terça-feira, 8 de julho de 2025

Mais uma mulher de Lot

 


Para Adriane Garcia

 

Onde você perdeu seus olhos?
Em que noite eles se esconderam
Camuflados na paisagem?

Eram duas bolas de gude castanhas
Onde o mundo se enxergava e se redescobria
O que viram para desaparecer assim?
Teriam sido arrancados
Quando você olhou para trás
Antes de chegar até aqui?
Ou você mesma os arrancou?

A ameaça dos homens é vã
Porque nenhum deus tem o poder
De transformar alguém em estátua:
Isso é apenas o que dizemos às crianças
Para assustá-las se não se comportam
Enquanto preparamos as refeições

Seu corpo chegou em carne e osso
Embora recoberto de arranhões, feridas, roxos, cortes
E o que mais se acumula numa fuga
Quando não enxergamos
As solas dos pés, perfuradas de espinhos, infeccionaram

Você veio apenas para morrer
Todas nós choramos por velar uma mulher sem nome

Por respeito tentamos cerrar suas pálpebras
Mas elas afundaram
Sugadas por dois buracos
Cheios de vazio
 
(Leila Guenther)

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Também esperávamos os bárbaros


Para Marilia Kubota


Quando nascemos nos examinaram
com dedos civilizados e meticulosos
que não pudemos impedir
 
Jamais se recuperaram do que viram ao microscópio
 
Vieram pólvora fogueira ferro em brasa forno de assar gente incêndio cogumelo de fogo choque elétrico queimadura de cigarro sol sem filtro
 
Todas as tecnologias criadas por mãos sem calos e cérebros sem pudor
Mas vós, também luz, não viestes
 
Se pelo menos não houvesse tanta areia
Se pelo menos houvesse água onde nos afogar
Não vos teríamos esperado
 
Por vós nos sentamos no primeiro degrau e não subimos os outros
 
Na soleira do deserto vos aguardávamos
(A nós, moeda de troca, era proibido o abrigo na torre de vigia)
 
Os cabelos embranqueceram
as veias estouraram
os seios caíram
 
O pó empilhado se petrificou
E a flor do chão não renasceu depois de pisada
 
Não viestes
 
Só muitos séculos depois é que soubemos:
Nunca vos deixaram entrar
 
(Leila Guenther)    

Perguntas à Wisława

Para Graziela Schneider

Por que você sorri nas fotos?

Por que parece tão leve

Se carrega o peso dos séculos?

Os séculos também morrem

E quem já carregou um cadáver sabe:

Eles pesam mais do que os vivos

De que você ri?

Qual é a graça, afinal?

Preciso aprender a rir

Preciso antes aprender a sorrir

Por que você não me ensina?

De que lado você está?

É preciso escolher um lado, você mesma disse

O que há entre o percurso

Que vai do Ursinho Pooh a Hitler?

Um bosque de ossos?

A distância talvez não seja tão grande

Ou a mesma pessoa escreveu todos os livros 

Bato à sua porta

E ninguém lá dentro diz “Tem gente”

Você é uma pedra, Wisława

E pedras não têm porta

É preciso olhar para trás

Sem medo de se transformar nelas

Como viver?, pergunto a você todos os dias

Mas você não responde

(Leila Guenther)




quarta-feira, 2 de julho de 2025

E otaku ama?

 


Beatriz Misaki é uma jovem autora de ascendência japonesa que escreve literatura YA (Young Adult). Seu primeiro romance é Buruna: por um canto amarelo, cujo título é uma referência à maneira com que os japoneses pronunciam Bruna, nome da protagonista. A temática do romance é o abuso, mas é também sobre o forte laço de sororidade que une, por meio da música, duas jovens descendentes de asiáticos. Beatriz conta que o motor inicial de sua escrita se deveu ao apagamento, no caso a falta que sentia de obras que tivessem personagens amarelas, nas quais ela pudesse se reconhecer e se sentir representada.

Beatriz está agora lançando seu segundo romance, E otaku ama?, a história de um relacionamento inter-racial, contada em segunda pessoa, entre uma jovem amarela e um jovem negro, que se desenvolve a partir do interesse que ambos têm pela obra Amor insensato, de Junichiro Tanizaki, história de uma estranha relação com toques sadomasoquistas que em sua primeira edição brasileira recebeu o nome de Naomi, justamente um dos nomes da protagonista de E otaku ama? Este é o mote para Beatriz debater questões como preconceito, fetichização dos corpos femininos racializados, a luta de mulheres não brancas pelo seu lugar no mundo e o amor em sua forma mais libertadora, capaz de transformar aqueles que têm a coragem de enfrentar não apenas o conservadorismo de uma sociedade mas também seus próprios fantasmas.

 

E otaku ama? (Ed. do autor)

Beatriz Misaki 

Instagram: @biamisaki@escritorasasiaticasbrasileiras 

Indicação: a partir de 14 anos

1o Lançamento: 5 de julho, das 14h às 17h, no Café Itigô-Itiê, Rua Galvão Bueno, 425, bairro da Liberdade, São Paulo.

2o Lançamento 2: 12 de julho, às 15h, no 26o Festival do Japão, no Expo Exhibition e Convention Center, Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, São Paulo

Há alguns exemplares físicos totalmente gratuitos para quem se interessar. Basta preencher o formulário google aqui. É fácil e rápido. 



sábado, 17 de maio de 2025

Mas chove

 


Para Ahmed Zoghbi

Um sopro uma brisa uma nuvem

trazem notícias

de tufões tormentas tsunamis

de outros lugares

Mas lhes fechamos as portas porque aqui dentro faz frio

 

Me lembro de soltar os talheres

e todos continuarem comendo

enquanto o terremoto sacudia as mesas

do país de Allende

Com o tempo devíamos ficar mais resistentes às intempéries

Criar casca grossa

Fazer da pele um casaco impermeável

Mas a única casca que consigo criar é a da ferida

E ela é tão fina

Que quando a arranco

Jorra junto o sangue do mundo inteiro.


“Estamos perdendo a capacidade de contar”,

diz meu irmão, vizinho de Sherazade

Estamos perdendo a única habilidade que nos difere

como homens e entre homens

de transformar Babel em balada ou lullaby

Nem fly nem fight

Nem mesmo esquecer ou lembrar


Dizem os palestinos que devemos guardar as lágrimas

para o dia da vitória

mesmo sabendo que ela não virá

 

A falta de saúde os remédios o cortisol

o medo de perder o emprego me paralisam

Caminhamos dentro do oceano

contra uma massa de água

que nos atrasa os passos

e nos impede de salvar os que se afogam

 

Ikram, tentei te pôr em palavras

tu que não sabes ler

tu que vieste de outro oriente

mastigada e vomitada por uma baleia

Eu que venho do silêncio

quis dar-te voz

quando soubeste de teus dois filhos assassinados

 

Falhei. Falhei e não me perdoo

Tentei escrever porque não podia urrar

nem arrancar os cabelos

 

Porque narrar era o mínimo que devíamos saber

Como humanos que já fomos um dia.


(Leila Guenther)

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A rosa da náusea

 



A rosa de Hiroshima desabrocha
Rápida como uma bomba
Em toda parte ao mesmo tempo:

Na garota palestina que perdeu a carne e os cabelos
Na coluna partida de uma cachorra violentada em São Paulo
Na menina que brota de uma menina estuprada em Santa Catarina

(“Garanto que uma flor nasceu”)

Esta rosa dá náusea.

Leila Guenther
(Imagem da @fepal_brasil)


quarta-feira, 7 de maio de 2025

No litoral de Gaza

 



Estou convencido de que uma palmeira jamais se curva,

e de que nem suas tâmaras apodrecem.

Imagino o céu ocupado apenas por pássaros

e nuvens carregadas.

Ando sozinho ao longo da praia e nunca tenho medo de que as ondas frias e silenciosas me molhem.

Se me encontrar adormecido, tenha certeza de que ou estou

sonhando com rosas e pombas ou olhando dentro do vazio

abaixo de mim.

Vestirei meu terno rosado e andarei até o porto,

embora eu saiba que nenhum navio vá aparecer.

Minha esperança é de que você venha voando para mim

com suas incansáveis asas.

Para construir uma casa na praia para nós,

recolherei conchas e seixos até você chegar.

Não sei quantas casas terei erguido

antes de sua vinda.

Receio que eu vá reconstruir Gaza inteira até lá.

 

(Mosab Abu Toha, poeta palestino detido pelas tropas israelenses em 2023, em tradução minha. Ele acaba de ganhar o prêmio Pulitzer pelos ensaios sobre o genocídio palestino publicados em The New Yorker. O poema foi tirado do livro Things you may find hidden in my ear)


terça-feira, 6 de maio de 2025

Nota crítica sobre o livro de poemas Viagem a um deserto interior, de Leila Guenther

 

Publicado em 2015 pela Ateliê Editorial, o livro de poemas Viagem a um deserto interior, da catarinense Leila Guenther, é antes de qualquer coisa uma reunião de textos poderosos que revelam um estado de espírito atormentado do eu poético. Atravessar o livro de Guenther, esse deserto onde corre-se risco de afogamento, revela-se um duplo desafio: há inúmeras situações, propostas pelos poemas, extremamente incômodas; a obra reúne uma grande quantidade de enigmas, uma vez que o eu poético, sibilino, expressa-se de forma a mais elusiva e misteriosa, mesmo para os padrões do texto poético.

Dividido em cinco partes (Paisagens de Dentro, O deserto alheio, Castelo de Areia, Um jardim de pedra e A possibilidade do Oásis) que formam um itinerário a ser seguido pelo leitor mais corajoso, Viagem a um deserto interior começa com um de seus melhores poemas, “Contorcionismo”, brevíssima e eloquente denúncia-defesa da condição da mulher em uma sociedade patriarcal. Abaixo, segue o poemeto na íntegra

 

Contorcionismo

 

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

 

O poema começa com um índice de tempo, o advérbio (de realce, ou preposição) “já”, que nos indica uma sequência, uma sucessão, uma chegada, enfim. O eu poético chega a caber numa caixa de sapato, apequenou-se ou foi apequenado gradualmente. Mas o que ele queria ser era trapezista, aquela figura do circo que transita em quase absoluta liberdade pelo ar do picadeiro. Ou seja, o eu poético não é o que desejava ser, e o que ele desejava ser representa a liberdade. A mudança do eu poético tem se dado sempre por refração. Ele não cessa de diminuir de tamanho, até (já) caber num sapato. Tamanho e chão, já que o sapato costuma andar sobre o chão. O exato oposto do trapezista, que, não sendo contorcionista, jamais caberia numa caixa de sapato. Mas é interessante notar que o maior contorcionismo do poema está em o eu poético deixar de ser trapezista para ser contorcionista, o que explica a existência do título: explicativo, em uma primeira leitura, necessário como um verso, em uma leitura mais acurada. O leitor pode estar se perguntando: “mas por que o poema é uma denúncia-defesa da mulher, já que não há qualquer definição de gênero no texto?”. Lendo o resto do livro, marcado fortemente por um feminismo distante do panfleto, o leitor entende que há, no livro de Guenther, uma posição bem marcada no que diz respeito aos direitos da mulher, mas sobretudo, há um retrato em nada apresentável da condição atual da mulher na sociedade. Poema kafkiano não só pelo absurdo de sua entrelinha, mas porque nos remete a textos do grande escritor tcheco que traz figuras circenses em seus enredos, como “O artista da fome”, “Contorcionismo” é apenas o começo do que o leitor encontrará em termos de contenção e qualidade poética. Aliás, é válido lembrar que o circo é tema recorrente na primeira seção de poemas do livro de Leila Guenther, chamada “Paisagens de Dentro”. O leitor, naturalmente, é convidado a refletir sobre a natureza desse entretenimento popular: o circo é uma tenda com todo tipo de “números”, que vão do palhaço ao domador de leões, passando, é claro, por monstruosidades e desafios extremamente perigosos. Um prato cheio para quem gosta de interpretar símbolos.

Da mesma primeira seção – ou parte – do livro Viagem…, o poema “Circo dos medos” traz de volta a imagem do circo, e mais uma vez a figura feminina é alçada à condição de protagonista, com o status de fera. Leiamos:

 

Circo dos medos

 

Fecharam-no.

Talvez fosse clandestino.

Talvez houvesse irregularidades.

Partiram, sem riso, os palhaços.

Os trapezistas se foram pelos ares.

Os cavalos correram assustados.

O dono fugiu com a mulher barbada.

O domador se sentou em seu banco de afugentar bichos no meio da praça

E nunca mais se levantou.

As feras escoaram, silenciosas, pela terra.

 

Apenas uma, a menor de todas,

ficou onde estava, quando destrancaram o cadeado.

 

Tudo se movia, menos ela.

 

Ensaiou com insegurança alguns passos ao redor

da tigela de água.

Mas as patas de digitígrado titubearam sobre o piso

por causa das unhas longas,

nunca aparadas.

 

(Ela mal pisava o chão quando exposta aos olhos curiosos dos pagantes: 

sempre equilibrada sobre a palma da mão do encantador de serpentes, pulgas

e outras espécies de tamanho diminuto.)

 

Cada vez menor.

 

A tigela de água parecia do tamanho do circo que conheceu.

 

Ela ainda espera atrás das grades enferrujadas da jaula entreaberta.

 

A fera pode ser masculina, mas a autora não escolheu por acaso um substantivo feminino, que produz um pronome feminino (ela) em pelo menos três versos subsequentes à “fera”. Uma fera que foi se tornando pequena à medida que a liberdade foi aumentando, e que desaprendeu a viver fora da cela que a aprisionava. E ainda: uma fera que não está parada, apenas, uma fera que espera. Espera uma ordem que a liberte, talvez do encantador de serpentes. As unhas longas podem sugerir ou reforçar a ideia de feminilidade, e uma feminilidade que, no contexto de liberdade e fuga iminente, atrapalha. A fera do poema perdeu, também, o direito de ser vaidosa.

Há inúmeras referências literárias nos poemas de Viagem... Mas não só literárias: há uma infinidade de lugares distantes (a romantização da distância utópica, redentora), como países da África, e ainda o Japão, e figuras míticas etc. Referências que dialogam com o estado quase sempre atormentado do eu poético de Guenther. Abaixo, segue poema em que a voz de Ofélia, personagem sofrida do Hamlet de Shakespeare – e da célebre pintura do pintor inglês pré-rafaelita John Everett Millais – ganha força inaudita:

 

Ofélia

 

Assim me preparei

para o que viria:

 

a maior parte da vida gasta

em manter a cabeça

fora da água.

 

No ar

qualquer mudança no curso da borboleta

me derrubava.

Tinha ossos frágeis

e veias se viam

de meu pulso fraco.

 

Não sabia que teria de aprender a respirar sob a água.

 

Depois de tanto ter medo

(as pontas dos dedos se enrugam)

agora reino sobre Atlântida.

 

Depois de tanto se afogar, de tanto ter medo, Ofélia, com as pontas dos dedos enrugadas, reina sobre – estando sob a água – a mítica ilha platônica submersa. Tornou-se parte de seu inferno, mas ressignificando-o ao respirar sob a água e, mais que isso, ao reinar sob a água, em um evidente caso daquilo que o vulgo denomina “superação”.

Escrito pela mulher que não tem pares, Viagem… é um livro de forte carga onírica e crepuscular, aproximando-se, assim, do que escreveu a poeta inglesa Sylvia Plath. Não por acaso, o leitor pode encontrar o seguinte poema, à página 143 do livro de Guenther:

 

Jane Bowles

 

Não cortará os cabelos e os laços por Diego

Não irá para o hospício por Auguste

Não se matará com gás por Ted

 

O máximo que faria

Era se mudar para Tânger

 

Jane Bowles, diferentemente de Frida Kahlo, Camille Claudel e Sylvia Plath, viveu intensamente suas paixões – por homens e por mulheres –, mesmo casada (com o romancista e compositor Paul Bowles, autor de O céu que nos protege), e a despeito da série de enfermidades que marcou sua vida atribulada.

Enquanto não volta à superfície para respirar, o eu poético de Viagem… produz, em meio ao caos, como flores de lótus, textos de sabedoria (oriental), em geral breves, em alguns casos, haicais, fazendo o leitor pensar que sim, há um farol, há uma saída, há um saber, mas que precisa ser saboreado ainda:

Caminho de Bashô

 

O que diz respeito à montanha

Aprenda da montanha

 

O que diz respeito ao vulcão

Aprenda do vulcão

 

 

Shinjû

 

Do lado de lá da verdade

o espelho guarda o segredo

da imagem que o imita

 

 

Zazen

 

Sobre o zafu

olhando a parede, o mundo

parece maior

 

Mas a força maior da poesia de Leila Guenther está no estranhamento, no que nos provoca pavor, naquilo que os orientais, aos quais a poeta está fortemente atrelada, tão bem produzem (os orientais produzem o melhor do horror, e o melhor da iluminação). Abaixo, um dos poemas mais inquietantes do livro:

 

O peixe

 

Há um peixe que me olha

De dentro de um aquário distante

 

Desceu os rios

Atingiu os mares

Singrou o Atlântico

Surgiu numa praia de pedra do Pacífico

Que – afinal –

É a mesma água

De todos os oceanos

Rios lagos fontes olhos

 

Ele me examina com sua fixidez

De porcelana

Como se contemplasse

A matéria que compartilhamos

 

Mas ele é cego

 

A poesia de Leila Guenther, que é também contista e ensaísta, não é apenas bem escrita: é poesia de estilo inconfundível. Há uma marca – ou antes, uma grife –, um jeito, um modo de escrever, a partir de determinados temas, que só o reconhecemos ao ler a poeta catarinense, radicada em São Paulo, que, infelizmente – ou não –, publica pouco. E de forma definitiva.

 

(Henrique Wagner)

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Alguns haikais de uma escritora japonesa do século XVIII

 


arejando os quimonos

como faz com seu coração:

nunca é o bastante

*

caçador de libélulas:

me pergunto quantas léguas

terá viajado hoje

*

cabelos despenteados:

as mulheres de novo

chegam ao campo

*

do ânimo de uma

única e longa videira

cem vidas começam

*

chuva de primavera:

tornam-se belas

todas as coisas sobre a terra

*

um dente-de-leão

de vez em quando interrompe

o sonho da borboleta

*

o galho da glória-da-manhã

enroscado no balde:

tenho de buscar água

 

(Fukuda Chiyo-Ni [1703-1786], "tratradução" minha do inglês)

 

Para saber mais sobre haikais escritos por mulheres, leia aqui o texto de Marilia Kubota.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Abutre

 

Marina Yukawa, escritora, jornalista, e uma das fundadoras do Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras, estará também lançando seu livro de contos Abutre (Editora Terra Redonda) no dia 12/4, no Nekô Fest, comigo. Estamos juntas representando o Brasil em Más allá del haiku: antología de autores nikkei latinoamericanos, organizada por dois professores de universidades norte-americanas, Ignacio López-Calvo e Koichi Hagimoto. Foi por meio dela e de Marilia Kubota que tomei contato com várias autoras asiáticas ou da diáspora que me reconciliaram com a prosa: Yoko Ogawa, Julie Otsuka, Celeste Ng etc.

Marina é autora de Sorrisos Amarelos: histórias de jovens mulheres orientais no Brasil, livro-reportagem sobre “cinco jovens mulheres orientais ou descendentes que vivem no Brasil e que sofrem, ou já sofreram, violência, assédio e/ou preconceito devido ao estereótipo que carregam por suas origens e como tais experiências definem quem elas são”.

Abutre é seu primeiro livro de contos, embora ela já tenha participado, além de Más allá del haiku: antología de autores nikkei latinoamericanos, das antologias Isto não é direito: contos sobre Estado e (in)justiça no Brasil e Colapso: narrativas do antropoceno, também editados pela Terra Redonda.

Seus contos a princípio me lembraram um Edgar Alan Poe em surto, sofrendo as consequências de viver dentro de um cenário kafkiano, em que a anormalidade e a propriedade de pesadelo da rotina são tratadas de forma realista como cotidiano banal, criando um efeito de estranheza que eu, como contista, gostaria de atingir. Mas depois me dei conta de que a escrita de Marina era só dela mesma, e que carregava sua história, seu gênero, sua cor e sua forma de habitar o mundo.

Deixo aqui um trechinho de um de seus contos de Abutre, “Setas que voam de dia”: 

No começo, eu achava que era só falta de educação. Meu pai me ensinou a não apontar para os outros, mas parecia que todo o resto achava natural erguer o dedo para mim. As pessoas no metrô, nos ônibus, até andando na rua.

Pensei que estava ficando fedida; que algo podre crescia dentro de mim e só eu não conseguia ver. Fungava tentando achar meu fedor, farejava como cachorro atrás de carne morta. Comecei a usar mais shampoo, mais desodorante. Lavava minhas roupas todas à mão, enxaguava várias vezes na água e esfregava. Passava pomadas em feridas que eu imaginava pelo corpo todo. Algumas me doíam, outras eu abria em mim para conseguir senti-las. Aumentou ainda mais. Meu cheiro de muitos cremes e sabonetes estaria enjoando as pessoas, mas já não conseguia deixar de me lavar. Eu me sujava para poder ver a sujeira e então me lavar.

Talvez não fosse o cheiro. Talvez fosse a cara, o cabelo, a forma do corpo. Tinha que ser algo visível, algo perceptível. Não tinha como ser algo profundo – não tinha profundidade. Eu me encontrava rasa, completamente exposta, como se nua. E as pessoas apontavam para mim, me indicavam a feiura, a rudeza, o excesso de minha falta. De forma misteriosa, a aparência conseguia denunciar a podridão que eu era por dentro, e então as pessoas apontavam.

Ninguém nunca me falava. Quase não me olhavam. Muitas vezes estavam com os olhos fixos em algum livro ou no celular, mas ainda assim, com a mão que tinham livre, me apontavam. Se o natural era andar com os braços abaixados a não cansar, a gravidade então teria se deslocado e me tornado o fundo da terra. E me perguntava se aquilo era o mais fundo do poço em que eu poderia chegar. Não, eu me respondia, e temia minhas próprias respostas.