quarta-feira, 12 de maio de 2010

Hoje de madrugada

O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.
Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.
Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um voo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.
Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pelos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloquente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.
Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão, minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.


(Raduan Nassar, Menina a caminho, São Paulo, Companhia das Letras, 1997)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O imitador de vozes


CARIDADE

Uma velha senhora, vizinha nossa, foi longe demais em sua índole caridosa. Tinha acolhido em sua casa um pobre turco, conforme acreditava, que, de início, mostrou-se de fato agradecido por não mais precisar viver num barraco de canteiro de obras destinado à demolição mas, em vez disso, e graças à caridade da velha senhora, poder morar agora num casarão situado no meio de uma grande jardim. Fez-se útil ali, trabalhando como jardineiro, e a velha senhora não apenas vivia lhe comprando roupas novas como verdadeiramente o mimava. Um dia, o turco compareceu à delegacia de polícia e declarou ter matado a velha senhora que, por caridade, o acolhera em sua casa. Estrangulou-a, como constatou em visita imediata ao local do crime a comissão designada pelo tribunal, quando a comissão perguntou ao turco por que havia matado, ou seja, estrangulado a velha senhora, ele respondeu: Por caridade.


INVERSÃO

Embora eu sempre tenha odiado jardins zoológicos e na verdade achado suspeitas as pessoas que os visitam, não escapei de ir certa vez ao zoológico de Schönbrunn e, a pedido de meu acompanhante, um professor de teologia, deter-me diante da jaula de macacos para observar aqueles aos quais ele, meu acompanhante, alimentava com a comida que, para esse fim, tinha levado no bolso. O tempo passou e o professor de teologia que me pedira que fosse com ele a Schönbrunn, um ex-colega da faculdade, já havia dado aos macacos toda a comida que trouxera consigo quando, de repente, os próprios macacos, por sua vez, puseram-se a coletar a comida que se espalhara pelo chão e, através das grades da jaula, ofereceram-na a nós. O professor de teologia e eu ficamos tão chocados com o súbito comportamento dos macacos que, no mesmo instante, demos meia-volta e partimos de Schönbrunn pela primeira saída que encontramos.



O ERRO DE MOOSPRUGGER

O professor Moosprugger contou ter ido à estação ferroviária buscar um colega a quem não conhecia pessoalmente mas apenas mediante troca de correspondência. Esperara, na verdade, encontrar outra pessoa em lugar daquela que desembarcou na estação. Quando chamei a atenção de Moosprugger para o fato de que quem chega é sempre uma pessoa diferente daquela que esperávamos encontrar, ele se levantou e foi-se embora com o único propósito de romper e abandonar todos os contatos que já estabelecera na vida.



AUMENTO

No tribunal distrital de Wels, uma senhora com quarenta e oito condenações anteriores, que o juiz, logo na abertura deste seu mais recente julgamento, como relata o jornal local, caracterizou como ladra anciã e bem conhecida da justiça e cuja presente acusação se devia ao furto de um monóculo inteiramente inútil para ela, roubado havia pouco de uma falecida frequentadora da ópera, a qual já não conseguia andar fazia muitos anos, não ia mais à ópera e, por essa mesma razão, não apenas nunca mais utilizara o monóculo mas também o esquecera por completo, como se verificou ao longo do julgamento – essa senhora, pois, logrou ter sua pena de apenas três meses de prisão aumentada mediante um safanão que desferiu no juiz tão logo proferida a sentença. Esperava conseguir no mínimo nove meses de prisão, porque não suportava mais viver em liberdade, alegou ela.



(Thomas Bernhard, O imitador de vozes. Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo, Companhia das Letras, 2009.)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Direto de Portugal VI

(Foto: Gérard Castello Lopes)




SANTO NOME

Respiro pesadamente entre as algas.
Os peixes morrem com o seu olhar louco à beira das
lajes.
Deste cais vejo que anoitece e lançam as redes os meus
homens do mar.
Irmãos do sal, consumidos de iodo, junto aos violinos.
Vem, Senhora dos Litorais, e sobre a falésia tange as
minhas cordas em sobressalto.
Murmura o meu nome, o meu santo nome entre os demais.
O destino dos cardumes é o destino de um homem, um
homem é o silêncio profundo,
o silêncio é o enigma da sua ilha.
De aromas e perigos se entrelaçam os portos.
Às vezes, pela inquietação dos mastros, passava a alegria.



PERPLEXIDADE

Perfila-se o cereal à vista dos moinhos.
As pás movem o silêncio da colina,
desarticulando os lábios de quem sobe,
debaixo do sol.
Respira-se devagar,
de frente para o horizonte, à hora exacta do
mundo.
As mós cantam o entardecer do pão.
O teu vulto segue a escuridão do corvo e
voas em silêncio,
declinando a sombra.
Como vertiginosa poeira escoa-se o centeio
entre os dedos.
As aldeias contemplam a saudade da tua
boca nas minhas folhas,
queimando-as lentamente, ao acaso dos pêndulos.
Já partiste, sem ruído, como o ar que deixa
a seara,
entregando-se ao temor das foices.
Não sei como convocar-te quando a noite
me assusta,
rodeada de incêndios.



INSULARIDADE

Uma ilha mente.
Uma ilha é um obscuro ventre de inacessível
ouro derramado,
incandescente.
Os nervos estremecem ao fundo das crateras.
O sangue corre pelas ribeiras onde enlouqueci,
na fermentação das canas,
alheio às conspirações.
Os filhos esquecem a minha arte sem doçura,
recusando o fruto.
As vinhas apodrecem e nem o sonho as
devolve.
Há um amargo caule que mergulha na
exactidão da lava,
corolas silenciosas, por florir.
É sempre tarde quando amanhece na orquídea.


EXPIAÇÃO

Quando chego
Já duas corolas vivas decoram os alpendres.
Uma haste em consumida luz respira junto
aos degraus.
Não tem valor esta mansão que do abandono fez
o seu hóspede,
a hora fúnebre.
O luto rege a obscura linhagem dos
indesejados filhos.
Todas a pressa é a de matar uma rosa alucinada e
o mal é só esse:
a contemplação dos despojos:
a garganta ferida, algumas raízes que à lama
devem o dom da expiação.
O dia é cego.
Nem o pecado resgata a desolação das planícies.






(José Agostinho Baptista, Paixão e cinzas. Lisboa, Assírio & Alvim, 1992)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Direto de Portugal V

(Foto: Gérard Castello Lopes)

Repito que vivo enclausurado na agilidade de um animal nascido
Correndo ao lado dele, correndo para ele - era assim
Que eu queria que fosse a linguagem veloz:
Uma casa para a infância com trepadeiras
Para que as palavras ficassem como frutos no alto.

Repito a corrida na memória quando estou parado
Penso velozmente que o amor, como Dante disse, é um estado
De locomoção. É um motor. E fico a trabalhar no mecanismo secreto
Do amor.

Sei que estou em viagem na palavra que se move.

Repito o trajecto para ver o poema de novo - era assim
Que eu queria que fosse a linguagem de uma coisa amada
Correndo ao meu lado, correndo para mim no mecanismo violento
Do amor. Era nele que eu queria a casa com trepadeiras
Onde as palavras ficassem silenciosas e altas como um pátio interior.


*

Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar


*


Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela.
Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo
Sei que não posso chamá-la das margens

(publicado aqui em “Trança de poemas”, 26 de maio de 2009)


*


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


(Daniel Faria, Poesia. Famalicão, Quasi)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Direto de Portugal IV

( Foto: Alfredo Cunha)


CASTELOS DE PORTUGAL

A taberna da Cruz do Campo
onde cheguei tão novo — queria-vos
falar, mas não recordo bem,
da bicicleta que me levou, antes
de pedir (deve ter sido) a laranjada
que prenunciava outros hábitos.
O taberneiro tinha o que se esperava:
um resto de vida e de inquéritos
mornos que chegaram para saber
que a filha dele e a minha mãe
haviam sido colegas, passeando
talvez não muito longe em desiguais
bicicletas. No pequeno mundo.

Também já não existirá, suponho,
a taberna de Pontével quase
em frente à igreja, onde entrei e saí
assustado com o vinho escuro que
iluminava no vómito do balcão os rostos.
Aí quis morrer, em vez da «mentira do amor».

Apenas a terceira obedecerá ao título,
fazendo cair sobre mim a metáfora:
ficava em Penedono e esperava,
depois da juventude, o fim.
Sob o castelo — alto, preenchendo o Verão —
onde alguém me levou e nunca mais amei.

Era a isso que eu chamava o meu país,
ruínas que não quero juntar.


DEPOIS DE TEBAS

Os mortos, como sabes,
não te podem ajudar.
Confundes-te com eles, fazes teu
tudo o que não disseram.
A cabeça da mãe, na fotografia,
abençoa o crime e a desavença.
Tem óculos, sorri, no jardim com gansos
que não passavam afinal de patos.

Entraste, pelo mesmo portão,
nas casas em que se prepara a peste
e não te atreverás sequer a escrever
o insuficiente livro da infância,

o cheiro, como dizer, das tangerinas.


LAGAR

As mães, e até as que não eram mães,
achavam salutar que mergulhasses no mosto,
na promessa apenas desse vinho tinto
que ao enrijecer os músculos
despertava a alma para infâmias e paixões.

Que diriam agora, se o pudessem dizer,
essas mães? Deixa, qualquer abismo serve:
perdeste a infância e não encontraste o mundo.


CAFÉ DO HORTELÃO II

É quase um regresso. A salamandra
está no mesmo sítio, a cadela
ainda não morreu. Mas espera-me
um sorriso de viúva que em vão
procura ser igual. Não vou ter de acordar
ninguém para me servir um brandy,
uma cerveja, o vinho que arrefece
no esquife de alumínio ao lado do balcão.

O café, pequena taberna, já só abre
à tarde, por algumas horas, obedecendo
mal, como pode, à tirania do hábito.
Pergunto-me o que farão agora
os meus silenciosos amigos,
a breve confraria de álcool
que apostava comigo na infâmia.
Nunca mais vi o Pintéve, o Falcão,
desconheço onde bebem,
mas tenho a certeza que bebem.

Uma vez faltou a luz e ficámos
toda a noite em silêncio de La Tour,
encostados a um candeeiro de petróleo.

Doutra vez faltou a vida,
senhor Hortelão, a vida. Quem
pudesse pintar a ausência.




(Manuel de Freitas, Beau Séjour. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003.)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Direto de Portugal III

(Foto: Alfredo Cunha)


A NOITE ABRE MEUS OLHOS

No sangue do filho do homem
uma parcela trémula
um silêncio demasiado precioso
para a listagem das grandes transformações

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de liquens

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só


ÓSTIA

Um desses atrasos no aeroporto de Fiumicino
e eis-nos em salto desprovido por estas ruas
além do parque arqueológico
a cidade assemelha-se a um acampamento desolado
varandas cheias de caixotes e detritos
(devem ser exíguas as casas econômicas)
muros com imprecações aos de Roma
e a débil força messiânica entregue
aos ídolos do futebol

Sem darmos conta já estávamos encalhados
numa qualquer estrada secundária
junto a um matagal circundado de rede
onde um letreiro quase ao acaso
diz ter morrido
Pier Paolo Pasolini


PLÁTANOS

Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro cambaleante para a vazia escuridão
assusta-me a certas horas a companhia
do que não adormece
a resistência disso no nosso espaço
movido por outras forças

Mas também me ocorre acender primeiro a luz
e só depois
sentir um medo louco da casa que me acolhe
dos seus redemoinhos imperceptíveis
que julgo cada vez mais perto
como se estivesse para ser morto
às mãos do próprio Deus

Não sei bem acordar vivo destas coisas:
aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar


PONTOS LUMINOSOS

No silêncio basta um sopro e todo o tempo estremece
como se afasta cantando mais para dentro
a própria noite

Guardei para ti relâmpagos inúteis
prata feita de medidas vagas
a inclinada superfície implacável
cordas e alçapões

Do ponto mais alto do céu a 56 milhões de quilômetros
um dia me dirás
“desde a idade do gelo nunca estivemos tão próximos”




(José Tolentino Mendonça, A estrada branca. Lisboa, Assírio & Alvim, 2005)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Direto de Portugal II

(túmulo de Inês de Castro em Alcobaça. A foto é minha)



– Senhor – digo eu –, agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso para que o teu amor se salvasse.
– Muito bem – responde o rei. – Arranquem-lhe o coração pelas costas, e tragam-mo.
De novo me ajoelho entre os pés dos carrascos que andam de um lado para outro. Ouço as vozes do povo, a sua ingénua excitação. Escolhem-me um sítio nas costas para enterrar o punhal. Estremeço. Foi o punhal que entrou na carne e me cortou algumas costelas. Uma pancada de alto a baixo, um sulco frio ao longo do corpo – e vejo o meu coração nas mãos de um carrasco. Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida junto à minha cabeça, e nela depõem o coração fumegante. A multidão grita e aplaude; só o rosto de D. Pedro está triste, embora nele brilhe uma súbita luz interior de triunfo. Percebo como tudo está ligado, como é necessário as coisas se completarem. Não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto eu ser um assassino e o meu país ser católico. Matei por amor do amor – e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante são também criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.
O moço sobe a escada com a bandeja onde meu coração parece um molusco sangrento. D. Pedro volta-se, a bandeja aparece junto ao parapeito da janela. O rei sorri. Ergue o coração na mão direita e mostra-o ao povo. O sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade encontrar-se alguém à cabeça de um povo assim. Felizmente o rei está à altura do cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé. Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos.




(Herberto Helder, “Teorema”. Os passos em volta)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Direto de Portugal I

Foto: Gérard Castello Lopes



OS MELHORES ANOS DA MINHA VIDA

Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto.


LIBERTAÇÃO

Foi o dia em que um polido agente da autoridade
nos veio buscar a casa para nos interrogar.
Alguém havia assaltado o posto médico
e o medo da vizinhança apontara para nós.
Não sabíamos de nada, mas o nosso luto
(morrera-nos o mundo há pouco tempo)
dizia o contrário. Éramos muito jovens,
tínhamos a boca ferida de insultos. A nossa vida,
coitada, lia muitos livros de aventuras políticas,
sentia-se capaz, dizia, de dar a volta ao mundo
numa barca de cortiça. Não lhe demos confiança.
Após o depoimento ainda passei pela biblioteca
e à noite festejámos a libertação da nossa inocência.
Nunca mais pedimos sal aos vizinhos.


NÃO SEI SE SÃO OS TRINTA ANOS

Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado,
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites pra jantar.
O lamento era o meu hobby preferido.

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
a queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.


ANTI-ÉCLOGA

A verdade é que também as urtigas
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.
Não me sinto nada bem com a doçura,
com a paz dos ermitérios, de onde Deus
se retirou há quinze anos. Esta resignação
das árvores, dos faunos, das silvanas,
da restante bicharada típica dos lugares
onde sofrer é natural como estar só,
a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos
que me apertem. As sandálias do pescador,
as botas do alpinista, não me levam
a lado nenhum. Detesto confessá-lo,
mas eu sou da cidade até à raiz do terror.
Não consigo viver sem o saco de areia
onde exercito o excessivo golpe da exasperação.
Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,
torna-se pastosa, sonolenta, felizita
como um rio de meandros preguiçosos,
lamacentos, imprestáveis - de que me serve
fingir o sossego a que não chego, brincar
às Arcádias em que não acredito?
Está decidido, prefiro sofrer.
Amanhã de manhã regresso ao abismo.







(José Miguel Silva, autor de, entre outros, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Lisboa, Relógio D’Água, 2003)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Uma canção para o ano novo

All that is left is all that I hide...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A história continua

Uma mulher vai de autocarro e de repente, num cruzamento, vê-se a si mesma pela janela, vinte anos mais velha, a rir junto a um homem alto — o homem parece constrangido, como quem se quer afastar, e ela encosta a cabeça no peito dele e parece feliz. A mulher salta do lugar, toca a campainha para sair, mas o motorista não abre porque não é uma paragem, e quando cai o verde, arranca, cruza a avenida, só pára longe. Mal a porta se abre, a mulher sai a correr em sentido contrário à multidão, até avistar o homem alto.
Esta história é parte de um livro que li há dias. Os livros dão-nos um corte da vida e os livros que fazem diferença abrem um corte na nossa vida. Uma noite, antes de escovar os dentes ou mudar o alarme, sentamo-nos na cama a folhear um livro que acabámos de receber. Lemos o primeiro páragrafo, voltamos a página, e algo acontece. Não é a laçada do “best seller”, que nos amarra ao que vai acontecer. É mais como o escuro de um poço ou de um quarto. Queremos e não queremos, metemos a cabeça e voltamos a tirá-la, tentamos habituar os olhos para ver, mas não vemos nada. E então, o que realmente está a acontecer é que se abriu um corte e estamos a ser puxados. Lemos para saber o que aquilo é, com um inquietante pressentimento de que somos parte daquilo, ou aquilo era parte de nós. Trata-se de viver aquilo, e não de saber como acaba.
Vários escritores brasileiros me foram dando a boquiaberta maravilha de ainda por cima aquilo ser a minha língua, e a vez mais recente não seria a última, escrevi aqui há uma semana.
Nessa mesma noite, sentei-me na cama a folhear um livro que acabava de receber, trazido do Brasil pela autora. Li o primeiro páragrafo, que é toda uma página, voltei a página e algo aconteceu. A história terminava logo ali, mas aquilo era só o começo. Continuei a ler sem perceber bem o que lia, com a rara sensação de que isso não tinha importância porque quando chegasse ao fim voltaria ao princípio. O fim era estar dentro daquilo —aquele quarto, aquela casa, aquela box de chuveiro, aquela mesa de restaurante, aquele labirinto, aquele autocarro, e habituar os olhos ao escuro.
Quem respirava ali? Quem falava? Homem, mulher, planta ou animal? Velho ou novo? Morto ou vivo? E o que estava a acontecer? Um enlace ou uma ruptura? Um sonho, uma visão, uma memória? O passado de alguém ou o meu futuro?
Ao longo de cem páginas, julguei avistar Kafka, e vi mesmo Borges, Blake, Poe, Raduan Nassar ou Clarice Lispector. Mas na verdade aquilo não se parecia com nada. Aquilo era “O Vôo Noturno das Galinhas”, da brasileira Leila Guenther. Contos-cortes, brevíssimos como um bater de asas, deixando à vista toda a galáxia que é uma cabeça.
Há livros em que tudo parece acontecer mas nada muda. Há livros em que tudo muda e nada parece acontecer.
Enquanto estivermos vivos a história continua.

(Alexandra Lucas Coelho*, jornal Público, seção "Viagens com Bolso", Lisboa, 18/12/2009)

* Jornalista do Público, autora de Oriente Próximo (Relógio D'Água, Lisboa, 2007), sobre os conflitos entre israelenses e palestinos, e de Caderno Afegão (Tinta-da-china, Lisboa, 2009)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Duas poetas de Minas

A MENOR PARTE

Que letra foi gravada em minha alma?
Qual palavra me formou?
Ando, caminho por corredores iluminados
pelos laranjas e amarelos das fotografias.
Trago as unhas escuras como as de quem procurou
por objetos na casa incendiada.

Venta sobre o mármore:

Esqueceram-me.


(Adriana Versiani dos Anjos)




permanece na língua
o sabor de lima

e é doce -
como diz a memória

essa fruta
colhida
fora do tempo


(Mariana Botelho)

domingo, 22 de novembro de 2009

Quando Alice encontrou K


Quando ali se encontrou cá, ou seja, quando desse lado do espelho – aqui –, Alice encontrou K, K lhe mostrou um inseto num tribunal. E assim ensinou a Alice que a vida às vezes é absurda, mas nunca matemática. Alice se esqueceu do coelho, do gato, mas não do baralho, e então entendeu que tinha sido expulsa de lá pelo próprio pai. Uma vez do lado de cá do espelho da verdade, foi posar madura e quase nua para um fotógrafo pálido e arquejante, aos nove anos de idade.




(Leila Guenther)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antologia canina III - Os cães de Tokushima


Os cães de Tokushima merecem aqui menção particular, já pelo porte, já pelos costumes.
Como porte, são em regra magníficos, de grande corpulência; possivelmente, parentes próximos dos cães de luta da província de Tosa, não muito distante, pouco mestiçados com a canzoada reles que eu encontrava em Kobe.
Como costumes, convém saber que os cães de Tokushima vivem em geral em perfeita liberdade, conhecendo muito pouco a coleira e ainda menos a corrente. Têm seus donos nominais; mas acontece que, por miséria, ou por mesquinhez, ou por indolência, quase deles não cuidam. Os cães de Tokushima pouco se ralam por este fato; conhecem os donos vagamente; dormem em qualquer parte, pelas ruas; todos os dias, por duas ou três vezes, fazem visitas domiciliárias a uma certa clientela humana, furando pelos cercos dos jardins, saltando os muros, invadindo os pátios, indo até às vizinhanças das cozinhas, cheirando, rebuscando pelo lixo, devorando aqui uma espinha, ali um resto de batata; e vão embora, graves, dignos, com ares de verdadeiros agentes, que são, da manutenção da higiene pública.
Os cães de Tokushima, menos favorecidos da fortuna do que os cães de outros países, desconhecem o prazer do osso. É o caso que a gente desta terra, que até há poucos anos, como a grande maioria dos japoneses, não comia carne de vaca, come-a agora, mas vendida apenas em pedaços miúdos de febra, que se prepara em casa, em suki-yaki, isto é, guisando-a com cebolas, com açúcar e outros condimentos; o osso é excluído da caçarola doméstica.
Quanto às pesquisas domiciliárias destes industriosos visitantes, devo dizer, para lhes completar o caráter, que por várias vezes tenho estendido mão carinhosa àqueles, uns sete ou oito em número, que frequentam o meu lar.
A princípio, o gesto fazia-os fugir, apavorados; agora, suportam-no sem espanto, morno o olhar. O cão de Tokushima desconhece o uso das festas e as carícias; se as recebe por acaso, não sabe retribuí-las; quer comer, não quer festas. No respeitante ao seu grau de civilização, encontra-se ainda quase selvagem, quase nômade; não é ainda o companheiro, o amigo do homem; é, quando muito, o seu parasita, cauteloso e desconfiado.
É bem de ver que o homem de Tokushima também ainda não é o amigo do cão. Sê-lo-á um dia, certamente, com o andar dos tempos, quando confiar menos na sua boa estrela e nos homens, seus irmãos. Quanto a mim, a afeição humana pelos brutos é um sentimento emanado do agro das desilusões e dos revezes recebidos na existência social; quem sofre com os homens busca consolação fora deles.



(Wenceslau de Moraes, O Bon-Odori em Tokushima. Porto, Companhia Portuguesa Editora Ltda.)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Antologia canina II - Do canto XVII da Odisseia



Respondendo-lhe assim falou o sofredor e divino Ulisses:
“Compreendo o alcance do que dizes: falas a bom entendedor.
Mas vai tu à frente; eu ficarei para trás, aqui neste sítio.
Estou habituado a levar pancada e a apanhar com coisas em cima.
O meu coração aguenta: pois já muito sofri no mar
E na guerra. Que isto agora se junte ao que já aguentei.
Um estômago cheio de fome é que nenhum homem pode esconder,
Coisa terrível, que muitos males traz aos mortais.
É por causa da fome que as naus de belos bancos são lançadas
No mar nunca vindimado, trazendo flagelos a pobres desgraçados.”

Assim falaram entre si, dizendo estas coisas.
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
Criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
Para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
O cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
Jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
Até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Ali jazia o cão Argos, coberto de carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
Começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
Só que já não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

“Eumeu, que coisa estranha que este cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
Se tem rapidez que condiga com o seu belo aspecto,
Ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
Que os príncipes alimentam somente pela sua figura.”

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
“É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspecto e as capacidades que tinha
Quando o deixou Ulisses, ao partir para Troia,
Admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
Que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas agora está nesta desgraça: o dono morreu longe,
E as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhe dão ordens,
Não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
Quando chega para ele o dia da sua escravização.”

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
E foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
Depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.




(Homero, Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003.)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O céu que nos protege


(Ryuichi Sakamoto, "The sheltering sky")


A morte está sempre a caminho, mas o fato de você não saber quando ela chegará parece excluir da vida sua finitude. É aquela terrível precisão que tanto odiamos. Mas, porque não sabemos, pensamos na vida como um poço inesgotável. Mesmo assim, tudo acontece apenas um número fixo de vezes, e um número bem pequeno, na realidade. Quantas vezes mais você se lembrará de uma certa tarde de sua infância, uma tarde tão profundamente enraizada no seu ser que você sequer pode conceber a vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais você vai contemplar o surgimento da lua cheia? Talvez vinte vezes. E, ainda assim, tudo parece ilimitado.


(Paul Bowles, O céu que nos protege. A tradução do trecho é minha)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Antologia canina (na feliz expressão de Carpeaux) I - A ilha Oxias


Essas perseguições nos países do Leste não são nada se comparadas ao que, em outra época, aconteceu na Turquia. O desenhista e escritor Sem as testemunhou. As ruas de Constantinopla eram célebres por sua população de cachorros, animais tranquilos, sociáveis. Pierre Loti dizia que gostava muito deles. Eram milhares. Em 1910, a polícia decidiu eliminá-los. Mas eles não foram mortos: foram deportados para uma ilha do mar de Marmara, a ilha Oxias. Sol a pino, sem água, sem comida.
Sem viu a rede de cães que os curdos prendiam com enormes ganchos de ferro. Eles eram jogados, “ofegantes como simples armênios”, em carroças puxadas por búfalos. Regularmente, gabarras carregadas de jaulas levavam novas vítimas para a ilha. Oxias, a distância, chamava a atenção por seu fedor. Milhares de cães e pássaros disputando as carniças lutavam até mesmo na água, sobre a qual flutuavam os cadáveres. Muitos se afogavam.
Eis o que os homens faziam aos cães enquanto não aplicavam os mesmos métodos aos seus semelhantes.



(Roger Grenier. Da dificuldade de ser cão. Trad. Lucia Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um trecho de Marguerite Duras

Um dia, já idosa, no saguão de um lugar público, um homem veio em minha direção. Ele se apresentou e me disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando era jovem, eu vim para lhe dizer que, para mim, é mais bonita agora do que quando era jovem, eu gostava menos de seu rosto de moça do que esse que você tem agora, devastado.”
Penso com frequência nessa imagem que apenas eu vejo e da qual nunca falei. Ela está lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É, entre todas, aquela que mais me agrada, aquela na qual me reconheço, aquela que me encanta.
Muito rápido na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos já era muito tarde. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se com todo mundo é assim, eu nunca perguntei. Parece que já me falaram desse acometimento do tempo que às vezes nos acerta enquanto atravessamos os anos mais jovens, os mais celebrados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços um a um, mudar a relação que existia entre eles, tornar os olhos mais proeminentes, o olhar mais triste, a boca mais definida, marcar a fronte com sulcos profundos. Em vez de me apavorar com isso, vi esse envelhecimento se operar no meu rosto com o interesse que eu teria levado no desenrolar de uma leitura. Eu sabia também que não me enganava, que um dia ele desaceleraria e tomaria seu curso normal. As pessoas que me conheceram com dezessete anos na época de minha viagem a França ficaram impressionadas quando me viram de novo, dois anos depois, aos dezenove anos. Aquele rosto, o novo, eu o guardei. Ele foi o meu rosto. Continuou envelhecendo, sim, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, uma pele sulcada. Não é caído como certos rostos de feições finas, os contornos se mantiveram, mas sua matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.


(Marguerite Duras, O amante. A tradução do trecho é minha)

Lobos

- Você gosta de mim?, perguntou, agachando-se, até que seus olhos ficassem na altura dos de seu interlocutor. O cão a fitou com o mesmo olhar límpido de sempre. Ela sorriu, talvez de si mesma. Fazia vários dias que os lábios não executavam esse movimento. Fazia tempo que ela não tinha vontade de contrair nenhum músculo em sinal de alegria por estar viva. Ela era injusta. Era uma perfeita estranha até para si mesma. Precisava tanto dos outros que fugia deles. Ela simplesmente não saberia como. Como reclamar para si o direito a uma amizade, por exemplo. Como dizer para a colega da classe do inglês que fossem tomar um café. Os outros eram perfeitos estranhos. E ela não saberia. Por isso perguntava ao cão. Esse cão que a suportava todos os dias, todos os momentos, e cuja companhia, para ser sincera, ela preferia à de qualquer outro ser humano, na falta de lobos. Ela não precisava fazer nada. Ele não precisava também. Eles se seguiam pela casa. Só isso. Ela falava com ele, quando a vontade de comunicação, de articular algum som, parecia estar prestes a irromper de sua garganta como um vômito, do qual alguém tem pressa em se livrar, mas para o qual não se quer olhar mais, uma vez expelido. E ficava intimamente grata que ele não pudesse responder.
Quando a solidão e o estranhamento a abalavam a ponto de sentir náusea, era a ele que se agarrava e que abraçava com uma fúria tal que temia quebrar-lhe os ossos pequenos e frágeis. Era assim que ela fazia. Só para se lembrar de quem era. (Ela sonhava com uma matilha. Com lobos nos quais se pudesse fiar apenas pelo cheiro.)

(Leila Guenther)

sábado, 26 de setembro de 2009

Das perdas

(Ayde Veiga Lopes. Sem título)


Por alguns momentos, sentado numa das últimas poltronas, ele teve a impressão de que o veículo tombaria, derrubado pelos ventos do temporal. Isso, aliado ao fato de pensar, com angústia, no que o aguardava, o impedira de dormir, por meia hora seguida. E, com a angústia, ele se esquecia de respirar, esse ato para ele tão voluntário como todas as coisas que tentava controlar. De repente, com a interrupção do ar, sentia-se sufocar, com o coração palpitando de tal forma que julgava suas batidas perceptíveis ao vizinho do lado. Então dava um grande suspiro e tentava pensar com mais calma no motivo por que estava fazendo aquela viagem, depois de tão longa ausência. Julgara que o afastamento o colocaria a salvo da saudade, da dor, da impotência de resguardar tudo o que lhe era caro, quando ele na verdade só fazia despertar, de forma aguda e nas horas felizes, esses sentimentos de que um dia tentara se libertar. Talvez a paz de espírito tivesse estado perto de onde julgava mesmo estar o problema, ou talvez essa paz não fosse algo que ele, do jeito que era, achasse digno de atingir um dia, onde quer que estivesse. 
Quando o ônibus chegou aos arredores da cidade, notou que tudo estava lá, em seu devido lugar, quase sem mudanças, mas definitivamente perdido. O mal-estar da viagem cessara. No lugar dele, veio uma dor mais concreta e palpável: o sofrimento de não conseguir vislumbrar o mundo sem algo muito importante. Um mundo – o seu mundo – amputado, ao qual faltava um pedaço impossível de ser refeito. Se ao menos ele acreditasse que haveria um depois, algo além, um deus, por assim dizer, ele estaria mais tranquilo, seria até capaz de suportar, mas ele tivera a infelicidade de herdar do pai, aquele pai estranhamente submisso, uma profunda falta de fé. O pai, ao menos, tentara. Esforçara-se para adquirir algo que não tinha, e nunca teria, e por isso ficou louco, murmurando sempre e apenas “por que me abandonaste?” não a deus, mas ao próprio filho. Mas ele nunca teria ido tão longe. O mais longe que fora não era distante de onde sempre esteve. E agora estava de volta.
O ônibus chegou à rodoviária às 9h da manhã. A viagem tinha durado mais do que as dez horas habituais, por causa da chuva que caíra durante boa parte do percurso.
Ao desembarcar, trazia consigo uma pequena maleta, uma garrafa de água e um sanduíche que não conseguira comer. Sentiu-se perdido e, como sempre acontecia nessas situações, só. Apesar de toda aquela gente que movimentava o terminal, ele era incapaz de enxergar alguma coisa. E, mesmo se alguém lhe dissesse “eu o levo pela mão”, ele não poderia ouvir. Tudo lhe parecia abandonado, derruído. Resolveu se sentar um pouco no banco mais próximo da saída a fim de tomar força. Precisava de força, de uma coragem que ele não tinha tido nem mesmo quando partira, há anos. Só hoje se dera conta de que ter ido embora dali não fora um ato de coragem, mas uma retirada desastrada de alguém que, na fuga, deixa cair da valise vários pertences pelo caminho.
Esteve a ponto de chamar um táxi. Tentou fazer um gesto, mas o que seria dele se perdeu no ar. Ficou olhando a fila dos carros, nos quais entravam pessoas cujo destino se ignorava, a quem talvez aguardassem provações mais penosas que a dele. Só ele não conseguia. Ele sabia que era diferente, não para o bem, mas para o mal: era apenas um feto pela metade, que não poderia nunca ter vindo à luz. Diversos táxis partiram levando passageiros, sem que ele se decidisse a tomar um. Chorou impassível como um espectador no cinema que se emociona, com certo pudor, com um drama alheio e fictício. Estava cansado. Não podia se mover. Os pensamentos cessaram e sua cabeça ficou pairando num estranho vazio durante muito tempo. Depois, quase recomposto, olhou o relógio, voltando a si. Já anoitecia. O enterro devia ter terminado. Com esforço, separou algum dinheiro, jogou na lixeira a garrafa de água, o sanduíche e a maleta, e dirigiu-se ao guichê para comprar uma passagem de volta.

(Leila Guenther)


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Bardos II



Suzanne

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.

(Leonard Cohen)