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segunda-feira, 20 de abril de 2026

As coisas como elas são

 


Ver as coisas como elas são: é isso que quer dizer Vipassana. E As coisas como elas são é o título do livro do meu amigo Hervé Clerc sobre o budismo. Já tracei um perfil de Hervé em O reino e, como preciso lutar contra a minha tendência pretensiosa de imaginar que meu leitor leu e recorda meus livros anteriores, vou fazê-lo de novo, mas de um jeito um pouco diferente, começando por citar Pitágoras, que coloca a seguinte questão: “Por que o homem existe sobre a terra?”. Resposta: “Para contemplar o céu”. Para contemplar o céu? Se isso é verdade, a maioria dos homens não sabe. A maioria pensa que existe sobre a terra para encontrar o amor, ficar rico, exercer algum poder, gerar picos de crescimento ou deixar sua marca nas areias do tempo. São raras as pessoas que sabem que existem para contemplar o céu. Se você não está nesse grupo, é uma sorte conhecer alguém que esteja. Isso amplia o horizonte. Eu tenho essa sorte: conheço Hervé, homem pacato, lacônico, absorto, que vive como se pudesse morrer a qualquer momento e tem sempre medo de acumular demais. Como Diógenes, pensa que é melhor beber fazendo uma concha com a própria mão do que usando uma cumbuca. Quando está viajando, ele arranca e joga fora as páginas dos livros assim que as lê, para ficar mais leve. Jornalista na Agence France Presse, morou na Espanha, na Holanda, no Paquistão, tendo o cuidado de não fazer carreira e continuar, como ele diz, abaixo do alcance do radar. Hoje ele se divide entre Nice e um vilarejo do Valais, Le Levron, onde tem um aposento em um chalé a partir do qual se descortinam dois vales de uma só vez. É um panorama de rara beleza, diante do qual ele meditou bastante e escreveu três livros que exploram aquilo que os místicos falaram sobre a Realidade última, há tempos designada com o codinome que mais nos convém: Deus. Há trinta anos, Hervé e eu nos encontramos no Levron para caminhar pelas trilhas da montanha, conversar um pouco e ficar muito tempo calados. Tem uma piada do Valais que adoro: três camponeses estão sentados em um banco e veem uma vaca passar. “É a vaca do Pierrot”, diz o primeiro. Passam-se quinze minutos, o segundo diz: “Não, é a vaca do Fernand”. Mais quinze minutos e o terceiro se levanta e vai embora, dizendo: “Cansei dessas brigas de vocês”. São assim as nossas conversas, à exceção das brigas. Nós não brigamos, nossa amizade, que é uma dádiva na minha vida e, eu acho, na dele, não conheceu nem tempestades nem eclipses, e sim se nutre das nossas profundas diferenças e mesmo de certa discordância. Hervé acredita que nós existimos sobre a terra não apenas para contemplar o céu, mas para encontrar uma saída desse cativeiro que é a vida terrestre. Ele acredita que alguns exploradores encontraram a saída e mostram o caminho. Esses exploradores se chamam Platão, Buda, Mestre Eckhart, Teresa D’Ávila e Patanjali, de quem falarei em breve, e nada é mais urgente ou necessário do que ler os relatos deles, estudar os mapas que eles traçaram para que na nossa vez seguíssemos o caminho. Em palavras indianas, pois nenhuma civilização meditou sobre isso com mais profundidade e precisão do que a da Índia: a única tarefa a que um homem dotado de bom senso deve se dedicar é tentar sair do samsara, essa roda de mutações e sofrimentos que chamamos de condição humana, para alcançar o nirvana, que é a vida enfim real, liberta da ilusão, onde se veem as coisas como elas são. É isso a ioga, diz Hervé. Enfim: isso é a ioga para quem a leva a sério, não para quem a toma por ginástica.

 (Emmanuel Carrère, Ioga. Trad. Mariana Delfini. Alfaguara)


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O passado infinito de Isabella Yoshimura

 


Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past (Chongqing, China), produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo e publicou Poemas Surdos (Ipê das Letras). Seu trabalho explora identidade, memória e espiritualidade (Isabella dedica-se também à meditação). Ela integra o Coletivo de Escritoras Asiáticas & Brasileiras.

Em The Living Past, acompanhamos Zhu Songling, paleontólogo que trabalhou 40 anos no Museu de História Natural de Chongqing, onde podem ser vistos os fósseis de dinossauros restaurados por ele. O curta foi realizado através do programa Looking China, no qual alunos de cinema de vários países filmam um documentário de até 12 minutos sobre a cultura chinesa, e evoca a seguinte questão: é possível recompor o passado se nunca o vimos?

Abaixo, um dos poemas de seu livro:

 

_2020

hoje o mundo termina
e começa de novo
fogos vão ser atirados
corpos vão balançar ao som da derrota
de um dia virado, vidrado
é lua nova cheia de coisa que não
termina
o fim eterno em retorno
hoje o mundo começa
e termina de novo

@isa.yoshimura



quinta-feira, 6 de novembro de 2025

De uma haicaísta amiga e discípula de Bashô

 


os netos chegam

e me tiram da cama —

os anos estão terminando

 

*

um passarinho cantando —

minhas mãos se detêm um instante

na pia da cozinha

 

*

vento de inverno

sem cor para exibir

sem folhas para arrancar

 

*

sob a lua cheia

corvos boquiabertos

param de gritar

 

(Chigetsu Kawai, 1634-1718. "Tratradução" minha do inglês)




terça-feira, 21 de outubro de 2025

Entrelaçando culturas nos textos literários

Casa Guilherme de Almeida | 08 de Novembro de 2025 | 14h às 16h 

Com o Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras



Uma conversa com integrantes do coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras sobre suas reinterpretações das formas literárias de origem asiática.

 

A atividade será realizada presencialmente na Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187 - Sumaré, São Paulo).

 

Grátis. Para se inscrever, clique aqui.


 

Flavia Yumi Sakai é artista visual e haicaísta. Desde a infância, cultiva seu impulso criativo em uma busca contínua por expressão e identidade. Investiga a simplicidade e a força dos gestos mínimos, inspirada pela tradição do haicai e pela estética japonesa, sua cultura de origem. Acredita que contar histórias também acontece sem muitas palavras — através de formas, cores e pausas — como buscou explorar no livro O Tempo em uma Chawan, lançado neste ano em coautoria com Juliana Negrão.






 

Isabella Yoshimura é escritora e roteirista graduada em Cinema pela USP. Dirigiu o curta-documentário The Living Past em Chongqing (China) e produziu um podcast sobre a experiência pandêmica de moradores de São Paulo. Autora de Poemas surdos, seu livro de estreia na poesia, explora temas de identidade, memória e espiritualidade, unindo delicadeza e reflexão em narrativas que transitam entre o real e o imaginário.






 

Jung Lee é poeta e tradutora. Graduanda em Letras pela USP, é criadora do Kocolab, laboratório de tradução em língua coreana, além de organizadora e mediadora do Clube de Poesia Asiática.






 

Karen Kazue Kawana é doutoranda em Teoria e História Literária do IEL/Unicamp e autora das coletâneas de poemas Pequenas coisas (Bestiário) e eu acendi o fósforo (Ofícios Terrestres), da novela O homem do jardim (Urutau) e do pseudo-renga Cancioneiro da desilusão (Urutau). Traduziu obras de escritores japoneses como Osamu Dazai, Motojirô Kajii, Yuriko Miyamoto, Toshiko Tamura, entre outros. Faz parte dos grupos de pesquisa Pensamento Japonês: Princípios e Desdobramentos (USP) e Mulherando (Unicamp).






 

Leila Guenther é descendente de imigrantes japoneses e alemães. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Partes homólogas (Reformatório) e O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial), e os livros de poemas Este lado para baixo (Peirópolis) e Viagem a um deserto interior (Ateliê Editorial), selecionado no Programa Petrobras Cultural e finalista do Prêmio Jabuti. Mantém o blog nalinhadavida.blogspot.com






 

Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de As ruas sem nome (Patuá, 2025), obra de caráter autobiográfico. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, experiência que influenciou sua pesquisa sobre memória, diáspora, gênero e raça.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Uma amarga canção do exílio

 


Acabo de ler, numa sentada, Cancioneiro da desilusão: um pseudo-renga (Urutau), de Karen Kawana. Quando ela se referiu a um “pseudo-renga”, eu ri, porque achei que era uma resposta à mensagem em que chamei meus tercetos de “pseudo-haicais”. No caso dela, penso em pseudo- no sentido enriquecedor que o prefixo agrega a palavras como pseudofruto – uma fruta que vem da parte acessória de uma flor. Um figo, um caju, um morango. Pois o renga é um poema japonês encadeado, coletivo, composto em estrofes de três e dois versos por vários participantes, muitas vezes de forma lúdica em grêmios de haicai. E o termo pseudo-renga, cunhado pela autora, se dá pelo fato de ele não ser escrito por múltiplos autores, mas apenas por Karen, e ter apenas um eu lírico, masculino, uma espécie de homo japonicus cuja trajetória (tão familiar para mim, que descendo de japoneses) é de um exílio circular e infinito, de quem, em direção ao oeste, chega por fim ao leste, ponto de partida e chegada. Esse eu lírico, no entanto, é também coletivo em seu sentido existencial, ao ecoar a trajetória do imigrante japonês que abandona um país onde não cabe mais (“os que deixei/ não queriam o diferente/ para os envergonhar”), vem para uma terra com a promessa ilusória de novas oportunidades (“lá há sabiás/ calor de dar inveja/ a este meu país”), tentando sem sucesso integrar-se (“aqui também me veem/ e não me compreendem”), e cujos descendentes, anos depois, refazem o caminho em sentido contrário, em busca, no Japão, também de novas oportunidades de desilusão (“fui meu chefe/ e meu próprio escravo/ sem qualquer lucro”). Nessa descrença o subtítulo encontra o título, uma vez que cancioneiro evoca a literatura mais tradicional da nossa melancólica língua portuguesa.

A terra natal deste imigrante – seu furusato –, tantas vezes motivo de idealização e de esperança dos que já nasceram aqui, se revela, no trajeto inverso dos dekasseguis, culminado de vergonha, tão inóspita e tão pouco acolhedora como o Brasil o foi. A impressão amarga do fracasso tem passagem de ida e volta (“de novo aqui/ mais uma vez pária/ outra vez só”). O homo japonicus carrega uma inadaptação que não pode esconder: no Brasil não é brasileiro e no Japão não é japonês; portanto, ele não conhece pertencimento. Isso o mantém sempre desterrado (“eu, não obstante/ continuo estrangeiro/ em toda parte”), porque seu ethos não o deixa sentir-se em casa nem dentro de si mesmo: sua mente e seu corpo cansados (“a dor do corpo/ horas vestindo máscaras/ sob as quais não sou”), que a custo nesta obra arrasta não por acaso no encadeamento do renga sem trégua, não encontra porto onde se ancorar, está em constante errância, deslocado. Em Cancioneiro da desilusão, o que há de imutável e permanente é justamente a diáspora: uma espécie de lugar entre, um intervalo eterno, um não-lugar, talvez o único que nos é permitido habitar.

 

(Leila Guenther)



segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras

O Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras, fundado em agosto de 2023 pelas escritoras Liana Nakamura e Marina Yukawa, é uma iniciativa que reúne autoras asiáticas e descendentes que encontraram na palavra seu lugar de expressão para explorar não apenas o universo individual e particular de cada uma, mas também temas de sua identidade – étnica, cultural e de gênero. O grupo tem por princípio a sororidade e é composto por escritoras de diversas origens asiáticas, contando atualmente com mais de 80 integrantes, de diversas idades e de diversos lugares do Brasil e do exterior.
Procuramos promover a publicação de obras literárias e incentivar ações que deem visibilidade à condição das mulheres asiáticas dedicadas à literatura, acolhendo sua ancestralidade no contexto brasileiro, mas sem os estereótipos que costumam limitá-las. O trabalho das autoras abrange poesia, contos e crônicas, romances, quadrinhos, não ficção, zines e literatura infantil e infanto-juvenil.

Somos mulheres, asiáticas, brasileiras, escritoras. E somos muitas.

Instagram: @escritorasasiaticasbrasileiras 

(logotipo criado por May Aoki Aniya, autora do Coletivo)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Por falar em silêncio

 



Se me perguntassem do novo filme do diretor alemão Wim Wenders, Perfect Days, ambientado no Japão, eu responderia como Glória Pires: “não sou capaz de opinar”. Estou demasiado dentro dele para julgar. Transito nele com naturalidade. Viveria nele sem problemas. Talvez por descender de alemães e de japoneses? Mas ocorre que também me sinto completamente à vontade num de seus filmes americanos, sem ter nada de americana: Paris, Texas, cujo protagonista se recusa a falar e que, quando resolve fazê-lo, e de forma eloquente, eu poderia dublar de cor; Paris, Texas, onde eu compraria um terreno imaginário para construir uma casa que não existe, só para poder ficar calada sem ter de dar explicações. O protagonista de Perfect Days, responsável pela limpeza de banheiros públicos, quase não fala, como o de Paris, Texas, embora também seja eloquente. Wim Wenders conseguiu fazer um filme mais japonês que o próprio Japão. Wim Wenders, que, com seu documentário Tokyo-Ga, deu a melhor explicação para o silêncio e o alheamento japonês do pós-guerra. “O que você disse?”, pergunta meu companheiro em determinado momento do longa. E eu não havia dito nada: ele é que tinha confundido a voz de uma das personagens com a minha.

Em tempos: dizem que nos antigos e silenciosos mosteiros zen-budistas japoneses, onde quase todas as atividades eram realizadas em revezamento pelos monges, apenas uma era executada pelo mais alto na hierarquia: a limpeza dos banheiros.

domingo, 3 de setembro de 2023

Murasaki Shikibu

Palavras daquela que inventou um gênero literário (o romance), quase mil anos antes do que o cânone apregoava: 

(...) tímida, pouco amiga de olhares estranhos, retraída, amante de velhas histórias, tão aficionada à poesia que quase nada me interessa, e desdenhando toda a gente, na desagradável opinião que de mim os outros fazem. E, no entanto, quando me conhecem consideram-me muito suave e diferente do que lhes fizeram supor. Sei que muitos me consideram uma espécie de proscrita, mas habituei-me a isso e digo para mim mesma:

EU SOU COMO SOU. 

(Murasaki Shikibu. c.978-c.1014)


 


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Celeste Ng (II)

 


Não sei quanto tempo levará para eu encontrar um livro tão poderoso quanto o que acabo de ler, Os corações perdidos (Intrínseca, trad. Fernanda Abreu), de Celeste Ng, uma distopia em que os asiáticos estadunidenses são transformados em bode expiatório para o declínio do império americano. O ponto chave é a retirada sumária da guarda das crianças dos pais considerados perigosos ao sistema para serem realocados em lares onde as famílias nunca mais as encontrarão. O capítulo em que as histórias dos filhos são referidas, lembradas pelos pais e reunidas por alguém que crê no poder da memória e da palavra escrita é algo à parte, que se eleva para entrar no panteão dos melhores capítulos da literatura que eu já pude ler. E, segundo a autora, o tema foi emprestado da realidade, principalmente da dos imigrantes. A realidade que desde sempre sequestra os humanos mais indefesos (e continuará a fazê-lo) para colocá-los numa condição de desamparo da qual não há retorno possível.


Celeste Ng (I)

A primeira obra que li neste ano é um dos romances que serão debatidos no Clube de Leitura Mulheres Asiáticas: Tudo o que nunca contei, da escritora sino-americana Celeste Ng, uma das escritoras do que se denomina diáspora. É a história de um casal inter-racial amoroso cuja filha, Lydia, - na qual os pais depositaram todos os seus próprios anseios - morre aos dezesseis anos. Percebi horrorizada que esta é minha história também, a história de quem carrega um peso que, aos olhos dos outros, nem parece existir. Procurar cumprir expectativas com as quais não se identifica, fingir ser o que não é, estar apartada, ser rejeitada (no livro, isso significa não ter amigas, não ser convidada para eventos relacionados à escola, não ser desejada por nenhum garoto, ser motivo de piadinhas pelas suas feições exóticas num mundo de brancos), ter vergonha de si mesma, nunca ser aceita de verdade por nenhum dos lados da família (por não ser nem completamente branca nem completamente amarela), sublimar tudo, ter vontade de sumir, de poder enfim respirar. Ninguém, antes da morte de Lydia, consegue verbalizar e enfrentar a verdade: a dificuldade de integração que faz com que mestiços vivam precariamente se equilibrando sobre um fio. O exílio constante de quem, como um tipo de aberração, não faz nunca parte de nada. A morte da garota se dá em 1977. Mestiça que sou, se eu tivesse vivido minha adolescência nessa época, também não sei se teria sobrevivido. Nasci em 1976 e até hoje não me recuperei das feridas.

 

“Na cama de Lydia, Marilyn abraça os joelhos feito uma menininha, tentando preencher as lacunas entre o que James disse, o que ele pensa e o que quis dizer. ‘Sua mãe tinha razão desde o início. Você deveria ter se casado com alguém que tivesse mais a ver com você’. Havia tanta amargura na voz dele que Marilyn ficou sem reação. As palavras são familiares, e ela as pronuncia em silêncio, tentando situá-las. Então, lembra. No dia de seu casamento, no cartório: sua mãe lhe avisou sobre seus filhos, como eles não se integrariam a lugar algum. ‘Você vai se arrepender’, disse, como se eles fossem ser maltratados, imbecilizados e condenados, e lá fora, na recepção, James devia ter ouvido tudo. Marilyn disse apenas: ‘Minha mãe acha que devo me casar com alguém que tenha mais a ver comigo’, depois jogou o assunto para longe, como poeira no chão. Mas aquelas palavras haviam assombrado o marido. Como deviam ter se enrolado em seu coração, apertando cada vez mais ao longo dos anos, entranhando-se na carne. Ele baixou a cabeça feito um assassino, como se seu sangue fosse veneno, como se se arrependesse de sua filha ter um dia existido.”

 

(Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Intrínseca)

 

 



quinta-feira, 13 de julho de 2023

Haicais de Chögyam Trungpa Rinpoché


Voltando do trabalho para casa,
Ele ainda escuta o telefone
Tocando no escritório.
                *
O iniciante em meditação
Se assemelha a um cão de caça
Tendo um pesadelo.
                *
Os pais dele tomando chá
Com sua nova namorada:
Um general inspecionando a tropa.
                *
Esquiando de traje vermelho e azul,
Bebendo cerveja gelada com um sorriso encantador -
Imagino se não serei eu um desses.

* Chögyam Trungpa (1939-1987) foi um mestre de meditação do budismo tibetano (vajrayana). Dono de um pensamento original dentro do budismo, escreveu obras como Louca sabedoria e Além do materialismo espiritual. Viveu na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde travou amizade com Allen Ginsberg e William Burroughs. Interessou-se especialmente pela arte japonesa. De temperamento inquieto e controverso, morreu aos 48 anos de consequências do alcoolismo.

Os haicais foram traduzidos por mim.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Tio Vânia em Hiroshima, mon amour

Ainda não sei se Drive my car, de Ryûsuke Hamaguchi, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2022, é o filme mais japonês ou mais russo que já vi, ou se, por ambos os motivos, é o mais universal.

Em tempos:

1. Foi o filme em que mais vezes vi pronunciada uma palavra que os japoneses evitam: não ();

2. O nome da personagem feminina que paira sobre o filme inteiro tem um nome (Oto) que, associado ao tratamento respeitoso japonês (sam), parece, aos meus ouvidos, se transformar em outra palavra (otosan), pai, que é o que falta à jovem motorista; oto também significa som, como me lembrou uma amiga, algo chave na obra;

3. O título Drive my car é nome de uma música dos Beatles que não é tocada no filme (baseado no conto “Homens sem mulheres”, de Haruki Murakami, que possui um romance cujo título é também o nome de uma canção dos Beatles, como lembrou outro amigo);

4. A vida que o vermelho confere a um ser inanimado, no cinza do filme, me lembrou o que Wim Wenders, apaixonado pelo cinema japonês, fez com os objetos de Paris, Texas;

4. Colocar numa peça sobre o nada (Tio Vânia) - numa montagem em que são falados vários idiomas - uma atriz muda, que se expressa pela linguagem dos sinais, é tão significativo quanto belo;

5. Tudo na vida é teatro.




quinta-feira, 23 de junho de 2022

O karma da física

Karma, em sânscrito, significa “ação”. Algumas vertentes do budismo, especialmente o Zen, incorporaram a noção de karma como causalidade, ou seja, uma relação de causa (ação) e efeito (reação). Não é destino, algo predeterminado, imutável, escrito nas estrelas, que cai como um castigo divino sobre nossas cabeças. Está mais para as leis da física: se alguém tem uma arma de fogo em casa e brinca com ela, tem mais probabilidade de sofrer ou provocar um acidente com ela do que quem não tem arma de fogo em casa. Tampouco se trata de uma lei moral. Assim, da mesma forma, se alguém cortar meu pescoço com uma faca, sairá sangue, por melhor que eu seja. Esta lei atinge a todos, indistintamente, mesmo aqueles que se acreditam superiores aos demais ou especiais e que, por isso, acham que nada lhes acontecerá e que não têm nunca de responder às consequências de seus atos - a física e o budismo nos mostram que estamos o tempo todo submetidos às leis da causalidade, do karma: quem planta erva venenosa não colhe alface.






quarta-feira, 16 de março de 2022

A história do budismo pelas mulheres ocidentais

Duas excelentes obras sobre a história do budismo escritas por mulheres (para iniciantes ou iniciados, publicadas pela L&PM)



“Conviver com uma abordagem da vida fora do âmbito de uma verdade única ou de um deus criador permite melhor se situar, até mesmo se redefinir em relação às ideias recebidas, e examinar com mais lucidez a própria responsabilidade na aventura humana. A redescoberta do budismo, ou sua reavaliação na ótica da sociedade atual, globalizante e enredada em antagonismos, talvez ateste a lenta tomada de consciência de um mal-estar, senão de uma doença, cujo diagnóstico o Buda histórico já havia apresentado. Ao afirmar que a fonte da malignidade, e portanto do ódio – de si ou dos outros –, encontra-se no desejo egoísta – desejo de poder, desejo de possessão, desejo de dominação –, o Despertado indica o ponto sensível. Ele também oferece o remédio, mas não pode tomá-lo no lugar da pessoa”. 

(Claude B. Levenson, Budismo. Trad. Rejane Janowitzer. L&PM, 2013)

 

 


“O budismo, visto do Ocidente [no séc. XIX], apresentava problemas. Como seria possível de fato compreender um fenômeno religioso que não se preocupa com a criação nem com deus – ou pelo menos com os deuses? Como uma doutrina que nega a existência da alma pode ter a pretensão de ser chamada de religião? Seu fundador nem se apresenta como um profeta. Buda, como observou, consternado, Jules Barthélemy-Saint-Hilaire, ‘ignora Deus de maneira tão completa que nem procura negá-lo’.” 

(Sophie Royer, Buda. Trad. Ana Ban. L&PM)

 


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Carta aberta ao rei do Butão

Peço asilo em seu país 

Porque o meu desapareceu 

Dizem que se descolou 

Do resto da América 

E começou a afundar

Em breve nos afogaremos todos

Embora sempre há quem ache

Que ele não 

 

Ofereço o que sei e o que posso aprender

Posso trabalhar em benefício

Das crianças mais remotas

Como todos daí fazem 

Em vez do tal serviço militar

 

Posso tirar leite de iaque 

E viver de chá de manteiga 

Mas se Padmasambhava* me orientar, 

Também posso tirar leite de pedra

 

Espero que me conceda 

Como faz a todos os seus cidadãos 

Um tear e um pedaço de terra

Para que eu me fie em algo

E não me afogue nunca mais 

 

No seu serviço de saúde 

Universal e gratuito

Tenho fé que consertem minha cabeça 

Onde mora a pior de todas as enchentes 

 

E não me importo 

Que a caça e a pesca sejam proibidas 

Porque eu mesma já não tenho vontade 

De comer seres que são 

Mais inteligentes do que eu

 

Aí tem tudo, é outra civilização 

Tem monges bonitos pra gente meditar

E um monte de livro

para traduzir de seus Platões

 

Peço asilo ao rei do Butão 

 

Um rei que, na Constituição,

Estabelece ser deposto 

Se não for bom a seu povo 

Não é melhor que um presidente 

Que não quer sair do trono?

 

Mas o que eu gostaria mesmo 

Era de subir na parte mais alta 

Do mosteiro de Taktstang, 

Encarapitado no extremo de uma rocha

Desde que o Desperto acordou

Lá terei certeza de que não me afogarei 

E de que enfim empreenderei meu voo

Com a bênção de todas as dakinis** 

Que caminham sobre o ar

(Leila Guenther)

* Padmasambhava: místico considerado o fundador da escola tântrica do budismo tibetano. A ele eram atribuídas qualidades mágicas, como estar em vários lugares ao mesmo tempo.

** dakinis: deidades femininas do budismo Vajrayana. Significa “aquelas que atravessam o céu” ou “as que se movimentam no espaço”. Estão ligadas à transformação.



(fotografia de Matthieu Ricard, monge budista, biólogo molecular, escritor e fotógrafo)



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O zen nosso de cada dia




HAPPENS TO THE HEART

I was always working steady But I never called it art I got my shit together Meeting Christ and reading Marx It failed my little fire But it’s bright the dying spark Go tell the young messiah What happens to the heart There’s a mist of summer kisses Where I tried to double-park The rivalry was vicious The women were in charge It was nothing, it was business But it left an ugly mark I’ve come here to revisit What happens to the heart I was selling holy trinkets I was dressing kind of sharp Had a pussy in the kitchen And a panther in the yard In the prison of the gifted I was friendly with the guards So I never had to witness What happens to the heart I should have seen it coming After all I knew the chart Just to look at her was trouble It was trouble from the start Sure we played a stunning couple But I never liked the part It ain't pretty, it ain't subtle What happens to the heart Now the angel’s got a fiddle The devil’s got a harp Every soul is like a minnow Every mind is like a shark I’ve broken every window But the house, the house is dark I care but very little What happens to the heart Then I studied with this beggar He was filthy, he was scarred By the claws of many women He had failed to disregard No fable here no lesson No singing meadowlark Just a filthy beggar guessing What happens to the heart I was always working steady But I never called it art It was just some old convention Like the horse before the cart I had no trouble betting On the flood, against the ark You see, I knew about the ending What happens to the heart I was handy with a rifle My father’s .303 I fought for something final Not the right to disagree


(Leonard Cohen)

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Adão e Eva no Japão

Algumas palavras sobre O segredo das águas (Futatsume no mado, literalmente “A segunda janela”), de Naomi Kawase, que acaba de lançar Vision 

Na ilha japonesa de Amami*, onde prevalecem as tradições xintoístas, de significativa relação com as forças da natureza, vivem Kyoko e Kaito, dois jovens adolescentes prestes a entrar na vida adulta.
Como no mito bíblico, é a garota, Kyoko, que incita o rapaz ao conhecimento, à descoberta do amor, ainda que o primeiro sinal da “queda do paraíso” seja percebido pelo rapaz: a visão, na praia, do cadáver de um homem tatuado. O que o transtorna e o inquieta – a vida e a morte – é mais bem aceito pela menina, que sabe serem essas forças impossíveis de controlar. Ela mesma, filha do que consideram uma espécie de deidade, tem de aprender a lidar com a iminente morte da mãe (porque no xinto, tudo tem seu tempo sobre a terra e nem os deuses duram para sempre).
O mar é como um dos protagonistas da trama: é o nascimento, a morte, o desejo, a aversão. Não à toa, Kaito tem medo dele, porque ele é algo vivo que pode levá-lo ao ponto mais desconhecido de si mesmo. E isso é relembrado no mais belo diálogo do filme, em que Kyoko, contestando a repulsa do rapaz às águas, lhe diz algo como: “Mas eu também sou uma coisa viva”.



* o nome parece remeter a uma deusa xintoísta

segunda-feira, 27 de maio de 2019

O corpo como universo



Ontem fomos assistir a Cão sem plumas, espetáculo de Deborah Colker inspirado em João Cabral de Melo Neto. Passaram muitas coisas desconectadas por minha cabeça, numa espécie de fluxo aleatório, enquanto me entregava à hipnose do movimento: minhas aulas de um yoga intenso e transformador e de uma dança na qual a "sororidade" e o "jogo de cintura" são tão importantes, as palavras de um texto clássico do tantrismo ("Na verdade, cada corpo é um universo completo") e de Dôgen, monge introdutor do zen-budismo no Japão, via meu professor de mindfulness, Marcelo Demarzo ("O universo inteiro é o corpo real do ser humano"), meu contato com a sinuosidade do boxe tailandês, a quase palpável energia vital "chi" que perpassa tudo, a alegria de respirar, a meditação que a cada dia me põe mais presente no presente, mas sobretudo a consciência de que o corpo é um instrumento de expressão poderosíssimo e, portanto, extremamente subversivo. Deve ser por isso que ele assusta e amedronta tanto. Durante muito tempo dividi mente e corpo como se fossem entidades distintas, sem entender que são uma coisa só: a mente é parte do corpo. Isso só mudou por meio de práticas contemplativas que, a despeito do conteúdo mental, são bastante físicas.

Hoje posso dizer: habito um corpo, logo existo.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Pelas veredas de Kenichi Kaneko









A exposição Veredas, do artista plástico, ator e escritor Kenichi Kaneko, reúne 59 anos de criação. Fica até 30 de maio, no Centro Cultural Correios de São Paulo (Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú). A entrada é gratuita, de segunda a sexta, das 10h às 17h. No dia 25 de abril, a partir das 14h, haverá um sarau em sua homenagem, organizado pelo escritor Carlos Bueno, em que participam: