terça-feira, 16 de junho de 2026
Elogio à Copa
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Um deserto em pedaços
Algum tempo depois de publicar Viagem a um deserto interior, pela Ateliê Editorial, em 2015, fui, com meu então futuro marido, ao Deserto do Atacama, um lugar que há muito eu queria conhecer. O deserto mais seco do mundo. A minha vida se dividiu entre antes e depois dessa viagem. A conexão foi imediata. Foi como se as peças tivessem finalmente se encaixado. Eu tinha encontrado meu elemento, levada por alguém que me respeitava e que fazia parte daquilo – o Chile é sua terra natal. No deserto o ego se dissolvia no silêncio e na vastidão, como se numa meditação profunda, e se unia à paisagem. Senti que era feita de areia, pedra, terra, pó e nada, parte de tudo e de todos, e sem importância alguma. E isso foi transcendente, carnal e espiritualmente falando. Ali é preciso humildade. O deserto não é traiçoeiro, como dizemos sobre tudo aquilo que não entendemos direito – cobras, mar, vulcões, nossa própria mente. Ele apenas existe de acordo com as leis da física e não está nem aí para nós. É o que têm nos ensinado os povos originários. É preciso deixar a arrogância de lado diante da natureza. É claro que não me refiro a pessoas que confiam em um guia turístico que as deixa para trás, como vimos recentemente, mas àqueles que se julgam superiores a tudo. Os que acham que podem fazer qualquer coisa sem responder pelos seus atos podem se dar mal quando tentam subjugar também o que não conhecem. Na natureza selvagem, eles respondem pela consequência, ou melhor, pela inconsequência de seus atos. Trata-se apenas de ação e reação: o homem que decide se jogar do alto de uma montanha simplesmente não voará, por mais poderoso e incrível que se creia.
Descobri com humor a coincidência de ali existir inclusive uma parte chamada "deserto interior". Uma espécie de redundância, como o título de meu livro, pois para mim todos os desertos são interiores, íntimos. O trecho assim referido, de tempos em tempos, vejam só, desabrocha, acolhendo florações coloridas, criando um estranho cenário quando visto de longe. É claro que nem tudo são flores: a mão do homem até ali cria coisas inúteis, como uma escultura gigantesca que a mim parece desnecessária num lugar já tão grandioso. A interferência significativa do ser humano naquele lugar são as pedras simples cuidadosamente empilhadas, uma espécie de oferenda aos mortos ou aos deuses. Mas a mais importante se dá pelas mãos de mulheres que, num trabalho minucioso e infinito, buscam ossos de desaparecidos políticos durante a ditadura de Pinochet. Em seu governo, dissidentes, diferentes e inocentes tiveram seus corpos torturados, ou partes deles, jogados no mar ou no deserto. Nesse deserto, o do Atacama, de que faço parte. Essas mulheres buscam nele fragmentos ínfimos de filhos, pais, irmãos, maridos. Procuram recompor a dignidade de quem morreu de maneira torpe pelas mãos de gente que não sabe criar, mas apenas destruir. Em vez de uma estátua em formato de mão, elas ergueram juntas um monumento invisível mas pungente em defesa da memória. Foi isso que descobri por meio do amigo que, através de sua lente, dá outra vida ao que vê, Luís Villaça: ele me apresentou ao filme Nostalgia da luz, do chileno Patricio Guzmán, de quem eu conhecia apenas A batalha do Chile. Em Nostalgia da luz, cujo exemplar físico acabei ganhando de minha sogra (que por acaso se chama Luz), cria-se um contraste marcante: o deserto do Atacama abriga os maiores observatórios do mundo, por causa de seu céu límpido. Dele se analisa com nitidez o universo. As mulheres, aquelas mulheres que procuram pedaços de seus entes queridos, desejavam simbolicamente que os astrônomos, com seus instrumentos tão precisos em busca de corpos celestes, as ajudassem a encontrar corpos humanos que desapareceram, mas cujos rastros, como os das estrelas, ainda estão presentes, em forma de ossos, areia, pó e lembrança.
Minha viagem a um deserto interior continua. Meu deserto, o do Atacama, onde nem
os camelos resistem, não acaba quando viramos pó. Aliás, eu não acharia mal que
minhas cinzas fossem jogadas lá, ainda que, diante da minha insignificância,
considero mais natural e coerente que elas sejam jogadas no lixo.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Tio Vânia em Hiroshima, mon amour
Ainda não sei se Drive
my car, de Ryûsuke Hamaguchi, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2022, é o filme mais japonês
ou mais russo que já vi, ou se, por ambos os motivos, é o mais universal.
Em tempos:
1. Foi o filme em que mais vezes vi
pronunciada uma palavra que os japoneses evitam: não (iê);
2. O nome da personagem feminina que
paira sobre o filme inteiro tem um nome (Oto) que, associado ao
tratamento respeitoso japonês (sam),
parece, aos meus ouvidos, se transformar em outra palavra (otosan), pai, que é o que falta à jovem motorista; oto também significa som, como me lembrou uma amiga, algo
chave na obra;
3. O título Drive my car é nome de uma música dos Beatles que não é tocada no filme
(baseado no conto “Homens sem mulheres”, de Haruki Murakami, que possui um romance
cujo título é também o nome de uma canção dos Beatles, como lembrou outro amigo);
4. A vida que o vermelho confere a um ser inanimado, no cinza do filme, me lembrou o que Wim Wenders, apaixonado pelo cinema japonês, fez com os objetos de Paris, Texas;
4. Colocar numa peça sobre o nada (Tio Vânia) - numa montagem em que são
falados vários idiomas - uma atriz muda, que se expressa pela linguagem dos
sinais, é tão significativo quanto belo;
5. Tudo na vida é teatro.
quinta-feira, 23 de junho de 2022
O karma da física
Karma, em sânscrito, significa “ação”. Algumas vertentes do budismo, especialmente o Zen, incorporaram a noção de karma como causalidade, ou seja, uma relação de causa (ação) e efeito (reação). Não é destino, algo predeterminado, imutável, escrito nas estrelas, que cai como um castigo divino sobre nossas cabeças. Está mais para as leis da física: se alguém tem uma arma de fogo em casa e brinca com ela, tem mais probabilidade de sofrer ou provocar um acidente com ela do que quem não tem arma de fogo em casa. Tampouco se trata de uma lei moral. Assim, da mesma forma, se alguém cortar meu pescoço com uma faca, sairá sangue, por melhor que eu seja. Esta lei atinge a todos, indistintamente, mesmo aqueles que se acreditam superiores aos demais ou especiais e que, por isso, acham que nada lhes acontecerá e que não têm nunca de responder às consequências de seus atos - a física e o budismo nos mostram que estamos o tempo todo submetidos às leis da causalidade, do karma: quem planta erva venenosa não colhe alface.
terça-feira, 14 de junho de 2022
Um teto todo nosso
No dia 12 de junho estive na Feira de Livros do Pacaembu para participar da foto que reuniu mais de 400 escritoras, iniciativa de mulheres como a Natalia Timerman, e estava na primeira página da Folha de S. Paulo do dia 13. Em um determinado momento, quando já havia uma multidão de escritoras no estádio, entraram os coletivos de escritoras negras, com cartazes de “Mulheres negras importam”. Neste instante, todas as mulheres lá dentro começaram a aplaudi-las imediatamente, de uma vez, de forma frenética. Acho que todas nós sentimos a mesma coisa: a aclamação foi algo instintivo, impulsivo, orgânico. Veio de dentro de cada uma de nós para desembocar numa força coletiva que talvez nem conhecêssemos. De todo o ato lindo que culminou na foto histórica, este para mim foi o momento mais bonito. Eu chorei.
Aqui estamos, vivas.
terça-feira, 17 de maio de 2022
No princípio era o Som, e o Som estava com Ela, e o Som era Ela
Como todos os adolescentes que gostavam de rock
e música alternativa nos anos noventa, eu conhecia o trabalho da islandesa Björk
por causa da banda em que tocou, The Sugarcubes. Apesar de conhecer de antes a
exuberância de sua voz, só passei a realmente admirá-la em sua carreira solo. E
não foi nem no primeiro álbum, Debut, mas a partir do terceiro, Homogenic, que
escutei há quase vinte e cinco anos. Então minha vida se dividiu entre a.H. e
d.H. (o h aí de Homogenic).
A primeira música que ouvi do álbum foi “Bachelorette”,
e eu tive aquela sensação que tenho muito de vez em quando de que não poderia
mais viver sem aquilo. Algumas canções me trouxeram isso ao longo dos anos. Não
se trata de adorá-la, de ficar com ela martelando na cabeça, de achá-la bonita.
É outra coisa: é a certeza de que ela causou uma ruptura tal na ordem das
coisas que a vida se transformou. Que eu me transformei. “Soukora”, de Ali
Farka; “The sheltering sky” de Ryuichi Sakamoto; “Jisas Yu Holem Hand Blong Mi”,
do Choir of All Saints, da Melanésia, são algumas delas, junto com a já citada
da Björk.
Parece mais claro para mim que, a partir de
Homogenic, surge um paradoxo: nada mais haveria de novo sob o sol e, ao mesmo
tempo, tudo poderia ser completamente novo, as possibilidades musicais seriam infinitas.
Pelo menos para ela, que, além da própria Voz, também incorporou poemas de e.e. cummings, corais esquimós (inuit),
sons de pássaros gravados por um ornitólogo francês, orquestras, toda a tecnologia da
música eletrônica, músicos de todas as partes (como o vocalista, poeta, meditador e visionário Thom Yorke, do Radiohead) e instrumentos musicais cujo som incompreensível e inédito para mim me remete àquele que sairia do instrumento de Maiakóvski, que dizia executar seus versos na flauta
de suas próprias vértebras. A única coisa que não muda nunca em Björk, desde
criança, é sua voz, porque não há como aprimorar a perfeição.
Björk
carrega tudo o que já passou, todas as vozes humanas e não humanas do mundo para
transformá-las em algo que não alcançaremos jamais, porque não podemos estar onde
ela está, ou seja, constantemente a anos-luz de nós, do nosso presente. Estaremos
sempre atrás, contemplando hoje o rastro luminoso de um cometa que já passou
por aqui há muito e que, como é da natureza dos cometas, guarda a história do
universo inteiro.
Parafraseando o provérbio ioruba, Björk criou o Som ontem com a Voz que inventou amanhã.
sábado, 21 de março de 2020
Pela vida
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Adão e Eva no Japão
Na ilha japonesa de Amami*, onde prevalecem as tradições xintoístas, de significativa relação com as forças da natureza, vivem Kyoko e Kaito, dois jovens adolescentes prestes a entrar na vida adulta.
segunda-feira, 27 de maio de 2019
O corpo como universo
quarta-feira, 20 de março de 2019
Uma certa planície
Eu me lembro de ter encontrado numa tarde, na estante de meus avós, A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. Até hoje não entendo como foi parar lá, numa casa cujo dono lia (muito) em japonês e cuja dona era praticamente analfabeta (gostaria de encontrar entre os escombros o caderno de receitas de minha avó, que anotava maravilhas numa língua que ela própria criou, com uma espécie de hiper-correção, já que os japoneses não falam o L: ela anotava "tlês xícalas de falinha de tligo", assim mesmo). Num dos intermináveis almoços de domingo, eu li o tal romance de J. Veiga inteiro, o mais rápido que pude, com uma espécie de medo de que ele pudesse desaparecer, não estar mais ali na próxima visita, ou, se eu o pegasse emprestado, de que ele pudesse se autodestruir (é verdade que sou maluca e que foi nessa época que apareceram os primeiros sintomas da depressão). Até hoje não conheço título mais lindo: A hora dos ruminantes. Talvez tenha sido o primeiro passo para perceber o poder do som. Nessa época me dei conta do encantamento que o som das palavras produzia em mim. O fato de haver poemas infantis da Cecília Meireles no livro didático ajudou: eu os lia na classe, em voz alta, a pedido da professora, surpresa com assonâncias e aliterações, mas ainda dividia infantilmente (esse infantilmente pode ser entendido em vários sentidos) som e significado. No entanto, essa divisão ainda estava restrita aos títulos das obras. Essa relação só mudou quando, no livro de interpretação, me deparei com o início de um texto chamado “Mudança” (era o primeiro capítulo de Vidas Secas, vim a saber por minha mãe, e o vi também mencionado em livros como os de Ganymedes José, que li aos montes): “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. O texto que se seguiu mudou minha vida para sempre, mesmo que eu desconhecesse o significado de juazeiro, aió, pederneira, excomungado, viventes (e de tantas outras palavras, mais para a frente, como atenazar, que ninguém além de Graciliano usa), porque foi a partir daí que o som se uniu ao significado, tendo eu que procurar todas as palavras que não conhecia no velho dicionário que havia em casa, cujas folhas iam caindo como se fosse uma árvore.
Segui por vários caminhos, tantas leituras, lendo palavras, sons, imagens discrepantes, olhares, plantas, bichos, mas “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” continua comigo como um mantra, uma oração. Eu queria, por isso, dizer (tentando recuperar minha infância por meio dos versos de Manuel Bandeira, em “Porquinho-da-Índia") que Graciliano Ramos foi meu primeiro namorado (naquela época de menina em que para namorar bastava desejar, mesmo que o objeto do sentimento não soubesse), mas tudo o que me ocorre agora é parafrasear o próprio Graciliano: "Foi esse o primeiro contato que tive com o amor."










































