De Jorge Furtado
sexta-feira, 3 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O jogo favorito
Breavman conhece uma garota chamada Shell cujas orelhas foram furadas de tal forma que ela poderia usar longos brincos de filigranas. Os furos infeccionaram e agora ela tem uma minúscula cicatriz em cada lóbulo. Ele as entreviu por trás dos cabelos.Uma bala rompeu a carne do braço de seu pai enquanto ele se erguia de uma trincheira. Um homem com trombose coronária se conforta em carregar uma ferida tomada em combate.
Na têmpora direita, Breavman possui uma cicatriz que Krantz causou com uma pá. Problemas por causa de um boneco de neve. Krantz queria usar limalha no lugar dos olhos. Breavman era e ainda é contra o uso de materiais estranhos à decoração de bonecos de neve. Nada de cachecóis de lã, chapéus, óculos. Seguindo a mesma tendência, não aprova encaixar cenouras na boca das abóboras esculpidas nem prender orelhas de pepino.
Sua mãe examina o corpo inteiro como uma cicatriz desenvolvida sobre alguma perfeição inicial que ela procurava em espelhos e janelas e calotas de pneu.
As crianças exibem cicatrizes como medalhas. Os amantes as usam como segredos a serem revelados. Uma cicatriz é aquilo que acontece quando o mundo se faz carne.
É fácil exibir um ferimento, as orgulhosas feridas do combate. Difícil é mostrar uma espinha.
(Leonard Cohen, The Favourite Game. A tradução do trecho é minha)
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Livro do Mundo
"Nel suo profondo vidi che s'interna,
legato con amore in un volume,
ciò che per l'universo si squaderna"
["Na sua profundidade vi que se recolhe,
ligado com amor em um volume,
aquilo que pelo universo está desencadernado"]





legato con amore in un volume,
ciò che per l'universo si squaderna"
["Na sua profundidade vi que se recolhe,
ligado com amor em um volume,
aquilo que pelo universo está desencadernado"]
(Paraíso, Canto XXXIII, 85-87)


Além de trazer de volta a primorosa tradução do erudito italiano João Trentino Ziller – publicada originalmente em 1953, em Minas Gerais –, esta edição da Divina Comédia de Dante Alighieri, (1265-1321) da Editora Unicamp e da Ateliê Editorial, traz uma apresentação de João Adolfo Hansen e oferece algo inédito ao leitor brasileiro: as ilustrações de Sandro Botticelli, perdidas durante séculos e identificadas somente na década de 1980.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
Profissão de fé
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.
(Graciliano Ramos)
sábado, 26 de março de 2011
A verdade de Sándor Márai
Como eu disse, nós nos gostávamos. E agora vou lhe dizer uma coisa, caso você não saiba: o amor, se for de verdade, é sempre mortífero. Quero dizer que seu objetivo não é a felicidade, o idílio, a mão na mão, o devaneio, até a minha morte, a morte dela, sob a tília em flor, atrás da qual, no alpendre, arde o brilho manso da luminária e o lar resplandece com seu perfume fresco... Isso é a vida, mas isso não é o amor. Ele é uma chama mais sombria, mais perigosa. Um dia vem na vida o desejo de conhecer a paixão exterminadora. Sabe, quando não queremos mais guardar nada para nós mesmos, não queremos que um amor nos proporcione saúde, paz, satisfação, mas queremos ser, por inteiro, ainda que a preço da extinção. Isso vem tarde; muitos não conhecem o sentimento, nunca... Eles são prudentes; não os invejo. E depois existem os glutões e metidos, que apenas experimentam todo pote que passa por eles... Esses são dignos de pena. E ainda existem os decididos e maliciosos, os batedores de carteira do amor, que roubam com a rapidez de um raio um sentimento, selecionam dos recessos do corpo uma fraqueza, e seguem adiante no escuro e na multidão que é a vida, rindo, alegres pela infelicidade alheia. E existem os medrosos e premeditados, que calculam tudo no amor como nos negócios, têm um calendário com tempos delimitados para o amor, vivem segundo anotações precisas. A maioria é assim; são imprestáveis. E depois acontece de um dia compreendermos o que a vida quer com o amor, por que ela deu esse sentimento aos homens... Queria ela um bem?... A natureza não é bondosa. Ela promete a felicidade com esse sentimento? A natureza não precisa dos sonhos humanos. A natureza deseja apenas criar e aniquilar, porque é seu trabalho. É cruel porque tem um projeto e é indiferente porque o projeto se estende além do homem. A natureza presenteou o homem com a paixão, mas exige que esta seja incondicional.
Em toda vida de verdade chega um momento em que mergulhamos numa paixão, como se nos atirássemos nas cataratas do Niágara. E, naturalmente, sem colete salva-vidas. Não acredito nos amores que começam como uma excursão ao piquenique da vida, de mochila e com cantos alegres na mata ensolarada... Sabe, o sentimento transbordante de “festejo” que permeia o início da maioria das relações humanas... Como ele é suspeito! A paixão não festeja. A força sombria que ao mesmo tempo cria e extermina o mundo não espera resposta de quem ela atinge, não se pergunta se ele está bem, não se ocupa muito dos sentimentos humanos de reciprocidade. Dá tudo e exige tudo: a paixão incondicional cuja energia mais profunda é a própria vida e a morte. Não se pode conhecer a paixão de outro modo... e como são poucos os que chegam lá! As pessoas fazem cócegas uma na outra e se acariciam na cama, mentem muito e falseiam os sentimentos, tiram, avarentas, do outro, o que é bom para elas, e da própria felicidade talvez empurrem um resto para o companheiro... E elas não sabem que tudo isso não é paixão. Não é por acaso que na história da humanidade os grandes pares amorosos são cercados pelo respeito quase devotado e perplexo destinado aos heróis, os empreendedores corajosos que em nome de uma questão humana desesperançada e digna arriscaram a pele, literalmente e na realidade, numa empreitada em que a mulher participa exatamente como o homem quando ele parte para reconquistar em combate O Santo Sepulcro. Os amantes corajosos e de verdade também buscam O Santo Sepulcro eterno e misterioso, por ele peregrinam e batalham, por ele se ferem e morrem... que mais eles querem?
Que outro sentido tem a entrega definitiva e sem medo que atira na direção um do outro os atingidos pela paixão fatal? A vida se expressa com força e logo vira as costas, indiferente, aos sacrificados. Em todos os tempos e em todas as religiões os amantes foram respeitados por isso: porque sobem à pira quando desabam nos braços um do outro. Os de verdade, você sabe. Os corajosos, os poucos, os escolhidos. Os demais somente esperam por uma mulher, como um animal subjugado, ou por uma hora entre braços brancos e agradáveis, um agrado à vaidade masculina ou feminina, ou cumprem a exigência de uma lei da disciplina da vida... Isso não é amor.
Em toda vida de verdade chega um momento em que mergulhamos numa paixão, como se nos atirássemos nas cataratas do Niágara. E, naturalmente, sem colete salva-vidas. Não acredito nos amores que começam como uma excursão ao piquenique da vida, de mochila e com cantos alegres na mata ensolarada... Sabe, o sentimento transbordante de “festejo” que permeia o início da maioria das relações humanas... Como ele é suspeito! A paixão não festeja. A força sombria que ao mesmo tempo cria e extermina o mundo não espera resposta de quem ela atinge, não se pergunta se ele está bem, não se ocupa muito dos sentimentos humanos de reciprocidade. Dá tudo e exige tudo: a paixão incondicional cuja energia mais profunda é a própria vida e a morte. Não se pode conhecer a paixão de outro modo... e como são poucos os que chegam lá! As pessoas fazem cócegas uma na outra e se acariciam na cama, mentem muito e falseiam os sentimentos, tiram, avarentas, do outro, o que é bom para elas, e da própria felicidade talvez empurrem um resto para o companheiro... E elas não sabem que tudo isso não é paixão. Não é por acaso que na história da humanidade os grandes pares amorosos são cercados pelo respeito quase devotado e perplexo destinado aos heróis, os empreendedores corajosos que em nome de uma questão humana desesperançada e digna arriscaram a pele, literalmente e na realidade, numa empreitada em que a mulher participa exatamente como o homem quando ele parte para reconquistar em combate O Santo Sepulcro. Os amantes corajosos e de verdade também buscam O Santo Sepulcro eterno e misterioso, por ele peregrinam e batalham, por ele se ferem e morrem... que mais eles querem?
Que outro sentido tem a entrega definitiva e sem medo que atira na direção um do outro os atingidos pela paixão fatal? A vida se expressa com força e logo vira as costas, indiferente, aos sacrificados. Em todos os tempos e em todas as religiões os amantes foram respeitados por isso: porque sobem à pira quando desabam nos braços um do outro. Os de verdade, você sabe. Os corajosos, os poucos, os escolhidos. Os demais somente esperam por uma mulher, como um animal subjugado, ou por uma hora entre braços brancos e agradáveis, um agrado à vaidade masculina ou feminina, ou cumprem a exigência de uma lei da disciplina da vida... Isso não é amor.
(Sándor Márai, De verdade. Trad. Paulo Schiller. São Paulo, Companhia das Letras, 2008)
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Uma visão do mundo
(Edward Hopper, Pennsylvania Coal Town)
O céu estava azul. Parecia música. Eu havia acabado de cortar a grama e o cheiro dela impregnava o ar. Isso me faz lembrar das declarações e promessas de amor que conhecemos na juventude. No fim de uma corrida, você se joga na grama ao lado da pista de saibro, quase sem fôlego, e o ardor com que abraça o gramado do colégio é uma promessa que seguirá pelo resto de seus dias. Pensando em coisas pacas, notei que as formigas pretas tinham vencido as formigas vermelhas e estavam retirando os corpos do campo de batalha. Um sabiá passou voando, perseguido por dois galos. O gato estava espreitando um pardal nos arbustos de groselha. Uma dupla de papa-figos passou se bicando e em seguida, a uns trinta centímetros dos meus pés, me deparei com uma cobra cabeça de cobre descascando o último pedaço da pele escura de inverno. O que senti não foi medo nem pavor; foi o choque da minha falta de preparo diante dessa variedade da morte. De repente surgia esse veneno mortal, tão pertencente à natureza quanto a água límpida correndo no riacho, mas era como se eu não tivesse espaço para ele em minhas considerações. Entrei em casa para buscar a espingarda, mas tive então o azar de topar com o mais velho dos meus dois cães, uma cadela que tem medo de armas de fogo. Assim que viu a arma, ela começou a latir e a ganir, atormentada sem dó por seus instintos e anseios. Seus latidos atraíram o outro cão, uma caçador nato, que veio saltando da escada pronto para ir buscar uma lebre ou pássaro, e, seguido pelos dois cães, um latindo de alegria e outro de horror, voltei ao jardim bem a tempo de flagrar a víbora sumindo dentro de um muro de pedra.
Depois disso, fui de carro à cidade, comprei um pouco de semente de grama e então fui ao supermercado da rota 27 para buscar os pãezinhos que minha mulher tinha encomendado. Acho que hoje em dia é bom ter uma câmera para gravar um supermercado numa tarde de sábado. Nossa linguagem é tradicional, um acúmulo de séculos de diálogo. Tirando o formato dos pães, não havia nada de tradicional à vista no balcão de padaria em que precisei aguardar minha vez. Éramos seis ou sete pessoas retidas por um velhinho com uma lista comprida, um pergaminho de compras. Espiando por cima de seu ombro, consegui ler:
6 ovos
hors-d’oeuvres
Ele notou que eu estava lendo o seu documento e o protegeu contra o peito, à maneira de um jogador de cartas cuidadoso. De repente, a música encanada mudou de uma canção romântica para um cha-cha-cha, e a mulher do meu lado começou a mexer timidamente os ombros e a executar uns passinhos de dança. “Gostaria de dançar, madame?”, perguntei. Ela era bem sem graça, mas quando estendi meus braços, ela se encaixou neles e dançamos por um ou dois minutos. Dava para ver que ela gostava de dançar, mas com uma cara daquelas não devia ter muitas oportunidades. Em seguida ela ficou muito vermelha, saiu dos meus braços e foi até o balcão de vidro, onde se pôs a analisar as bombas de creme. Senti que tínhamos dado um passo na direção correta e, depois de pegar os pãezinhos, dirigindo para casa, eu estava exultante. Um policial me parou na esquina da Alewives Lane para dar passagem a um desfile. A primeira a chegar foi uma jovem de botas e shorts que enfatizavam a formosura de suas coxas. Tinha um nariz enorme, usava um colbaque na cabeça e agitava um bastão de alumínio. Foi seguida por outra garota, de coxas ainda mais formosas e fornidas, que marchava com a pélvis tão projetada para a frente em relação ao resto do corpo que sua espinha fazia uma curva estranha. Usava óculos bifocais e parecia terrivelmente entediada pela projeção da pélvis. Uma banda de garotos, contendo aqui e ali um impostor grisalho, veio na retaguarda tocando “The caissons go rolling along”. Não carregavam faixas, não possuíam nenhum objetivo ou rumo discernível e tudo me parecia terrivelmente cômico. Fui rindo no caminho todo até em casa.
Mas minha mulher estava triste.
“Qual o problema, meu bem?”, perguntei.
“É só essa sensação horrorosa de que sou um personagem de um seriado cômico de televisão”, ela disse. “Afinal, sou atraente, sei me vestir, tenho filhos bonitos e estou de bem com a vida, mas tenho uma sensação horrorosa de que podem me desligar.” Minha mulher vive triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, infeliz porque sua infelicidade não é uma infelicidade esmagadora. Ela sofre porque seu sofrimento não é um sofrimento dilacerante e, quando lhe digo que essa infelicidade trazida pela inadequação da infelicidade pode ser um matiz novo no espectro do sofrimento humano, ela não se sente consolada. Oh, às vezes penso em deixá-la. Seria totalmente concebível construir uma vida sem ela nem as crianças, e eu poderia seguir em frente sem o companheirismo de meus amigos, mas não seria capaz de abandonar meus canteiros e jardins, não poderia me separar das portas de tela da varanda, que tanto consertei e pintei, e não posso me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí ligando a porta lateral da casa às roseiras; e assim, por mais que minhas correntes estejam presas à grama e à tinta da casa, elas me prenderão até que eu morra. Na ocasião, porém, fiquei grato a minha mulher por ter dito o que disse, por haver atestado que as aparências da sua vida tinham o caráter de um sonho. As energias irreprimidas da imaginação haviam criado o supermercado, a víbora e o bilhete dentro da lata de graxa para sapatos. Comparados a isso, meus devaneios tinham a literalidade de um registro contábil de partidas dobradas. Agradava-me pensar que a nossa vida aparente tem o caráter de um sonho e que dentro dos nossos sonhos encontramos as virtudes do conservadorismo. Entrei em casa e encontrei a faxineira fumando um cigarro egípcio roubado e reconstruindo cartas rasgadas que haviam sido jogadas no cesto de lixo.
Depois disso, fui de carro à cidade, comprei um pouco de semente de grama e então fui ao supermercado da rota 27 para buscar os pãezinhos que minha mulher tinha encomendado. Acho que hoje em dia é bom ter uma câmera para gravar um supermercado numa tarde de sábado. Nossa linguagem é tradicional, um acúmulo de séculos de diálogo. Tirando o formato dos pães, não havia nada de tradicional à vista no balcão de padaria em que precisei aguardar minha vez. Éramos seis ou sete pessoas retidas por um velhinho com uma lista comprida, um pergaminho de compras. Espiando por cima de seu ombro, consegui ler:
6 ovos
hors-d’oeuvres
Ele notou que eu estava lendo o seu documento e o protegeu contra o peito, à maneira de um jogador de cartas cuidadoso. De repente, a música encanada mudou de uma canção romântica para um cha-cha-cha, e a mulher do meu lado começou a mexer timidamente os ombros e a executar uns passinhos de dança. “Gostaria de dançar, madame?”, perguntei. Ela era bem sem graça, mas quando estendi meus braços, ela se encaixou neles e dançamos por um ou dois minutos. Dava para ver que ela gostava de dançar, mas com uma cara daquelas não devia ter muitas oportunidades. Em seguida ela ficou muito vermelha, saiu dos meus braços e foi até o balcão de vidro, onde se pôs a analisar as bombas de creme. Senti que tínhamos dado um passo na direção correta e, depois de pegar os pãezinhos, dirigindo para casa, eu estava exultante. Um policial me parou na esquina da Alewives Lane para dar passagem a um desfile. A primeira a chegar foi uma jovem de botas e shorts que enfatizavam a formosura de suas coxas. Tinha um nariz enorme, usava um colbaque na cabeça e agitava um bastão de alumínio. Foi seguida por outra garota, de coxas ainda mais formosas e fornidas, que marchava com a pélvis tão projetada para a frente em relação ao resto do corpo que sua espinha fazia uma curva estranha. Usava óculos bifocais e parecia terrivelmente entediada pela projeção da pélvis. Uma banda de garotos, contendo aqui e ali um impostor grisalho, veio na retaguarda tocando “The caissons go rolling along”. Não carregavam faixas, não possuíam nenhum objetivo ou rumo discernível e tudo me parecia terrivelmente cômico. Fui rindo no caminho todo até em casa.
Mas minha mulher estava triste.
“Qual o problema, meu bem?”, perguntei.
“É só essa sensação horrorosa de que sou um personagem de um seriado cômico de televisão”, ela disse. “Afinal, sou atraente, sei me vestir, tenho filhos bonitos e estou de bem com a vida, mas tenho uma sensação horrorosa de que podem me desligar.” Minha mulher vive triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, infeliz porque sua infelicidade não é uma infelicidade esmagadora. Ela sofre porque seu sofrimento não é um sofrimento dilacerante e, quando lhe digo que essa infelicidade trazida pela inadequação da infelicidade pode ser um matiz novo no espectro do sofrimento humano, ela não se sente consolada. Oh, às vezes penso em deixá-la. Seria totalmente concebível construir uma vida sem ela nem as crianças, e eu poderia seguir em frente sem o companheirismo de meus amigos, mas não seria capaz de abandonar meus canteiros e jardins, não poderia me separar das portas de tela da varanda, que tanto consertei e pintei, e não posso me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí ligando a porta lateral da casa às roseiras; e assim, por mais que minhas correntes estejam presas à grama e à tinta da casa, elas me prenderão até que eu morra. Na ocasião, porém, fiquei grato a minha mulher por ter dito o que disse, por haver atestado que as aparências da sua vida tinham o caráter de um sonho. As energias irreprimidas da imaginação haviam criado o supermercado, a víbora e o bilhete dentro da lata de graxa para sapatos. Comparados a isso, meus devaneios tinham a literalidade de um registro contábil de partidas dobradas. Agradava-me pensar que a nossa vida aparente tem o caráter de um sonho e que dentro dos nossos sonhos encontramos as virtudes do conservadorismo. Entrei em casa e encontrei a faxineira fumando um cigarro egípcio roubado e reconstruindo cartas rasgadas que haviam sido jogadas no cesto de lixo.
(John Cheever, 28 contos. Trad. Daniel Galera e Jorio Dauster. São Paulo, Cia das Letras, 2010)
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literatura norte-americana
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
O que li de mais bacana em 2010

1. André BERNARD, Madame Bovary, c'est moi! Trad. Fábio Fernandes. José Olympio, 2005.
2. Thomas BERNHARD, O imitador de vozes. Trad. Sérgio Tellaroli. Companhia das Letras, 2009.
3. Roberto BOLAÑO, Estrela distante. Trad. Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras, 2009.
4. Ray BRADBURY, Zen in the art of writing, Bantam Books, 1992.
5. Le CLÉZIO, Diego e Frida. Trad. Vera Lúcia dos Reis. Record, 2010.
6. Jonathan COE, A chuva antes de cair. Trad. Christian Schwartz. Record, 2009.
7. Alexandra Lucas COELHO, Caderno afegão, Tinta-da-China, 2009.
8. John FANTE, O vinho da juventude. Trad. Robeto Muggiati. José Olympio, 2010.
9. Ted HUGHES, Cartas de aniversário. Trad. Manuel Dias. Relógio D’Água, 2000.
10. Hiromi KAWAKAMI, Quinquilharias Nakano. Trad. Jefferson José Teixeira. Estação Liberdade, 2010.
11. William KENNEDY, Ironweed. Trad. Sérgio Flaksman. Cosac Naify, 2010
12. Jack KEROUAC, Os vagabundos iluminados. Trad. Ana Ban. L&PM, 2007.
13. José Tolentino MENDONÇA, A estrada branca, Assírio & Alvim, 2005
14. Chuck PALAHNIUK, Cantiga de ninar. Trad. Paulo Reis. Rocco, 2004.
15. José Miguel SILVA, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio D’Água, 2003.
16. Tzvetan TODOROV, A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. Difel, 2009.
17. Enrique VILA-MATAS, O mal de Montano, Cosac Naify, 2005.
18. Edmund WHITE, O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris. Trad. Reinaldo Moraes. Companhia das Letras, 2001.
19. Edmund WHITE, Rimbaud: a vida dupla de um rebelde. Trad. Marcus Bagno. Companhia das Letras, 2010.
2. Thomas BERNHARD, O imitador de vozes. Trad. Sérgio Tellaroli. Companhia das Letras, 2009.
3. Roberto BOLAÑO, Estrela distante. Trad. Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras, 2009.
4. Ray BRADBURY, Zen in the art of writing, Bantam Books, 1992.
5. Le CLÉZIO, Diego e Frida. Trad. Vera Lúcia dos Reis. Record, 2010.
6. Jonathan COE, A chuva antes de cair. Trad. Christian Schwartz. Record, 2009.
7. Alexandra Lucas COELHO, Caderno afegão, Tinta-da-China, 2009.
8. John FANTE, O vinho da juventude. Trad. Robeto Muggiati. José Olympio, 2010.
9. Ted HUGHES, Cartas de aniversário. Trad. Manuel Dias. Relógio D’Água, 2000.
10. Hiromi KAWAKAMI, Quinquilharias Nakano. Trad. Jefferson José Teixeira. Estação Liberdade, 2010.
11. William KENNEDY, Ironweed. Trad. Sérgio Flaksman. Cosac Naify, 2010
12. Jack KEROUAC, Os vagabundos iluminados. Trad. Ana Ban. L&PM, 2007.
13. José Tolentino MENDONÇA, A estrada branca, Assírio & Alvim, 2005
14. Chuck PALAHNIUK, Cantiga de ninar. Trad. Paulo Reis. Rocco, 2004.
15. José Miguel SILVA, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio D’Água, 2003.
16. Tzvetan TODOROV, A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. Difel, 2009.
17. Enrique VILA-MATAS, O mal de Montano, Cosac Naify, 2005.
18. Edmund WHITE, O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris. Trad. Reinaldo Moraes. Companhia das Letras, 2001.
19. Edmund WHITE, Rimbaud: a vida dupla de um rebelde. Trad. Marcus Bagno. Companhia das Letras, 2010.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Alices
Li a versão integral de Alice no País das Maravilhas, que conhecia de adaptações infantis, pela primeira vez aos 33 anos, na cama da enfermaria de um hospital, nos dias anteriores à minha alta, quando eu, já recuperados alguns movimentos, conseguia pelo menos virar sozinha as páginas de um livro, depois de passar quase dez dias em coma
Leila Guenther. Este lado para cima. Sereia Ca(n)tadora/ Revista Babel, 2011.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Apresentação de O vôo noturno das galinhas no Peru
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Notas de rodapé para um texto inexistente
(52)
Julio Ramón Ribeyro – escritor peruano, walseriano em sua discrição, sempre escrevendo como que na ponta dos pés para não tropeçar em seu próprio pudor ou não tropeçar, porque nunca se sabe, em Vargas Llosa – sempre abrigou a suspeita, que se foi tornando convicção, de que há uma série de livros que fazem parte da história do Não, embora não existam. Esses livros fantasmas, textos invisíveis, seriam aqueles que um dia batem a nossa porta e, quando vamos recebê-los, por um motivo frequentemente fútil, esfumam-se; abrimos aporta e não estão mais ali, foram embora. Certamente era um grande livro, o grande livro que estava dentro de nós, aquele que realmente estávamos destinados a escrever, nosso livro, o mesmo que nunca mais vamos poder escrever nem ler. Mas esse livro, que ninguém duvide disso, existe, está como que suspenso na história da arte do Não.
“Lendo Cervantes há pouco”, escreve Ribeyro em La tentación del fracaso, “passou por mim um sopro que, infelizmente, não tive tempo de captar (por quê?, alguém me interrompeu, o telefone tocou, não sei), pois lembro que me senti impulsionado a começar algo... Depois tudo se dissolveu. Todos nós guardamos um livro, talvez um grande livro, mas que no tumulto de nossa vida interior raras vezes emerge, ou o faz tão rapidamente que não temos tempos de arpoá-lo”.
Julio Ramón Ribeyro – escritor peruano, walseriano em sua discrição, sempre escrevendo como que na ponta dos pés para não tropeçar em seu próprio pudor ou não tropeçar, porque nunca se sabe, em Vargas Llosa – sempre abrigou a suspeita, que se foi tornando convicção, de que há uma série de livros que fazem parte da história do Não, embora não existam. Esses livros fantasmas, textos invisíveis, seriam aqueles que um dia batem a nossa porta e, quando vamos recebê-los, por um motivo frequentemente fútil, esfumam-se; abrimos aporta e não estão mais ali, foram embora. Certamente era um grande livro, o grande livro que estava dentro de nós, aquele que realmente estávamos destinados a escrever, nosso livro, o mesmo que nunca mais vamos poder escrever nem ler. Mas esse livro, que ninguém duvide disso, existe, está como que suspenso na história da arte do Não.
“Lendo Cervantes há pouco”, escreve Ribeyro em La tentación del fracaso, “passou por mim um sopro que, infelizmente, não tive tempo de captar (por quê?, alguém me interrompeu, o telefone tocou, não sei), pois lembro que me senti impulsionado a começar algo... Depois tudo se dissolveu. Todos nós guardamos um livro, talvez um grande livro, mas que no tumulto de nossa vida interior raras vezes emerge, ou o faz tão rapidamente que não temos tempos de arpoá-lo”.
(Enrique Vila-Matas, Bartleby e companhia. Trad. Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. Cosac Naify, 2004)
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Otras voces
Saiu aqui uma entrevista que dei ao escritor peruano Juan Valle a propósito da tradução de O vôo noturno das galinhas para o espanhol. O lançamento será no dia 4 de novembro, na II Feria Itinerante del Libro CAELIT UNFV 2010, promovida pela Universidad Nacional Federico Villarreal, Lima, Peru. Armando Alzamora, o tradutor do livro, fez a gentileza de verter as respostas para a língua de Garcilaso.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Li Po

DIANTE DO VINHO
Amigo, crê-me, não afastes essa taça!
O vento de primavera chega todo sorridente.
Pessegueiros e ameixeiras, tão velhos conhecidos,
Inclinam suas flores e as entreabrem para nós.
Os verdelhões alegres cantam nas árvores verdes;
A lua brilhante observa nossas taças de ouro.
Ontem éramos jovens de pele rosada;
E eis que agora os cabelos brancos nos envelhecem.
A selva invade o palácio do rei de Tchao;
Os cervos atravessam o terraço de Kou-sou.
Nesses velhos palácios de imperadores e príncipes,
Os portões guardam apenas a poeira!
Por que não aceitar essa bebida?
Onde estão agora os homens do passado?
SAUDAÇÃO SOLITÁRIA AO LUAR
Entre as flores um jarro de vinho:
Bebo sozinho, sem amigo algum.
Erguendo minha taça, convido o luar;
Eis minha sombra diante de mim: somos três.
A lua – que pena – não sabe beber;
E a sombra em vão me segue.
Companheiros de um instante, ó lua e sombra!
Nas brincadeiras alegres, festejemos a primavera!
Quando canto, a lua vagueia.
Quando danço, minha sombra, perdida, se deforma.
Já que ficaremos velhos, alegremo-nos juntos;
E, uma vez embriagados, que cada um regresse.
Que dure para sempre nossa ligação sem alma:
Nós nos reencontraremos pela Via-Láctea distante!
Amigo, crê-me, não afastes essa taça!
O vento de primavera chega todo sorridente.
Pessegueiros e ameixeiras, tão velhos conhecidos,
Inclinam suas flores e as entreabrem para nós.
Os verdelhões alegres cantam nas árvores verdes;
A lua brilhante observa nossas taças de ouro.
Ontem éramos jovens de pele rosada;
E eis que agora os cabelos brancos nos envelhecem.
A selva invade o palácio do rei de Tchao;
Os cervos atravessam o terraço de Kou-sou.
Nesses velhos palácios de imperadores e príncipes,
Os portões guardam apenas a poeira!
Por que não aceitar essa bebida?
Onde estão agora os homens do passado?
SAUDAÇÃO SOLITÁRIA AO LUAR
Entre as flores um jarro de vinho:
Bebo sozinho, sem amigo algum.
Erguendo minha taça, convido o luar;
Eis minha sombra diante de mim: somos três.
A lua – que pena – não sabe beber;
E a sombra em vão me segue.
Companheiros de um instante, ó lua e sombra!
Nas brincadeiras alegres, festejemos a primavera!
Quando canto, a lua vagueia.
Quando danço, minha sombra, perdida, se deforma.
Já que ficaremos velhos, alegremo-nos juntos;
E, uma vez embriagados, que cada um regresse.
Que dure para sempre nossa ligação sem alma:
Nós nos reencontraremos pela Via-Láctea distante!
(da Anthologie de la poésie chinoise classique. Trad. Leila Guenther)
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Um Oriente ao oriente do Oriente
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Antologia canina IV
O OLHO QUE VÊ
Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições de odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos,
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.
Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.
Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições de odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos,
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.
Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.
(Ezra Pound, trad. Mário Faustino)
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cachorros,
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poesia
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
A esposa do mercador do rio: uma carta
Quando
ainda usava franja no cabelo,
Eu
brincava perto do portão principal, colhendo flores,
Você
vinha sobre pernas de pau, brincando de cavalo,
Andava
ao meu redor, brincando com ameixas azuis.
E assim
vivíamos na aldeia de Chokan:
Duas
crianças, sem desgosto nem malícia.
Aos
quatorze anos o desposei, meu senhor.
Por
timidez, nunca ria.
De
cabeça baixa, olhava para o muro.
E, mesmo
chamada mil vezes, nunca olhava para trás.
Aos
quinze parei de resistir,
Desejei
que minhas cinzas se misturassem às suas
Para
sempre e para todo o sempre.
Para que
eu deveria subir até o mirante?
Aos
dezesseis você partiu.
Foi para
além de Ku-to-yen, pelo rio sinuoso,
E faz
cinco meses que está ausente.
Lá no
alto os macacos fazem um triste barulho.
Você
arrastava os pés quando foi embora.
Perto do
portão, agora, o musgo cresce; diversos tipos de musgo,
Enraizados
demais para serem arrancados!
As
folhas caem cedo neste outono, com o vento.
As
borboletas, aos pares, já amarelecem, neste agosto,
Sobre as
ervas do jardim do poente;
Elas me
ferem. Estou envelhecendo.
Se
estiver descendo pelos estreitos do rio Kiang,
Avise-me
logo, por favor,
E eu
irei, para encontrá-lo, Até as
alturas de Cho-fu-Sa.
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Um Oriente ao oriente do Oriente
domingo, 26 de setembro de 2010
WabiSabi: coreografia + fotografia + poesia
(foto: Juliano Gouveia dos Santos)
Acabou de sair em Cronópios um trabalho que fiz com o fotógrafo Juliano Gouveia dos Santos a propósito do espetáculo WabiSabi, de 2008, da coreógrafa Susana Yamauchi.
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Um Oriente ao oriente do Oriente
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Este pão que venho abrir
Este pão que venho abrir foi outrora centeio,
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.
Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.
Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.
(Dylan Thomas, trad. de Fernando Guimarães)
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.
Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.
Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.
(Dylan Thomas, trad. de Fernando Guimarães)
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
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