quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Um golpe no meu gosto

 

Por um tempo pensei que meu amor pela leitura de prosa tivesse morrido. Não conseguia mais ler romances ou reler aqueles que um dia me encantaram. Nada me interessava mais. Lia outras coisas, outros gêneros, porque a leitura sempre fez parte de minha vida, de uma necessidade vital, mas não sabia mais o que era ser transportada pela beleza das palavras que narram, ser sequestrada por uma história até sua última página. Até que me vi envolvida e paralisada por um pequeno e aterrador romance de Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia, que li porque era curto e eu tinha pressa. Depois vieram outro, e mais outro, levado pelo anterior, vários numa sequência, revelando um universo cheio de novas perspectivas de mundo, de distintas maneiras de narrar. E antes dele, outros que me mandaram sinais que na época não compreendi: todos livros escritos por mulheres. E descobri com alívio que eu não tinha deixado de gostar da prosa. Eu estava apenas cansada da prosa escrita por homens.

O percurso em progresso, por nome de autora em ordem alfabética:

Adania Shibli, Detalhe menor. Trad. Safra Jubran. São Paulo, Todavia. 2021.

Arundhati Roy, O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2008.

Carson McCullers, O coração é um caçador solitário. Trad. Sonia Moreira. Companhia das Letras, 2007.

Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2017.

Celeste Ng, Os corações perdidos. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2023.

Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco roxo. Trad. Julia Romeu. Companhia das Letras, 2011.

Cristina Judar, Oito do sete. São Paulo, Reformatório, 2017.

Elena Ferrante, A filha perdida. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2016.

Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes. Trad. Raquel de Queiroz. Nova Cultural, 1985.

Elif Batuman, A idiota. Trad. Odorico Leal. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.

Han Kang, A vegetariana. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2018.

Hiromi Kawakami, A valise do professor. Trad. Jefferson José Teixeira. São Paulo, Estação Liberdade, 2012.

Isabel Allende, O amante japonês. Trad. Ângela Barroqueiro. Porto, Porto Editora, 2015.

Julie Otsuka, O Buda no sótão. Trad. Lilian Jenkino. São Paulo, Grua, 2014.

Karen Blixen, A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.

Katie Kitamura, Uma separação. Trad. Sonia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.

Laetitia Colombani. A trança. Trad. Patricia Xavier. Lisboa, Bertrand Editora, 2018.

Lionel Shriver, A nova república. Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2015.

Magda Szabó, A porta. Trad. Edith Elek, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2021.

Margaret Atwood, O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro, Rocco, 2017.

Marguerite Duras, A dor. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.

Maria Valéria Rezende, Outros cantos. Rio de Janeiro, Objetiva, 2016.

Marilia Arnaud, Liturgia do fim. São Paulo, Tordesilhas, 2016.

Marilia Kubota, Eu também sou brasileira. São Paulo, Lavra Editora, 2020.

Mary Lynn Bracht, Herdeiras do mar. São Paulo, Editora Paralela, 2018.

Mieko Kawakami, Peitos e ovos. Trad. Eunica Suenaga. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2019.

Min Jin Lee, Pachinko. Trad. Marina Vargas. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.

Muriel Barbery, A elegância do ouriço. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

Naomi Alderman, O poder. Trad. Rogério Galindo. São Paulo, Planeta, 2018.

Olga Tokarczuk, Sobre os ossos dos mortos. Trad. Olga Baginska-Shinzato. São Paulo, Todavia, 2019.

Ottessa Moshfegh, Meu ano de descanso e relaxamento. Trad. Juliana Cunha. São Paulo, Todavia, 2019.

Pilar Quintana, A cachorra. Trad. Livia Deorsola. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.

Sayaka Murata, Querida konbini. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2019.

Sayaka Murata, Terráqueos. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2021.

Sei Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M. H. Cordaro. São Paulo, Editora 34, 2013.

Simone de Beauvoir, A mulher desiludida. Trad. Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo, 2003.

Svetlana Alesiévitch, A guerra não tem rosto de mulher. Trad. Cecília Rosas. São Paulo, Companhia das Letras, 2016.

Yoko Ogawa, A fórmula preferida do professor. Trad. Shintaro Hayashi. São Paulo, Estação Liberdade, 2017.

Yoko Ogawa, A polícia da memória. Trad. Andrei Cunha. São Paulo, Estação Liberdade, 2021.

Yoko Ogawa, O museu do silêncio. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2016.

You-jeong Jeong, Sete anos de escuridão. Trad. Paulo Geiger. São Paulo, Todavia, 2011.

You-jeong Jeong, O bom filho. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2016.

Xinran, As boas mulheres da China. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2002.





quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Salmo

Felizes os que têm irmãos de quem

                                 [divergir em união

Felizes os que, afagando o pelo de um animal,

                              [afagam sua própria mão

Felizes os que podem afagar o capim

                            [como se fosse um animal

Felizes os que vivem na companhia de um cão

            [que não aprende o caminho do banheiro

Felizes os que fazem planos para o passado

E os que cantam no chuveiro sem medo de desafinar

 

Felizes os que guardam uma dose de cicuta

                       [para brindar o dia que não virá

 

(Leila Guenther)

  

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Nós & Nós

Meu conto "Díptico" traduzido para o espanhol por Marcelo Donoso para a revista Ojo x Ojo. Breve em versão impressa.







segunda-feira, 22 de março de 2021

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Memento & memorando


para Carlos Augusto Lima

Não esquecer jamais os nomes e os números

Desta vez eles estão tão unidos

Que mudarão a história das línguas

E da matemática

 

Pôr no papel a memória que se dissipa

Como o ar que não chega aos pulmões

 

Reaprender a contar algarismos

Como Sherazade aprendeu a contar estórias

Noite após noite

Colhendo o sopro que a faria dizer

1001 vezes

Ou quantas fossem necessárias

 

Transformar a estória em história

Quando nos mandaram calar

 

Tudo o que foi roubado, olvidado ou destruído

Reconstruiremos com palavras

 

(Esse tijolo frágil

Mas indigesto)




domingo, 24 de maio de 2020

Notícias de outras ilhas

Participo da seção “Notícias de outras ilhas” da revista Cult (em que “poetas, escritores, críticos, editores e tradutores sugerem leituras para abrandar o peso do noticiário no período da quarentena”), com os poemas-amuletos de Adriana Versiani dos Anjos e a biografia da monja budista Tenzin Palmo, a convite de Tarso de Melo, também criador de amuletos.


domingo, 29 de março de 2020

De assalto

O escritor André Balbo lê "De assalto", conto meu de Partes Homólogas.



sábado, 21 de março de 2020

Pela vida


Foi em março, há dez anos, que eu passei quase um mês num hospital público por causa de um vírus que atingiu meus pulmões. A fase epidêmica da H1N1 já tinha passado, eu estava na casa dos trinta anos, era verão, eu não tinha viajado e trabalhava em casa, numa cidade do interior de sp. Praticava esportes e, no dia em que comecei a passar mal, tinha nadado pela manhã uns 2000 metros. À noite comecei a ter febre. Pensei se tratar de uma gripe comum. No dia seguinte já não podia suportar de desconforto pela temperatura de 39, 40 graus. Fui a um renomado centro médico particular da cidade, onde o médico diagnosticou uma gripe comum e me prescreveu antitérmicos a cada 8 horas. Nos dois dias seguintes, os remédios já não davam conta, eu precisava deles a cada 5 ou 6 horas. Voltei ao centro médico, onde o mesmo médico me atendeu, reafirmando se tratar de uma gripe comum com a qual não devia me preocupar: segundo ele, eu e a “torcida do Corinthians” estaríamos assim. Nos outros dois dias tomava o antitérmico a cada 3 ou 4 horas, sem sucesso. Já não conseguia dirigir (uma das pessoas com quem vivia estava viajando e a outra, na faculdade) e fui de táxi ao hospital mais próximo coberto pelo plano de saúde, onde me internaram por pneumonia. Dos próximos dias já quase não me lembro, tenho apenas flashes: tentavam me dar medicação via oral e eu vomitava, já não conseguia respirar mais, desmaiava. Me recordo de acordar com uns aparelhinhos com os quais tentavam que eu fizesse exercícios respiratórios e de perder a consciência de novo. Quando decidiram me transferir para um hospital público de referência na região, fui direto para a UTI, em isolamento total. O pneumologista que me recebeu disse depois à minha família que algumas horas mais sem o tratamento adequado e teria sido tarde. Percebi vagamente, na confusão mental em que me encontrava pela falta de oxigênio, pelas pessoas chorando, que meu estado era realmente grave e que estava morrendo. E eu, que sempre tive medo da morte, não senti medo. O mais desesperador não era morrer, era não conseguir respirar. Medicaram-me, me colocaram em coma induzido e me entubaram. A radiografia já não conseguia mostrar os pulmões, totalmente tomados pela escuridão. Nesses três primeiros dias do coma, os órgãos começaram a parar de funcionar: os pulmões, os rins. O próximo seria o coração. Temiam uma falência múltipla e pediram à família que se preparasse para o pior: de cada dez pessoas naquele estado, nove morriam. Passados os três primeiros dias críticos, eu comecei a melhorar, permanecendo entubada até o nono dia, no limite de receber uma traqueostomia. Acordei do coma com dois enfermeiros me dando banho. Um deles encontrei algum tempo depois num evento de humanização promovido pelo hospital e ele chorou copiosamente quando me viu. A outra enfermeira me disse que sua mãe tinha rezado por mim todos os dias em que estive entubada. Soube também que a esposa e a sogra do pneumologista tinham feito uma novena pela minha saúde. Até hoje me emociono quando me lembro dessas coisas. Depois ainda houve uma longa recuperação na enfermaria, que é ainda hoje o lugar de acolhimento para onde minha mente se volta quando preciso de coragem (mas essa é outra história), e outra fase em casa. Após o coma, perdemos a força e todos os movimentos, e demoramos para conseguir executá-los de novo.
Não sei por que escrevi isso, acho que é apenas uma declaração de amor a um sistema de saúde público que salvou minha vida quando o privado, em três ocasiões, falhou vergonhosamente. Mas é também para dizer que algo se transforma dentro de nós diante de uma situação-limite. Curiosamente, depois disso, meus interesses, digamos, contemplativos se voltaram para as meditações com foco na respiração, no estudo do pranayama (inúmeros tipos de respiração do yoga), no poder curativo da respiração, no tonglen (uma prática tibetana em que se inspira o sofrimento dos outros e se expira devolvendo-lhes compaixão). Descobri que respirar, esse ato tão simples e banal, involuntário e voluntário ao mesmo tempo, é uma das coisas que mais gosto de fazer. A morte continua a mesma, mas minha relação com a vida mudou para sempre. Foi o que um vírus minúsculo me ensinou.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Sobre minhas Partes Homólogas


(Do canal "Acontece nos livros", por Whisner Fraga)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

"Numa casa de ausências"


TEOLOGIA NEGATIVA

Nas maçãs do mistério um louco
morde a sombra
do sol.

Sob o peso
da solidão
é o meu número.

Hoje a comarca não me compra.

Uso sapatos
de chumbo para o vento
não me roubar.

Mostro a imensa substância
das noites escuras
de San Juan de La Cruz.

Na fuga
do hospício etéreo
a realidade se salva em porta:
arranha-céu.


NOITES ENSOLARADAS

Do poema, romperam-se as romãs.
No coro dos granizos,
fugiram as sibilas.

Íamos habitar a abóbada celeste, 
mas a nave não atravessou
a noite do Hades.

Nossa odisseia era para ser maior
que o mar de Homero.


SOM E FÚRIA

No limite de um mundo
pobre em significados,
solto astronautas
de manicômios
e a estrelografia
tem a consciência
do aço.

O devaneio
é o único
domínio dos fatos.

Sonhamos tanto,
amamos tanto,
mas no final,
calamos as medidas
numa casa de ausências.




HABITUAL

Todos os dias
somos espostejados
como parte
do espetáculo.

A cada palmo
de terra
uma cova de leões

como se os dentes
das feras fossem
a gramática dos ossos
e o Coliseu o melhor
lugar para morar.


O QUE NOS FALTA

Sonora é a solidão, sonoro
o silêncio, sonora
a carne do gueto
e sonora é a boca
em busca de palavras
que se abram em pálpebras.

No efêmero,
onde o eterno
copula com o vazio
e androides deificam a sensação
em bens de consumo,

cabe ao poeta, condenado
à embriaguez do verbo,
fazer alusões à casa
que nos falta.


OCEANO ENTRE AS MÃOS

Para te amar,
gastei os sapatos
como quem pisa
em redemoinhos
sagrados.

Para te amar,
coloquei em pétalas de papoula
o pássaro que emana
da garganta e guardei
a via láctea do teu nome nos estrondos
de um nirvana.

Para te amar,
fiz da saudade uma amiga
de longa data
— aprendi que a vida
é um sonho e há esperas
que sangram.

Para te amar,
domei os meus leões, domestiquei
o medo e não esperei
que a cerveja gelasse.

(Tito Leite é poeta e monge beneditino, e autor de Digitais do caos e Aurora de cedro)



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Algumas anotações sobre Partes homólogas, de Leila Guenther


Começo por recordar que homólogo tem significados diversos que dizem com correspondente, correlato, equivalente, análogo e semelhante. O novo livro de Leila Guenther remete às partes homólogas, mas também às heterólogas. Nem por isso, o título do volume de contos deveria mencioná-las, porque se deve guardar alguma surpresa ao leitor (e sei que estrago isso ao revelar). É fato que o título do livro replica o de um dos contos enfeixados, no entanto todo o conjunto, de um ou de outro modo, remete às homologias ou ao seu contraste.
Nas situações apresentadas pelos contos, fica-se diante de tudo e do nada, dos encontros e das perdas, das semelhanças e das diferenças, da atração e do repúdio, da viagem e do retorno, do fato e da ficção.
Os contos, todos os contos e não só os do livro da Leila, pedem certa porção de verossimilhança e outra de mentira (grossa ou fina). Tem-se bem isso, no conto “Partes homólogas”, em que se partiria da história de vida dos tailandeses Chang e Eng Bunker, xifópagos, para nomeá-los Wang e Chu aqui. Da correção dos fatos conhecidos, faz-se história nova, para reunir o que um dia não se separou. O absurdo vai do psicológico ao físico e vice-versa, sim, porque, na vida, também há deformidades construídas.
As fragilidades físicas e do espírito, que poderiam aproximar as pessoas que as têm semelhantes, distanciam nas guerras pessoais e na vida, até a morte aproximadora e a lembrança gravada fundo, na sobrevivente, como em “Para um menino na guerra”. Guerra pessoal, essa.
Nem tudo tem fim determinado, no mundo dos contos: a estrutura aberta deixa espaço para presunções e essa pluralidade indica coisas múltiplas que podem ter ocorrido. “Romã” é amor, no anagrama. O amor pediria correspondência e não ascendência. As palavras da autora dão direito a que o leitor busque tudo o que possa encontrar. Nesse conto, feito de mentiras e sinceridades, ascendência e subserviência, presença e alheamento, adolescência e maturidade, verdade e invenção, pés no chão e embriaguez, tem-se abuso crescente e estupro tal que – lá vou eu, leitor palpiteiro, – poderia ser equiparado a incesto, dado o peso da confiança entre professor e aluna que marcou o início de uma relação. Para mim, juntamente com “A outra causa”, o conto “Romã” representa chave para a apreensão maior do livro.
As analogias presentes nesse livro de Leila ganham expressão de peso em contos como “De fogo e de água” e “A evolução da espécie”: “o México era uma mulher que chorava em silêncio [diante de um espelho, acrescento] num banheiro público”, no primeiro, e o xolo colocado na manjedoura, no segundo. Fato em um, ficção em outro.
“A vida às vezes é absurda”, como bem o mostra “Quando Alice encontrou K”, diante do espelho da verdade. Existiria conto sem absurdo?
“A outra causa” é o título de um conto extremamente irônico, escrito sob a forma de carta de uma missivista masoquista (discípula, romântica, melancólica e no fim da vida), dirigida a Garcia, um amigo, sobre Fortunato, o extremamente sádico marido dela, que a complementa.
Não menciono os demais contos de Leila, aliás recheados de verdades aforísticas aqui e ali (“O destino é um conjunto arbitrário de coincidências”), mas devo ainda ressaltar que todos parecem afluir para a mesma temática do drama das relações humanas, especialmente em matéria do amor entre pessoas - fora, sobre e dentro.
O livro Partes homólogas vale cada uma de suas palavras.

(Valdir Rocha)



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Vem que tem

Tem epígrafe de Darwin. Tem dentro, fora e sobre. Tem circo de aberrações, labirinto, prostitutas, século XIX, cachorros, Machado de Assis, decadentismo, Borges, veludo azul, solidão, Oriente, irmãos siameses, peixes, México, gato, Ofélia de Shakespeare. Tem o fato de eu ser míope e mulher. Tem o horror do abuso. Mas tem este lugar concebido pela Viviane Ka, o Eugênia Café Bar, de protagonismo feminino, que pode nos acolher. Tem a percepção de Walter Carlos Costa, estudioso da teoria do conto que redigiu a orelha, o primeiro a entender o que eu queria dizer. Tem o espanto de existir. Tem essa ilustração da Tieko Irii, que, em vermelho-sangue, nos expele para fora do mundo, onde não encontramos lugar. Tem um projeto gráfico lindo, que eu penso não merecer. Tem meu mutismo, minha reclusão e incapacidade de significar por outros meios que não a palavra escrita. Porque eu não existo além da Palavra. Tem um editor que é também escritor, Marcelo Nocelli, e que acreditou neste gênero tão desprestigiado da literatura. Tem, sobretudo, o amor pelas letras, que me moldou. Tem várias partes de mim, homólogas às de vocês, pedaços desmembrados de cada um de nós. E tem a impossibilidade de urrar, que me levou a escrever.


das 19h às 21h30

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Na revista Gueto

Estou na primeira edição impressa da revista Gueto, com o poema "Corpo fechado".


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O zen nosso de cada dia




HAPPENS TO THE HEART

I was always working steady But I never called it art I got my shit together Meeting Christ and reading Marx It failed my little fire But it’s bright the dying spark Go tell the young messiah What happens to the heart There’s a mist of summer kisses Where I tried to double-park The rivalry was vicious The women were in charge It was nothing, it was business But it left an ugly mark I’ve come here to revisit What happens to the heart I was selling holy trinkets I was dressing kind of sharp Had a pussy in the kitchen And a panther in the yard In the prison of the gifted I was friendly with the guards So I never had to witness What happens to the heart I should have seen it coming After all I knew the chart Just to look at her was trouble It was trouble from the start Sure we played a stunning couple But I never liked the part It ain't pretty, it ain't subtle What happens to the heart Now the angel’s got a fiddle The devil’s got a harp Every soul is like a minnow Every mind is like a shark I’ve broken every window But the house, the house is dark I care but very little What happens to the heart Then I studied with this beggar He was filthy, he was scarred By the claws of many women He had failed to disregard No fable here no lesson No singing meadowlark Just a filthy beggar guessing What happens to the heart I was always working steady But I never called it art It was just some old convention Like the horse before the cart I had no trouble betting On the flood, against the ark You see, I knew about the ending What happens to the heart I was handy with a rifle My father’s .303 I fought for something final Not the right to disagree


(Leonard Cohen)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Um trecho de William Carlos Williams


Meu coração desperta
              pensando em trazer notícias
                                   de algo
que diz respeito a você
             e diz respeito a muitos homens. Considere
                                   aquilo que se passa por novo.
Você o encontrará apenas nos
            poemas desprezados.
                                  Não é fácil
receber as notícias que vêm dos poemas
           embora os homens morram miseravelmente todos os dias
                                por falta
do que se encontra lá.

(tradução minha)