quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O dom do jasmim

Ela era destruição. Não podia negar que não fosse. Que não carregasse, como uma cicatriz, o sinal dos párias. O toque de Midas ao contrário, de modo a arruinar tudo o que tocasse. E ela não sabia não ser assim. Por várias vezes tentara, mas, antes de olhar para baixo, vinha a vertigem que lhe roubava a corda sobre a qual se equilibrava. E, quando dava por si, já tinha posto tudo a perder. Não era como uma tentação que se acercava: era como se ela fosse o próprio diabo caído. Tinha uma necessidade brutal de chacoalhar tudo, de tornar as coisas vivas a seu modo, pela violência, pela crueldade, pela dor. Para sobreviver a isso, alguns fugiram, mas, quando davam por si, tudo o que desejavam era ter de volta aquilo que os matava, buscando, de forma patética, o que haviam desdenhado com horror. Porque o extremo das coisas sempre fascina. Porque os vivos preferem existir no limite. Ele, ao contrário dos outros, tinha permanecido, mas, para compor a frágil estabilidade que lhe permitisse viver dela sem morrer disso, viajava com frequência sob diversos pretextos. Ela fingia acreditar neles. Quando ele partia, ela punha o perfume que ele tanto odiava porque lhe lembrava o cheiro da morte, dos cemitérios abandonados onde algumas plantas secam e outras vicejam em desordem. Ela punha o perfume para si mesma, sem saber que com isso realçava sua sina. Ela o usava até que ele voltasse. E ele voltava, pois sabia afinal que o espetáculo de um vulcão em erupção não era menos belo só porque assolava uma cidade.


Leila Guenther. Texto publicado em Ciência e Cultura (http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252010000200028&script=sci_arttext).


 

terça-feira, 7 de julho de 2009

Da salvação pelas obras




Em um outono, em um dos outonos do tempo, as divindades do Xintó congregaram-se, não pela primeira vez, em Izumo. Diz-se que eram oito milhões, mas sou um homem muito tímido e me sentiria um pouco perdido entre tanta gente. Além disso, não convém lidar com cifras inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que o oito é, nessas ilhas, de bom agouro.
Estavam tristes, mas não o demonstravam, porque os rostos das divindades são kanjis que não se deixam decifrar. No verde cume de um monte sentaram-se em roda. De seu firmamento, ou de uma pedra ou um floco de neve, vinham vigiando os homens. Uma das divindades disse:
“Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui para criar o Japão e o mundo. As águas, os peixes, as sete cores do arco, as gerações das plantas e dos animais, tudo isso saiu a contento. Para que tantas coisas não os enfastiassem, demos aos homens a sucessão, o dia plural e a noite una. Outorgamos-lhes também o dom de ensaiar algumas variações. A abelha continua repetindo colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou uma arma invisível que pode ser o fim da história. Antes que esse fato insensato aconteça, eliminemos os homens”.
Ficaram pensando. Outra divindade disse sem pressa:
“É verdade. Eles imaginaram essa coisa atroz, mas também esta, que cabe no espaço que suas dezessete sílabas abarcam”.
Entoou-as. Estavam em um idioma desconhecido e não pude entendê-las.
A divindade maior sentenciou:
“Que os homens perdurem”.
Assim, por obra de um haiku, a espécie humana se salvou.



(Jorge Luis Borges, Atlas. Trad. Sérgio Molina. Globo, 1999)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Você, de quem nunca estou distante

Não consigo lembrar de como era antes de conhecer você. Será que sempre fui como sou hoje? Lembro-me de estar perdido. Tenho certeza disso. Vagando. Indo de uma mulher para outra. Ficando, às vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que a perplexidade delas era maior que a minha. Pelo menos, era o que parecia. Mas não me lembro de me sentir tão nervoso antes, tão desgastado. Eu as observava de uma certa distância, tomando banho de esponja em suas pias, raspando bolas negras com lâminas de barbear, movendo-se como rainhas em câmara lenta. Então, elas se transformavam nas garotas de antigamente, com risadinhas nervosas e dobrando as pernas longas sob o corpo. O modo como andavam com passos macios com os saltos altos e depois sacudiam o cabelo como os cavalos agitam a cauda.
Mas de você não guardo nenhuma distância. A cada movimento seu, sinto como se viajasse em sua pele. Cada olhar seu para fora da janela é como se estivesse completamente sozinha e sonhando com outros tempos. Não adianta balançar meus braços, acenando. Agora, tudo está ao contrário.



(Sam Shepard. Cruzando o paraíso. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo, Mandarim, 1996)






sexta-feira, 19 de junho de 2009

A mulher mais linda da cidade

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.
As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos – “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado... Tudo por fora e nada por dentro...” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.
O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza só servia para realçá-la.
Conheci Cass uma noite no West End Bar. Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade – o que bem pode ter contribuído.
– Quer um drinque? – perguntei.
– Claro, por que não?
Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou várias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda a minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.
– Me acha bonita? – perguntou.
– Lógico que acho, mas não é só isso... é mais que uma simples questão de beleza...
– As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?
– Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.
Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.
Ela me olhou e riu.
– E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?
Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido à cena. Ele veio até a mesa:
– Olha – disse para Cass, – se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.
– Ah, vai te foder, cara!
– É melhor não dar mais bebida pra ela – aconselhou o sujeito.
– Não tem perigo – prometi.
– O nariz é meu – protestou Cass, – faço dele o que bem entendo.
– Não faz, não – retruquei, – porque isso me dói.
– Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?
– Sinto, sim. Palavra.
– Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.
Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

(Charles Bukowski. “A mulher mais linda da cidade”. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. Trad. Albino Poly Jr. Porto Alegre, L&PM, 1996.)
 
 


terça-feira, 16 de junho de 2009

Cura de um cego

Consta que um homem cego de nascença perambulava por terras áridas e longínquas, num mundo escuro e largo, à procura de quem o curasse, quando ouviu o tropel da multidão que passava. Perguntou o que era. Anunciaram-lhe que Ele passava por ali. Conhecendo de ouvido seu poder, rogou-Lhe um milagre. “Que queres que eu te faça?”, Ele indagou. Respondeu o cego: “que eu veja”. “Tens certeza?”, replicou Ele, desapontado. “Por misericórdia”. “Pois assim seja feito; tua cegueira te perdeu, mas tua obstinação te salvará”. E o cego pôs-se a enxergar. Consta também que esse homem, antes sem visão, tendo então vivido e visto, furou os próprios olhos, num assomo de desespero, à maneira tebana.


(Leila Guenther. O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006)

sábado, 6 de junho de 2009

Móvel e provisório

Tenho um carro. É simples, mas é meu (ainda o estou pagando) e me permite me locomover para qualquer lugar que seja. Não que eu precise ir para muito longe. Mas a sensação de pelo menos poder ir é reconfortante. A mobilidade é um grande dom. Posso levar também. Posso levar um doente ao hospital, antes que a morte o leve. Posso ser mais rápida que a morte. Na verdade eu fiz isso há alguns dias. Levei alguém a um hospital com o meu carro. Alguém que não voltou. Eu fiquei esperando – eu passei a vida esperando – mas ele não voltou. Era para ele voltar, não havia dúvidas quanto a isso, mas não deu certo. Ele ficou e eu fui. Depois de algum tempo parada, a gente se espanta com a capacidade que ainda tem de ser móvel. E se espanta mais ainda com o caráter provisório das coisas. A vida era provisória e eu não sabia. O amor era provisório e eu não sabia. Joguei no lixo do banheiro o presente com que eu esperava aquele que não voltou, peguei algumas roupas, o notebook, o cachorro e as coisas dele – casinha, cobertor, ração, brinquedo (ele precisa de mais coisas que eu, percebi com infinita surpresa) –, pus tudo no carro e parti. Na estrada vi tudo ficando para trás numa velocidade absurda. O que eu era, o que sou, se despregou de mim como pele velha e ficou parado no mesmo lugar, enquanto a viagem prosseguia. Não preciso mais do que eu era, do que sou, constato também com infinita surpresa. Chego a algum lugar. Sei apenas que é também provisório. Depois de usar a rede via linha telefônica, sei que vou precisar de uma banda larga. Mas já me decidi: será uma internet 3g, dessas que a gente pluga no notebook, também móvel, e vai para onde quiser. Se eu voltar a ter uma casa, sei que não haverá telefone fixo. Só celular. Móvel. Minhas roupas, onde estou, continuam na mala. Abriram-me um espaço no guarda-roupa mas não quero usá-lo. Minha mala é meu melhor guarda-roupa agora. De repente me dou conta de que móvel e provisório são sinônimos. Eu sou móvel, portanto sou provisória. Agora que estou perdida eu me encontrei. A gente se acostuma com tudo e muito rapidamente. A gente se acostuma com a falta que os outros fazem. O cachorro não. Ele precisa de mais coisas do que eu. Nem parece que um dia descendeu de um lobo nômade. Ele tem necessidade de que tudo esteja no seu devido lugar. Ele ainda não aceitou que não há lugar para a gente. Por isso ele chora sem parar.




(Leila Guenther)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Depois do fim

Já conhecia bem a sua parte – seu quarto. Nele, deitava-se agora na cama, pois, após experimentar todo o chão e demais reentrâncias, achou que a cama (sob a qual permaneciam imóveis os livros com manchas amarelecidas não porque velhos, mas porque mofavam tão logo entravam naquele cômodo ou em qualquer outro daquela casa) era o melhor que lhe caía. Bastava perambular com os olhos para entender que atrás da cômoda se apinhavam teias de aranhas poeirentas porque nunca limpavam ali, e tampouco eram retirados do lugar os objetos que repousavam sobre ela: os porta-retratos, dispostos estranhamente, cujas fotografias antigas se escondiam umas atrás das outras, a caixa de prata já preta que não continha jóias, mas pedaços de bijuterias estragadas, papeizinhos e um rosário em desuso. A caixinha escurecia, como tudo que de prata fosse em seu corpo.
Sobre a bicicleta ergométrica sedentária, ao canto, amontoavam-se as roupas limpas, mas nunca passadas a ferro, que ninguém passava roupa naquela casa. Não as guardava no armário, que seria inútil ter de tirá-las de dentro dele para que fossem novamente usadas. Ao lado do guarda-roupa se formava um vão onde cabia o velho violão sem cordas e, se mexesse ali, aí sim veria com nitidez a poeira alçando voo para se depositar no umbral da janela, fazendo-a, ao longo do tempo, emperrar como sempre. Através de seu vidro era possível ver as manchas gordurosas dos dedos antes limpos como o resto do corpo que agora jazia sobre a cama. Todas essas coisas entulhadas davam-lhe a impressão de que, embora o movimento fosse ínfimo, seria certamente acompanhado de uma pausa. E devia haver um momento em que tudo para. Tinha certeza disso quando observava a inércia que se apossava de seus membros, um a um. Sequer erguia as mãos para algum gesto de desalento, o corpo não se mexia, exceto os olhos. Breve eles também cessariam o movimento inútil de vagar por esse lugar já tão conhecido, até a hora em que resolvessem tornar a se abrir.
(Leila Guenther. O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006.)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

"A fera" na Universidade do Texas

Ivan Teixeira, professor da Universidade do Texas e da Universidade de São Paulo, fala de um curso sobre o Conto Brasileiro, que ele ministrou recentemente nos EUA:

Prezada Leila,
Como vai, tudo bem?
Escrevo para dar um alô sobre a leitura de seu conto "A Fera", na turma de graduação em que acabo de dar um curso intitulado "Brazilian Short Story". O curso foi em português. Seu propósito era fornecer uma visão de conjunto sobre a instauração e prática do conto no Brasil. Foram lidos textos de Álvares de Azevedo, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Antônio de Alcântara Machado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e seu. Foi lido também uma estória de Poe. Na verdade, além de fornecer um panorama dessa prática textual no Brasil, pretendeu-se fornecer elementos teóricos sobre análise e interpretação do texto literário.
Foi um curso muito funcional e alegre. Os alunos, no geral, são ótimos e gostam de ler em português. Só havia um aluno brasileiro. Os demais eram americanos, de origem latina ou anglo-saxônica.
Por coincidência, o tema da solidão foi trazido à baila, visto que tínhamos lido "A Terceira Margem do Rio" e "O Búfalo". Digo coincidência da escolha de três textos sobre o mesmo motivo. Mas falar da misantropia parece inevitável diante de seu belo texto. A voz isolada de "A Fera" foi associada ao discurso existencial das duas outras personagens afastadas do entendimento com as pessoas. O que mais chamou a atenção foi choque entre realidade e fantasia, donde a discussão se dirigiu para a verdadeira identidade da figura da caixa.
Não tendo a forma de narrativa propriamente dita, o conto foi entendido como uma espécie de "baby annoucement", que é um tipo de texto que as pessoas escrevem para anunciar o nascimento de alguém querido. No caso, o nascimento da paixão do misantropo pela companhia, por quem ele sente, agora, forte apego, embora diga o contrário.
Falou-se também da hipótese de que o texto, sem contar uma estória, procura analisar uma situação que, enfim, não é tão estática quanto parece. Como a situação é interiorizada, concluiu-se que é possível entender o texto como conto de personagem, no sentido de fazer decorrer sua singularidade das propriedades psicológicas de uma figura ímpar.
Por fim, falou-se da possível adequação entre o estilo sereno e sóbrio e a temática da auto-análise de um solitário que se afasta da vizinhança como possível forma de preservação da identidade. Em seguida, observamos que o relato dele é oblíquo, pois sugere o contrário do que afirma. Surgiu, aí, a hipótese de que a ironia melancólica seria uma possível caracterização para definição da figura de retórica que suporta o conto.
Deixo esse micro-relatório despretensioso como forma de agradecimento pela oferta do conto.
Abraço cordial,
Ivan.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Se Dexter Gordon cantasse

Quando à noite ofereço um pouco de whisky a Turíbio, estendendo meu copo em direção a seu nariz, ele vira a cabeça para o lado, num gesto de desprezo. Mas não se afasta, porque sabe que a música vai começar.
Então nos pomos a escutar as diversas versões de “’Round Midnight”. Depois de o whisky fazer algum efeito, imito Dexter Gordon, no filme homônimo, quando, olhando para um bêbado que acabou de cair para trás, pede ao barman, com sua voz rouca e mole: “Quero tomar o que esse aí tomou”.
Turíbio tem a felicidade de só precisar da música: em pouco tempo ele já está em paz, dormindo, com sua imensa cabeça de buldogue apoiada sobre minhas coxas.

(Leila Guenther)

Náusea em alto-mar

Preciso dizer isso. Tenho pressa. Quando tudo se confunde, se os motivos deste vagar constante se perdem, quando não sei mais se busco alguém ou se outro me persegue, então me lembro de você. Poderia ser este o motivo, talvez seja. Esta viagem não tem nome, nem destino, mas você foi sócia deste itinerário. Até ir embora, ou me impelir a ir. Falo sem mágoa, nem poderia ser diferente. Fiz uma escolha. Não tenho medo de ficar só. O nome disso é tristeza. Te vejo ir e sei que fui eu quem causou este estranhamento, fui eu que soltei sua mão quando você tentava me segurar. Senti seus dedos escorrendo por minha pele, o contato frio e úmido. Evitei olhar em seus olhos, sabia que os encontraria também úmidos. Sei desta dor porque também a sinto. E por que fiz isto? Me pergunto neste momento em que sua imagem se distancia, sem palavras. Você foi embora, para o refúgio de sua casa, ou se mudou de cidade, qualquer coisa longe de mim. Os caminhos se afastaram, e me pergunto como deixei que se fosse alguém que gosto tanto. A pulsão da vida me assalta, me faz prisioneiro de vontades tolas, me desgoverna. Refaço minha história a cada minuto, ainda que me custe um bocado. Sigo atrás de uma alegria que quase vem, quase, e que eu insisto em buscar. Piso um chão movediço, me delicio com suas armadilhas, rio e choro pelos mesmos motivos, sou pura contradição. Te quero e te deixo ir. Vivo hoje, quem sabe de mim amanhã? Vou pegar meu barco, minha nau trôpega, com suas velas atrevidas e frágeis, e vou seguir viagem. Vou em busca de um destino, uma razão que justifique a travessia, um lugar em que possa atracar – ainda que por pouco tempo. Sei pouco do mundo, mas acaricio uma certeza: as águas que me levam não passam mais por sua cidade.


(José Eduardo Gonçalves. Vertigem. Rio de Janeiro, Record, 2003)

Entre a Diversidade e a Identidade: Segundo Encontro com a Literatura Brasileira Contemporânea

Programa

1. Literatura Brasileira Contemporânea e Poesia (30/08/09)
a. Alberto Martins
b. Edner Morelli
mediador: Maurício Silva

2. Literatura Brasileira Contemporânea e Romance (06/09/09)
a. Lourenço Mutarelli
b. Santiago Nazarian
mediador: Joel Rosa

3. Literatura Brasileira Contemporânea e Conto (13/09/09)
a. Bruno Zeni
b. Leila Guenther
mediador: Rita Couto

4. Literatura Brasileira Contemporânea e Webliteratura (20/09/09)
a. Sandra Souza
b. Edson Cruz
mediador: Selma Tuareg



Horário e Local
Memorial da América Latina (Sala dos Espelhos)
Dias 30/08; 06/09; 13/09; 20/09
Sábado, das 10h. às 12h.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Trança de poemas

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela.
Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

(Daniel Faria)


lua entre folhas
nada
mais
não fosse a procura
de crateras
no coração

saudade de tudo:
sol e criança desconhecida
na janela de um ônibus

olho mudo
deixado em jardim
que nunca mais será visto

dor que começa
em todo último minuto
e estica-se magra
amarga lágrima
de tudo

(Ricardo Lima)

Os detetives perdidos na cidade escura.
Ouvi seus gemidos.
Ouvi seus passos no Teatro da Juventude.
Uma voz avançando como uma flecha.
Sombra de cafés e parques
Frequentados na adolescência.
Os detetives que observam
Suas mãos abertas,
O destino manchado com seu próprio sangue.
E você não pode nem mesmo se lembrar
Onde estava a ferida,
Os rostos que você amou um dia,
A mulher que salvou a sua vida.

(Roberto Bolaño, trad. de Rodrigo Garcia Lopes)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A música que inspirou meu conto "Avalanche"

Well I stepped into an avalanche,
it covered up my soul;
when I am not this hunchback that you see,
I sleep beneath the golden hill.
You who wish to conquer pain,
you must learn, learn to serve me well.
You strike my side by accident
as you go down for your gold.
The cripple here that you clothe and feed
is neither starved nor cold;
he does not ask for your company,
not at the centre, the centre of the world.

When I am on a pedestal,
you did not raise me there.
Your laws do not compel me
to kneel grotesque and bare.
I myself am the pedestal
for this ugly hump at which you stare.

You who wish to conquer pain,
you must learn what makes me kind;
the crumbs of love that you offer me,
they're the crumbs I've left behind.
Your pain is no credential here,
it's just the shadow, shadow of my wound.

I have begun to long for you,
I who have no greed;
I have begun to ask for you,
I who have no need.
You say you've gone away from me,
but I can feel you when you breathe.

Do not dress in those rags for me,
I know you are not poor;
you don't love me quite so fiercely now
when you know that you are not sure,
it is your turn, beloved,
it is your flesh that I wear.
(Leonard Cohen, "Avalanche")



A última vez que a garota veio vê-lo parecia fazer tanto tempo que, por fúria ou em sinal de castigo, ele mordeu suas costas até deixar nelas várias manchas circulares, assim desenhadas por causa dos arcos dos dentes, e que, por sua vez, formavam um outro círculo, maior e mais perfeito, urdido com a simetria dos que acreditam no método acima de tudo. Ela aceitou a fúria, ou o castigo, com olhos semicerrados e as sobrancelhas franzidas dos sofredores, erguendo, enquanto isso, o quadril livre das manchas como uma tela em branco, esperando a destreza dos dentes nas nádegas, embora estas nunca, nunca mesmo, por mais forte que fosse a violência recebida, exibissem quaisquer sinais de maus-tratos. “Feitas para apanhar”, dizia ele das nádegas, desejando tomar a parte pelo todo. Hoje ela está atrasada e por um momento ele suspeita que ela não venha, que não venha nunca mais. Depois, entre um gole e outro de alguma bebida, ele se anima e acredita que sim, que ela virá, que, ali, no lugar que erigiram para a profanação, o espaço exíguo de uma cama, ela precisa tanto do sofrimento quanto ele precisa ferir. Não se trata de um sofrimento qualquer, infligido a qualquer um que o suporte, mas nela, que, apesar das fortes nádegas, não é nem jamais foi, e ele o sabe, talhada para a dor. O que ela suporta, pois, é como o heroísmo dos queimados vivos. Ela tampouco permitiria que outro a ferisse, porque ele, com seu método, tem a medida exata ao calcular o peso que depositará nas próprias mãos, grossas e largas, feitas para espancar, quando o chicote descreve no ar uma parábola, e só a ele, que lhe descobriu a vocação servil, cabe o direito à propriedade. Enquanto aguarda, ajeita delicadamente no aparador da entrada o maço de flores que comprou para ela, cantando repetidas vezes os versos you who wish to conquer pain,you must learn what makes me kind... com todas as suas variantes, e imagina-a entrando porta adentro, esbaforida, correndo para beijá-lo, tropeçando nos móveis, cheirando as flores e falando da visceralidade do último filme a que assistiu, do livro que está lendo, do poema que tentou escrever, sempre viscerais como o filme, porque essa é a única coisa que a atrai na arte. Eles conversarão então sobre livros e ele lerá, a pedido dela, mais algum capítulo de um romance interrompido na última vez. Beberão vinho e irão para a cama, onde costumam passar horas seguidas dedicados não apenas ao estetismo de seus corpos mas às trivialidades do cotidiano, às memórias vividas, que não raro despertam lágrimas e um poderoso sentimento de redenção. No começo, ela lhe beijará os pés por entre os dedos, deixando um pequeno rastro de saliva na superfície sinuosa, para depois se deitar sobre o peito dele, brincando com seus pêlos, devagar, como se já ensaiasse o sono que os afastaria. Ele a apertará contra si num gesto quase brusco, como que para despertá-la, cravando as unhas em suas costas até que no rosto dela se possa ver, com o canto do olho, a expressão de mártir. Com rapidez, alcançará uma sacola embaixo da cama, onde guarda o chicote, as cordas, correntes e algemas. Já não percebe a progressão na intensidade dos seus gestos que, de um tempo para cá, têm feito mais altos os gritos dela e mais duradouras as feridas. Com uma longa corrente, ele a amarrará dos pulsos erguidos no alto da cabeça aos tornozelos, criando motivos geométricos cuja intersecção se dá entre os seios, sobre o ventre e no meio das coxas. Apertará os mamilos com pregadores de roupas que ela recusará num primeiro momento, mas que, logo em seguida, ela mesma irá alcançar e estender-lhe com a boca, para seu regozijo. Ainda presa, mas com os seios soltos, terá seu corpo, incapaz de movimento, virado de bruços e espancado até a exaustão dos braços dele. Ele, logo que detiver os olhos em suas costas, admirará todos os ferimentos que causou, pensando que ela, sem dúvida, fica muito mais bonita assim, com o sangue na superfície da pele agora avermelhada corando sua eterna palidez de morta. Mas à dolorosa contração dela ao seu toque de carinho, será tomado pelo desespero dos sonâmbulos que despertam depois do crime. Arrependido, ele se amaldiçoará, ensejando o movimento de recolher todos os instrumentos do sortilégio e levá-los para o lixo, na impossibilidade de arremessar lá, também, as próprias mãos. Ela o deterá, advogando que antes o sofrimento na cama do que fora dela, e ele, por fim, instaurando o momento em que o ideal de cada um, tão oposto mas tão complementar, conflui para um mesmo ponto, cuidará de suas feridas, uma a uma, com zelo de samarita. Se ela vier.

(Leila Guenther, O vôo noturno das galinhas. Ateliê Editorial, 2006)

O vinho de Nick Tosches

A nossa era é, cada vez mais, a era do pseudoconhecimento, o modo pelo qual tentamos tolamente nos diferenciar da maioria medíocre. Sentar-se ao redor de uma garrafa de suco azedo, falando de toques delicados de groselha-preta, fumaça de carvalho, trufas ou de qualquer outro absurdo refinado que a natureza teria usado para enriquecer o seu sabor é ser um cafone de primeira grandeza. Porque, se há algum toque delicado a ser percebido em qualquer vinho, é provável que seja o de pesticida e esterco. Sobre um Château Margaux 1978, um connaisseur pronuncia: “Após uma hora exposto ao ar, este vinho desabrocha, revelando aromas de cassis doce, chocolate, violetas, tabaco e doce baunilha acarvalhada. Em cerca de dez anos, este vinho pode evoluir para a clássica mistura Margaux de cassis, trufas negras, violetas e baunilha”. Como se isso não fosse absurdo o bastante, “um traço de pimentão se esconde no cassis”.
Como um nariz tão sofisticado pode não ter detectado a merda de vaca com a qual essa celebrada propriedade de Bordeaux fertiliza suas videiras? Um verdadeiro conhecedor de vinhos, se tal coisa existisse, detectaria o pesticida e o esterco antes de tudo: ele não seria um goûteur de vin, e sim um goûteur de merde. Mas não existe conhecimento real de vinho sem ser o daqueles que sabem que a verdadeira alma do vinho, l’âme du vin, é o vinagre. Só saboreia realmente maravilhas quem bebe, puros, aqueles raros vinagres envelhecidos, denominados da bere: a coisa pra valer, um néctar bem distante do suco glorificado dessa indústria de adjetivos e falsidade, que já foi a bebida simples e nobre de camponeses simples e nobres – bem mais nobres e conhecedores do que os otários endinheirados de hoje em dia, engambelados a acreditar que a degustação de vinho pede mais palavras do que “bom”, “ruim” ou “cala essa boca e bebe logo”.


(Nick Tosches, A última casa de ópio. Trad. Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo, Conrad, 2006)

 

quinta-feira, 30 de abril de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Um conto para Guimarães Rosa


"Inscrição" in Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa. Rinaldo de Fernandes (org.) Rio de Janeiro, Garamond, 2006.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Golias

Fiquei observando-o. Encolhido como um gigante que tivesse sucumbido, tal laivo de ternura me comovia. Por um momento pensei com assombro que eu não tinha o direito de flagrá-lo em tamanho desamparo, nessa hora em que estamos despidos de nossa alma exterior, só para usar uma expressão cara a mim. Pois era com afinco que ele mantinha todo o seu arsenal em prontidão contra a minha temeridade, contra a minha força de quem se sabe frágil e derrotada. Era, afinal, como bater em cachorro morto (eu, bem entendido) e duvido que ele não soubesse e mesmo se aproveitasse disso para treinar sua pontaria no exercício da madureza, essa terrível prenda. Quis acordá-lo, envolvê-lo, dizer-lhe que, pelo menos ali, nós podíamos ambos depor as armas, fosse uma bomba ou minha minúscula pedra, naquele momento em que eu precisava desesperadamente de uma trégua, ainda que fosse para declarar-me vencida e expor-lhe minhas veias abertas, as mesmas que amedrontam e afugentam as pessoas que de repente se deparam, no meio da rua, com um mendigo cuja enorme ferida na perna jamais cicatriza, mas limitei-me a ficar do seu lado, apaziguada por ter ao menos isto: um corpo que, por um breve momento, se entregava a ponto de dormir com os dois olhos fechados diante de mim.

(Leila Guenther, O vôo noturno das galinhas, Ateliê Editorial, 2006)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A evolução da espécie (conto inédito)

(Frida Kahlo e seu xolo)


O povo que habitava a norte de Tenotchitlán, no México, durante o período arcaico, comia cachorros. Não de qualquer tipo, mas o xoloitzquintle, hoje em vias de extinção e conhecido apenas como xolo, cachorro sem pelo cuja pele se assemelha à de um elefante doente. Eram cachorros vegetarianos e essa era a razão pela qual consideravam sua carne mais saborosa que a de outros animais. Possuem orelhas grandes e pontudas como a do chihuahua, também oriundo de terras mexicanas, e são tão dóceis e fiéis que, dizem, quem alguma vez teve um xolo de estimação, apesar do aspecto repugnante de sua pele, nunca mais deseja os afagos de outro bicho.
Foi por causa desse seu caráter terno que eles passaram de refeição a animais de companhia e, já no fim do arcaico, a ser enterrados com seus donos, numa prática que consistia em levar para o túmulo o que estivesse, de alguma forma, ligado ao morto, como instrumentos de profissão, alimentos, bichos de estimação e escravos preferidos – vivos –, uma vez que, para os pré-colombianos, a morte era a continuação natural da vida. Uma lenda curiosa assim refere a origem dessa raça de cães: o mais importante dos deuses, Quetzalcoátl, a serpente emplumada, teria ganhado suas penas mágicas do pássaro quetzal em troca da perda de pelos do seu irmão cachorro, o mensageiro Xólotl, que assentiu de bom grado, reconhecendo a supremacia absoluta de Quetzalcoátl. Assim, Xólotl, de condutor de almas da vida para Xebalbá, o reino dos mortos, passou a representar a abnegação e o desprendimento, sendo o único deus do vasto panteão pré-colombiano a quem não se faziam sacrifícios de sangue, mas apenas oferendas de vegetais.
Depois da chegada dos espanhóis, os astecas que restaram, já cristianizados, recorreram a um interessante sincretismo. Continuaram, por exemplo, a festejar a morte, essa outra parte da vida, e, no Natal, não era o menino Jesus que punham na manjedoura no centro do presépio, mas um filhote de cachorro. Sem pelos.