Mostrando postagens com marcador literatura hispano-americana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura hispano-americana. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de julho de 2022

A forma como descobri as 2 espécies de morte

quando pequena eu tinha coelhos e eles me fascinavam tanto

que durante o dia todo não desgrudava deles.

olhava-os sem parar mas jamais me ocorreu

que eram animais que comiam e foi assim

que morreram. eu não conseguia entender por que

isso tinha acontecido se eles sabiam que

eu os amava. para mim só existia um tipo

de morte e era de pena ou tristeza.

depois, um tio me perguntou o que eu dava de

comer aos coelhos e eu achei estranhíssimo.

disse que não lhes dava nada, perguntaram aos

maiores e todos responderam que se

os bichinhos eram meus, seria de imaginar que eu os

alimentava. grande comoção pela morte

dos coelhos.

todos acharam que eu era boba e desnaturada.

eu não me importei, mas pensei

que de agora em diante daria comida a

todas as coisas de que eu gostasse porque isso queria

dizer que havia duas espécies de morte: a de

fome e a de pena.

 

(Cecilia Vicuña, poeta chilena, traduzida por Marcelo Donoso e por mim)





sexta-feira, 22 de julho de 2022

Harawi para Dona María Andrea Parado

 


Harawi1 para Dona María Andrea Parado2


Onde ficou o seu corpo, María Andrea, em que acaso habita? Huamanga chora e meu rosto se transformou na tuna3 que apodreceu de tanto amadurecer.

Que será de mim?

Onde encontrarei suas tranças prateadas, seu cabelo caboclo e prodigioso? Que direi às nossas filhas para apaziguar seus prantos, suas indagações, seu soluço de cordeiro, elas que perderam a luz que fervia seu sangue, seu sol primeiro?

As velas frias da catedral não servem para lhes dar consolo, de onde virá o calor das mãos que acariciavam gentes e animais, de onde virá meu alento desconsolado?

Diga-me onde deixaram o mapa de seu corpo, a figura diminuta que levava as mensagens pensando em seu povo, de nossas filhas seu afeto e luto.

Sangues de liberdade clamam suas veias, a África pulsa e sapateia uma canção em quéchua. Pressagio desgraças com sua ausência, a casa de pedra ensombrecida, suas sombras procurando seu corpo ao lado da videira que se esparrama como um traço de tinta que ditava aquilo que você não podia escrever. Os ditongos noturnos.

O infernal Carratalá4 abriu bocas em seu corpo, dele caíram sementes, plantas novas e dignas, como o eucalipto que se mexe por causa de ventos novos, com o sangue derramado que continuará tingindo as ruas de Huamanga, Huanta, virão massacres de quem seguir o seu exemplo. Em Cangallo procurarão o sal de suas feridas, o presságio de seu sono eterno.

Sol de insultos clamam por você, caminhos de pedra inconclusa, sopro de Quilcamachay.

Que será de nossa vida sem seus desejos? Quem dará sentido à noite escura, ao encanto de Apu5, ao voo da águia sobre nossos cabrestos?

Arderá seu corpo. O novo grito em sua garganta que encerrou a tortura, a paz das aflições de seu corpo inconfessável.

A visão inebriante de seu martírio. De joelhos seu olhar olhando o céu.

Resignada ao último suplício, murmurando: Venha, mundo novo!

(Julio César Zavala. Tradução minha e de Marcelo Donoso)

 

1 Harawi: tipo de música e/ou poesia andina difundido no império inca.

2 María Andrea Parado (1761-1822): mártir da Independência do Peru. Mestiça, falante de quéchua, foi torturada e morta por não delatar os companheiros revoltosos. Não sabendo escrever, ditava cartas enviadas aos guerrilheiros com informação sobre a movimentação dos inimigos.

3 Tuna: fruta típica peruana.

4 Carratalá: General José Carratalá, comandante das forças de repressão contra os que lutavam pela Independência. Incendiou e arrasou povoados como Cangallo.

5 Apu: do quéchua senhor; espírito das montanhas.

domingo, 4 de agosto de 2019

Contra o adeus

Em memória de Omar Olivera, Omarcha

Ontem chovia, fui ao parque; não sei quanto tempo perambulei entre trilhas e moitas, observando como emergia do cimento o vapor do verão. É espantoso como em plena tempestade há raios de sol que chegam a iluminar as folhas mais escondidas, a terra úmida, as pegadas das pessoas que, com pressa, procuram abrigo em suas casas. Talvez não tenha sido mais do que uma hora, porém entre tanta sombra alucinada é possível que tenha transcorrido um século. Inconsciente, ou talvez audaciosa demais, fui me sentar debaixo de um pinheiro. Tinha certeza de que nenhum raio ousaria me matar no mesmo dia em que outro temporal havia levado você.
Hoje não tenho cabeça para procurar seu fantasma na chuva, nessa camuflagem das almas que desejam permanecer e desobedecem às parcas na forma de garoa, orvalho ou torrente. Apesar de sua ausência, continuo engasgada pela vida. Tomo meu pulso e sinto como os jatos de sangue palpitam pelas minhas veias; nada os detém, nada me detém.
Os filmes têm nos acostumado a finais concretos, a histórias que têm um sentido, a ocasiões precisas. Quando deixamos de ser crianças e nosso país afundou na violência, você sabia ao certo dos perigos que corria, espreitavam-no diversos grupos. Carros-bomba, tiros na nuca, prisões e desaparecimentos haviam levado alguns amigos e muitos conhecidos. Você até me comentou sobre a possibilidade de carregar sempre um comprimido de cianureto que pudesse apagar sua vida antes de ser submetido ao horror de uma tortura. Havia uma paixão impetuosa pela vida e ao mesmo tempo sangue-frio diante da morte. Nunca usava guarda-chuva, ficava ensopado, dizia que as tempestades o faziam se sentir integrado ao universo, o suor misturado com a bruma, a sua saliva com o vento. E você ria de si mesmo porque também carregava aspirinas para combater a gripe antes que ela o atacasse. E acendia um cigarro, e tragava com gosto, e continuava falando, em alguns momentos divagava e voltava a aspirar cada resto de fumaça como se fosse o último, depois baforava para longe, com força, como se mandasse um beijo (à nicotina, à gripe afugentada, à chuva?), e continuava a conversa. E acendia outro cigarro, e mais um. Quantas coisas você me contou, quantas ficaram encravadas em seu cérebro, quantos momentos intensos viveu só. Onde ficam essas palavras, esses instantes íntimos?
No vidro da janela da cozinha ficou gravada a marca de sua mão. No meio de uma cantoria, esquecemos a panela em que preparávamos um chá e o vapor invadiu tudo. Você se aproximou da janela para verificar se as linhas da palma de sua mão podiam ser lidas nessa mistura de água consternada, escuridão lá fora, luz elétrica dentro. Apenas sua mão ficou plasmada. Se a experiência tivesse dado certo, teria sido possível decifrar que depois de um ano você estaria morto? Acabo de perceber que faz muito tempo que não limpo as janelas. Cada vez que esqueço a chaleira no fogo e o vapor invade a cozinha, tantas ocasiões em que poderia haver ocorrido um incêndio!, a marca da sua mão emerge. Hoje gostaria de tocá-la, trazer você de volta. Mas tenho medo: temo que não aconteça, que minhas invocações não sejam válidas; temo igualmente deformar qualquer ínfimo rastro material que você deixou em minha casa.
Para quem escrevo? Se você não acreditava em qualquer além, como posso sentir sua presença em cada palavra que imprimo? A nostalgia é tão grande. Ou é tão lenta a morte e você nunca termina de ir embora. Ou é que sua morte levou uma parte de mim e é ela que me transmite seu reflexo, ela que me sussurra “estamos vivos”. Acaricio as teclas e parece que toco as pontas de seus dedos. A nostalgia é infinita.
Para esta tristeza abundam melodias amargas. No meu aparelho de som tocam as músicas que dançávamos quando éramos adolescentes. São alegres, são tão presentes que meus pés balançam e começo a cantar. O ritmo da vida se impõe. Seu coração foi livre, firme na sua postura de que para amar não é necessário renunciar a nada. Talvez por isso hoje não reprimo a dança.
Neste verão louco em que a chuva prevalece sobre o sol e as flores não caem murchas nem os lagos secam, formigas proliferam no depósito, um sem-fim de pássaros cantando pelas manhãs, rostos velhos e novos, ricos e pobres, brilhantes, andando pelas ruas quando sol se apodera do dia. Parece absurdo que em um tempo desses, carregado de tanta vida, você tenha ido embora impregnando tudo de morte. Se você tivesse acreditado em uma vida além desta, talvez ficaria mais fácil imaginar que somos de novo crianças e brincamos de esconde-esconde em uma floresta, que você sabe se camuflar bem; mas sempre consigo encontrá-lo, ouvir de novo sua gargalhada, tocar sua mão de carne e osso, cantar rancheras e blues, caminhar com nossos amigos debaixo do sol, tomar juntos litros de café enquanto chove, consertando o mundo com simples palavras, olhar-nos nos olhos para nos perguntar, para nos responder e para continuar perguntando.
Nunca, porém, nos perguntamos ou respondemos sobre onde nos encontrarmos no fim do caminho. Hoje tento encontrá-lo nas minhas próprias palavras, entender sua partida com minhas próprias ideias, lembrar de você com meus próprios símbolos. E assim o encontro em todo lugar e em todo lugar sinto sua falta.
No rádio escuto uma melodia, é uma sonata chilena transformada em canto. Parece dedicada aos seres amados que hoje são apenas pó: “Procuremos as velhas cinzas do coração queimado, mesmo que caiam um a um nossos versos, até que a flor desabitada ressuscite”. Consegue ouvi-la? Conseguirá ouvi-la quando seu próprio corpo tiver virado pó? Conseguirá pronunciá-la através do tempo, através dos devaneios? Estou tão viva que só me resta esperar pela tempestade, ou pela noite, para ver sua mão desenhada entre suas luzes e sombras. Os ponteiros do relógio me lembram que tenho de sair. Com um impulso que ultrapassa a lógica das minhas pernas vou me levantar para ir a um concerto. Não vou ficar para continuar escrevendo; nem vou parar para continuar investigando a natureza da ausência.
Anoitece, os pássaros estão cantando como se fosse amanhecer. Estamos vivos.


Karina Pacheco Medrano é escritora, editora e antropóloga peruana. Escreveu Las orillas del aire, Lluvia, No olvides nuestros nombres, La voluntad del molle, El bosque de tu nombreCabeza y orquídeas, entre outros. O presente conto, traduzido por Marcelo Donoso e por mim, integra o livro Alma alga (Peru, Borrador Editores, 2010). Como antropóloga, dedica-se a temas como desigualdade, racismo e discriminação.




quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Godzilla no México

Olha só, meu filho: as bombas caíam 
sobre a cidade do México
mas ninguém percebia.
O ar transportou o veneno através
das ruas e janelas abertas.
Você acabava de comer e assistia na tevê
a um desenho animado.
Eu estava lendo no quarto ao lado
quando soube que iríamos morrer.
Apesar do enjoo e da náusea
me arrastei até a sala de jantar e encontrei você no chão.
Nos abraçamos. Me perguntou o que estava acontecendo
e eu não disse que estávamos no programa da morte
mas que íamos começar uma viagem,
mais uma, juntos, e que não era para ter medo.
Ao ir embora, a morte nem sequer
fechou nossos olhos.
O que somos?, você me perguntou uma semana ou um ano depois,
formigas, abelhas, números equivocados
na grande sopa podre do destino?
Somos seres humanos, meu filho, quase pássaros,
heróis públicos e secretos.

(Roberto Bolaño, traduzido por Marcelo Donoso e por mim)


sábado, 31 de março de 2018

Autorretrato aos vinte anos

Me deixei levar, peguei o bonde andando e não soube nunca 
para onde poderia ter me conduzido. Ia cheio de medo, 
meu estômago ficou embrulhado e minha cabeça zunia:
devia ser o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, achei que era uma pena 
acabar tão cedo, mas por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você escuta ou não escuta, e eu o escutei
e quase caí no choro: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, encostei o meu rosto
no rosto da morte.
E para mim foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
embora encravado em uma realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbados, porém todos latino-americanos,
de rosto colado com a morte.

(Roberto Bolaño, em tradução minha e de Marcelo Donoso)


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Vem comigo

Por isto estou aqui em tua companhia:
pelo Chile, por sua azul soberania,

pelo oceano dos pescadores,

pelo pão dos meninos que cantam,
pelo cobre e pela luta no escritório,

pela nossa agricultura e pela farinha,
pelo bom companheiro e pela amiga,

pelo mar, pela rosa e pela espiga,
por nossos compatriotas esquecidos,

estudantes, marinheiros ou soldados,
pelos povos de todos os países,

pelos sinos e pelas raízes,

pelos caminhos e pelas trilhas,
que levam à luz o mundo inteiro

e pela vontade libertadora
das bandeiras vermelhas na aurora.

Com esta união estão minhas alegrias.

Luta comigo e eu te entregarei
todas as armas de minha poesia.

(Pablo Neruda, traduzido por Marcelo Donoso e por mim)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Fotografia

O que nunca ninguém foi em minha família 
e tudo o que foi rejeitado
o operário o alfaiate o professor primário
tenho protegido cá dentro 
com a mesma força que teve meu pai
na noite em que bateu em minha mãe 
grávida de minha irmã mais nova.

(Oliver Welden, poeta chileno, em tradução minha e de Marcelo Donoso)


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Leitura para tempos sombrios

 

A partir de diferentes recursos como notícias de jornal, monólogos, imagens e notas de rodapé que abrangem o período de 1973 a 2015, Luz Sciolla (Chile) integra, em Retratos Hablados, realidade e ficção na composição de uma obra polifônica - sobre o abuso de poder - a cuja totalidade só se chega paradoxalmente por meio da fragmentação.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Quatro poemas de Vicente Huidobro

O poeta chileno traduzido por Marcelo Donoso e por mim na revista Zunái.

(Retrato de Huidobro por Picasso)

sábado, 13 de junho de 2015

Noite

A poesia experimental do chileno Vicente Huidobro em Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea, com tradução minha e de Marcelo Donoso, e ilustração de Tieko Irii.






quinta-feira, 23 de abril de 2015

domingo, 27 de julho de 2014

Na Espanha

Saiu no El País esta matéria sobre a antologia Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014), na qual represento o Brasil com um conto. 



(El País, 26/07/2014)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

No umbigo do mundo

Integram o volume Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014) os autores Gabriela Alemán (Equador), Claudia Amengual (Uruguai), Javier Cercas (Espanha), Jacinta Escudos (El Salvador), Leila Guenther (Brasil), Eduardo Halfon (Guatemala), Carlos Herrera (Peru), Ana Istarú (Costa Rica), Andrea Maturana (Chile), Juan Carlos Méndez Guédez (Venezuela), Andrés Neuman (Argentina), Edmundo Paz Soldán (Bolívia), Ena Lucia Portela (Cuba), Cristina Rivera Garza (México), Mayra Santos-Febres (Porto Rico) e Juan Gabriel Vásquez (Colômbia).

Karina Pacheco Medrano (Peru), que organizou o volume e traduziu meu conto para o espanhol, é escritora e antropóloga. Publicou La voluntad del molle, No olvides nuestros nombres, La sangre, el polvo, la nieve, Alma alga, Cabeza y orquídeas (Premio Nacional de Novela Federico Villarreal 2010), El sendero de los rayos e El bosque de tu nombre.

Fernando Iwasaki (Peru), que assina o prólogo, é escritor, historiador e ensaísta. Publicou, entre outros, Inquisiciones peruanas, Un milagro informal, España, aparta de mí estos premios, Libro de mal amor, Neguijón, El Descubrimiento de España, Republicanos: cuando dejamos de ser realistas, Nabokovia Peruviana, Extremo Oriente y Perú en el siglo XVI, e recebeu diversos prêmios por sua obra.



segunda-feira, 25 de março de 2013

Julio Cortázar + Gotan Project


 
"(...) y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua." (Julio Cortázar, Rayuela)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Da salvação pelas obras




Em um outono, em um dos outonos do tempo, as divindades do Xintó congregaram-se, não pela primeira vez, em Izumo. Diz-se que eram oito milhões, mas sou um homem muito tímido e me sentiria um pouco perdido entre tanta gente. Além disso, não convém lidar com cifras inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que o oito é, nessas ilhas, de bom agouro.
Estavam tristes, mas não o demonstravam, porque os rostos das divindades são kanjis que não se deixam decifrar. No verde cume de um monte sentaram-se em roda. De seu firmamento, ou de uma pedra ou um floco de neve, vinham vigiando os homens. Uma das divindades disse:
“Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui para criar o Japão e o mundo. As águas, os peixes, as sete cores do arco, as gerações das plantas e dos animais, tudo isso saiu a contento. Para que tantas coisas não os enfastiassem, demos aos homens a sucessão, o dia plural e a noite una. Outorgamos-lhes também o dom de ensaiar algumas variações. A abelha continua repetindo colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou uma arma invisível que pode ser o fim da história. Antes que esse fato insensato aconteça, eliminemos os homens”.
Ficaram pensando. Outra divindade disse sem pressa:
“É verdade. Eles imaginaram essa coisa atroz, mas também esta, que cabe no espaço que suas dezessete sílabas abarcam”.
Entoou-as. Estavam em um idioma desconhecido e não pude entendê-las.
A divindade maior sentenciou:
“Que os homens perdurem”.
Assim, por obra de um haiku, a espécie humana se salvou.



(Jorge Luis Borges, Atlas. Trad. Sérgio Molina. Globo, 1999)