terça-feira, 17 de maio de 2022

No princípio era o Som, e o Som estava com Ela, e o Som era Ela

(Björk em cena de The northman, de Robert Eggers, no qual interpreta uma vidente mística, ou seja, a si mesma)


Como todos os adolescentes que gostavam de rock e música alternativa nos anos noventa, eu conhecia o trabalho da islandesa Björk por causa da banda em que tocou, The Sugarcubes. Apesar de conhecer de antes a exuberância de sua voz, só passei a realmente admirá-la em sua carreira solo. E não foi nem no primeiro álbum, Debut, mas a partir do terceiro, Homogenic, que escutei há quase vinte e cinco anos. Então minha vida se dividiu entre a.H. e d.H. (o h aí de Homogenic).

A primeira música que ouvi do álbum foi “Bachelorette”, e eu tive aquela sensação que tenho muito de vez em quando de que não poderia mais viver sem aquilo. Algumas canções me trouxeram isso ao longo dos anos. Não se trata de adorá-la, de ficar com ela martelando na cabeça, de achá-la bonita. É outra coisa: é a certeza de que ela causou uma ruptura tal na ordem das coisas que a vida se transformou. Que eu me transformei. “Soukora”, de Ali Farka; “The sheltering sky” de Ryuichi Sakamoto; “Jisas Yu Holem Hand Blong Mi”, do Choir of All Saints, da Melanésia, são algumas delas, junto com a já citada da Björk.

Parece mais claro para mim que, a partir de Homogenic, surge um paradoxo: nada mais haveria de novo sob o sol e, ao mesmo tempo, tudo poderia ser completamente novo, as possibilidades musicais seriam infinitas. Pelo menos para ela, que, além da própria Voz, também incorporou poemas de e.e. cummings, corais esquimós (inuit), sons de pássaros gravados por um ornitólogo francês, orquestras, toda a tecnologia da música eletrônica, músicos de todas as partes (como o vocalista, poeta, meditador e visionário Thom Yorke, do Radiohead) e instrumentos musicais cujo som incompreensível e inédito para mim me remete àquele que sairia do instrumento de Maiakóvski, que dizia executar seus versos na flauta de suas próprias vértebras. A única coisa que não muda nunca em Björk, desde criança, é sua voz, porque não há como aprimorar a perfeição.

Björk carrega tudo o que já passou, todas as vozes humanas e não humanas do mundo para transformá-las em algo que não alcançaremos jamais, porque não podemos estar onde ela está, ou seja, constantemente a anos-luz de nós, do nosso presente. Estaremos sempre atrás, contemplando hoje o rastro luminoso de um cometa que já passou por aqui há muito e que, como é da natureza dos cometas, guarda a história do universo inteiro.

Parafraseando o provérbio ioruba, Björk criou o Som ontem com a Voz que inventou amanhã.


(do álbum Biophilia)





sábado, 23 de abril de 2022

quarta-feira, 16 de março de 2022

A culpa é dos pratos

A culpa é dos pratos

Que me destruíram

 

Mesmo quando poucos

São mais do que eu

 

Mesmo quando me lembro

Do mestre vietnamita

Que morreu lutando pelo amor

E que dizia

“Enquanto estivermos lavando os pratos

Deveríamos apenas lavar os pratos”

 

Não posso mais vencer os pratos

Que me ultrapassam e me reduzem a cacos

Mesmo quando dormem pacíficos

No armário de madeira

 

Para que tanto prato, meu Deus,

Pergunta meu coração

Porém meus olhos

Vocês já sabem

 

Então vem alguém

Que lava os pratos quando eles me atacam

E me lembra que perto

Bem perto

Há quem não tenha pratos para lavar

Nem o que pôr dentro deles

 

E aí me envergonho

De querer arremessá-los pela janela

Contra a parede

Ou contra os homens

Com toda a força

Que não tive para lavá-los.

 

(Leila Guenther)

 

 


 

Es culpa de los platos

Que me han destruido

 

Aun siendo pocos

Son más de lo que soy

 

Aun cuando me acuerdo

Del maestro vietnamita

Que murió luchando por el amor

Y que decía

“Mientras estamos lavando platos

Debemos sólo lavar platos”

 

Ya no puedo vencer a los platos

Que me sobrepasan y me hacen pedazos

Aun cuando duermen pacíficos

En el mueble de madera

 

Para qué tantos platos, Dios mío,

Pregunta mi corazón

Pero mis ojos*

Ustedes ya lo saben

 

Entonces alguien viene

Y lava los platos cuando sufro su ataque

Y me recuerda que aquí cerca

Muy cerca

Hay quien no tiene platos que lavar

Ni qué ponerles adentro

 

Y entonces me avergüenzo

De querer tirarlos por la ventana

Contra la pared

O contra los hombres

Con toda la fuerza

Que no he tenido para lavarlos.

 

(traducción de Marcelo Donoso)

 

* Referencia a poema de Carlos Drummond de Andrade

 

 


A história do budismo pelas mulheres ocidentais

Duas excelentes obras sobre a história do budismo escritas por mulheres (para iniciantes ou iniciados, publicadas pela L&PM)



“Conviver com uma abordagem da vida fora do âmbito de uma verdade única ou de um deus criador permite melhor se situar, até mesmo se redefinir em relação às ideias recebidas, e examinar com mais lucidez a própria responsabilidade na aventura humana. A redescoberta do budismo, ou sua reavaliação na ótica da sociedade atual, globalizante e enredada em antagonismos, talvez ateste a lenta tomada de consciência de um mal-estar, senão de uma doença, cujo diagnóstico o Buda histórico já havia apresentado. Ao afirmar que a fonte da malignidade, e portanto do ódio – de si ou dos outros –, encontra-se no desejo egoísta – desejo de poder, desejo de possessão, desejo de dominação –, o Despertado indica o ponto sensível. Ele também oferece o remédio, mas não pode tomá-lo no lugar da pessoa”. 

(Claude B. Levenson, Budismo. Trad. Rejane Janowitzer. L&PM, 2013)

 

 


“O budismo, visto do Ocidente [no séc. XIX], apresentava problemas. Como seria possível de fato compreender um fenômeno religioso que não se preocupa com a criação nem com deus – ou pelo menos com os deuses? Como uma doutrina que nega a existência da alma pode ter a pretensão de ser chamada de religião? Seu fundador nem se apresenta como um profeta. Buda, como observou, consternado, Jules Barthélemy-Saint-Hilaire, ‘ignora Deus de maneira tão completa que nem procura negá-lo’.” 

(Sophie Royer, Buda. Trad. Ana Ban. L&PM)

 


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Antropoceno


 

Está parecendo que eu odeio a humanidade
Desde que vi as morsas caindo de montanhas
Em que nunca deveriam ter subido
As morsas quicando
Uma, duas, três vezes e caindo estateladas
No meio da multidão de morsas

Na costa da Rússia, eu que nunca estive lá
Chorei como quem passava a amar somente os bichos
E as plantas que cultivo no meu apartamento
Sob um pedacinho de sol
Que os arquitetos deixaram por compaixão
Ou por esquecimento

Soube então que faltavam geleiras às morsas
E que elas agora se viravam nas pedras
Amontoadas, que algumas subiam as montanhas e
O resultado já disse
Elas caem e fica parecendo que eu
Odeio a humanidade

Como se eu não soubesse que gente
Também é bicho
Como se eu não entendesse que é preciso amar
A minha própria espécie
Fica parecendo que eu não compreendo
Que nós caímos quando a morsa cai.

(Adriane Garcia, Estive no fim do mundo e me lembrei de você. Peirópolis)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Carta aberta ao rei do Butão

Peço asilo em seu país 

Porque o meu desapareceu 

Dizem que se descolou 

Do resto da América 

E começou a afundar

Em breve nos afogaremos todos

Embora sempre há quem ache

Que ele não 

 

Ofereço o que sei e o que posso aprender

Posso trabalhar em benefício

Das crianças mais remotas

Como todos daí fazem 

Em vez do tal serviço militar

 

Posso tirar leite de iaque 

E viver de chá de manteiga 

Mas se Padmasambhava* me orientar, 

Também posso tirar leite de pedra

 

Espero que me conceda 

Como faz a todos os seus cidadãos 

Um tear e um pedaço de terra

Para que eu me fie em algo

E não me afogue nunca mais 

 

No seu serviço de saúde 

Universal e gratuito

Tenho fé que consertem minha cabeça 

Onde mora a pior de todas as enchentes 

 

E não me importo 

Que a caça e a pesca sejam proibidas 

Porque eu mesma já não tenho vontade 

De comer seres que são 

Mais inteligentes do que eu

 

Aí tem tudo, é outra civilização 

Tem monges bonitos pra gente meditar

E um monte de livro

para traduzir de seus Platões

 

Peço asilo ao rei do Butão 

 

Um rei que, na Constituição,

Estabelece ser deposto 

Se não for bom a seu povo 

Não é melhor que um presidente 

Que não quer sair do trono?

 

Mas o que eu gostaria mesmo 

Era de subir na parte mais alta 

Do mosteiro de Taktstang, 

Encarapitado no extremo de uma rocha

Desde que o Desperto acordou

Lá terei certeza de que não me afogarei 

E de que enfim empreenderei meu voo

Com a bênção de todas as dakinis** 

Que caminham sobre o ar

(Leila Guenther)

* Padmasambhava: místico considerado o fundador da escola tântrica do budismo tibetano. A ele eram atribuídas qualidades mágicas, como estar em vários lugares ao mesmo tempo.

** dakinis: deidades femininas do budismo Vajrayana. Significa “aquelas que atravessam o céu” ou “as que se movimentam no espaço”. Estão ligadas à transformação.



(fotografia de Matthieu Ricard, monge budista, biólogo molecular, escritor e fotógrafo)



quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Dois poemas pandêmicos

Caminho com cuidado olhando o verde

As inúmeras nuances de verde que a luz origina

Quando toca o mato, a grama, o abacateiro

Ou um coração vermelho-sangue

As primeiras maçãs ainda estão verdes

Como um dia também fui

 

O mundo começa onde o sol nasce

 

Os esquilos voam de árvore em árvore

Sem que nada lhes aconteça

Sento-me na terra e mexo apenas os olhos

Do chão até o céu e até no céu

Há um verde insidioso

O musgo me envolve aos poucos

À medida que detenho os movimentos


Por alguns instantes a bomba que carrego

                                            [não explode


 


 

Tudo demora mais comigo

Movo-me em câmera lenta

Arrastando os pés com curativos

Que tapam feridas que nunca cicatrizaram

As lágrimas escorrem devagar do olho esquerdo

Porque o direito entupiu há muito

Ainda tenho a tosse de uma gripe

                             [que começou em 2010

A recuperação leva tempo

Os pesadelos recorrentes vêm de

                         [quando existiam videocassetes

Só contei o que houve na infância trinta anos depois

Tudo demora mais comigo

Vivo ainda o luto de um cão que se foi

Quando minha mãe não tinha morrido

E nem sei quanto gastarei

Para velar os levados em sacrifício

 

Tudo demora mais comigo

Tenho a lentidão da tartaruga

Mas o casco dela ainda não me nasceu


(Leila Guenther) 

Um golpe no meu gosto

 

Por um tempo pensei que meu amor pela leitura de prosa tivesse morrido. Não conseguia mais ler romances ou reler aqueles que um dia me encantaram. Nada me interessava mais. Lia outras coisas, outros gêneros, porque a leitura sempre fez parte de minha vida, de uma necessidade vital, mas não sabia mais o que era ser transportada pela beleza das palavras que narram, ser sequestrada por uma história até sua última página. Até que me vi envolvida e paralisada por um pequeno e aterrador romance de Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia, que li porque era curto e eu tinha pressa. Depois vieram outro, e mais outro, levado pelo anterior, vários numa sequência, revelando um universo cheio de novas perspectivas de mundo, de distintas maneiras de narrar. E antes dele, outros que me mandaram sinais que na época não compreendi: todos livros escritos por mulheres. E descobri com alívio que eu não tinha deixado de gostar da prosa. Eu estava apenas cansada da prosa escrita por homens.

O percurso em progresso, por nome de autora em ordem alfabética:

Adania Shibli, Detalhe menor. Trad. Safra Jubran. São Paulo, Todavia. 2021.

Arundhati Roy, O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2008.

Carson McCullers, O coração é um caçador solitário. Trad. Sonia Moreira. Companhia das Letras, 2007.

Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2017.

Celeste Ng, Os corações perdidos. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2023.

Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco roxo. Trad. Julia Romeu. Companhia das Letras, 2011.

Cristina Judar, Oito do sete. São Paulo, Reformatório, 2017.

Elena Ferrante, A filha perdida. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2016.

Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes. Trad. Raquel de Queiroz. Nova Cultural, 1985.

Elif Batuman, A idiota. Trad. Odorico Leal. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.

Han Kang, A vegetariana. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2018.

Hiromi Kawakami, A valise do professor. Trad. Jefferson José Teixeira. São Paulo, Estação Liberdade, 2012.

Isabel Allende, O amante japonês. Trad. Ângela Barroqueiro. Porto, Porto Editora, 2015.

Julie Otsuka, O Buda no sótão. Trad. Lilian Jenkino. São Paulo, Grua, 2014.

Karen Blixen, A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.

Katie Kitamura, Uma separação. Trad. Sonia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.

Laetitia Colombani. A trança. Trad. Patricia Xavier. Lisboa, Bertrand Editora, 2018.

Lionel Shriver, A nova república. Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2015.

Magda Szabó, A porta. Trad. Edith Elek, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2021.

Margaret Atwood, O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro, Rocco, 2017.

Marguerite Duras, A dor. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.

Maria Valéria Rezende, Outros cantos. Rio de Janeiro, Objetiva, 2016.

Marilia Arnaud, Liturgia do fim. São Paulo, Tordesilhas, 2016.

Marilia Kubota, Eu também sou brasileira. São Paulo, Lavra Editora, 2020.

Mary Lynn Bracht, Herdeiras do mar. São Paulo, Editora Paralela, 2018.

Mieko Kawakami, Peitos e ovos. Trad. Eunica Suenaga. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2019.

Min Jin Lee, Pachinko. Trad. Marina Vargas. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.

Muriel Barbery, A elegância do ouriço. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

Naomi Alderman, O poder. Trad. Rogério Galindo. São Paulo, Planeta, 2018.

Olga Tokarczuk, Sobre os ossos dos mortos. Trad. Olga Baginska-Shinzato. São Paulo, Todavia, 2019.

Ottessa Moshfegh, Meu ano de descanso e relaxamento. Trad. Juliana Cunha. São Paulo, Todavia, 2019.

Pilar Quintana, A cachorra. Trad. Livia Deorsola. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.

Sayaka Murata, Querida konbini. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2019.

Sayaka Murata, Terráqueos. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2021.

Sei Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M. H. Cordaro. São Paulo, Editora 34, 2013.

Simone de Beauvoir, A mulher desiludida. Trad. Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo, 2003.

Svetlana Alesiévitch, A guerra não tem rosto de mulher. Trad. Cecília Rosas. São Paulo, Companhia das Letras, 2016.

Yoko Ogawa, A fórmula preferida do professor. Trad. Shintaro Hayashi. São Paulo, Estação Liberdade, 2017.

Yoko Ogawa, A polícia da memória. Trad. Andrei Cunha. São Paulo, Estação Liberdade, 2021.

Yoko Ogawa, O museu do silêncio. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2016.

You-jeong Jeong, Sete anos de escuridão. Trad. Paulo Geiger. São Paulo, Todavia, 2011.

You-jeong Jeong, O bom filho. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2016.

Xinran, As boas mulheres da China. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2002.