de um lago. A vida é curta e o mundo,
pelo menos metade das vezes, horrível, e para cada estranho
gentil, há outro que te partiria inteiro,
embora eu esconda isso dos meus filhos. Estou tentando
vender o mundo para eles. Qualquer corretor decente,
te mostrando uma verdadeira espelunca, fantasia
sobre sólidas construções: este lugar pode ficar bonito,
não é? Você poderia deixar bonito este lugar.

 (Maggie Smith, em tradução minha e de Álvaro Wolmer)



segunda-feira, 30 de março de 2026

Um poema de Philip Levine



The Trade
 
Crouching down in the loud morning air
of the docks of Genoa, with the gulls wheeling
overhead, the fishermen calling, I considered
for a moment, then traded a copy of T.S. Eliot
for a pocket knife and two perfect lemons.
The old man who engineered the deal held
the battered black Selected Poems, pushed
the book out at arm’s length perusing the notes
to “The Wasteland” as though he understood them.
Perhaps he did. He sifted through the box
of lemons, sniffing the tough skins of several,
before finally settling on just that pair.
He worked the large blade back and forth
nodding all the while, and stopped abruptly
as though to say, Perfect! I had not
come all that way, from America by way
of the Indies to rid myself of the burden
of a book that haunted me or even to say,
I’ve had it with middle age, poetry, my life.
I came only from Barcelona on the good ship
Kangaroo, sitting up on deck all night
with a company of conscript Spaniards
who passed around the black wine of Alicante
while they sang gypsy ballads and Sinatra.
We’d been six hours late getting started.
In the long May light the first beacons
along the Costa Brava came on, then France
slipped by, jewelled in the darkness, as I
dozed and drank by turns in the warm sea air
which calmed everything. A book my brother gave
twenty years before, out of love, stolen
from Doubleday’s and brought to the hospital
as an offering, brother to brother, and carried
all those years until the words, memorized,
meant nothing. A grape knife, wooden handled,
fattened at one end like a dark fist, the blade
lethal and slightly rusted. Two lemons, one
for my pocket, one for my rucksack, perfuming
my clothes, my fingers, my money, my hair,
so that all the way to Rapallo on the train
I would stand among my second-class peers, tall,
angelic, an ordinary man become a gift.
 
(Philip Levine, 1928-2015)

 

 
A Troca
 
Agachado, no ar barulhento da manhã
das docas de Gênova, com as gaivotas pairando
no alto, os pescadores gritando, pensei
por um momento, e troquei um exemplar de T.S. Eliot
por um canivete e dois limões perfeitos.
O velho que arquitetou o negócio segurou
o gasto e preto Poemas Escolhidos, afastou
o livro à distância de um braço, inspecionando as notas
de "The Waste Land" como se as entendesse.
Talvez entendesse. Vasculhou a caixa
de limões, cheirando as cascas grossas de vários,
antes de finalmente se decidir por aquele par.
Moveu a lâmina grande para lá e para cá,
aprovando o tempo todo, e parou abruptamente
como quem diz: Perfeito! Eu não tinha
vindo de tão longe, da América
passando pelas Índias, para me livrar do fardo
de um livro que me assombrava ou mesmo para dizer:
Estou farto da meia-idade, da poesia, da minha vida.
Vinha apenas de Barcelona no bom navio
Kangaroo, sentado no convés a noite toda
com uma companhia de recrutas espanhóis
que passavam adiante o vinho preto de Alicante
enquanto cantavam baladas ciganas e Sinatra.
Tínhamos atrasado seis horas para partir.
Na longa luz de maio, os primeiros faróis
ao longo da Costa Brava acenderam, então a França
foi aparecendo, brilhando na escuridão, enquanto eu
ora cochilava, ora bebia no ar morno do mar
que acalmava tudo. Um livro que meu irmão deu
vinte anos antes, por amor, roubado
da Doubleday e levado ao hospital
como uma oferenda, de irmão para irmão, e carregado
por todos aqueles anos até que as palavras, decoradas,
não significassem nada. Um canivete, cabo de madeira,
engrossado em uma extremidade como um punho escuro, a lâmina
letal e meio enferrujada. Dois limões, um
para o meu bolso, um para a minha mochila, perfumando
minhas roupas, meus dedos, meu dinheiro, meu cabelo,
de modo que em todo o caminho até Rapallo no trem
eu estaria entre meus pares de segunda classe, alto,
angélico, um homem comum transformado em presente.
 
(tradução de Álvaro Wolmer)

  

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Um trecho de William Carlos Williams


Meu coração desperta
              pensando em trazer notícias
                                   de algo
que diz respeito a você
             e diz respeito a muitos homens. Considere
                                   aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
            poemas desprezados.
                                  Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
           embora os homens morram miseravelmente todos os dias
                                por falta
do que se encontra lá.

(tradução minha)



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Estilo

Estilo é a resposta de tudo.
Uma maneira nova de enfrentar uma coisa chata ou perigosa.
Fazer uma coisa chata com estilo é melhor do que fazer uma coisa perigosa sem ele.
Fazer uma coisa perigosa com estilo é o que eu chamo de arte.

Touradas podem ser uma arte.
O pugilismo pode ser uma arte.
Amar pode ser uma arte.
Abrir uma lata de sardinha pode ser uma arte.

Não são muitos os que têm estilo.
Não são muitos os que conseguem mantê-lo.
Já vi cães com mais estilo do que homens,
embora não muitos cães tenham estilo.
Gatos têm de sobra.

Quando Hemingway estourou os miolos com uma espingarda, isso foi estilo.
Ou às vezes algumas pessoas oferecem estilo.

Joana D’Arc tinha estilo.
João Batista.
Cristo.
Sócrates.
César.
García Lorca.

Conheci homens com estilo na cadeia.
Conheci mais homens com estilo na cadeia do que fora dela.
Estilo é a diferença, um modo de fazer e de ser feito.
Seis garças paradas numa poça d’água
ou você, saindo do banheiro sem roupa e sem me ver.

(Charles Bukowski, tradução minha)


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Tom Waits & Charles Bukowski


THE LAUGHING HEART

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.
(Charles Bukowski)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Em busca do espaço perdido

Os temas recorrentes de [Walter] Benjamin são, tipicamente, meios de espacialização do mundo: por exemplo, as ideias e as experiências vistas como ruínas. Compreender alguma coisa é compreender sua topografia, saber como mapeá-la. E saber como se perder.
Para o indivíduo nascido sob o signo de Saturno, o tempo é o meio da repressão, da inadequação, da repetição, mero cumprimento. No tempo, somos apenas o que somos: o que sempre fomos. No espaço, podemos ser outra pessoa. O escasso senso de orientação de Benjamin e sua incapacidade de interpretar o mapa de uma rua transformam-se numa paixão pelas viagens e no domínio da arte de se perder. O tempo não nos concede muitas oportunidades: ele nos impele por trás, empurrando-nos pela estreita passagem do presente que desemboca no futuro. O espaço, ao contrário, é amplo, fértil de possibilidades, posições, inserções, passagens, desvios, conversões, becos sem saída, ruas de mão única. Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento saturnino é vagaroso, propenso à indecisão, às vezes precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos.
A característica do temperamento saturnino é a relação consciente e implacável com o eu, que nunca pode ser dada como certa. O eu é um texto – precisa ser decifrado. (Logo, é um temperamento adequado ao intelectual.) O eu é um projeto, algo a ser construído. (Logo, é um temperamento adequado aos artistas e aos mártires, àqueles que cortejam “a pureza e a beleza de um fracasso”, como Benjamin diz a propósito de Kafka.) E o processo de construção do eu e de suas obras é sempre demasiado lento. Estamos sempre em atraso em relação a nós mesmos.

(Susan Sontag, Sob o Signo de Saturno. Trad. Ana Maria Capovilla e Alibino Poli Jr. L&PM Editores, 1986)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O self-made man

Para ele tudo começou num momento de silêncio estilhaçante. Alguma coisa desprendeu-se e caiu. Instintivamente, seu coração compreendeu que essa ‘coisa’ era a idéia há tanto tempo acalentada de si mesmo como um indivíduo, uma entidade norte-americana chamada ‘self-made man’. Algo aprendido através de gerações de ancestrais irascíveis com a mesma linha dura do queixo e o mesmo nariz adunco. Tinha retratos deles no consolo de pedra de sua lareira. Ferrotipos do tempo da Guerra Civil, do seu tetra-tetra-tetravô, um homem chamado Lemuel P. Dodge, que perdeu uma orelha lutando pelo norte, um braço lutando pelo sul e finalmente foi enforcado por ‘adultério’ em Ojinaga e arrastado pelas ruas de terra até a cabeça se separar do tronco. Havia outros, homens com longas barbas e chapéus de palha com abas largas enfileirados no alto de gigantescas carroças de feno, forcados de madeira na mão, quase bíblicos contra o céu da pradaria. Ferroviários em vagões de gado, abanando chapéus-coco, explodindo as montanhas de granito para abrir caminho, determinados na sua convicção do ‘Destino Manifesto’. Depois, gerações seguintes, já com o misterioso lampejo da dúvida insinuando-se nos olhos. Pilotos de caça com capacetes de couro e echarpes de seda segurando as asas de um P-38, mas o bravo sorriso para as câmeras mostra agora uma sombra, como de ovelha que sabe que sua hora chegou.
Às vezes ele ficava à noite estudando aqueles rostos, o fogo tremeluzindo sobre a laje da lareira. Apanhava os porta-retratos para examinar melhor e andava pela sala lentamente, fumando e inclinando o vidro para evitar o brilho das chamas. Sentava com os retratos no colo e os limpava suave e carinhosamente com seu grande lenço azul. Sentia haver ali uma conexão, mais real do que se podia imaginar. Mais real do que os parentes vivos espalhados pelos mais remotos cantos do país, lugares que ele não tinha a menor intenção de visitar, como Tampa ou Seattle. Lugares que era como se estivessem no outro lado da Lua. A solidão era um fato da natureza, pensava. Tinha aprendido a não olhar além dela, evitar a traição da mente no que dizia respeito a mulheres, evitar toda a fantasia da sedução. Nunca valeu apena, no passado. Não podia confiar na mente para isso. Só lhe trouxe o terrível sofrimento. Agora, finalmente, chegava a um pequeno armistício consigo mesmo.
Levantou-se e pôs a foto no lugar, sobre a lareira. A de seu avô dirigindo uma caminhonete Modelo T, rebocando uma mula. Deteve-se algum tempo na imagem, ouvindo as corujas que alimentavam os filhotes no topo da velha tulipeira no quintal. Era um ritual noturno pelo qual esperava ansiosamente toda primavera. Costumava apanhar a lanterna e sair silenciosamente para a varanda, iluminando o tronco largo e fendido até prender o ninho num perfeito círculo de luz. Nesse ano eram dois os filhotes, e ficaram quietos assim que a luz atingiu seus olhos. A mãe, inclinada sobre eles, tinha uma pequena cobra negra nas garras. Virou de costas para a luz e bateu as asas, depois se acalmou. Filhotes da primavera revoaram chilreando, na frente da cena, substituindo os gritos estridentes das corujas, depois desaparecem, suas vozes abafadas pelo ronco distante de um caminhão a caminho do sul. Ele desligou a lanterna, esperando que as corujas recomeçassem a gritar, esperando que alguma coisa viesse ocupar o silêncio imóvel e crescente. Tentou ouvir bezerros mugindo à distância. Nada aconteceu. Procurou ouvir algum sinal do vento. Nada. Pigarreou para, pelo menos, ouvir a si mesmo, sentir a própria presença. Soou como o ruído de um homem. De qualquer homem. Um ser humano sem nada que o distinguisse. Como se um estranho estivesse ao seu lado na varanda. Virou a cabeça. Não havia ninguém. Apenas sua respiração. O sangue pulsando. Fez menção de falar, mas “com quem?”, pensou. “Dizer o quê? De que adianta?” Seu coração acelerou e toda a sua linguagem interior parecia ter se acumulado num nó latejante na base da nuca. Queimava como uma noz pequena e negra, fechando sua garganta. O pânico começou a dominá-lo. Já não havia nenhuma fronteira entre sua pele e a noite, entre sua respiração e o ar denso que o rodeava. Voltou-se para a árvore negra e maciça e olhou para cima. O olho da coruja mãe piscou para ele. Amarelo, depois negro. Os olhos dele desapareceram. O vazio o encheu por completo. Parecia correr em suas veias, tomando cada pensamento, cada sentido. Não deixou nada para trás, exceto a sensação dominante da própria respiração. Uma pulsação que ele não criava nem controlava. “Paz”, pensou. Com a rapidez do pensamento, a paz o deixou.


(Sam Shepard, Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma visão do mundo

(Edward Hopper, Pennsylvania Coal Town)

O céu estava azul. Parecia música. Eu havia acabado de cortar a grama e o cheiro dela impregnava o ar. Isso me faz lembrar das declarações e promessas de amor que conhecemos na juventude. No fim de uma corrida, você se joga na grama ao lado da pista de saibro, quase sem fôlego, e o ardor com que abraça o gramado do colégio é uma promessa que seguirá pelo resto de seus dias. Pensando em coisas pacas, notei que as formigas pretas tinham vencido as formigas vermelhas e estavam retirando os corpos do campo de batalha. Um sabiá passou voando, perseguido por dois galos. O gato estava espreitando um pardal nos arbustos de groselha. Uma dupla de papa-figos passou se bicando e em seguida, a uns trinta centímetros dos meus pés, me deparei com uma cobra cabeça de cobre descascando o último pedaço da pele escura de inverno. O que senti não foi medo nem pavor; foi o choque da minha falta de preparo diante dessa variedade da morte. De repente surgia esse veneno mortal, tão pertencente à natureza quanto a água límpida correndo no riacho, mas era como se eu não tivesse espaço para ele em minhas considerações. Entrei em casa para buscar a espingarda, mas tive então o azar de topar com o mais velho dos meus dois cães, uma cadela que tem medo de armas de fogo. Assim que viu a arma, ela começou a latir e a ganir, atormentada sem dó por seus instintos e anseios. Seus latidos atraíram o outro cão, uma caçador nato, que veio saltando da escada pronto para ir buscar uma lebre ou pássaro, e, seguido pelos dois cães, um latindo de alegria e outro de horror, voltei ao jardim bem a tempo de flagrar a víbora sumindo dentro de um muro de pedra.
Depois disso, fui de carro à cidade, comprei um pouco de semente de grama e então fui ao supermercado da rota 27 para buscar os pãezinhos que minha mulher tinha encomendado. Acho que hoje em dia é bom ter uma câmera para gravar um supermercado numa tarde de sábado. Nossa linguagem é tradicional, um acúmulo de séculos de diálogo. Tirando o formato dos pães, não havia nada de tradicional à vista no balcão de padaria em que precisei aguardar minha vez. Éramos seis ou sete pessoas retidas por um velhinho com uma lista comprida, um pergaminho de compras. Espiando por cima de seu ombro, consegui ler:

6 ovos
hors-d’oeuvres

Ele notou que eu estava lendo o seu documento e o protegeu contra o peito, à maneira de um jogador de cartas cuidadoso. De repente, a música encanada mudou de uma canção romântica para um cha-cha-cha, e a mulher do meu lado começou a mexer timidamente os ombros e a executar uns passinhos de dança. “Gostaria de dançar, madame?”, perguntei. Ela era bem sem graça, mas quando estendi meus braços, ela se encaixou neles e dançamos por um ou dois minutos. Dava para ver que ela gostava de dançar, mas com uma cara daquelas não devia ter muitas oportunidades. Em seguida ela ficou muito vermelha, saiu dos meus braços e foi até o balcão de vidro, onde se pôs a analisar as bombas de creme. Senti que tínhamos dado um passo na direção correta e, depois de pegar os pãezinhos, dirigindo para casa, eu estava exultante. Um policial me parou na esquina da Alewives Lane para dar passagem a um desfile. A primeira a chegar foi uma jovem de botas e shorts que enfatizavam a formosura de suas coxas. Tinha um nariz enorme, usava um colbaque na cabeça e agitava um bastão de alumínio. Foi seguida por outra garota, de coxas ainda mais formosas e fornidas, que marchava com a pélvis tão projetada para a frente em relação ao resto do corpo que sua espinha fazia uma curva estranha. Usava óculos bifocais e parecia terrivelmente entediada pela projeção da pélvis. Uma banda de garotos, contendo aqui e ali um impostor grisalho, veio na retaguarda tocando “The caissons go rolling along”. Não carregavam faixas, não possuíam nenhum objetivo ou rumo discernível e tudo me parecia terrivelmente cômico. Fui rindo no caminho todo até em casa.
Mas minha mulher estava triste.
“Qual o problema, meu bem?”, perguntei.
“É só essa sensação horrorosa de que sou um personagem de um seriado cômico de televisão”, ela disse. “Afinal, sou atraente, sei me vestir, tenho filhos bonitos e estou de bem com a vida, mas tenho uma sensação horrorosa de que podem me desligar.” Minha mulher vive triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, infeliz porque sua infelicidade não é uma infelicidade esmagadora. Ela sofre porque seu sofrimento não é um sofrimento dilacerante e, quando lhe digo que essa infelicidade trazida pela inadequação da infelicidade pode ser um matiz novo no espectro do sofrimento humano, ela não se sente consolada. Oh, às vezes penso em deixá-la. Seria totalmente concebível construir uma vida sem ela nem as crianças, e eu poderia seguir em frente sem o companheirismo de meus amigos, mas não seria capaz de abandonar meus canteiros e jardins, não poderia me separar das portas de tela da varanda, que tanto consertei e pintei, e não posso me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí ligando a porta lateral da casa às roseiras; e assim, por mais que minhas correntes estejam presas à grama e à tinta da casa, elas me prenderão até que eu morra. Na ocasião, porém, fiquei grato a minha mulher por ter dito o que disse, por haver atestado que as aparências da sua vida tinham o caráter de um sonho. As energias irreprimidas da imaginação haviam criado o supermercado, a víbora e o bilhete dentro da lata de graxa para sapatos. Comparados a isso, meus devaneios tinham a literalidade de um registro contábil de partidas dobradas. Agradava-me pensar que a nossa vida aparente tem o caráter de um sonho e que dentro dos nossos sonhos encontramos as virtudes do conservadorismo. Entrei em casa e encontrei a faxineira fumando um cigarro egípcio roubado e reconstruindo cartas rasgadas que haviam sido jogadas no cesto de lixo.


(John Cheever, 28 contos. Trad. Daniel Galera e Jorio Dauster. São Paulo, Cia das Letras, 2010)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Antologia canina IV

(Golias, o chihuahua, acaba de fazer cinco anos)


O OLHO QUE VÊ

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições de odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos,
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

(Ezra Pound, trad. Mário Faustino)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A esposa do mercador do rio: uma carta

Quando ainda usava franja no cabelo,
Eu brincava perto do portão principal, colhendo flores,
Você vinha sobre pernas de pau, brincando de cavalo,
Andava ao meu redor, brincando com ameixas azuis.
E assim vivíamos na aldeia de Chokan:
Duas crianças, sem desgosto nem malícia.

Aos quatorze anos o desposei, meu senhor.
Por timidez, nunca ria.
De cabeça baixa, olhava para o muro.
E, mesmo chamada mil vezes, nunca olhava para trás.

Aos quinze parei de resistir,
Desejei que minhas cinzas se misturassem às suas
Para sempre e para todo o sempre.
Para que eu deveria subir até o mirante?

Aos dezesseis você partiu.
Foi para além de Ku-to-yen, pelo rio sinuoso,
E faz cinco meses que está ausente.
Lá no alto os macacos fazem um triste barulho.
Você arrastava os pés quando foi embora.
Perto do portão, agora, o musgo cresce; diversos tipos de musgo,
Enraizados demais para serem arrancados!
As folhas caem cedo neste outono, com o vento.
As borboletas, aos pares, já amarelecem, neste agosto,
Sobre as ervas do jardim do poente;
Elas me ferem. Estou envelhecendo.
Se estiver descendo pelos estreitos do rio Kiang,
Avise-me logo, por favor,
E eu irei, para encontrá-lo,                                                                                                     Até as alturas de Cho-fu-Sa.

(Ezra Pound, trad. Leila Guenther)


quinta-feira, 16 de setembro de 2010


Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.


(Edgar Allan Poe, Ficção completa, poesia & ensaios. Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. Rio de Janeiro, Aguilar, 1965)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sur la "justice"


 
O papel de Paris como geradora tanto de ideias como de maneirismos, vogas e modas também contribui para o seu status de cidade grande. As cidades pequenas não estabelecem padrões internacionais de moral, não como Paris tem feito desde o século XVIII, quando os philosophes redefiniram o contrato social e Voltaire defendeu um criminoso condenado chamado Jean Calas, que ele acreditava ser inocente. Voltaire estava certo e conseguiu limpar o nome de Calas, fazendo valer a Paris a fama mundial de lugar onde a justiça sempre triunfa — ao menos se algum escritor famoso puder ser convencido a abraçar a boa causa. Um século depois o romancista Émile Zola confirmou a regra ao empunhar a pisoteada bandeira de Alfred Dreyfus, um oficial judeu do exército francês condenado por uma corte militar antissemita por vender segredos à Alemanha. Em 1894, Dreyfus foi mandado para a ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Anos mais tarde ele seria solto e, por fim, reabilitado, depois que Zola reabriu o caso na imprensa. (Uma reprodução do seu famoso artigo de primeira página, “J’accuse!”, foi projetado por inteiro na fachada da Assembleia Nacional, na noite de 13 de janeiro de 1998, em comemoração ao centenário do histórico evento.)
Suponho que essas duas histórias podem ser interpretadas mais como testemunho da importância dos escritores na França do que como evidência da justiça francesa. Com certeza o mundo anglófono nunca presenciou nada parecido com o julgamento do escritor Jean Genet, em 1943, pelas repetidas condenações por furto. Genet se deparava com a prisão perpétua como punição por ser um reincidente contumaz, mas Jean Cocteau, que havia descoberto Genet e providenciado a publicação de seu primeiro romance, Nossa Senhora das Flores, apresentou uma declaração que foi lida na corte: “Ele é Rimbaud, não se pode condenar Rimbaud”. Cocteau insinuou que o juiz entraria para a história como um filisteu se tomasse a decisão errada. Nem por um momento Cocteau argumentou que Genet era inocente, mas simplesmente que era um gênio. Seu testemunho livrou Genet, sem qualquer punição.
Esses casos exemplares, e mesmo surpreendentes, deveriam ser ponderados em contraste com a justiça peremptória e muitas vezes arrogante exercida sobre os cidadãos comuns. Na França, não há habeas corpus, e até pouco tempo atrás pessoas perfeitamente inocentes podiam ser mantidas durante meses, anos até, em prisão preventiva se um juiz considerasse que elas sabiam mais do que estavam dizendo. Como escreveu Mavis Gallant sobre o juiz na França: “Ele pode detê-lo até que você mude de ideia. Se, no fim, você for inocente, não há recurso contra a lei. Você não pode nem abrir um processo pleiteando a simbólica quantia de um franco por danos, ainda que a detenção preventiva lhe tenha custado o emprego, o equilíbrio doméstico e a sua reputação”. Nos anos 1960, com a eclosão da Guerra da Argélia, centenas de árabes definharam nas prisões francesas por longos períodos, sem nem sequer ser julgados, muito menos condenados.


(Edmund White, O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris. Trad. Reinaldo Moraes. São Paulo, Companhia das Letras, 2001)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O céu que nos protege


(Ryuichi Sakamoto, "The sheltering sky")


A morte está sempre a caminho, mas o fato de você não saber quando ela chegará parece excluir da vida sua finitude. É aquela terrível precisão que tanto odiamos. Mas, porque não sabemos, pensamos na vida como um poço inesgotável. Mesmo assim, tudo acontece apenas um número fixo de vezes, e um número bem pequeno, na realidade. Quantas vezes mais você se lembrará de uma certa tarde de sua infância, uma tarde tão profundamente enraizada no seu ser que você sequer pode conceber a vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais você vai contemplar o surgimento da lua cheia? Talvez vinte vezes. E, ainda assim, tudo parece ilimitado.


(Paul Bowles, O céu que nos protege. A tradução do trecho é minha)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Você, de quem nunca estou distante

Não consigo lembrar de como era antes de conhecer você. Será que sempre fui como sou hoje? Lembro-me de estar perdido. Tenho certeza disso. Vagando. Indo de uma mulher para outra. Ficando, às vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que a perplexidade delas era maior que a minha. Pelo menos, era o que parecia. Mas não me lembro de me sentir tão nervoso antes, tão desgastado. Eu as observava de uma certa distância, tomando banho de esponja em suas pias, raspando bolas negras com lâminas de barbear, movendo-se como rainhas em câmara lenta. Então, elas se transformavam nas garotas de antigamente, com risadinhas nervosas e dobrando as pernas longas sob o corpo. O modo como andavam com passos macios com os saltos altos e depois sacudiam o cabelo como os cavalos agitam a cauda.
Mas de você não guardo nenhuma distância. A cada movimento seu, sinto como se viajasse em sua pele. Cada olhar seu para fora da janela é como se estivesse completamente sozinha e sonhando com outros tempos. Não adianta balançar meus braços, acenando. Agora, tudo está ao contrário.



(Sam Shepard. Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)






sexta-feira, 19 de junho de 2009

A mulher mais linda da cidade

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos – “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado... Tudo por fora e nada por dentro...” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza só servia para realçá-la.
Conheci Cass uma noite no West End Bar. Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade – o que bem pode ter contribuído.
– Quer um drinque? – perguntei.
– Claro, por que não?
Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou várias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda a minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
– Me acha bonita? – perguntou.
– Lógico que acho, mas não é só isso... é mais que uma simples questão de beleza...
– As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
– Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
Ela me olhou e riu.
– E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido à cena. Ele veio até a mesa:
– Olha – disse para Cass, – se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
– Ah, vai te foder, cara!
– É melhor não dar mais bebida pra ela – aconselhou o sujeito.
– Não tem perigo – prometi.
– O nariz é meu – protestou Cass, – faço dele o que bem entendo.
– Não faz, não – retruquei, – porque isso me dói.
– Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
– Sinto, sim. Palavra.
– Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

(Charles Bukowski. “A mulher mais linda da cidade”. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. Trad. Albino Poly Jr. Porto Alegre, L&PM, 1996.)
 
 


sexta-feira, 8 de maio de 2009

O vinho de Nick Tosches

A nossa era é, cada vez mais, a era do pseudoconhecimento, o modo pelo qual tentamos tolamente nos diferenciar da maioria medíocre. Sentar-se ao redor de uma garrafa de suco azedo, falando de toques delicados de groselha-preta, fumaça de carvalho, trufas ou de qualquer outro absurdo refinado que a natureza teria usado para enriquecer o seu sabor é ser um cafone de primeira grandeza. Porque, se há algum toque delicado a ser percebido em qualquer vinho, é provável que seja o de pesticida e esterco. Sobre um Château Margaux 1978, um connaisseur pronuncia: “Após uma hora exposto ao ar, este vinho desabrocha, revelando aromas de cassis doce, chocolate, violetas, tabaco e doce baunilha acarvalhada. Em cerca de dez anos, este vinho pode evoluir para a clássica mistura Margaux de cassis, trufas negras, violetas e baunilha”. Como se isso não fosse absurdo o bastante, “um traço de pimentão se esconde no cassis”.
Como um nariz tão sofisticado pode não ter detectado a merda de vaca com a qual essa celebrada propriedade de Bordeaux fertiliza suas videiras? Um verdadeiro conhecedor de vinhos, se tal coisa existisse, detectaria o pesticida e o esterco antes de tudo: ele não seria um goûteur de vin, e sim um goûteur de merde. Mas não existe conhecimento real de vinho sem ser o daqueles que sabem que a verdadeira alma do vinho, l’âme du vin, é o vinagre. Só saboreia realmente maravilhas quem bebe, puros, aqueles raros vinagres envelhecidos, denominados da bere: a coisa pra valer, um néctar bem distante do suco glorificado dessa indústria de adjetivos e falsidade, que já foi a bebida simples e nobre de camponeses simples e nobres – bem mais nobres e conhecedores do que os otários endinheirados de hoje em dia, engambelados a acreditar que a degustação de vinho pede mais palavras do que “bom”, “ruim” ou “cala essa boca e bebe logo”.


(Nick Tosches, A última casa de ópio. Trad. Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo, Conrad, 2006)