terça-feira, 31 de julho de 2012

"À noite" em espanhol

Conto meu na Fundación Tomás Eloy Martínez, da Argentina

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A descoberta dos livros

Nasci um ano após a morte de meu avô Gracilia­no Ramos. Só fui conhecer sua obra depois de adulto. Meu pai, o também escritor Ricardo Ramos, quis que o lêssemos (meu irmão e eu) quando estivésse­mos prontos. Entenda-se isso por quando tivéssemos adquirido o hábito de leitura e fôssemos capazes de identificar, compreender e gostar de um bom texto. Ele achava, com razão, que o velho Graça não era um autor para crianças, nem fácil o suficiente para despertar o interesse de não iniciados.
As minhas mais remotas lembranças estão rela­cionadas com livros. Em casa, lia-se muito. Os velhos cedo encontraram uma forma eficiente de nos envol­ver com eles, através de um artifício inteligente. Era um tempo diferente. Pensem em cerca de quarenta e poucos anos atrás. Na época as crianças tinham horário para tudo, inclusive de ir para cama. Dia­riamente, às oito e meia da noite, quando cantavam na televisão, ainda em branco e preto, a musiquinha dos cobertores Parayba, não adiantava discutir. Em todas as casas, meninas e meninos de pijama e banho tomado dirigiam-se para seus quartos.
Conformados ou revoltados, arrastando ou ba­tendo os chinelos, reclamando o que podiam, após a odiada senha televisiva “Já é hora de dormir…”, levantavam-se e recolhiam-se para o sono diário. Não esperavam mamãe mandar. Meu irmão e eu, porém, gozávamos de um privilégio que talvez mui­tos de nossos amigos não tivessem: podíamos ficar acordados uma hora a mais, desde que em nossas camas, lendo.
Assim iniciamos o hábito de nossas vidas. Abastecidos sistematicamente por papai, sempre preocupado em nos alimentar com o que havia de melhor, rapidamente ampliamos em muito esse tempo dedicado aos heróis imaginários. Aquela hora inicial multiplicou-se em muitas. Líamos sempre que podíamos. Começamos, é claro, com Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que li. Lembro que aos sete anos de idade pedi a minha avó Heloísa, viúva de Graciliano, que me contasse uma história. Ela começou a ler e depois terminei sozinho. A imagem que criei de Dona Benta, por sinal, foi guiada pelos sentimentos que tinha em relação à Vó Lozinha, como chamávamos vovó. O mesmo tipo de carinho, atenção aos netos, disposição para gastar tempo com eles. Eu gostava muito também de Tia Nastácia, admirava a audácia da Emília, era um pouco indiferente à Narizinho e queria ser igual ao Pedrinho. Achava o Visconde meio chato.
Monteiro Lobato durou boa parte de nossa infân­cia. Não se lançavam contra o autor as injustiças que se cometem hoje. Acusações ligeiras feitas a partir de frases sem o contexto de época, bastante diferente deste nosso, do mundo em que vivemos agora.
A nossa formação foi bem ampla. A coleção do Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, chegou numa caixa, parecia um brinquedo. E realmente nos diver­timos muito com aquele homem meio-macaco. São também relacionadas a ele as primeiras lembranças que tenho de cinema. Influenciados tanto pelas aventuras que líamos, como pelo que víamos na tela grande, imitávamos, batendo no peito, o grito de desafio de Johnny Weissmuller.
Júlio Verne fez-nos olhar para o futuro, o contato inicial com um prenúncio de ficção científica. Coração, de Edmondo de Amicis, foi o primeiro livro que me fez chorar, tive um choque, a noção, ainda que intuitiva, de que estava frente a frente com um texto importante. E muitos outros autores: Mark Twain, Jack London, Viriato Correa, Daniel Defoe, Francisco Marins e Alexandre Dumas. O romance A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, foi uma de nossas paixões. Lembro da cara de papai quando nos entregou aquele tijolo, ele tinha a certeza da boa escolha.
Depois veio Moby Dick, de Herman Melville e até hoje, quando vejo o mar, lembro-me da grande baleia branca. Uma autora pouco conhecida no Brasil arrebatou nossos corações e mentes: Laura Ingalls Wilder. Era muito difícil parar de ler as aventuras daquela família de colonos americanos. Nossa hora permitida de leitura antes de apagar a luz rapida­mente foi burlada. Mamãe vinha dar boa noite, nos beijava, e retirava-se, fechando a porta do quarto. Ficávamos um tempo em silêncio. Então acendíamos nossos abajures e continuávamos, bem quietinhos, na casa da floresta, à beira do riacho, ou às margens da lagoa prateada. Era comum vararmos as madruga­das. A manhã várias vezes surpreendeu-nos trazendo o momento de irmos para a escola..
Aos poucos sem que percebêssemos, fomos migrando para obras adultas. Apareceram livros que mostravam o nosso idioma muito bem tratado, os nossos melhores clássicos: Machado de Assis, José de Alencar, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Mário e Oswald de Andrade e, o óbvio, Graciliano Ramos. Papai, de maneira didática, falava alguma coisa sobre o autor que nos iria apresentar. Um dia ficamos sabendo que existia Ernest Hemingway. Visivelmente admirava aquele escritor mais do que a média. Indicou-nos primeiro O velho e o mar. Hoje, quando olho para trás, penso nos truques de Ricardo Ramos. Publicitário que foi, imagino ter usado técnicas de propaganda para vender o produto livro aos filhos.
O certo é que comprávamos direitinho as indica­ções dele. Quando concluímos Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, Ilhas da corrente e Paris é uma festa, deu-se por satisfeito. Tinha começado o ciclo americano. Havia uma certa ordem a seguir. Conhe­cemos então Scott Fitzgerald e William Faulkner. E vieram os russos Turguêniev e Dostoiévski. Guerra e paz, de Tolstói, era a preferência maior de papai, declarada em todas as oportunidades. Mais tarde os ingleses Charles Dickens, Jane Austen, Conan Doyle e Virginia Woolf. Ler os franceses foi delicioso: Os Thibault, de Roger Martin du Gard, preparou o terreno, ótimo início, completado anos depois por Zola, Flaubert, Balzac, Stendhal e Proust. E passamos por todos os gêneros. Difícil escolher o meu livro, o de que mais gostei. Talvez A montanha mágica, de Thomas Mann.
Hoje, depois de percorrer incontáveis páginas, cheguei à conclusão que é fundamental variar. De­pois de uma obra difícil, um policial pode cair bem. Alternar contos com poesia, romances e ficção cien­tífica, novelas depois de teatro, melhora o cardápio substancialmente. Sempre leio alguma coisa antes de dormir. O hábito vindo da infância nunca me abandonou. Quando estou muito cansado, o sono batendo forte, pego alguma coisa mais leve. Daí a conveniência de se ter alternativas diferentes.
A consequência imediata de tanta leitura, na es­cola, foi escrever direito. Tanto meu irmão quanto eu tirávamos boas notas. Minhas redações eram sempre elogiadas. Havia uma professora, em especial, que ao terminar meus textos, lidos invariavelmente em voz alta na classe, o que me deixava encabulado e infeliz, dizia: “Filho e neto de peixe, peixinho é”. Sempre me incomodou essa frase. Pelo que guarda de inverídico, de falso, de injusto. Ouvi a vida toda falarem em genética. Peguei-me muitas vezes pensando sobre isso. Tenho irmãos que escrevem bem. Minha irmã, temporã, que nasceu dez anos depois da gente, seguiu o mesmo caminho. Tenho tios, primos e sobrinhos com textos publicados. Seria o sangue de Graciliano tão forte assim? Decididamente não. Aceitar essa ideia seria crer no mágico, no sobrenatural, fazer uma análise superficial sobre a realidade. Nada se constrói sem esforço. Quando somos competentes, há sempre uma razão concreta para isso. Ligada à força de vontade, ao estudo, ao trabalho pessoal.
Tenho amigos que se queixam dos filhos. Falam da falta de capacidade dos seus meninos, incapazes de dar sentido a uma frase. Pergunto então se gostam de ler. Não gostam. A resposta está aí. Em nossa família, nascemos e vivemos em casas rodeadas por livros. Gostamos de tudo num livro. Do formato, da textura, do cheiro. Estantes, livrarias, sebos, bancas de revistas e bibliotecas exercem tremendo fascínio sobre nós. Escrever bem, como já disse, é consequên­cia. Duvido que a carga sanguínea adiantasse alguma coisa se tivéssemos ficado longe da leitura.
Papai não acreditava em inspiração. Dizia que se fosse esperar a vontade chegar, não teria escrito. Poucos vi serem tão metódicos. Diariamente, de domingo a domingo, sentava-se para escrever. Dizia que era um trabalho como outro qualquer. Hora para começar e terminar, disciplina, planejamento. Com ele aprendi que é preciso estar atento ao cotidiano.
Tudo o que vai para o papel parte de observação. Era comum vê-lo agradecer. Dizia, sorrindo: “Obriga­do, você acaba de me dar um conto”. E corria para a máquina. Se os sons fazem parte de nossa memória, o martelar das teclas de ferro imprimindo as palavras ficou lá gravado para sempre. Ainda hoje sou capaz de ouvi-lo. E buscando no passado a sensação que me provocava, percebo que variava, não havendo um padrão único. Às vezes, um ritmo constante, triunfante, celebrando o resultado obtido, feliz. Espécie de música, os dedos de meu pai dançando no teclado da velha Remington. E então, como se houvesse um impedimento súbito, o ba­rulho metálico cessava por completo. Um silêncio pesado e triste pairava no ar. Segundos, minutos, instantes de incerteza. E o matraquear podia recomeçar cheio de ale­gria, ou não. E aí, como consequência da não aprovação do autor, a página corria rápida no rolo de impressão, era arrancada rispidamente do equipamento, e rasgada com resignação. A busca era retomada.
Com muita paciência, dia após dia, vi Ricardo Ramos atrás da precisão, da melhor maneira de dizer o que havia para ser dito, sem nunca perder o rigor, o valor estético, o bom gosto. Essa exigência extremada, na minha opinião, levou-o mais frequentemente ao conto do que a outro gênero. É fácil comprovar isso. Ele mes­mo tinha essa consciência: “Sou metódico no hábito de escrever. Capricorniano típico, apesar de não crer em horóscopo, gosto de escrever rapidamente a tarefa a que me propus, até para ficar livre dela e começar outra. Não que o texto não seja retrabalhado. Talvez com conto isso seja mais fácil, mais possivelmente finito, do que com romance”.
Muito de que li de papai parecia ser releitura, como se tivesse havido um contato anterior com aquele texto. Por dois motivos: o retrato do cotidiano muitas vezes compartilhado; o fato de em tantas ocasiões ouvir a leitura do texto, em voz alta, para mamãe. Opinião bastante presente, capaz de sugerir alterações e avaliar. O autor sempre anseia por uma resposta, quer mostrar o que produziu, precisa de público. Talvez por isso eu utilize tanto a facilidade de ter um blog. Os comentários são quase que imediatos.
Sempre me perguntam qual obra prefiro de Ricardo Ramos. Há nos dias de hoje uma necessidade imediata de classificação. Fugindo um pouco dos contos, sua especialidade, tenho um carinho especial pela novela Os caminhantes de Santa Luzia. Depois de ler esta história várias vezes, percebi que poderia, facilmente, ser filmada. Trabalhei um bom tempo no roteiro. Acabo de concluí-lo.
Convivi com escritores em casa. Gostava de ficar quieto, num canto, escutando as discussões literárias que muitas vezes aconteceram lá. Nas feijoadas de sábado compareciam, com maior ou menor assiduidade, gente como José Paulo Paes, Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira, Ignacio de Loyola Brandão, Raduan Nassar, os irmãos Marcos Rey e Hernâni Donato, Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Gilberto Mansur e Vivina de Assis Viana.
Entre as várias histórias que ouvi sobre meu avô, uma sempre é comentada e está entre as mi­nhas preferidas. Em janeiro de 1929, então com trinta e sete anos, Graciliano enviou ao governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município de Palmeiras dos Índios, onde exercia o cargo de prefeito. Esse texto, com muita qualidade literária, chegou às mãos do poeta e editor Augus­to Frederico Schmidt. Impressionado, procurou o autor para saber se ele tinha outros escritos que pudessem ser publicados. O livro Caetés estava na gaveta, aguardando oportunidade. Schmidt rece­beu os originais e partiu, no mesmo dia, para uma noitada na Lapa. Mais tarde, atarantado, percebeu haver perdido aquela cópia. Um ano depois, Jorge Amado, o ilustrador Santa Rosa, José Américo de Almeida, e o intelectual e militante comunista Alberto Passos Guimarães, amigos e admiradores de Graciliano, insistiram na edição do romance, e Schmidt encontrou-o esquecido no bolso de uma capa de chuva. Finalmente, a publicação aconteceu, mas a fama de editor desorganizado ficou.
E então eu estava pronto, resolvi reler Graciliano. O contato com a obra de meu avô foi o mais diferente dos impactos com textos que eu tive. Ele dizia as coisas de maneira tão característica que dispensava assinatura. Eu podia identificar qualquer parágrafo lido, em qualquer lugar, isolado, como sendo dele. Aos poucos, avançando página após página, conse­gui abandonar o orgulho bobo de neto. Consegui analisá-lo como escritor, guardar distância suficiente para ler, apenas ler. E aquele parente do qual ouvira falar a vida toda perdeu o distanciamento e ganhou uma intimidade real. Deixou de ser o avô imaginado, o motivo de vaidade na escola, o herói das histórias que vovó contava, o vovô Grace. Passou a ser o escritor Graciliano Ramos, com a reverência respei­tosa devidamente guardada. Exemplo impossível e possível. A consciência de que ninguém escreverá como ele. O ensinamento de que o texto é para ser trabalhado e retrabalhado. Enxuto. Que as palavras não obedecem ao acaso, há sempre um jeito melhor de se apresentar uma ideia e temos de encontrá-lo, procurá-lo à exaustão. Escrever não é fácil, é penoso e preciso. E então percebi a necessidade de escrever. Procuro, modestamente, seguir os conselhos que Graciliano deu em entrevista concedida em 1948: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar, como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

(Ricardo Ramos Filho, “A descoberta dos livros”. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios Graciliano Ramos. Duetto Editorial)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que os pit bulls podem nos ensinar sobre criminalidade

(...) Claro que nem todos os pit bulls são perigosos. A maioria não morde ninguém. Enquanto isso, os dobermanns, dogues alemães, pastores-alemães e rottweilers são mordedores frequentes também, e o cachorro que dilacerou uma francesa fazendo com que recebesse o primeiro transplante de rosto do mundo foi, por incrível que pareça, um labrador. Quando dizemos que os pit bulls são perigosos, estamos fazendo uma generalização, assim como as seguradoras usam generalizações quando cobram mais caro dos homens jovens pelo seguro automobilístico e os médicos usam generalizações quando recomendam aos homens obesos de mais-idade que verifiquem a taxa de colesterol (embora muitos homens obesos de meia-idade jamais sofrerão de problemas cardíacos). Como não sabemos qual cão morderá alguém, quem sofrerá um ataque cardíaco ou quais motoristas vão se envolver em acidentes, só podemos fazer previsões generalizando. (...)
Outra palavra para generalização, porém, é estereótipo, e os estereótipos não costumam ser considerados dimensões desejáveis de nossas tomadas de decisão. O processo de passar do específico ao geral é ao mesmo tempo necessário e perigoso. Um médico poderia, com algum respaldo estatístico, generalizar sobre homens de certa idade e peso. Mas e se a generalização de outros traços – como pressão arterial alta, histórico familiar e tabagismo – salvasse mais vidas? Por trás de cada generalização está uma opção de quais fatores incluir e quais excluir, e essas opções se mostram surpreendentemente complicadas. Após o ataque a Jayden Clairoux, o governo de Ontário optou por generalizar sobre os pit bulls. Mas poderia também ter optado por generalizar sobre cães fortes, sobre os tipos de pessoas que têm cães fortes, sobre crianças pequenas ou sobre cercas no quintal – ou, na verdade, sobre várias outras coisas ligadas a cães, pessoas e lugares. Como saber se fizemos a generalização certa?
(...)
A proibição de pit bulls envolve um problema de categoria também, porque os pit bulls, na verdade, não são uma raça única. O nome se refere a cães pertencentes a várias raças relacionadas, como terrier Staffordshire americano, o Bull terrier Staffordshire e o pit bull terrier americano – todos compartilhando um corpo quadrado e musculoso, um focinho curto e um pelo luzidio e curto. Desse modo, a proibição de Ontário inclui não apenas essas três raças, mas qualquer “cão que tenha uma aparência e características físicas que sejam substancialmente semelhantes” a elas. O termo técnico é cães do “tipo pit bull”. Mas o que isso significa? Um cruzamento entre um pit bull terrier americano e um golden retriever é um cão tipo pit bull ou do tipo golden retriever? Se pensar em terriers musculosos como sendo pit bulls é uma generalização, pensar em cães perigosos como sendo substancialmente semelhantes a pit bulls é uma generalização sobre uma generalização.
(...) Os pit bulls não foram criados para atacar seres humanos. Pelo contrário: um animal que atacasse os espectadores, seu treinador ou qualquer das pessoas envolvidas no adestramento de cães de briga costumava ser sacrificado. (A regra no mundo dos pit bulls era: “Devoradores de homens devem morrer.”)
Um grupo sediado na Geórgia chamado American Temperament Test Society (ATTS) submeteu 25 mil cães a um exercício padronizado de 10 etapas projetado para avaliar a estabilidade, a timidez, a agressividade e a cordialidade de um cão em companhia humana. Um treinador conduz o cão numa guia de 1,80m e julga sua reação a estímulos como tiros, um guarda-chuva se abrindo, um estranho em trajes esquisitos se aproximando de forma ameaçadora. Oitenta e quatro por cento dos pit bulls submetidos ao teste passaram, o que situa os pit bulls à frente de beagles, airedales, collies barbudos e todas as variedades do dachshund exceto uma. “Testamos cerca de mil cães do tipo pit bull”, diz Carl Herkstroeter, presidente da ATTS. “Eu testei a metade. E daqueles que testei reprovei um só pit bull por tendências agressivas. Eles se saíram muito bem. Eles têm um bom temperamento. São muito bons com crianças.” Pode-se até argumentar que os mesmos traços que tornam o pit bull tão agressivo com outros cães fazem com que sejam tão bons com seres humanos. “Existem vários pit bulls que são cães terapeutas licenciados”, observa a escritora Vicki Hearne. “Sua estabilidade e determinação fazem com que sejam excelentes no trabalho com pessoas que poderiam não gostar de um tipo de cachorro mais animado e volúvel. Quando os pit bulls resolvem confortar, são tão determinados quanto na luta, mas determinados em ser gentis. E como não sentem medo, podem ser gentis com qualquer um.”
Então quais são os pit bulls que se metem em confusão? “Aqueles visados pela legislação possuem tendências agressivas que são geradas pelo criador, ensinadas pelo treinador ou reforçadas pelo dono”, diz Herkstroeter. Um pit bull violento é um cão que ficou assim em decorrência da reprodução seletiva, do cruzamento com uma raça maior e agressiva com os seres humanos, como pastores-alemães ou rottweilers, ou do condicionamento que os leva a expressar hostilidade contra seres humanos. Portanto um pit bull é perigoso para as pessoas não na medida em que expressa sua natureza essencial de pit bull, mas na medida em que se desvia dela. Uma proibição é uma generalização sobre uma generalização sobre um traço que, na verdade, não é geral. Eis um problema de categoria.

(Malcom Gladwell, O que se passa na cabeça dos cachorros. Trad. Ivo Korytowski. Rio de Janeiro, Sextante, 2010)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Build a bridge to her


(Björk, "Sacrifice", Biophilia)

sábado, 21 de abril de 2012

Porque Frida Kahlo existiu

(Frida Kahlo, Diego e eu)

Quando Frida era criança, esta casa era branca e vermelha. Uma grande casa de família arruinada. O pai, Guilhermo, fotógrafo nascido na Alemanha, tinha de gastar muito do seu tempo a fazer retratos de famílias para ganhar dinheiro. A mãe, Matilde, foi ensombrando entre os partos, e foram cinco (o único bebé varão morreu).
Mas havia irmãs e amigos, o espírito insolente do grupo de escola, este jardim de árvores tropicais, a rua onde bulia uma intimidade mexicana, indígena, arcaica. Coyoacán foi o mundo de Frida como o Yorkshire foi o mundo de Emily Brontë. E tal como Emily também Frida cresceu a saber o que poucos aprendem: que o amor é o mais forte instinto de sobrevivência, mais forte do que a fome.
Ela não se apaixonou inesperadamente por Diego. Em adolescente ouviu falar naquele Pantagruel tantos anos mais velho, várias vezes casado e separado e pai de filhos, e decidiu que seria ele. Então apareceu-lhe no ateliê, diz a lenda.
As pessoas normais perdem tempo a pensar no que deviam ter feito, e algumas pessoas vêem o que há a fazer como uma pedra. Ser diferente podia ter acabado com Frida, mas ela estava destinada a viver contra todas as previsões. De uma forma um pouco cosmogónica – mas estar aqui ajuda-nos a não ter medo disso –, estava destinada a alterar para sempre o México. Porque Frida Kahlo existiu, o México é mais forte, mais complexo, mais desarmante. Na dor como no riso, ela continua os deuses e portanto é o futuro.
É uma crença antiga, a de que os deuses marcam os seus. Frida tornou-se diferente logo em criança, quando uma poliomielite a deixou com uma perna atrofiada. Frida perna-de-pau, cantavam as crianças. As crianças, todas as crianças, são ajudantes de deuses, marcam os diferentes. Olhem para os retratos de Frida, ela está quase sempre de saia até os pés. Vem daí aquele lema, que não tem nada de ressentimento e tem tudo de vitalidade: defenderse de los cabrones.
E Diego – principio / constructor / mi niño / mi novio / pintor / mi amante / “mi esposo” / mi amigo / mi madre / mi padre / mi hijo / yo / universo – foi esse instinto primordial que a fez levantar o pescoço mesmo depois de 35 operações à coluna, vários abortos, a amputação dos dedos do pé e a seguir da perna.
Talvez, se um deus a marcou, outro lhe tenha dado Diego para que ela encontrasse a cada dia uma razão maior. Se assim foi, Frida Kahlo sobreviveu devido a Diego Rivera, mas Diego existiu para que Frida Kahlo vivesse.

(Alexandra Lucas Coelho, Viva México. Edições
Tinta-da-China, 2010)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Partes homólogas

A história que escrevi sobre os irmãos siameses Wang e Chu, "Partes Homólogas", já está no número 13 de Desenredos.

Cicatrizes doem



3
Sou lírica.

Trago lábios tensos e a lâmina que barbeou
meu pai a quem beijei antes da morte.

Meses inteiros na câmara escura, a luz
me remete a impropérios de toda ordem.

Sou lírica.

4
Estrume no canteiro dos mortos, olho
encantada essa desintegração, esse novo
alimento. Somos nós a nova geração de seres
que se alimentam de veneno puro, três doses
de veneno puro e só existem chapéus e um
canal que liga as Américas. A minha fonte
primordial anda suspensa, na corda bamba
da decadência: Veneza sucumbindo às águas.
Trago na mala a navalha com a qual retalhei
meu pai. Era tarde? Mastiguei um pouco da
carne e os cães brancos me perseguiram.
Nevava nos trópicos, os rios congelando e eu
correndo e pulando de um bloco para outro.
Lavei o sangue da navalha no canal que liga as
Américas.


(Adriana Versiani dos Anjos. A lâmina que matou meu pai. Edições Lâminas do Brasil. Belo Horizonte, 2012)

quinta-feira, 8 de março de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Desmontando a árvore






As boas leituras de 2011

1. 1933 foi um ano ruim, de John Fante. Trad. Lúcia Brito. Porto Alegre, LP&M. 2003.



2. 28 contos, de John Cheever. Trad. Jório Dauster e Daniel Galera. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.


3. A fazenda africana, de Karen Blixen. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.



4. De verdade, de Sándor Márai. Trad. Paulo Schiller. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.



5. Desonra, de J.M. Coetzee. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.



6. Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo, Cosac Naify, 2010.



7. Hiroshima, de John Hersey. Trad. Hildegard Feist. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.


8. O buda do subúrbio, de Hanif Kureishi. Trad. Celso Nogueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.



9. O coração é um caçador solitário, de Carson McCullers. Trad. Sônia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.



10. O náufrago, de Thomas Bernhard. Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.



11. Partículas elementares, de Michel Houellebecq. Trad. Juremir Machado da Silva. Porto Alegre, Sulina, 1999.



12. Samarcanda, de Amin Maalouf. Trad. Denise Bottman. São Paulo, Brasiliense, 1991.



13. Para ler como um escritor, de Francine Prose. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2008.



14. The hound of the Baskervilles, de Arthur Conan Doyle. London, Penguin, 2009.



15. Uma passagem para a Índia, de E.M. Forster. Trad. Cristina Cupertino. São Paulo, Globo, 2005.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um poema de presente

O TEMPLO DE LEILA E A CHAVE QUE PERDI


para Leila Guenther



Noite de pouquíssimas estrelas, cavalos trotam ladeira abaixo,
Leila não escreve.
Imagino-a,
seu sopro é forte.

Cabelos negros e os brincos que lhe trouxe no último Natal.
Tenho esperança:
porque ainda não me foi permitido o poema, porque o
                      [poema não é para mim que roço entre
                 [as pedras da rua esse graveto retirando
                        [gramíneas ou planta rasteira, que porventura
                                                     [cresça ali, naquele espaço.
Sei Leila que me cobre com seus cabelos negros e de seus
                                           [brincos que tocam minha testa.
Ouço o ar que ela respira, como no último Natal.
Cavalos trotam e uma pulsação ladeira acima.
São muitos os telhados.
Imagino-me.

O sol trinca a superfície, mina uma água da parede lateral
                  [do abrigo e as mãos de Leila estão marcadas.
Desenho círculos de giz no cimento do quintal.
Quando nasci deixaram-me na piscina ligada aos azulejos
                                                                          [do fundo.
Meus olhos são azuis e não preciso respirar.
A fumaça negra cobre a água.
Leila me afaga com suas marcas.

Feridas nas pontas dos dedos.
Tenho esperança.
Uma luz queimou meus olhos que desaprenderam a ler.
Meio dia, Leila e o som de seus cabelos espalham poeira
                                                                      [de minério.
Bateias esquecidas na margem do rio,
balaios.
Ouço os ferros.
Imagino-me.

(Adriana Versiani dos Anjos, Dezfaces n.3, Belo Horizonte, junho/julho 2011)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A permanência do figurativo II: Andrew Wyeth

Christina's Teapot




Master Bedroom


Winter Fields


Long Limb




Ides of March



Geraniums






Christina's World




Wind from the Sea




Helga




And bells on her toes



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O self-made man

Para ele tudo começou num momento de silêncio estilhaçante. Alguma coisa desprendeu-se e caiu. Instintivamente, seu coração compreendeu que essa ‘coisa’ era a idéia há tanto tempo acalentada de si mesmo como um indivíduo, uma entidade norte-americana chamada ‘self-made man’. Algo aprendido através de gerações de ancestrais irascíveis com a mesma linha dura do queixo e o mesmo nariz adunco. Tinha retratos deles no consolo de pedra de sua lareira. Ferrotipos do tempo da Guerra Civil, do seu tetra-tetra-tetravô, um homem chamado Lemuel P. Dodge, que perdeu uma orelha lutando pelo norte, um braço lutando pelo sul e finalmente foi enforcado por ‘adultério’ em Ojinaga e arrastado pelas ruas de terra até a cabeça se separar do tronco. Havia outros, homens com longas barbas e chapéus de palha com abas largas enfileirados no alto de gigantescas carroças de feno, forcados de madeira na mão, quase bíblicos contra o céu da pradaria. Ferroviários em vagões de gado, abanando chapéus-coco, explodindo as montanhas de granito para abrir caminho, determinados na sua convicção do ‘Destino Manifesto’. Depois, gerações seguintes, já com o misterioso lampejo da dúvida insinuando-se nos olhos. Pilotos de caça com capacetes de couro e echarpes de seda segurando as asas de um P-38, mas o bravo sorriso para as câmeras mostra agora uma sombra, como de ovelha que sabe que sua hora chegou.
Às vezes ele ficava à noite estudando aqueles rostos, o fogo tremeluzindo sobre a laje da lareira. Apanhava os porta-retratos para examinar melhor e andava pela sala lentamente, fumando e inclinando o vidro para evitar o brilho das chamas. Sentava com os retratos no colo e os limpava suave e carinhosamente com seu grande lenço azul. Sentia haver ali uma conexão, mais real do que se podia imaginar. Mais real do que os parentes vivos espalhados pelos mais remotos cantos do país, lugares que ele não tinha a menor intenção de visitar, como Tampa ou Seattle. Lugares que era como se estivessem no outro lado da Lua. A solidão era um fato da natureza, pensava. Tinha aprendido a não olhar além dela, evitar a traição da mente no que dizia respeito a mulheres, evitar toda a fantasia da sedução. Nunca valeu apena, no passado. Não podia confiar na mente para isso. Só lhe trouxe o terrível sofrimento. Agora, finalmente, chegava a um pequeno armistício consigo mesmo.
Levantou-se e pôs a foto no lugar, sobre a lareira. A de seu avô dirigindo uma caminhonete Modelo T, rebocando uma mula. Deteve-se algum tempo na imagem, ouvindo as corujas que alimentavam os filhotes no topo da velha tulipeira no quintal. Era um ritual noturno pelo qual esperava ansiosamente toda primavera. Costumava apanhar a lanterna e sair silenciosamente para a varanda, iluminando o tronco largo e fendido até prender o ninho num perfeito círculo de luz. Nesse ano eram dois os filhotes, e ficaram quietos assim que a luz atingiu seus olhos. A mãe, inclinada sobre eles, tinha uma pequena cobra negra nas garras. Virou de costas para a luz e bateu as asas, depois se acalmou. Filhotes da primavera revoaram chilreando, na frente da cena, substituindo os gritos estridentes das corujas, depois desaparecem, suas vozes abafadas pelo ronco distante de um caminhão a caminho do sul. Ele desligou a lanterna, esperando que as corujas recomeçassem a gritar, esperando que alguma coisa viesse ocupar o silêncio imóvel e crescente. Tentou ouvir bezerros mugindo à distância. Nada aconteceu. Procurou ouvir algum sinal do vento. Nada. Pigarreou para, pelo menos, ouvir a si mesmo, sentir a própria presença. Soou como o ruído de um homem. De qualquer homem. Um ser humano sem nada que o distinguisse. Como se um estranho estivesse ao seu lado na varanda. Virou a cabeça. Não havia ninguém. Apenas sua respiração. O sangue pulsando. Fez menção de falar, mas “com quem?”, pensou. “Dizer o quê? De que adianta?” Seu coração acelerou e toda a sua linguagem interior parecia ter se acumulado num nó latejante na base da nuca. Queimava como uma noz pequena e negra, fechando sua garganta. O pânico começou a dominá-lo. Já não havia nenhuma fronteira entre sua pele e a noite, entre sua respiração e o ar denso que o rodeava. Voltou-se para a árvore negra e maciça e olhou para cima. O olho da coruja mãe piscou para ele. Amarelo, depois negro. Os olhos dele desapareceram. O vazio o encheu por completo. Parecia correr em suas veias, tomando cada pensamento, cada sentido. Não deixou nada para trás, exceto a sensação dominante da própria respiração. Uma pulsação que ele não criava nem controlava. “Paz”, pensou. Com a rapidez do pensamento, a paz o deixou.


(Sam Shepard, Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)

domingo, 30 de outubro de 2011

A permanência do figurativo I: Edward Hopper

Room in Brooklyn




New York Movie



Nighthawks



Stairway




Morning Sun


Gas




Early Sunday Morning



Room in New York



Seven a.m.



House by the Railroad


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A teoria da vontade de morrer



Kitosch era um jovem nativo a serviço de um jovem fazendeiro branco de Molo. Uma quarta-feira de junho, o colono emprestou sua égua marrom a um amigo, para que este fosse à estação tomar o trem. Mais tarde, mandou Kitosch buscar a égua, ordenando-lhe que não a montasse em nenhuma hipótese, e que a trouxesse pelo cabresto. Kitosch, porém, saltou sobre a égua e cavalgou por todo o caminho de volta. No sábado, seu patrão foi informado da desobediência por alguém que vira o nativo sobre ela. E, na tarde de domingo, como punição, fez com que Kitosch fosse açoitado e depois amarrado num galpão, onde, na noite de domingo, viria a morrer.
(...)
Kitosch não teve muita oportunidade de exprimir sua intenção. Como estava trancado no galpão, sua mensagem foi expressa de modo singelo, com um único gesto. O vigia noturno declarou que ele havia chorado a noite toda. Mas não deve ter sido assim, pois à uma da manhã ele conversou com o toto que estava no galpão. Ele pediu ao menino que gritasse, pois o açoitamento o ensurdecera. À uma hora ele pediu ao toto que afrouxasse as amarras em seus pés, dizendo que de qualquer modo ele não poderia fugir. Quando o toto atendeu ao seu pedido, Kitosch disse-lhe que queria morrer. Pouco depois, ele se virou para um lado e para o outro, exclamou “Vou morrer!” e morreu.
Três médicos testemunharam no julgamento.
Para o médico-cirurgião do distrito, que realizara a autópsia, a morte fora causada pelos ferimentos e lesões que encontrara no corpo. Na opinião dele, nenhum cuidado médico imediato poderia ter salvo a vida de Kitosch.
No entanto, os dois médicos de Nairóbi, convocados pela defesa, eram de outra opinião.
De acordo com eles, o açoitamento em si não foi suficiente para provocar a morte. E um fator importante tinha de ser levado em conta: a vontade de morrer de Kitosch. Sobre essa questão, o primeiro médico afirmou que podia falar com autoridade, pois já vivera vinte e cinco anos no país e sabia como pensavam os nativos. Muitos médicos poderiam confirmar que o desejo de morrer, num nativo, poderia de fato ocasionar a morte. No caso em discussão, isto era especialmente evidente, uma vez que o próprio Kitosch deixara claro que queria morrer. E o outro médico o apoiou nesse ponto de vista.
Era bem provável, prosseguiu então o médico, que se Kitosch não tivesse tomado essa atitude, ele não teria morrido. Se, por exemplo, ele tivesse se alimentado, talvez não perdesse o ânimo, pois é sabido que a fome diminui a coragem. E acrescentou que o ferimento do lábio talvez não tivesse sido ocasionado por um chute, mas poderia ser apenas uma mordida do próprio Kitosch, desesperado com tanta dor.
O médico, além disso, acreditava que Kitosch só havia tomado a decisão de morrer após as nove horas, quando aparentemente havia tentado fugir. Tampouco ele morrera antes das nove. Ao ser surpreendido na tentativa de escapar, e ser amarrado de novo, o fato de ser um prisioneiro, segundo o doutor, poderia ter pesado em sua decisão.
Os dois médicos de Nairóbi então apresentaram suas conclusões sobre o caso. A morte de Kitosch, segundo eles, fora causada pelo açoitamento, pela fome e pela vontade de morrer, sendo esta última motivo de especial ênfase. O desejo de morrer poderia, disseram ainda, ter se originado como consequência do açoitamento.
Após o testemunho dos médicos, o caso passou a girar em torno daquilo que foi chamado no tribunal de “a teoria da vontade de morrer”. O médico-cirurgião do distrito, que fora o único a examinar o corpo de Kitosch, rejeitou essa teoria, e deu como exemplo pacientes seus com câncer que, mesmo querendo morrer, não haviam conseguido tal objetivo. Viu-se, porém, que todos eles eram europeus.
No final, o veredito do júri foi “culpado de lesões graves”. O mesmo veredito coube aos nativos implicados, mas levou-se em conta que, como haviam agido por ordem do patrão, um europeu, seria injusto enviá-los para a prisão. O juiz então determinou que fosse aplicada uma sentença de dois anos de reclusão no caso do colono, e de um dia no dos nativos.
Ao lermos os autos do processo, percebemos como é desconcertante e humilhante para os europeus o fato de os nativos poderem, por conta própria, decidir o momento em que querem abandonar a vida. A África é a terra materna dos nativos e, seja o que for que lhes fazemos, quando resolvem partir eles o fazem por sua livre e espontânea vontade, porque não desejam mais ficar. A quem cabe a responsabilidade pelo que se passa numa casa? Ao seu dono, àquele que a herdou.
Por causa do acentuado senso do que é certo e decoroso, a figura de Kitosch, com seu inquebrantável desejo de morrer, embora há tantos anos removida de nossa presença, se destaca com uma beleza toda própria. Nela ganha corpo a fugacidade das coisas selvagens que, na hora da necessidade, sabem que podem buscar refúgio em alguma outra parte. Aqueles que partem por livre e espontânea vontade, esses nunca podemos agarrar.




Karen Blixen (Isak Dinesen), A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

O selo "Sereia Ca(n)tadora" marca a volta da revista Babel com livro do escritor peruano Óscar Limache

"Sereia Ca(n)tadora" é um selo editorial de livros artesanais criado para marcar a volta da publicação da revista de poesia Babel. O primeiro título é um livro-piloto da coleção, que será realizada em associação com o Centro Camará de Pesquisa e Apoio à Infância e Adolescência, envolvendo jovens atendidos pela entidade em São Vicente, São Paulo, Brasil.
(...) o selo "Sereia Ca(n)tadora", no espírito cartonero, se somará à rede de editoras criadas na América Latina, juntando-se às brasileiras "Dulcineia Catadora" e "Katarina Kartonera", ampliando o espaço de intercâmbio entre escritores locais e de outros países, como "Eloísa Cartonera", na Argentina, o "Sarita Cartonera" no Peru, o "Yerba Mala" na Bolívia, "Yiyi Jambo" no Paraguai, Animita no Chile, "La Cartonera" no México, entre outros que já chegam a quase 20.
Esses projetos, muitas vezes associados, abrem a possibilidade de divulgação de escritores por toda a América Latina, trabalhando na contramão do mercado editorial que não tem interesse por poesia ou sequer conexão com a literatura produzida contemporaneamente. Daí o sentido especial do selo "Sereia Ca(n)tadora" publicar como livro-piloto do projeto um livro de Óscar Limache, traduzido pelo jornalista e escritor Alessandro Atanes. A escolha simboliza essas trocas e experiências editoriais que captam a gênese da contemporaneidade, repercutindo um movimento que se expressa na América Latina: nascido da crise através de uma solução que busca a simplicidade baseada em ideais comunitários e cooperativos, além de ecológicos e sociais, os livros são feitos com papelão catado nas ruas ou adquirido de cooperativas de catadores e papel reciclado, com capas pintadas uma a uma artesanalmente. Isso transforma os livros em objetos de arte, na contramão da tendência tecnológica que apregoa o seu desaparecimento para se transformar em algo virtual, encontrando uma relação lúdica com novos e antigos leitores, que faz o sucesso desses selos editoriais.
O selo "Sereia" vai publicar uma coleção de poetas da América hispânica traduzidos e uma coleção de poetas brasileiros ampliando o trabalho da revista que, assim como o selo Sereia, são editados pelo escritor Ademir Demarchi com um coletivo de colaboradores.
O primeiro título da coleção é o livro Voo de identidade, um sobrevoo poético sobre as Linhas de Nasca, série de inscrições de dimensões gigantescas desenhadas no deserto peruano antes da Era Cristã. Com sua poesia, Limache venceu o principal prêmio literário de seu país, o Copé de Oro e, apaixonado por poesia brasileira, traduziu em 2009 Preparativos de viagem, de Mário Quintana.
O livro foi feito com papelão catado nas ruas e teve as capas elaboradas uma a uma por Ademir Demarchi, Alessandro Atanes, Carmem Lúcia Brandalise e Paulo de Toledo; impressão por Alessandro Atanes e Marcelo Ariel e encadernação feita por Ademir Demarchi. O desenvolvimento do selo será feito no ano que vem [2011] pelo coletivo do Centro Camará com jovens atendidos pela instituição.






Títulos publicados até agora:

Voo de identidade (edição bilíngue), de Óscar Limache


HI-KRETOS e outras abstrações, de Paulo de Toledo


A morte de Herberto Hélder e outros poemas, de Marcelo Ariel


Olho por olho, de Regina Alonso


O amor é lindo, de Ademir Demarchi


Mal d'orror, de Paulo Franchetti


Oco do mundo, de Marco Aurélio Cremasco


O subidor de montanhas, de Mauro Faccioni


Dedo-de-moça, de Carlos Vogt


Este lado para cima, de Leila Guenther