(Anistia Internacional)
domingo, 23 de setembro de 2018
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
Brasil, 1945
Não existe revolução moderada, não existe revolução
dirigida – como se diz, também, economia dirigida. Isso que anunciamos se fará
contra a totalidade do sistema atual, ou não se fará. Se pensássemos que este
sistema é capaz de se reformar, que ele pode romper por si mesmo o curso de sua
fatal evolução para a Ditadura – a Ditadura do dinheiro, da raça, da classe ou
da Nação –, certamente nos recusaríamos a correr o risco de uma explosão capaz
de destruir coisas preciosas, que só se reconstroem com muito tempo,
perseverança, altruísmo e amor. Mas o sistema não mudará o curso de sua
evolução pela simples razão de que ele já não evolui; apenas se organiza no
intuito de durar um pouco mais, de sobreviver.
(Georges Bernanos, A França contra
os robôs. trad. Lara Christina de Malimpensa. São Paulo, É Realizações, 2018)
Quando a paz começa dentro
(Heitor Dhalia, On Yoga: Arquitetura da Paz)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Hiam Abass no Brasil
Hiam Abass é atriz e diretora palestina. Atuou em filmes como Paradise Now, Blade Runner 2049, Lemon Tree, Munique, Free Zone e O Visitante, e dirigiu Inheritance.
domingo, 22 de julho de 2018
Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco
Meu poema "15 de março de 2018" está na antologia Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco (Quintal Edições/ Mulherio das Letras), organizada por Marilia Kubota, Eliane Mara e Cidinha da Silva. O livro será lançado no dia 27 de julho, às 19h30, na Casa do Desejo, em Paraty, durante a FLIP.
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segunda-feira, 4 de junho de 2018
Sem rosto & sem nome
A arte da revista Alagunas para ilustrar meu poema sem nome. A edição, com mais dois de minha autoria, pode ser vista, em dois formatos, aqui.
Participam deste número:
Alberto Lins Caldas || Alessandra Barcelar || Amanda Lins || André Mellagi || Caio Augusto Leite || Carla Andressa || Cid Brasil || Claudia Beata Leal || Daguito Rodrigues || Eduard Traste || Felipe Teodoro || Gabriele Rosa || Geovanne Otavio Ursulino || Henrique Pitt || Ibu Jean Rocha || Juliana Buccioli || Jussara Salazar || Karen Pimentel || Leandro Bachiega || Leila Guenther || Lucas Litrento || Lucas Perito || Marcus Groza || Matheus Guménin Barreto || Munique Duarte || Ruy Proença || Tiago Dias || Tito Leite ||
Tenho
mais de quatro décadas e não tenho história
Nem remédio que me conserte
Sempre suspeitei de um grau de autismo em minhas palavras
E que morreria por ser incapaz de comprar pão
Passo longos dias sem escutar minha voz
Longas páginas onde não atendo o telefone
Porque esqueço que ele toca
Vontade de perguntar à Elza como se inventa uma voz
Como se constrói a própria narrativa
Como fingir que se pertence a um país, fato ou família
Às vezes, muito raramente, sonho
Com um porão gigante que devora tudo o que há na superfície:
Quartos com camas king size se repetem e se sucedem
Sem que ninguém se deite nelas
Porque estão todos na varanda dormindo
Encostados uns nos outros
Depois de tomar veneno
Nem remédio que me conserte
Sempre suspeitei de um grau de autismo em minhas palavras
E que morreria por ser incapaz de comprar pão
Passo longos dias sem escutar minha voz
Longas páginas onde não atendo o telefone
Porque esqueço que ele toca
Vontade de perguntar à Elza como se inventa uma voz
Como se constrói a própria narrativa
Como fingir que se pertence a um país, fato ou família
Às vezes, muito raramente, sonho
Com um porão gigante que devora tudo o que há na superfície:
Quartos com camas king size se repetem e se sucedem
Sem que ninguém se deite nelas
Porque estão todos na varanda dormindo
Encostados uns nos outros
Depois de tomar veneno
sábado, 5 de maio de 2018
Amuleto
Nem
trevo de quatro folhas
foto de filho, mãe ou marido
medalhinha da Virgem
lentilha do ano novo passado
bilhete de loteria
moeda furada
origami de pássaro
cordão umbilical
oração da prosperidade
mensagem de biscoito chinês
pirâmide de cristal
fitinha do senhor do Bonfim
folha de arruda
caroço de romã
olho grego
sachê de sal grosso
rosário bento
ou nota de dólar:
trevo de quatro folhas
foto de filho, mãe ou marido
medalhinha da Virgem
lentilha do ano novo passado
bilhete de loteria
moeda furada
origami de pássaro
cordão umbilical
oração da prosperidade
mensagem de biscoito chinês
pirâmide de cristal
fitinha do senhor do Bonfim
folha de arruda
caroço de romã
olho grego
sachê de sal grosso
rosário bento
ou nota de dólar:
na
carteira, dobrada em dois,
só a fotografia em preto e branco
de um pôr do sol em Marte
só a fotografia em preto e branco
de um pôr do sol em Marte
sábado, 31 de março de 2018
Autorretrato aos vinte anos
Me deixei levar, peguei o bonde andando e não soube nunca
para onde poderia ter me conduzido. Ia cheio de medo,
meu estômago ficou embrulhado e minha cabeça zunia:
devia ser o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, achei que era uma pena
acabar tão cedo, mas por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você escuta ou não escuta, e eu o escutei
e quase caí no choro: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, encostei o meu rosto
no rosto da morte.
E para mim foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
embora encravado em uma realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbados, porém todos latino-americanos,
de rosto colado com a morte.
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terça-feira, 20 de março de 2018
quinta-feira, 15 de março de 2018
15 de março de 2018
(Marielle Franco, 1979-2018)
Venho repetindo
com a consciência do fracasso
os passos de sempre
à procura de mim
à procura de um chão para chamar de país
desde a primeira luz da manhã
que me faz ver o que não quero
até a escuridão da noite
em que me prometem o esquecimento do que vi
com a consciência do fracasso
os passos de sempre
à procura de mim
à procura de um chão para chamar de país
desde a primeira luz da manhã
que me faz ver o que não quero
até a escuridão da noite
em que me prometem o esquecimento do que vi
Há quem lute em meu lugar
Há quem morra no lugar de todos
Há quem nos mate todos os dias
Há quem morra no lugar de todos
Há quem nos mate todos os dias
Hoje
“Ficaram velhas todas as notícias.”
“Ficaram velhas todas as notícias.”
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Vida prática
[para Leila Guenther]
mais uma dúzia
de cliques
e serei fera
na meditação
caminhando
vinte e dois livros
e trinta filmes
que me garantem
o ingresso
no universo
do minimalismo
dó ré mi fá
depois de todos
esses vídeos
vai faltar corda
para tanta fluência
no violão
mil páginas
sobre os segredos
da ióga e da yôga
me prenderam
a esta cadeira
por semanas
mas já sinto
os músculos
elásticos
aulas online
sobre os desafios
da maratona
e minhas pernas
já não são
as mesmas
no entanto
a maravilha
dos poemas alheios
e o receituário
dos hermeneutas
mais tomam
que dão os versos
que eu deveria
escrever
(Tarso de Melo)
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presentes
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
Vem comigo
Por isto estou aqui em tua
companhia:
pelo Chile, por sua azul soberania,
pelo oceano dos
pescadores,
pelo pão dos meninos que
cantam,
pelo cobre e pela luta no escritório,
pelo cobre e pela luta no escritório,
pela nossa agricultura e
pela farinha,
pelo bom companheiro e pela amiga,
pelo bom companheiro e pela amiga,
pelo mar, pela rosa e pela
espiga,
por nossos compatriotas esquecidos,
por nossos compatriotas esquecidos,
estudantes, marinheiros ou
soldados,
pelos povos de todos os países,
pelos povos de todos os países,
pelos sinos e pelas
raízes,
pelos caminhos e pelas
trilhas,
que levam à luz o mundo
inteiro
e pela vontade libertadora
das bandeiras vermelhas na aurora.
das bandeiras vermelhas na aurora.
Com esta união estão
minhas alegrias.
Luta comigo e eu te
entregarei
todas as armas de minha poesia.
todas as armas de minha poesia.
(Pablo Neruda, traduzido
por Marcelo Donoso e por mim)
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Poemas da vertigem
(Tomoko Kawao, Vertigo-memai#1)
ausência presença
de muitos jeitos
fui te perdendo
pelos caminhos
fui te perdendo
pelos caminhos
tuas
palavras
já sem sentido
esvaziando
os labirintos
já sem sentido
esvaziando
os labirintos
de muitos modos
perdi o senso
já sem saída
ouvindo estrelas
perdi o senso
já sem saída
ouvindo estrelas
só deuses
bebem néctar
nós sorvemos
lágrimas
bebem néctar
nós sorvemos
lágrimas
*
mundo flutuante
estou ao lado de quem
não tem ninguém
o lado mais escuro
do céu que flutua
no mesmo lugar
estou ao lado de quem
ficou pra trás
estou ao lado do vento
tentando parar
o trem violento
depois da tempestade
esqueça quem
ficou a teu lado
estou do lado de quem
comigo olha o céu que flutua
no mesmo lugar
ao lado de quem
ainda sonha
quando ninguém mais
quer ficar atrás
*
o poeta
para
o poeta
antissocial,
demente,
existe
a poesia:
rua
onde se estende
sua
voz confusa.
para
os não poetas
existem
edifícios:
vida
é construção.
o
poeta só tem como meta
destruir-se.
destituir
a linguagem dominante
demitir
a vida de todos os dias
que
pede amor –
amor
em faixas douradas
e
sorrisos contagiantes.
para
o poeta existe a poesia:
não
entrará
no
círculo dos eleitos
mancha
mal-estar
insuportável
e
a possibilidade
de
rachar todo o edifício.
*
wabi sabi
para
celso setogutte
a
vida quebra
sonhos
em pedaços
mas
sonhando no espaço
nada
quebra:
mais
um elo,
um
motivo,
ser
mais belo
que
a beleza
destruída.
(já
havia aviso de asas)
*
arrebate
a
beleza da orquídea
e
a deixe em paz
*
um
cadáver
estendido
no açucareiro:
luto
no formigueiro
(Marilia Kubota)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Chomsky de ninar
Estou em "A voz pública da poesia", manifesto organizado pelo escritor Ronald Augusto contra o “torpor que se abateu sobre intelectuais, artistas e escritores como grupos produtores de reflexão, crítica e resistência ao leviatã do retrocesso ao qual o país está submetido” (GGN, o jornal de todos os Brasis). Meu poema surgiu da percepção de que, em meio ao caos, o som da voz de Noam Chomsky me tranquiliza os nervos.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
Salmo: romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor
"Salmo —
romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor, de Gorenstein, escritor, dramaturgo e
roteirista de Andrei Tarkóvski, sem dúvida é um dos romances mais complexos da
literatura mundial. Como já o havia feito Mikhail Bulgákov em Mestre e Margarida, surge na realidade
soviética um enviado do céu: este enviado é Dã, o Anticristo, que aparece entre
falantes da língua russa.
Percebido pela população como
um judeu de fora, um forasteiro, que fora enviado no período da realização dos
grandes flagelos divinos (a fome, a espada, a luxúria e a doença) no país, é
uma espécie de Fausto russo. Façanha
assombrosa e intrigante, seu principal componente é a voz do Altíssimo, na
tradição bíblica, que fala através dos profetas. Em Salmo são
tratados temas gerais, em especial a questão judaica, mas não só.
As cinco partes do romance se
passam entre os anos 1930 e 1970, período de provas terríveis para os russos e
ucranianos, durante o qual o Anticristo é testemunha de momentos decisivos da
história soviética. Gorenstein (1932–2002) utiliza passagens bíblicas como base
de seu enredo, mas o faz a sua maneira: transporta-as diretamente para o século
XX — a fome nos anos 1930, a invasão dos nazistas durante a Segunda Guerra
Mundial, a evacuação, o pós-guerra, a censura stalinista dos anos 1950.
Em seu projeto mais
ambicioso, o autor certamente delineia uma polêmica com Dostoiévski ao eleger o
Anticristo como seu herói: mas este não surge como inimigo de Cristo, mas como
também filho de Deus e seu irmão."
Mais
informações:
- Friedrich Gorenstein, Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor. Trad. Irineu Perpétuo e Moissei Mountian. Editora Kalinka, 2017.
- Lançamento do livro e conversa com a editora Daniela Mountian e os tradutores no dia 28/10, às 11h, na Casa do Saber (Rua Doutor Mário Ferraz, 414, São Paulo).
- Livro de roteirista de Tarkóvski ganha tradução; leia trecho inédito (Folha de São Paulo)
- Livro de roteirista de Solaris narra vinda de Anticristo à Terra (Estado de São Paulo)
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Meridianos
AUTO DO RETRATO
Este corpo não é meu
Visto-o como emprestado
a algum nobre antepassado
que dentro em mim se escondeu
Esta alma não é minha
Habita apenas o eterno
inútil espaço de um terno
que com o corpo caminha
Não é minha a cicatriz
que desenharam nos ombros
Nem esses olhos de escombros
Tampouco o queixo e o nariz
De mim apenas o gesto
o olhar, o passo, a ironia
a fútil genealogia
de tudo que sobra e é resto
PONTOS DE ACUPUNTURA
aqui onde passa o meridiano do coração
outrora foi o Mar da China
5.000 arqueiros de armaduras reluzentes como o sol
lançavam incendiárias flechas atonais de suas flautas
para saudar o equinócio de pérolas da Dinastia T’ang
mas o crisântemo desarmonizou-se com a nota kung
e os lótus se afogaram na décima primeira lua
descíamos a vau para as montanhas tibetanas de Kung Lu
onde o céu e a terra engendram as dez mil coisas
rompendo o Portão do Inferno e o Portão da Nuvem
para a conferência anual das quatro estações
em que os ancestrais se reúnem próximo
à cortina do bambu de seda
e o verão descansa a cabeça no travesseiro de jade
para ouvir a sutra da palavra tranquila
transcorria o Ano da Serpente e era o Hexagrama 58
movimento e repouso em algum lugar do vazio
o Grande Yang e o Pequeno Yin convocaram
para o sacrifício imperial
as artemísias em fogo e os espinhos de metal
para restabelecer o fluxo das águas na energia
da vida
e o Rio Amarelo tornou a fluir nas
correntezas das veias
como um peixe que nadasse livre entre musgos e líquenes
POEMA QUASE-LÁPIDE
um dia ficarei tão leve
que os pássaros cruzarão o meu coração
e nem o seu canto poderá ferir-me
(Luís Augusto Cassas)
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Yami no Ichinichi e o Perigo Amarelo
(Mario Jun Okuhara, Yami no Ichinichi: o crime que abalou a colônia japonesa no Brasil)
Para mais informações, ver "'O japonês é como o enxofre… insolúvel': identidade nacional, raça e violência de estado" (Outra Coluna: Resistência Asiática e Solidariedade Antirracista).
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017
domingo, 10 de setembro de 2017
Três anos esta noite
Para Marcelo Donoso
Era um provérbio
Foi um redondilho
E desde então será sempre verdade
Ao algoz da Noite
Agradeço cada dia que nasceu depois da morte
Há três anos ou trinta que estes mesmos dias
São sempre outros
Porque você inventa novos idiomas
Com os quais escrevo nossa história
Que é - sobretudo -
Uma História dos que Voltaram a Cantar
(Jamais nos calaremos novamente)
Nesta hagiografia a música celebra os "males que
Foi um redondilho
E desde então será sempre verdade
Ao algoz da Noite
Agradeço cada dia que nasceu depois da morte
Há três anos ou trinta que estes mesmos dias
São sempre outros
Porque você inventa novos idiomas
Com os quais escrevo nossa história
Que é - sobretudo -
Uma História dos que Voltaram a Cantar
(Jamais nos calaremos novamente)
Nesta hagiografia a música celebra os "males que
[vêm pra bem", o certo das linhas tortas
E as palavras alcançam todos os centímetros do templo maior.
E as palavras alcançam todos os centímetros do templo maior.
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