quarta-feira, 7 de maio de 2025

No litoral de Gaza

 



Estou convencido de que uma palmeira jamais se curva,

e de que nem suas tâmaras apodrecem.

Imagino o céu ocupado apenas por pássaros

e nuvens carregadas.

Ando sozinho ao longo da praia e nunca tenho medo de que as ondas frias e silenciosas me molhem.

Se me encontrar adormecido, tenha certeza de que ou estou

sonhando com rosas e pombas ou olhando dentro do vazio

abaixo de mim.

Vestirei meu terno rosado e andarei até o porto,

embora eu saiba que nenhum navio vá aparecer.

Minha esperança é de que você venha voando para mim

com suas incansáveis asas.

Para construir uma casa na praia para nós,

recolherei conchas e seixos até você chegar.

Não sei quantas casas terei erguido

antes de sua vinda.

Receio que eu vá reconstruir Gaza inteira até lá.

 

(Mosab Abu Toha, poeta palestino detido pelas tropas israelenses em 2023, em tradução minha. Ele acaba de ganhar o prêmio Pulitzer pelos ensaios sobre o genocídio palestino publicados em The New Yorker. O poema foi tirado do livro Things you may find hidden in my ear)


terça-feira, 6 de maio de 2025

Nota crítica sobre o livro de poemas Viagem a um deserto interior, de Leila Guenther

 

Publicado em 2015 pela Ateliê Editorial, o livro de poemas Viagem a um deserto interior, da catarinense Leila Guenther, é antes de qualquer coisa uma reunião de textos poderosos que revelam um estado de espírito atormentado do eu poético. Atravessar o livro de Guenther, esse deserto onde corre-se risco de afogamento, revela-se um duplo desafio: há inúmeras situações, propostas pelos poemas, extremamente incômodas; a obra reúne uma grande quantidade de enigmas, uma vez que o eu poético, sibilino, expressa-se de forma a mais elusiva e misteriosa, mesmo para os padrões do texto poético.

Dividido em cinco partes (Paisagens de Dentro, O deserto alheio, Castelo de Areia, Um jardim de pedra e A possibilidade do Oásis) que formam um itinerário a ser seguido pelo leitor mais corajoso, Viagem a um deserto interior começa com um de seus melhores poemas, “Contorcionismo”, brevíssima e eloquente denúncia-defesa da condição da mulher em uma sociedade patriarcal. Abaixo, segue o poemeto na íntegra

 

Contorcionismo

 

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

 

O poema começa com um índice de tempo, o advérbio (de realce, ou preposição) “já”, que nos indica uma sequência, uma sucessão, uma chegada, enfim. O eu poético chega a caber numa caixa de sapato, apequenou-se ou foi apequenado gradualmente. Mas o que ele queria ser era trapezista, aquela figura do circo que transita em quase absoluta liberdade pelo ar do picadeiro. Ou seja, o eu poético não é o que desejava ser, e o que ele desejava ser representa a liberdade. A mudança do eu poético tem se dado sempre por refração. Ele não cessa de diminuir de tamanho, até (já) caber num sapato. Tamanho e chão, já que o sapato costuma andar sobre o chão. O exato oposto do trapezista, que, não sendo contorcionista, jamais caberia numa caixa de sapato. Mas é interessante notar que o maior contorcionismo do poema está em o eu poético deixar de ser trapezista para ser contorcionista, o que explica a existência do título: explicativo, em uma primeira leitura, necessário como um verso, em uma leitura mais acurada. O leitor pode estar se perguntando: “mas por que o poema é uma denúncia-defesa da mulher, já que não há qualquer definição de gênero no texto?”. Lendo o resto do livro, marcado fortemente por um feminismo distante do panfleto, o leitor entende que há, no livro de Guenther, uma posição bem marcada no que diz respeito aos direitos da mulher, mas sobretudo, há um retrato em nada apresentável da condição atual da mulher na sociedade. Poema kafkiano não só pelo absurdo de sua entrelinha, mas porque nos remete a textos do grande escritor tcheco que traz figuras circenses em seus enredos, como “O artista da fome”, “Contorcionismo” é apenas o começo do que o leitor encontrará em termos de contenção e qualidade poética. Aliás, é válido lembrar que o circo é tema recorrente na primeira seção de poemas do livro de Leila Guenther, chamada “Paisagens de Dentro”. O leitor, naturalmente, é convidado a refletir sobre a natureza desse entretenimento popular: o circo é uma tenda com todo tipo de “números”, que vão do palhaço ao domador de leões, passando, é claro, por monstruosidades e desafios extremamente perigosos. Um prato cheio para quem gosta de interpretar símbolos.

Da mesma primeira seção – ou parte – do livro Viagem…, o poema “Circo dos medos” traz de volta a imagem do circo, e mais uma vez a figura feminina é alçada à condição de protagonista, com o status de fera. Leiamos:

 

Circo dos medos

 

Fecharam-no.

Talvez fosse clandestino.

Talvez houvesse irregularidades.

Partiram, sem riso, os palhaços.

Os trapezistas se foram pelos ares.

Os cavalos correram assustados.

O dono fugiu com a mulher barbada.

O domador se sentou em seu banco de afugentar bichos no meio da praça

E nunca mais se levantou.

As feras escoaram, silenciosas, pela terra.

 

Apenas uma, a menor de todas,

ficou onde estava, quando destrancaram o cadeado.

 

Tudo se movia, menos ela.

 

Ensaiou com insegurança alguns passos ao redor

da tigela de água.

Mas as patas de digitígrado titubearam sobre o piso

por causa das unhas longas,

nunca aparadas.

 

(Ela mal pisava o chão quando exposta aos olhos curiosos dos pagantes: 

sempre equilibrada sobre a palma da mão do encantador de serpentes, pulgas

e outras espécies de tamanho diminuto.)

 

Cada vez menor.

 

A tigela de água parecia do tamanho do circo que conheceu.

 

Ela ainda espera atrás das grades enferrujadas da jaula entreaberta.

 

A fera pode ser masculina, mas a autora não escolheu por acaso um substantivo feminino, que produz um pronome feminino (ela) em pelo menos três versos subsequentes à “fera”. Uma fera que foi se tornando pequena à medida que a liberdade foi aumentando, e que desaprendeu a viver fora da cela que a aprisionava. E ainda: uma fera que não está parada, apenas, uma fera que espera. Espera uma ordem que a liberte, talvez do encantador de serpentes. As unhas longas podem sugerir ou reforçar a ideia de feminilidade, e uma feminilidade que, no contexto de liberdade e fuga iminente, atrapalha. A fera do poema perdeu, também, o direito de ser vaidosa.

Há inúmeras referências literárias nos poemas de Viagem... Mas não só literárias: há uma infinidade de lugares distantes (a romantização da distância utópica, redentora), como países da África, e ainda o Japão, e figuras míticas etc. Referências que dialogam com o estado quase sempre atormentado do eu poético de Guenther. Abaixo, segue poema em que a voz de Ofélia, personagem sofrida do Hamlet de Shakespeare – e da célebre pintura do pintor inglês pré-rafaelita John Everett Millais – ganha força inaudita:

 

Ofélia

 

Assim me preparei

para o que viria:

 

a maior parte da vida gasta

em manter a cabeça

fora da água.

 

No ar

qualquer mudança no curso da borboleta

me derrubava.

Tinha ossos frágeis

e veias se viam

de meu pulso fraco.

 

Não sabia que teria de aprender a respirar sob a água.

 

Depois de tanto ter medo

(as pontas dos dedos se enrugam)

agora reino sobre Atlântida.

 

Depois de tanto se afogar, de tanto ter medo, Ofélia, com as pontas dos dedos enrugadas, reina sobre – estando sob a água – a mítica ilha platônica submersa. Tornou-se parte de seu inferno, mas ressignificando-o ao respirar sob a água e, mais que isso, ao reinar sob a água, em um evidente caso daquilo que o vulgo denomina “superação”.

Escrito pela mulher que não tem pares, Viagem… é um livro de forte carga onírica e crepuscular, aproximando-se, assim, do que escreveu a poeta inglesa Sylvia Plath. Não por acaso, o leitor pode encontrar o seguinte poema, à página 143 do livro de Guenther:

 

Jane Bowles

 

Não cortará os cabelos e os laços por Diego

Não irá para o hospício por Auguste

Não se matará com gás por Ted

 

O máximo que faria

Era se mudar para Tânger

 

Jane Bowles, diferentemente de Frida Kahlo, Camille Claudel e Sylvia Plath, viveu intensamente suas paixões – por homens e por mulheres –, mesmo casada (com o romancista e compositor Paul Bowles, autor de O céu que nos protege), e a despeito da série de enfermidades que marcou sua vida atribulada.

Enquanto não volta à superfície para respirar, o eu poético de Viagem… produz, em meio ao caos, como flores de lótus, textos de sabedoria (oriental), em geral breves, em alguns casos, haicais, fazendo o leitor pensar que sim, há um farol, há uma saída, há um saber, mas que precisa ser saboreado ainda:

Caminho de Bashô

 

O que diz respeito à montanha

Aprenda da montanha

 

O que diz respeito ao vulcão

Aprenda do vulcão

 

 

Shinjû

 

Do lado de lá da verdade

o espelho guarda o segredo

da imagem que o imita

 

 

Zazen

 

Sobre o zafu

olhando a parede, o mundo

parece maior

 

Mas a força maior da poesia de Leila Guenther está no estranhamento, no que nos provoca pavor, naquilo que os orientais, aos quais a poeta está fortemente atrelada, tão bem produzem (os orientais produzem o melhor do horror, e o melhor da iluminação). Abaixo, um dos poemas mais inquietantes do livro:

 

O peixe

 

Há um peixe que me olha

De dentro de um aquário distante

 

Desceu os rios

Atingiu os mares

Singrou o Atlântico

Surgiu numa praia de pedra do Pacífico

Que – afinal –

É a mesma água

De todos os oceanos

Rios lagos fontes olhos

 

Ele me examina com sua fixidez

De porcelana

Como se contemplasse

A matéria que compartilhamos

 

Mas ele é cego

 

A poesia de Leila Guenther, que é também contista e ensaísta, não é apenas bem escrita: é poesia de estilo inconfundível. Há uma marca – ou antes, uma grife –, um jeito, um modo de escrever, a partir de determinados temas, que só o reconhecemos ao ler a poeta catarinense, radicada em São Paulo, que, infelizmente – ou não –, publica pouco. E de forma definitiva.

 

(Henrique Wagner)

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Alguns haikais de uma escritora japonesa do século XVIII

 


arejando os quimonos

como faz com seu coração:

nunca é o bastante

*

caçador de libélulas:

me pergunto quantas léguas

terá viajado hoje

*

cabelos despenteados:

as mulheres de novo

chegam ao campo

*

do ânimo de uma

única e longa videira

cem vidas começam

*

chuva de primavera:

tornam-se belas

todas as coisas sobre a terra

*

um dente-de-leão

de vez em quando interrompe

o sonho da borboleta

*

o galho da glória-da-manhã

enroscado no balde:

tenho de buscar água

 

(Fukuda Chiyo-Ni [1703-1786], "tratradução" minha do inglês)

 

Para saber mais sobre haikais escritos por mulheres, leia aqui o texto de Marilia Kubota.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Abutre

 

Marina Yukawa, escritora, jornalista, e uma das fundadoras do Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras, estará também lançando seu livro de contos Abutre (Editora Terra Redonda) no dia 12/4, no Nekô Fest, comigo. Estamos juntas representando o Brasil em Más allá del haiku: antología de autores nikkei latinoamericanos, organizada por dois professores de universidades norte-americanas, Ignacio López-Calvo e Koichi Hagimoto. Foi por meio dela e de Marilia Kubota que tomei contato com várias autoras asiáticas ou da diáspora que me reconciliaram com a prosa: Yoko Ogawa, Julie Otsuka, Celeste Ng etc.

Marina é autora de Sorrisos Amarelos: histórias de jovens mulheres orientais no Brasil, livro-reportagem sobre “cinco jovens mulheres orientais ou descendentes que vivem no Brasil e que sofrem, ou já sofreram, violência, assédio e/ou preconceito devido ao estereótipo que carregam por suas origens e como tais experiências definem quem elas são”.

Abutre é seu primeiro livro de contos, embora ela já tenha participado, além de Más allá del haiku: antología de autores nikkei latinoamericanos, das antologias Isto não é direito: contos sobre Estado e (in)justiça no Brasil e Colapso: narrativas do antropoceno, também editados pela Terra Redonda.

Seus contos a princípio me lembraram um Edgar Alan Poe em surto, sofrendo as consequências de viver dentro de um cenário kafkiano, em que a anormalidade e a propriedade de pesadelo da rotina são tratadas de forma realista como cotidiano banal, criando um efeito de estranheza que eu, como contista, gostaria de atingir. Mas depois me dei conta de que a escrita de Marina era só dela mesma, e que carregava sua história, seu gênero, sua cor e sua forma de habitar o mundo.

Deixo aqui um trechinho de um de seus contos de Abutre, “Setas que voam de dia”: 

No começo, eu achava que era só falta de educação. Meu pai me ensinou a não apontar para os outros, mas parecia que todo o resto achava natural erguer o dedo para mim. As pessoas no metrô, nos ônibus, até andando na rua.

Pensei que estava ficando fedida; que algo podre crescia dentro de mim e só eu não conseguia ver. Fungava tentando achar meu fedor, farejava como cachorro atrás de carne morta. Comecei a usar mais shampoo, mais desodorante. Lavava minhas roupas todas à mão, enxaguava várias vezes na água e esfregava. Passava pomadas em feridas que eu imaginava pelo corpo todo. Algumas me doíam, outras eu abria em mim para conseguir senti-las. Aumentou ainda mais. Meu cheiro de muitos cremes e sabonetes estaria enjoando as pessoas, mas já não conseguia deixar de me lavar. Eu me sujava para poder ver a sujeira e então me lavar.

Talvez não fosse o cheiro. Talvez fosse a cara, o cabelo, a forma do corpo. Tinha que ser algo visível, algo perceptível. Não tinha como ser algo profundo – não tinha profundidade. Eu me encontrava rasa, completamente exposta, como se nua. E as pessoas apontavam para mim, me indicavam a feiura, a rudeza, o excesso de minha falta. De forma misteriosa, a aparência conseguia denunciar a podridão que eu era por dentro, e então as pessoas apontavam.

Ninguém nunca me falava. Quase não me olhavam. Muitas vezes estavam com os olhos fixos em algum livro ou no celular, mas ainda assim, com a mão que tinham livre, me apontavam. Se o natural era andar com os braços abaixados a não cansar, a gravidade então teria se deslocado e me tornado o fundo da terra. E me perguntava se aquilo era o mais fundo do poço em que eu poderia chegar. Não, eu me respondia, e temia minhas próprias respostas.





quinta-feira, 10 de abril de 2025

Lançamento do novo livro

O Nekô Fest, onde ocorrerá o lançamento de meu livro de poemas Este lado para baixo (Editora Peirópolis), é um evento de cultura asiática que abriga iniciativas de origens diversas e tem caráter inclusivo e heterogêneo. Não é uma feira de cultura tradicional: outra de sua iniciativa reúne apenas expositoras asiáticas que pretendem desfazer estereótipos ligados à imagem da mulher “oriental”.

Este lado para baixo vai ser lançado como parte de um programa completo de sabadão, dentro de um festival ao ar livre, onde todos se sintam acolhidos e à vontade. Será algo descontraído, com música, artes visuais, oficinas, comidinhas de várias partes da Ásia, junto ao Coletivo de Escritoras Asiáticas & Brasileiras, de que participo. Marina Yukawa, uma de suas fundadoras, também estará lá lançando seu livro de contos, Abutre (Editora Terra Redonda).

O evento é das 11h às 20h e eu estarei lá das 15h às 18h.

No dia, meu livro estará com 40% de desconto.

Ficarei feliz de vê-los por lá. 



quinta-feira, 13 de março de 2025

Este lado para baixo

 

O novo livro de poemas chegando pela Editora Peirópolis

Do site da editora:

A poesia no calor da hora, como olhar crítico para o mundo, como fala de protesto e de espanto diante do que o ser humano foi capaz de fazer com a sua morada, com o seu país, com a sua política, com os outros seres vivos, com as palavras esvaziadas ou retorcidas em seus sentidos. Este lado para baixo nos apresenta um olhar inquieto e perplexo para o cenário que habitamos – coalhado de guerras, vírus, desmandos – e, diante dele, a poesia surge como possibilidade de denúncia e entendimento, de transformação e mudança de rota, de exílio ou de sonho.

Como escreveu a poeta e prefaciadora Adriane Garcia, “O eu-poético que fala nos versos deste livro frequenta um lugar perigoso, com gente perigosa, por isso, uma das leituras que podemos fazer é a de que este livro se chama Este lado para baixo porque é preciso instruir, é preciso manusear com cuidado, o conteúdo é inflamável e está sob pressão”. E a poesia, tal como escreveu a curadora da coleção, Ana Elisa Ribeiro, “talvez seja uma nova chance de parar, observar, rever e repensar; talvez, deixar de fazer o mal de novo”.

DISPONÍVEL A PARTIR DE 30/03/2025.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O perigo de estar lúcida

Rosa Montero descreve muito bem, em O perigo de estar lúcida, algo difícil de pôr em palavras: aquilo que o transforma numa espécie de alienígena de um planeta inabitado, desconectado de qualquer realidade conhecida. Apesar do assunto (a relação entre criação e loucura), seu texto é, em muitas partes, bem-humorado, como só conseguem ser os dos que passaram por graves crises psíquicas. Afinal, como não rir de si mesmo depois de períodos em que não se consegue sair de casa, porque pisar no chão lá fora é pisar num campo literalmente minado? O trecho abaixo toca em dois pontos assustadores da minha própria existência: o medo de perder a sanidade e o medo de que isso se repita. Essas crises atingem mais os artistas (sejam eles bons ou ruins) e, dentre eles, mais os que trabalham com a palavra do que qualquer outro grupo. E a incidência de bipolares é mais alta do que a de apenas depressivos.



“O transtorno psíquico é um súbito e inesperado raio que te fulmina. Sua chegada devastadora tem certa semelhança com os acidentes domésticos graves. Imaginemos, por exemplo, um deslize e uma queda no banheiro que fratura suas costas: um segundo antes, sua vida era normal e vertical, indolor e sequencial, vinha do passado e se projetava em direção ao seu pequeno e próximo futuro (tomar banho, se vestir e ir trabalhar, ou então escovar os dentes e ir para a cama), e, um segundo depois, sem prever nem pensar, você se encontra horizontal e quebrada, atônita, indefesa, dilacerada por uma dor indizível, eliminada da sua vida e da sua realidade por muito tempo, talvez para sempre, se a lesão for importante. Pois bem, é assim que a crise mental se abate sobre você. Parece vir de fora e te sequestra. Na primeira vez, eu me encontrava sozinha na copa de casa. Deviam ser onze horas da noite e eu estava assistindo à televisão sem muito interesse, talvez porque não tivesse vontade de terminar de tirar a mesa, como era minha obrigação. Meu pai devia estar indo dormir; minha mãe, na cozinha; meu irmão mais velho, sabe-se lá onde. Então, aconteceu: a sala começou a se distanciar de mim, o mundo inteiro encolheu e passou para o outro lado de um túnel escuro, como se eu estivesse olhando a realidade através de um telescópio. E junto com a anomalia visual veio o terror, uma onda de pânico indizível, um medo puro e duro de uma intensidade que eu jamais experimentara antes e que, além de tudo, não tinha nenhuma causa aparente. ‘O pior era a sensação de terror constante sem fazer a menor ideia do que eu tinha medo’, diz o psicólogo Andrew Solomon sobre uma depressão que sofreu. Eu também não sabia por que estava assustada, mas me sentia prestes a morrer de susto. Meu corpo tremia com violência e meus dentes batiam e, para piorar as coisas, segundos depois surgiu outro medo, este sim já com motivo: a convicção de estar louca. Afinal, de que outra forma seria possível entender o que estava me acontecendo? (…) A princípio, você acha que nunca mais vai voltar à normalidade, que ficará presa para sempre nessa atormentada dimensão de pesadelo, mas na realidade as crises de pânico duram poucos minutos e depois vão se dissolvendo. Não por completo, evidentemente. Sempre fica o medo do medo (o terror absoluto de voltar a cair no buraco) e uma vaga sensação de apatia e irrealidade que gruda em você como um sudário. Nos piores momentos, você não se atreve a frequentar reuniões sociais, a sair para a rua ou dirigir, com medo de que se repita. Não suporta assistir à televisão ou ir ao cinema, porque a falta de confiabilidade do mundo parece aumentar. Claro, você volta a ter outros ataques, no meu caso cada vez mais espaçados, e ao cabo de um ano ou um ano e meio, mais ou menos, você recupera sua vida. Até o próximo período de trevas.”

 

(Rosa Montero, O perigo de estar lúcida. Trad. Marina Sanchez. Todavia)







 




quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Para além do Nobel

 


Acredito que o Prêmio Nobel de Literatura de 2024 para a escritora coreana Han Kang foi merecido. Mulher, asiática, mas sobretudo autora de uma obra-prima: A vegetariana. Às vezes um único livro curto vale mais que dez calhamaços. Esperava que os críticos de plantão a tivessem lido antes de opinar, para não fazerem o que fizeram com Olga Tokarczuk, autora de outra obra-prima, Sobre os ossos dos mortos, que foi julgada com base nas escolhas de sua vida pessoal. Mas, para demonstrar como Han Kang “escreve mal”, andaram compartilhando um e outro trechinho de seus livros. Trechos soltos, tirados do contexto provavelmente por homens que não leram a obra na íntegra. Isso é o mesmo que pegar 3cm2 de uma pintura de 2 metros do Monet e dizer que nem para pintor de parede ele serve. Penso que muito da recusa que vi a sua obra se deve ao fato de sermos desde sempre expostos majoritariamente à prosa escrita por homens, de modo que a tomamos como medida de boa literatura e estranhamos outras maneiras de narrar. Felizmente, num mundo onde cada vez mais mulheres levantam sua voz, é natural que haja mais gente disposta a escutá-las. Han Kang pode não mudar a história do Nobel, mas pode abrir nossos olhos para autoras como You-Jeong Jeong, Mary Lynn Bracht, Min Jin Lee, Kyung-Sook Shin, Cho Nam-Joo e Frances Cha. Literatura escrita por mulheres, e não aparelhos eletrônicos, é o que de melhor a Coreia tem produzido ultimamente.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Escute as feras

Dois trechos de Escute as feras, da antropóloga francesa Nastassja Martin, que viveu com o povo Even, da Sibéria, e sobreviveu ao ataque de um urso. Tentaram “civilizar” os Even à força, mas muitos, depois da queda do regime soviético, voltaram a viver nas florestas de Tvaian, em busca de reconexão com suas origens:

Não sinto dores de fato. Só sinto medo, medo de tudo aquilo que não voltou a se fechar em mim, de tudo aquilo que potencialmente se insinuou em mim. Há outros seres à espreita na minha memória; então talvez também haja alguns debaixo da minha pele, nos meus ossos. Essa ideia me aterroriza, porque não quero ser um território invadido. Quero fechar minhas fronteiras, expulsar os intrusos, resistir à invasão. Mas talvez eu já esteja sitiada. É sempre a mesma coisa. Diante de pensamentos assim, eu afundo: sei que, para fechar minhas fronteiras, seria preciso antes poder reconstruí-las.

Teria sido tão simples se minha perturbação interior se resumisse a uma problemática familiar não resolvida, ao meu pai morto cedo demais, às expectativas não satisfeitas da minha mãe. Então eu poderia “resolver” minha depressão. Mas não. Meu problema é que meu problema não pertence apenas a mim. Que a melancolia que se exprime no meu corpo vem do mundo. Acredito que sim, é possível se tornar “o vento que sopra através de nós”, como dizia Lowry. E que é comum não voltar atrás, como ele, como tantos outros. Fui ter com os evens do Itcha e vivi na floresta com eles por uma razão bem distante de uma pesquisa comparativa. Entendi uma coisa: o mundo desmorona simultaneamente em todos os lugares, apesar das aparências. O que acontece em Tvaián é que se vive conscientemente em suas ruínas.


(Nastassja Martin, Escute as feras. Trad. Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann, Editora 34.)


Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras

O Coletivo Escritoras Asiáticas & Brasileiras, fundado em agosto de 2023 pelas escritoras Liana Nakamura e Marina Yukawa, é uma iniciativa que reúne autoras asiáticas e descendentes que encontraram na palavra seu lugar de expressão para explorar não apenas o universo individual e particular de cada uma, mas também temas de sua identidade – étnica, cultural e de gênero. O grupo tem por princípio a sororidade e é composto por escritoras de diversas origens asiáticas, contando atualmente com mais de 80 integrantes, de diversas idades e de diversos lugares do Brasil e do exterior.
Procuramos promover a publicação de obras literárias e incentivar ações que deem visibilidade à condição das mulheres asiáticas dedicadas à literatura, acolhendo sua ancestralidade no contexto brasileiro, mas sem os estereótipos que costumam limitá-las. O trabalho das autoras abrange poesia, contos e crônicas, romances, quadrinhos, não ficção, zines e literatura infantil e infanto-juvenil.

Somos mulheres, asiáticas, brasileiras, escritoras. E somos muitas.

Instagram: @escritorasasiaticasbrasileiras 

(logotipo criado por May Aoki Aniya, autora do Coletivo)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Por falar em silêncio

 



Se me perguntassem do novo filme do diretor alemão Wim Wenders, Perfect Days, ambientado no Japão, eu responderia como Glória Pires: “não sou capaz de opinar”. Estou demasiado dentro dele para julgar. Transito nele com naturalidade. Viveria nele sem problemas. Talvez por descender de alemães e de japoneses? Mas ocorre que também me sinto completamente à vontade num de seus filmes americanos, sem ter nada de americana: Paris, Texas, cujo protagonista se recusa a falar e que, quando resolve fazê-lo, e de forma eloquente, eu poderia dublar de cor; Paris, Texas, onde eu compraria um terreno imaginário para construir uma casa que não existe, só para poder ficar calada sem ter de dar explicações. O protagonista de Perfect Days, responsável pela limpeza de banheiros públicos, quase não fala, como o de Paris, Texas, embora também seja eloquente. Wim Wenders conseguiu fazer um filme mais japonês que o próprio Japão. Wim Wenders, que, com seu documentário Tokyo-Ga, deu a melhor explicação para o silêncio e o alheamento japonês do pós-guerra. “O que você disse?”, pergunta meu companheiro em determinado momento do longa. E eu não havia dito nada: ele é que tinha confundido a voz de uma das personagens com a minha.

Em tempos: dizem que nos antigos e silenciosos mosteiros zen-budistas japoneses, onde quase todas as atividades eram realizadas em revezamento pelos monges, apenas uma era executada pelo mais alto na hierarquia: a limpeza dos banheiros.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O pelo do cachorro

 O cachorro partiu. Sentimos falta dele. Quando tocam a campainha, ninguém late. Quando chegamos tarde em casa, não há ninguém nos esperando. Ainda encontramos seus pelos brancos aqui e ali, espalhados pela casa e em nossas roupas. Nós os recolhemos. Devíamos jogar fora. Mas é a única coisa que sobrou dele. Não jogamos fora. Temos uma esperança doida - se ao menos pudéssemos juntar bastante pelo, poderíamos montar o cachorro novamente.

(Lydia Davis, tradução minha)




domingo, 3 de setembro de 2023

Murasaki Shikibu

Palavras daquela que inventou um gênero literário (o romance), quase mil anos antes do que o cânone apregoava: 

(...) tímida, pouco amiga de olhares estranhos, retraída, amante de velhas histórias, tão aficionada à poesia que quase nada me interessa, e desdenhando toda a gente, na desagradável opinião que de mim os outros fazem. E, no entanto, quando me conhecem consideram-me muito suave e diferente do que lhes fizeram supor. Sei que muitos me consideram uma espécie de proscrita, mas habituei-me a isso e digo para mim mesma:

EU SOU COMO SOU. 

(Murasaki Shikibu. c.978-c.1014)


 


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Celeste Ng (II)

 


Não sei quanto tempo levará para eu encontrar um livro tão poderoso quanto o que acabo de ler, Os corações perdidos (Intrínseca, trad. Fernanda Abreu), de Celeste Ng, uma distopia em que os asiáticos estadunidenses são transformados em bode expiatório para o declínio do império americano. O ponto chave é a retirada sumária da guarda das crianças dos pais considerados perigosos ao sistema para serem realocados em lares onde as famílias nunca mais as encontrarão. O capítulo em que as histórias dos filhos são referidas, lembradas pelos pais e reunidas por alguém que crê no poder da memória e da palavra escrita é algo à parte, que se eleva para entrar no panteão dos melhores capítulos da literatura que eu já pude ler. E, segundo a autora, o tema foi emprestado da realidade, principalmente da dos imigrantes. A realidade que desde sempre sequestra os humanos mais indefesos (e continuará a fazê-lo) para colocá-los numa condição de desamparo da qual não há retorno possível.


Celeste Ng (I)

A primeira obra que li neste ano é um dos romances que serão debatidos no Clube de Leitura Mulheres Asiáticas: Tudo o que nunca contei, da escritora sino-americana Celeste Ng, uma das escritoras do que se denomina diáspora. É a história de um casal inter-racial amoroso cuja filha, Lydia, - na qual os pais depositaram todos os seus próprios anseios - morre aos dezesseis anos. Percebi horrorizada que esta é minha história também, a história de quem carrega um peso que, aos olhos dos outros, nem parece existir. Procurar cumprir expectativas com as quais não se identifica, fingir ser o que não é, estar apartada, ser rejeitada (no livro, isso significa não ter amigas, não ser convidada para eventos relacionados à escola, não ser desejada por nenhum garoto, ser motivo de piadinhas pelas suas feições exóticas num mundo de brancos), ter vergonha de si mesma, nunca ser aceita de verdade por nenhum dos lados da família (por não ser nem completamente branca nem completamente amarela), sublimar tudo, ter vontade de sumir, de poder enfim respirar. Ninguém, antes da morte de Lydia, consegue verbalizar e enfrentar a verdade: a dificuldade de integração que faz com que mestiços vivam precariamente se equilibrando sobre um fio. O exílio constante de quem, como um tipo de aberração, não faz nunca parte de nada. A morte da garota se dá em 1977. Mestiça que sou, se eu tivesse vivido minha adolescência nessa época, também não sei se teria sobrevivido. Nasci em 1976 e até hoje não me recuperei das feridas.

 

“Na cama de Lydia, Marilyn abraça os joelhos feito uma menininha, tentando preencher as lacunas entre o que James disse, o que ele pensa e o que quis dizer. ‘Sua mãe tinha razão desde o início. Você deveria ter se casado com alguém que tivesse mais a ver com você’. Havia tanta amargura na voz dele que Marilyn ficou sem reação. As palavras são familiares, e ela as pronuncia em silêncio, tentando situá-las. Então, lembra. No dia de seu casamento, no cartório: sua mãe lhe avisou sobre seus filhos, como eles não se integrariam a lugar algum. ‘Você vai se arrepender’, disse, como se eles fossem ser maltratados, imbecilizados e condenados, e lá fora, na recepção, James devia ter ouvido tudo. Marilyn disse apenas: ‘Minha mãe acha que devo me casar com alguém que tenha mais a ver comigo’, depois jogou o assunto para longe, como poeira no chão. Mas aquelas palavras haviam assombrado o marido. Como deviam ter se enrolado em seu coração, apertando cada vez mais ao longo dos anos, entranhando-se na carne. Ele baixou a cabeça feito um assassino, como se seu sangue fosse veneno, como se se arrependesse de sua filha ter um dia existido.”

 

(Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Intrínseca)