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terça-feira, 16 de junho de 2026

Elogio à Copa

 


Na copa de 1994, com 17 para 18 anos, eu estava numa das piores crises psíquicas que tinha conhecido até então. Digo “psíquica” porque eu não tinha sido diagnosticada, não estava em tratamento, nem sei do que se tratava, se ansiedade patológica, inquietação extrema ou depressão profunda. Sei que não conseguia me alimentar, não conseguia dormir, não conseguia me concentrar, não conseguia ver uma luz no fim do túnel, não conseguia sair do fundo do poço em que me encontrava (luz no fim do túnel, fundo do poço, beco sem saída: às vezes os clichês dão uma ideia do que não sabemos dizer de outra forma). Precisava de algo onde me agarrar até que o pior passasse: qualquer coisa que desviasse minha atenção pelo máximo de tempo possível. O que estava a meu alcance naquele período era a beleza de um esporte cheio de técnica mas também de improviso, que consistia em saber driblar os obstáculos, de mãos atadas, até encontrar uma direção, uma solução, e chegar a um resultado - tudo o que eu não sabia fazer. Me pus a ver os jogos e eles realmente cumpriram o papel de me sequestrar por alguns momentos de onde eu estava para uma realidade que, apesar de tudo, estava sujeita à segurança das regras. Acho que assisti a todos os jogos. Aprendi como o esporte funcionava, qual era o papel de cada jogador no tabuleiro, os tipos de formação tática, o que podia e o que não se podia fazer em campo. Reconhecia um impedimento no exato momento em que ele ocorria e identificava cada atleta jogando. Vi jogadores reagindo de formas diferentes ao mesmo problema, vi problemas diferentes surgirem quando menos se esperava. Vi dor, esperança e, por fim, contentamento numa espécie de milagre: o Brasil campeão, ganhando da Itália de Baggio nos pênaltis. A vitória, no meu entender, veio antes, num jogo sofrido contra a Holanda, em que o Brasil saiu na frente, parecia ter tudo para vencer, inclusive com os pequenos Romário e Bebeto se igualando em altura aos holandeses e Romário fazendo a coisa toda parecer muito simples. No entanto, a seleção brasileira foi se afundando até que a Holanda virasse o jogo, o que era incompreensível e triste demais. Foi num gol de falta, quando tudo parecia perdido, faltando uns 10 minutos para o final, que Branco definiu o jogo e pôs o Brasil no caminho da vitória. A bola quase bateu em Romário, que se desviou dela como se estivesse num desenho animado. Nunca mais outro evento esportivo me emocionou ou me resgatou de mim mesma assim. Já não lembro o que me levou a tamanha escuridão em minha vida, mas me recordo muito bem da fisionomia esgotada, decomposta e emocionada de Branco ao comemorar o gol que redimiria o Brasil.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Um deserto em pedaços

 

Algum tempo depois de publicar Viagem a um deserto interior, pela Ateliê Editorial, em 2015, fui, com meu então futuro marido, ao Deserto do Atacama, um lugar que há muito eu queria conhecer. O deserto mais seco do mundo. A minha vida se dividiu entre antes e depois dessa viagem. A conexão foi imediata. Foi como se as peças tivessem finalmente se encaixado. Eu tinha encontrado meu elemento, levada por alguém que me respeitava e que fazia parte daquilo – o Chile é sua terra natal. No deserto o ego se dissolvia no silêncio e na vastidão, como se numa meditação profunda, e se unia à paisagem. Senti que era feita de areia, pedra, terra, pó e nada, parte de tudo e de todos, e sem importância alguma. E isso foi transcendente, carnal e espiritualmente falando. Ali é preciso humildade. O deserto não é traiçoeiro, como dizemos sobre tudo aquilo que não entendemos direito – cobras, mar, vulcões, nossa própria mente. Ele apenas existe de acordo com as leis da física e não está nem aí para nós. É o que têm nos ensinado os povos originários. É preciso deixar a arrogância de lado diante da natureza. É claro que não me refiro a pessoas que confiam em um guia turístico que as deixa para trás, como vimos recentemente, mas àqueles que se julgam superiores a tudo. Os que acham que podem fazer qualquer coisa sem responder pelos seus atos podem se dar mal quando tentam subjugar também o que não conhecem. Na natureza selvagem, eles respondem pela consequência, ou melhor, pela inconsequência de seus atos. Trata-se apenas de ação e reação: o homem que decide se jogar do alto de uma montanha simplesmente não voará, por mais poderoso e incrível que se creia.

Descobri com humor a coincidência de ali existir inclusive uma parte chamada "deserto interior". Uma espécie de redundância, como o título de meu livro, pois para mim todos os desertos são interiores, íntimos. O trecho assim referido, de tempos em tempos, vejam só, desabrocha, acolhendo florações coloridas, criando um estranho cenário quando visto de longe. É claro que nem tudo são flores: a mão do homem até ali cria coisas inúteis, como uma escultura gigantesca que a mim parece desnecessária num lugar já tão grandioso. A interferência significativa do ser humano naquele lugar são as pedras simples cuidadosamente empilhadas, uma espécie de oferenda aos mortos ou aos deuses. Mas a mais importante se dá pelas mãos de mulheres que, num trabalho minucioso e infinito, buscam ossos de desaparecidos políticos durante a ditadura de Pinochet. Em seu governo, dissidentes, diferentes e inocentes tiveram seus corpos torturados, ou partes deles, jogados no mar ou no deserto. Nesse deserto, o do Atacama, de que faço parte. Essas mulheres buscam nele fragmentos ínfimos de filhos, pais, irmãos, maridos. Procuram recompor a dignidade de quem morreu de maneira torpe pelas mãos de gente que não sabe criar, mas apenas destruir. Em vez de uma estátua em formato de mão, elas ergueram juntas um monumento invisível mas pungente em defesa da memória. Foi isso que descobri por meio do amigo que, através de sua lente, dá outra vida ao que vê, Luís Villaça: ele me apresentou ao filme Nostalgia da luz, do chileno Patricio Guzmán, de quem eu conhecia apenas A batalha do Chile. Em Nostalgia da luz, cujo exemplar físico acabei ganhando de minha sogra (que por acaso se chama Luz), cria-se um contraste marcante: o deserto do Atacama abriga os maiores observatórios do mundo, por causa de seu céu límpido. Dele se analisa com nitidez o universo. As mulheres, aquelas mulheres que procuram pedaços de seus entes queridos, desejavam simbolicamente que os astrônomos, com seus instrumentos tão precisos em busca de corpos celestes, as ajudassem a encontrar corpos humanos que desapareceram, mas cujos rastros, como os das estrelas, ainda estão presentes, em forma de ossos, areia, pó e lembrança.

Minha viagem a um deserto interior continua. Meu deserto, o do Atacama, onde nem os camelos resistem, não acaba quando viramos pó. Aliás, eu não acharia mal que minhas cinzas fossem jogadas lá, ainda que, diante da minha insignificância, considero mais natural e coerente que elas sejam jogadas no lixo.


































quinta-feira, 21 de julho de 2022

Tio Vânia em Hiroshima, mon amour

Ainda não sei se Drive my car, de Ryûsuke Hamaguchi, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2022, é o filme mais japonês ou mais russo que já vi, ou se, por ambos os motivos, é o mais universal.

Em tempos:

1. Foi o filme em que mais vezes vi pronunciada uma palavra que os japoneses evitam: não ();

2. O nome da personagem feminina que paira sobre o filme inteiro tem um nome (Oto) que, associado ao tratamento respeitoso japonês (sam), parece, aos meus ouvidos, se transformar em outra palavra (otosan), pai, que é o que falta à jovem motorista; oto também significa som, como me lembrou uma amiga, algo chave na obra;

3. O título Drive my car é nome de uma música dos Beatles que não é tocada no filme (baseado no conto “Homens sem mulheres”, de Haruki Murakami, que possui um romance cujo título é também o nome de uma canção dos Beatles, como lembrou outro amigo);

4. A vida que o vermelho confere a um ser inanimado, no cinza do filme, me lembrou o que Wim Wenders, apaixonado pelo cinema japonês, fez com os objetos de Paris, Texas;

4. Colocar numa peça sobre o nada (Tio Vânia) - numa montagem em que são falados vários idiomas - uma atriz muda, que se expressa pela linguagem dos sinais, é tão significativo quanto belo;

5. Tudo na vida é teatro.




quinta-feira, 23 de junho de 2022

O karma da física

Karma, em sânscrito, significa “ação”. Algumas vertentes do budismo, especialmente o Zen, incorporaram a noção de karma como causalidade, ou seja, uma relação de causa (ação) e efeito (reação). Não é destino, algo predeterminado, imutável, escrito nas estrelas, que cai como um castigo divino sobre nossas cabeças. Está mais para as leis da física: se alguém tem uma arma de fogo em casa e brinca com ela, tem mais probabilidade de sofrer ou provocar um acidente com ela do que quem não tem arma de fogo em casa. Tampouco se trata de uma lei moral. Assim, da mesma forma, se alguém cortar meu pescoço com uma faca, sairá sangue, por melhor que eu seja. Esta lei atinge a todos, indistintamente, mesmo aqueles que se acreditam superiores aos demais ou especiais e que, por isso, acham que nada lhes acontecerá e que não têm nunca de responder às consequências de seus atos - a física e o budismo nos mostram que estamos o tempo todo submetidos às leis da causalidade, do karma: quem planta erva venenosa não colhe alface.






terça-feira, 14 de junho de 2022

Um teto todo nosso

No dia 12 de junho estive na Feira de Livros do Pacaembu para participar da foto que reuniu mais de 400 escritoras, iniciativa de mulheres como a Natalia Timerman, e estava na primeira página da Folha de S. Paulo do dia 13. Em um determinado momento, quando já havia uma multidão de escritoras no estádio, entraram os coletivos de escritoras negras, com cartazes de “Mulheres negras importam”. Neste instante, todas as mulheres lá dentro começaram a aplaudi-las imediatamente, de uma vez, de forma frenética. Acho que todas nós sentimos a mesma coisa: a aclamação foi algo instintivo, impulsivo, orgânico. Veio de dentro de cada uma de nós para desembocar numa força coletiva que talvez nem conhecêssemos. De todo o ato lindo que culminou na foto histórica, este para mim foi o momento mais bonito. Eu chorei. 

Aqui estamos, vivas.







terça-feira, 17 de maio de 2022

No princípio era o Som, e o Som estava com Ela, e o Som era Ela

(Björk em cena de The northman, de Robert Eggers, no qual interpreta uma vidente mística, ou seja, a si mesma)


Como todos os adolescentes que gostavam de rock e música alternativa nos anos noventa, eu conhecia o trabalho da islandesa Björk por causa da banda em que tocou, The Sugarcubes. Apesar de conhecer de antes a exuberância de sua voz, só passei a realmente admirá-la em sua carreira solo. E não foi nem no primeiro álbum, Debut, mas a partir do terceiro, Homogenic, que escutei há quase vinte e cinco anos. Então minha vida se dividiu entre a.H. e d.H. (o h aí de Homogenic).

A primeira música que ouvi do álbum foi “Bachelorette”, e eu tive aquela sensação que tenho muito de vez em quando de que não poderia mais viver sem aquilo. Algumas canções me trouxeram isso ao longo dos anos. Não se trata de adorá-la, de ficar com ela martelando na cabeça, de achá-la bonita. É outra coisa: é a certeza de que ela causou uma ruptura tal na ordem das coisas que a vida se transformou. Que eu me transformei. “Soukora”, de Ali Farka; “The sheltering sky” de Ryuichi Sakamoto; “Jisas Yu Holem Hand Blong Mi”, do Choir of All Saints, da Melanésia, são algumas delas, junto com a já citada da Björk.

Parece mais claro para mim que, a partir de Homogenic, surge um paradoxo: nada mais haveria de novo sob o sol e, ao mesmo tempo, tudo poderia ser completamente novo, as possibilidades musicais seriam infinitas. Pelo menos para ela, que, além da própria Voz, também incorporou poemas de e.e. cummings, corais esquimós (inuit), sons de pássaros gravados por um ornitólogo francês, orquestras, toda a tecnologia da música eletrônica, músicos de todas as partes (como o vocalista, poeta, meditador e visionário Thom Yorke, do Radiohead) e instrumentos musicais cujo som incompreensível e inédito para mim me remete àquele que sairia do instrumento de Maiakóvski, que dizia executar seus versos na flauta de suas próprias vértebras. A única coisa que não muda nunca em Björk, desde criança, é sua voz, porque não há como aprimorar a perfeição.

Björk carrega tudo o que já passou, todas as vozes humanas e não humanas do mundo para transformá-las em algo que não alcançaremos jamais, porque não podemos estar onde ela está, ou seja, constantemente a anos-luz de nós, do nosso presente. Estaremos sempre atrás, contemplando hoje o rastro luminoso de um cometa que já passou por aqui há muito e que, como é da natureza dos cometas, guarda a história do universo inteiro.

Parafraseando o provérbio ioruba, Björk criou o Som ontem com a Voz que inventou amanhã.


(do álbum Biophilia)





sábado, 21 de março de 2020

Pela vida


Foi em março, há dez anos, que eu passei quase um mês num hospital público por causa de um vírus que atingiu meus pulmões. A fase epidêmica da H1N1 já tinha passado, eu estava na casa dos trinta anos, era verão, eu não tinha viajado e trabalhava em casa, numa cidade do interior de sp. Praticava esportes e, no dia em que comecei a passar mal, tinha nadado pela manhã uns 2000 metros. À noite comecei a ter febre. Pensei se tratar de uma gripe comum. No dia seguinte já não podia suportar de desconforto pela temperatura de 39, 40 graus. Fui a um renomado centro médico particular da cidade, onde o médico diagnosticou uma gripe comum e me prescreveu antitérmicos a cada 8 horas. Nos dois dias seguintes, os remédios já não davam conta, eu precisava deles a cada 5 ou 6 horas. Voltei ao centro médico, onde o mesmo médico me atendeu, reafirmando se tratar de uma gripe comum com a qual não devia me preocupar: segundo ele, eu e a “torcida do Corinthians” estaríamos assim. Nos outros dois dias tomava o antitérmico a cada 3 ou 4 horas, sem sucesso. Já não conseguia dirigir (uma das pessoas com quem vivia estava viajando e a outra, na faculdade) e fui de táxi ao hospital mais próximo coberto pelo plano de saúde, onde me internaram por pneumonia. Dos próximos dias já quase não me lembro, tenho apenas flashes: tentavam me dar medicação via oral e eu vomitava, já não conseguia respirar mais, desmaiava. Me recordo de acordar com uns aparelhinhos com os quais tentavam que eu fizesse exercícios respiratórios e de perder a consciência de novo. Quando decidiram me transferir para um hospital público de referência na região, fui direto para a UTI, em isolamento total. O pneumologista que me recebeu disse depois à minha família que algumas horas mais sem o tratamento adequado e teria sido tarde. Percebi vagamente, na confusão mental em que me encontrava pela falta de oxigênio, pelas pessoas chorando, que meu estado era realmente grave e que estava morrendo. E eu, que sempre tive medo da morte, não senti medo. O mais desesperador não era morrer, era não conseguir respirar. Medicaram-me, me colocaram em coma induzido e me entubaram. A radiografia já não conseguia mostrar os pulmões, totalmente tomados pela escuridão. Nesses três primeiros dias do coma, os órgãos começaram a parar de funcionar: os pulmões, os rins. O próximo seria o coração. Temiam uma falência múltipla e pediram à família que se preparasse para o pior: de cada dez pessoas naquele estado, nove morriam. Passados os três primeiros dias críticos, eu comecei a melhorar, permanecendo entubada até o nono dia, no limite de receber uma traqueostomia. Acordei do coma com dois enfermeiros me dando banho. Um deles encontrei algum tempo depois num evento de humanização promovido pelo hospital e ele chorou copiosamente quando me viu. A outra enfermeira me disse que sua mãe tinha rezado por mim todos os dias em que estive entubada. Soube também que a esposa e a sogra do pneumologista tinham feito uma novena pela minha saúde. Até hoje me emociono quando me lembro dessas coisas. Depois ainda houve uma longa recuperação na enfermaria, que é ainda hoje o lugar de acolhimento para onde minha mente se volta quando preciso de coragem (mas essa é outra história), e outra fase em casa. Após o coma, perdemos a força e todos os movimentos, e demoramos para conseguir executá-los de novo.
Não sei por que escrevi isso, acho que é apenas uma declaração de amor a um sistema de saúde público que salvou minha vida quando o privado, em três ocasiões, falhou vergonhosamente. Mas é também para dizer que algo se transforma dentro de nós diante de uma situação-limite. Curiosamente, depois disso, meus interesses, digamos, contemplativos se voltaram para as meditações com foco na respiração, no estudo do pranayama (inúmeros tipos de respiração do yoga), no poder curativo da respiração, no tonglen (uma prática tibetana em que se inspira o sofrimento dos outros e se expira devolvendo-lhes compaixão). Descobri que respirar, esse ato tão simples e banal, involuntário e voluntário ao mesmo tempo, é uma das coisas que mais gosto de fazer. A morte continua a mesma, mas minha relação com a vida mudou para sempre. Foi o que um vírus minúsculo me ensinou.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Adão e Eva no Japão

Algumas palavras sobre O segredo das águas (Futatsume no mado, literalmente “A segunda janela”), de Naomi Kawase, que acaba de lançar Vision 

Na ilha japonesa de Amami*, onde prevalecem as tradições xintoístas, de significativa relação com as forças da natureza, vivem Kyoko e Kaito, dois jovens adolescentes prestes a entrar na vida adulta.
Como no mito bíblico, é a garota, Kyoko, que incita o rapaz ao conhecimento, à descoberta do amor, ainda que o primeiro sinal da “queda do paraíso” seja percebido pelo rapaz: a visão, na praia, do cadáver de um homem tatuado. O que o transtorna e o inquieta – a vida e a morte – é mais bem aceito pela menina, que sabe serem essas forças impossíveis de controlar. Ela mesma, filha do que consideram uma espécie de deidade, tem de aprender a lidar com a iminente morte da mãe (porque no xinto, tudo tem seu tempo sobre a terra e nem os deuses duram para sempre).
O mar é como um dos protagonistas da trama: é o nascimento, a morte, o desejo, a aversão. Não à toa, Kaito tem medo dele, porque ele é algo vivo que pode levá-lo ao ponto mais desconhecido de si mesmo. E isso é relembrado no mais belo diálogo do filme, em que Kyoko, contestando a repulsa do rapaz às águas, lhe diz algo como: “Mas eu também sou uma coisa viva”.



* o nome parece remeter a uma deusa xintoísta

segunda-feira, 27 de maio de 2019

O corpo como universo



Ontem fomos assistir a Cão sem plumas, espetáculo de Deborah Colker inspirado em João Cabral de Melo Neto. Passaram muitas coisas desconectadas por minha cabeça, numa espécie de fluxo aleatório, enquanto me entregava à hipnose do movimento: minhas aulas de um yoga intenso e transformador e de uma dança na qual a "sororidade" e o "jogo de cintura" são tão importantes, as palavras de um texto clássico do tantrismo ("Na verdade, cada corpo é um universo completo") e de Dôgen, monge introdutor do zen-budismo no Japão, via meu professor de mindfulness, Marcelo Demarzo ("O universo inteiro é o corpo real do ser humano"), meu contato com a sinuosidade do boxe tailandês, a quase palpável energia vital "chi" que perpassa tudo, a alegria de respirar, a meditação que a cada dia me põe mais presente no presente, mas sobretudo a consciência de que o corpo é um instrumento de expressão poderosíssimo e, portanto, extremamente subversivo. Deve ser por isso que ele assusta e amedronta tanto. Durante muito tempo dividi mente e corpo como se fossem entidades distintas, sem entender que são uma coisa só: a mente é parte do corpo. Isso só mudou por meio de práticas contemplativas que, a despeito do conteúdo mental, são bastante físicas.

Hoje posso dizer: habito um corpo, logo existo.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma certa planície


É provável que eu nunca mais vá ler com o mesmo afinco, na mesma quantidade, que lia quando tinha nove, dez anos. Essa época de descoberta da leitura, do assombro da palavra escrita, nunca mais vai voltar. Refleti sobre isso num conto-crônica, “O outro mundo de Clarissa”, uma referência ao romance de Érico Veríssimo que de forma meio atrapalhada me fez ter consciência de que um mundo inteiro poderia ser criado a partir de palavras, apenas. Atrapalhada porque cheguei a pensar que se tratasse de algo sobrenatural, de uma espécie de clarividência meio voyeur que adquiríamos ao ler. Clarissa devia existir em algum lugar do Rio Grande do Sul simplesmente porque eu podia vê-la e à sua vida, naquela casa, com a clareza e a nitidez de quem tem uma bola de cristal.
Eu me lembro de ter encontrado numa tarde, na estante de meus avós, A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. Até hoje não entendo como foi parar lá, numa casa cujo dono lia (muito) em japonês e cuja dona era praticamente analfabeta (gostaria de encontrar entre os escombros o caderno de receitas de minha avó, que anotava maravilhas numa língua que ela própria criou, com uma espécie de hiper-correção, já que os japoneses não falam o L: ela anotava "tlês xícalas de falinha de tligo", assim mesmo). Num dos intermináveis almoços de domingo, eu li o tal romance de J. Veiga inteiro, o mais rápido que pude, com uma espécie de medo de que ele pudesse desaparecer, não estar mais ali na próxima visita, ou, se eu o pegasse emprestado, de que ele pudesse se autodestruir (é verdade que sou maluca e que foi nessa época que apareceram os primeiros sintomas da depressão). Até hoje não conheço título mais lindo: A hora dos ruminantes. Talvez tenha sido o primeiro passo para perceber o poder do som. Nessa época me dei conta do encantamento que o som das palavras produzia em mim. O fato de haver poemas infantis da Cecília Meireles no livro didático ajudou: eu os lia na classe, em voz alta, a pedido da professora, surpresa com assonâncias e aliterações, mas ainda dividia infantilmente (esse infantilmente pode ser entendido em vários sentidos) som e significado. No entanto, essa divisão ainda estava restrita aos títulos das obras. Essa relação só mudou quando, no livro de interpretação, me deparei com o início de um texto chamado “Mudança” (era o primeiro capítulo de Vidas Secas, vim a saber por minha mãe, e o vi também mencionado em livros como os de Ganymedes José, que li aos montes): “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. O texto que se seguiu mudou minha vida para sempre, mesmo que eu desconhecesse o significado de juazeiro, aió, pederneira, excomungado, viventes (e de tantas outras palavras, mais para a frente, como atenazar, que ninguém além de Graciliano usa), porque foi a partir daí que o som se uniu ao significado, tendo eu que procurar todas as palavras que não conhecia no velho dicionário que havia em casa, cujas folhas iam caindo como se fosse uma árvore.
Segui por vários caminhos, tantas leituras, lendo palavras, sons, imagens discrepantes, olhares, plantas, bichos, mas “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” continua comigo como um mantra, uma oração. Eu queria, por isso, dizer (tentando recuperar minha infância por meio dos versos de Manuel Bandeira, em “Porquinho-da-Índia") que Graciliano Ramos foi meu primeiro namorado (naquela época de menina em que para namorar bastava desejar, mesmo que o objeto do sentimento não soubesse), mas tudo o que me ocorre agora é parafrasear o próprio Graciliano: "Foi esse o primeiro contato que tive com o amor."

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A humanidade (im)possível de Kore-Eda

Um filme em que o que se move não é a câmera, mas a história por trás dela. Uma mulher, mãe de um menino pequeno, tentando entender o aparente suicídio de um marido que não deixou pistas nem motivo. Esse foi meu primeiro contato, há mais de vinte anos, com o mundo de Hirokazu Kore-Eda, ganhador de Cannes 2018, cujo Assunto de família ainda não vi. O filme então era Maborosi, a luz da ilusão. Até hoje não sei qual era a ilusão ali e por que ela era iluminada, mas desde então esse mundo, tão japonês e ao mesmo tempo tão universal, passou a me interessar.
Em seguida vieram Depois da vida, em que os mortos, à espera de seu destino numa espécie de limbo com ares de repartição pública, têm de decidir qual a única e, portanto, mais significativa memória, que, em forma de gravação, deverão levar para a eternidade. Ninguém pode saber, baseado num caso real, conta a história do abandono, pela mãe, de cinco crianças, deixadas sozinhas em casa aos cuidados do mais velho, de doze anos, e de seu trágico destino. Still walking era sobre uma reunião de família japonesa com seus ditos e não ditos. Em Pais e filhos, o drama de duas famílias que têm seus filhos trocados na maternidade. Nenhum filme lembrava o anterior em nada, nem pela temática, nem pela forma. Pode-se reconhecer um filme de Takeshi Kitano ou de Ozu pelo enredo, luz ou enquadramento, mas não um filme de Kore-Eda, em que a marca pessoal está além desses conceitos. Porque Kore-Eda nunca se parece com Kore-Eda. E os filmes que tornaram para mim mais clara essa distinção foram dois que vieram na sequência um do outro como contraposição: Nossa irmã mais nova e Depois da tempestade.
Nossa irmã mais nova é quase uma história de ninar, um conto de fadas, sobre três irmãs que, vivendo sozinhas num espaço e num tempo pouco definidos, acolhem sua meia-irmã, depois da morte do pai, depois das traições desse pai, apesar dos protestos da mãe. É um filme sobre o profundo significado da fraternidade, que parte da família, passa pela comunidade, até atingir a nós, espectadores, com uma lição de tamanha ternura que ficamos desejando morar dentro dele. O Japão ou algum país pode ser assim? Provavelmente não. Essa compaixão, esse entendimento solidário do outro nos afeta não apenas pelo estranhamento, por beirar o irreal, mas porque acena para uma possibilidade de existência mais humana.
Já em Depois da tempestade, a personagem principal é uma espécie de pícaro que busca a sobrevivência por meio de pequenos golpes. Um escritor da metrópole que perdeu a inspiração e trabalha agora como detetive, resolvendo casos sem importância. Gasta seu salário em apostas e vive atrasando a ajuda financeira que deveria dar ao filho, razão pela qual recebe o desprezo da ex-mulher. Mas, em todo o seu trajeto, o que busca, lentamente e com atraso, é se tornar melhor. É o ser humano em processo. Sou eu, somos nós, num caminho em que a viagem é tão importante quanto à chegada ao destino final. “Ainda não sou o homem que queria ser” é a resposta que dá ao filho sobre o que gostaria de ter feito na vida.
Em O terceiro assassinato, síntese radical desses dois percursos apontados em Nossa irmã mais nova e Depois da tempestade, um advogado desconfia da culpa de um assassino confesso. Por que um criminoso reincidente, em vias de ser condenado à morte, mentiria sobre sua própria inocência? Talvez porque seu crime aponte para uma outra humanidade, feita de laços que ainda não conseguimos compreender.
Talvez porque Kore-Eda, além de nunca se parecer com si mesmo, seja sempre mais do que Kore-Eda.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Longe dos homens, perto de tudo



Quem me conhece sabe que vivo bastante afastada do convívio humano, que dificilmente vou a eventos para os quais me convidam e, quando o faço, passo pouco tempo, que não falo em público, que fico confusa no meio de uma multidão, que sou, enfim, totalmente reclusa. Não que eu não goste de pessoas (algumas têm e sempre terão lugar cativo aqui dentro), mas é que estar entre elas às vezes me aflige, às vezes me faz sentir sufocada. Talvez seja apenas medo. No entanto, nunca tive problema com bichos. Com eles parece haver uma afinidade que me devolve a um estado que deveria, a meu ver, ser natural da mente e me põe mais à vontade do que com gente. Não tenho dúvidas de que preferiria encontrar um bando de pitbulls numa rua escura a encontrar um homem. Ainda que os cães me estraçalhassem, eu não sentiria medo. Poderia sentir dor, mas não medo. Pois nesta necessidade de paz interior, tenho ficado com frequência longe da civilização, no meio do mato, que é onde me escondo por uma questão de sanidade mesmo. Lá os insetos têm força. E a demonstram quando estou lendo ao sol ou buscando sinal de celular, através de picadas, mordidas, ferroadas. Mas, curiosamente, não fazem nada quando estou meditando, sentada na grama, em busca desse estado natural, o que ocorre em geral no fim da tarde, justo quando os insetos estão mais vivos. Quando entro no estado meditativo, naquela sensação poderosa de que eu e a terra respiramos na mesma frequência, nenhum inseto me ataca. Ao terminar a prática, constato que não carrego uma picada sequer, como se tivesse sido esquecida, e que estou incrivelmente viva, assim dissipada na paisagem.




domingo, 26 de junho de 2016

A viagem do redescobrimento

Atacama. A ausência aqui se reflete em intermináveis quilômetros de sal, pedra e areia. O céu, como descreveu Paul Bowles a respeito de um certo deserto e como imagino ser o céu de todos eles, é quase sólido, e também espelha o vazio. O deserto engole tudo, transforma tudo em sua própria imagem. Assimilou os restos de animais marinhos e os ossos dos prisioneiros políticos que as mães teimam em procurar, num minucioso trabalho arqueológico. Aqui, no lugar mais seco do mundo, nós, vivos, também nos convertemos maravilhosamente em matéria mineral. Em terra, em pó, em cinza, em nada.


quarta-feira, 23 de março de 2016

Criando mundos

Como meu material de trabalho é a palavra, a linguagem escrita, sempre me intrigou o funcionamento das artes que lidam com outro tipo de matéria-prima, como a música ou as plásticas. Costumo pensar em mundos criados pelo Verbo. Enredos, tramas, enfim, todo o entrelaçamento de ideias que habita uma cabeça. O trabalho de Paulo Sayeg, no entanto, conta para mim essa mesma história, a história da Criação, mas através da imagem. Não a do mundo como ele é, mas como o Criador o vê. Seu traço perfeito, em vez de estabelecer limites, rasga como uma navalha as fronteiras entre o real, realista, e o irreal, fantástico, mágico, para criar algo que na verdade não é uma coisa nem outra, mas algo único, que tem sua própria verossimilhança, suas próprias regras, uma espécie de universo à parte, ou outra dimensão. Paulo Sayeg é um criador de mundos. E, uma vez que adentramos neles, já não queremos mais sair.

(Texto que escrevi sobre Paulo Sayeg, que ilustrou meu livro de poemas, a propósito da sua exposição na Acierno, que começa hoje)


(ilustração de Paulo Sayeg para Viagem a um deserto interior, Ateliê Editorial, p. 39)

quinta-feira, 10 de março de 2016

El Botón de Nácar

A lembrança cinematográfica mais pungente do ano de 2015 se relaciona com duas imagens de El Botón de Nácar, de Patricio Guzmán, autor do soberbo Nostalgia de la Luz, no qual se traça um paralelo entre povos indígenas da Patagônia que mantinham uma profunda relação com o mar (que os chilenos perderam, apesar da extensão de seu litoral), exterminados durante o processo “civilizatório”, e prisioneiros políticos exterminados durante a ditadura militar (arremessados de aviões e helicópteros) neste mesmo mar do sul, convertido, portanto, em cemitério: a pintura corporal de um dos povos retratados no documentário, os Selknam, e a expressão de Gabriela Paterito, remanescente dos Kawésqar, ao afirmar que sua língua nativa não conhecia palavras nem para deus nem para polícia: “Não precisávamos deles”, diz ela.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Para Francisco Achcar, sub tegmine fagi

Ele se foi. Um pouco antes de saber, talvez no momento em que nos deixava, tive uma crise de choro sem explicação. Meia hora de lágrimas e soluços que eu não conseguia conter, dentro de um carro, dirigindo pelas ruas de São Paulo.
Tão estranho, tudo.
Não apagarei seus emails que estão na pasta reservada a ele, e suas orientações e posicionamentos sobre a literatura e a gramática estão vivos em minha cabeça. Também me lembro de sua resposta à minha mensagem em que eu dizia ter agora certeza absoluta de que ele era a pessoa mais forte que já conhecera. Eu não teria aguentado. Ninguém teria sobrevivido tão estoicamente.
Tudo o que sei sobre a literatura, sobre a língua portuguesa - meu material de trabalho - aprendi com ele. Ele foi meu verdadeiro orientador. Ainda tinha esperança de que visse publicado meu livro de poemas. Agora, infelizmente, o agradecimento será in memoriam.
Lembrei-me também, há pouco, de que o primeiro livro que comprei quando entrei na faculdade de Letras, na tentativa de me fazer, de me construir, foi o dele: Lírica e Lugar-Comum: Alguns Temas de Horácio e sua Presença em Português. Comprei-o porque um colega a quem admirava me disse que ele era o maior latinista que existia. Depois de trabalhar tantos anos ao seu lado, ouso dizer: não apenas o maior latinista, mas o intelectual mais brilhante e arguto com quem tive a honra de conviver.
Para quem escreverei agora, com quem falarei daquilo que me mantém viva - a Arte - e de tudo de humano, demasiado humano, que ela implica? Com sua partida, vários ficaram desamparados. E eu me tornei órfã para sempre.


(Leila Guenther)


domingo, 16 de novembro de 2014

Comer a Arte


Tenho uma amiga – excelente cozinheira – que diz que alimentar pessoas é um dom. Mas acho que quem é alimentado também recebe uma dádiva. Porque se trata de algo que transforma tanto quem prepara o alimento quanto quem o come. E isso eu percebi com mais clareza quando uma vizinha (também excelente cozinheira) trouxe os sushis que seu filho, um rapaz que conheci menino, tinha preparado. Ele é sushiman. Eu já os tinha experimentado antes. Da primeira vez, tive a certeza de que era a melhor comida japonesa que eu já provara. Da segunda, não apenas japonesa, mas a melhor de todas, e que o que eu estava comendo era Arte. Naquele momento, deu-se a transformação de que falo acima: minhas atribulações sumiram. A felicidade mora num sushi, concluí, e eu queria ser feliz de novo, de modo que fui até o restaurante onde ele trabalhava. Como falar de sabor? Como, com palavras, dar a dimensão do que não pode ser dito? A descrição mais próxima que eu conseguiria seria esta: eu estive na Festa de Babette. Quem leu o conto ou viu o filme talvez consiga ter uma ideia. Penso também no documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro, sobre Jiro Ono, considerado o melhor sushiman do mundo. Jiro revela seu trabalho incansável de shokunin, de fazer todos os dias da vida a mesma coisa em busca da perfeição sem saber se, aos 86 anos, a alcançará: “Vou continuar a escalada, tentando atingir o topo. Mas ninguém sabe onde ele fica!” Então penso no que esse rapaz estará criando quando tiver 86 anos. Jiro diz que sonha com sushis. Eu também.

(leila guenther)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Com E maiúsculo

Faleceu Eustáquio Gomes, Escritor, homem de letras no melhor sentido da expressão: alguém que se dedicou a viver a literatura, lendo e escrevendo incansavelmente sem se importar com prestígio, imagem ou em ser melhor do que os outros num meio não raro marcado por competição e ressentimento capazes de abater os mais incautos. Não fazia marketing, não aparecia sob os holofotes do mundo literário. Tinha generosidade com os novos escritores, respeito pelos contemporâneos e admiração pelos antigos. Um cult: traduzido até para o russo, escreveu, entre tantas obras, A Febre Amorosa, considerada pela crítica uma mistura de Machado de Assis com Oswald de Andrade (aliás, no posfácio desse grande livro, teve a coragem de colocar as críticas positivas e negativas que lhe fizeram, talvez para mostrar que literatura é, antes de tudo, uma questão de gosto – ninguém faz tese sobre assunto de que não gosta, não é?). Demonstrou no romance um perfeito domínio da técnica narrativa, ironia, humor, inteligência e, não menos importante, conhecimento da língua (algo meio desprezado hoje em dia, mas essencial: difícil produzir arte sem dominar os instrumentos e os materiais, sejam eles o idioma, os pincéis, o gesso ou as teclas de um piano). Eustáquio também parecia ter algo que cada vez mais me interessa na estética oriental e me afasta da ocidental: o chamado pelos japoneses espírito “shokunin”, do artista que trabalha com humildade, na condição de aprendiz eterno por anos a fio, e para o qual a vaidade atrapalha a criação e o aprimoramento da arte. São aqueles artistas japoneses, chineses, tibetanos, sábios que praticam todos os dias e que, com 80 anos de idade, apenas esperam fazer melhor quando chegarem aos 100. Gostaria de ver o que ele teria produzido daqui a 40 anos, se eu mesma estivesse viva lá. Quando eu crescer, quero ser escritora como Eustáquio Gomes.

 

(Leila Guenther)