quinta-feira, 21 de maio de 2015

Como tirar leite de pedra


(Björk, "Stonemilker", Vulnicura)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os quatro mestres

Depois da chuva
As pernas da cegonha
Ficaram curtas
(Bashô)


Flor de cereja:
Volto a vê-la de tarde
E já é fruto
(Buson)


A velha mão:
Afastando uma mosca
Que já se foi
(Issa)


De mim se diga:
Vivia de caquis
E de poemas
(Shiki)


Tradução de José Lira


quarta-feira, 13 de maio de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Tom Waits & Charles Bukowski


THE LAUGHING HEART

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.
(Charles Bukowski)

Três poemas de Nicanor Parra

traduzidos por mim e Marcelo Donoso na Revista Zunái. 


sábado, 14 de março de 2015

Sobre o ar


Voares: um projeto poético-fotográfico de que participam Bianca Coggiola, Christiana Nóvoa, Nana Santos, Vagner Muniz e eu, com três poemas sobre o ar: um haiku, "A chat with Chet" e "Aéreo", este último dedicado a Marcelo Donoso. Clique aqui para ver.



sexta-feira, 6 de março de 2015

70 Poemas para Adorno

A antologia, que será lançada em março em Portugal, no Festival Literário da Madeira, marca os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Participam:

A.M. Pires Cabral
Alberto Lins Caldas
Alexandre Sarrazola
Alice Sant’anna
Ana Margarida de Carvalho
António Cabrita
Beatriz Hierro Lopes
Carla Diacov
Carlos Caeiro
Carlos Fino
Carlos Quiroga
Cesareo Sanchez Iglesias
Cinthia Verri
Cláudia Lucas Cheu
Cláudia R. Sampaio
Daniel Jonas
David Teles Pereira
Diana Pimentel
Diego Moraes
Dinarte Vasconcelos
Duarte Temtem
Emanuel Bento
Enzo Potel
F.S. Hill
Fabiano Calixto
Filipa Leal
Frederico Pereira
Gregorio Duvivier
Hélder Macedo
Helder Magalhães
Hugo Milhanas Machado
Inês Fonseca Santos
Jaime Brasil Filho
Joana Emídio Marques
João de Melo
João Luís Barreto Guimarães
João Paulo Cotrim
José Carlos Barros
Júlia de Carvalho Hansen
Leila Guenther
Luís Pedroso
Luísa Freitas
Lur Sotuela
Maria do Rosario Pedreira
Maria João Cantinho
Maria Lolita Sousa
Maria Quintans
Maria Teresa Horta
Marta Bernardes
Marta Chaves
Miguel Cardoso
Miguel Veyrat
Miguel Manso
Nuno Dempster
Patrícia Baltasar
Patrícia Lino
Paulo José Miranda
Paulo Scott
Paulo Tavares
Pedro Teixeira Neves
Raquel Nobre Guerra
Renato Filipe Cardoso
Rosalina Marshall
Rute Castro
Teresa Jardim
Tiago Araujo
Tiago Patricio
Tiago Salazar
Valério Romão
Vasco Gato



70 Poemas para Adorno. Pref. Gonçalo M. Tavares. Nova Delphi, 2015 (Vendas para o Brasil: main@novadelphi.com)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Do meu Livro de Travesseiro (IV)


Um dos meus textos à maneira do Livro de Travesseiro, de Sei Shônagon, publicado na revista Tema, n. 61, janeiro/junho 2015, Uniesp.

O Livro de Cabeceira, de A a G

A

A pele mais adequada para ser escrita deve ser muito clara, talvez a de um corpo cujo cabelo bem escuro sugira o brilho da tinta preta.

B

Estamos especulando sobre uma fantasia erótica que combina duas fascinações sem limites: o corpo e a literatura.




C

O Livro de Cabeceira de Sei Shônagon é uma obra da literatura clássica japonesa, escrita há mil anos por uma dama-da-corte imperial. É um elegante e refinado diário, feito com engenhosidade e muita inteligência por uma mulher sensível e de forte caráter. O diário, tal como outros diários do mesmo tipo (este não era o único existente), era guardado dentro da gaveta de um travesseiro de madeira, sobre o qual a autora encostava sua cabeça durante a noite. O filme diz respeito a uma moderna Sei Shônagon, que viveu nos anos 90 em Hong Kong. E essa história passa, certamente, por uma grande reviravolta.

D

Essa Sei Shônagon contemporânea é passional, ao ponto de abandonar tudo pela literatura, pelas palavras, pela escrita, pelos escritores, poetas e homens de letras. Ela mantém um armário em sua casa, um grande armário europeu do século XVIII. Mas dentro não há nenhum papel. Seu corpo é o papel.

E


Essa mulher tem vinte, talvez vinte e oito, ou mesmo trinta anos, mas não menos. Ela é bonita. É alta. Tem um corpo ideal para modelar roupas. É uma exilada do Japão, com uma história pessoal marcada por uma educação primorosa. Dona de uma sensibilidade refinada, é afeita à tradição de decorar o corpo com tatuagens e cosméticos, e à literatura que, através da caligrafia, se constitui num meio caminho para a pintura. Neste momento, vamos supor que essa mulher vem de Kioto, cidade da própria Sei Shônagon. O seu nome é Nagiko, o mesmo que alguns historiadores pensam ser o nome familiar de Sei Shônagon.


F

Nessa narrativa específica, o pai de Nagiko é um escritor com uma modesta, porém venerável, reputação: ele escreve estórias sobre crianças espertas que solucionam mistérios através da matemática. O pai pinta, delicadamente, uma mensagem de aniversário no rosto da filha. A mensagem completa-se com o nome dela e o seu. Ele pinta a mensagem nas bochechas da menina, em volta dos lábios e sobre as pálpebras. Ele faz isso a cada aniversário, desde quando sua filha tinha três anos até que ela se case, aos dezoito. A origem desse costume, dizem, remonta a um tempo em que Deus moldou em argila os primeiros seres humanos e pintou nos olhos, nos lábios e no sexo de cada um deles um nome e uma bênção para ajudá-los a seguirem o seu caminho na vida. Se Deus aprovava a criação, assinava o próprio nome, e só depois dava ao modelo de argila pintado o sopro de vida.




Nos primeiros aniversários de Nagiko, quando seu rosto era delicadamente pintado com a saudação paterna, ela tinha permissão para usar os pincéis e o tinteiro do pai, e este a incentivava a escrever. A partir daí surgiu o desejo de Nagiko de um dia se tornar uma escritora.

A menina adorava ter o rosto pintado, de aniversário a aniversário. Isso lhe trazia o conforto e o amor de sua família – o prazer de viver em uma casa cheia de livros e palavras. Tudo isso se tornou um profundo deleite que ela temia perder. Ela, uma mulher no exílio, vive agora em Hong Kong.

G

Depois de seu décimo-oitavo aniversário, Nagiko anseia em vão pela carícia do pincel em suas faces, o hálito de seu pai em suas bochechas e a sensação da tinta úmida secando lentamente em sua pele. Ela agora vive na expectativa de reviver o prazer de seus aniversários de infância. Ela exige que seus amantes escrevam em seu rosto, no seu corpo, exatamente como seu pai e o Deus da criação antes dele.
(...)



(Peter Greenaway, versão inicial do roteiro de The pillow book. Trad. Maria Esther Maciel. Zunái: revista de poesia e debates, n. XXVIII, São Paulo, Lumme Editor, 2013)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

"Minha própria vida": Oliver Sacks sobre a descoberta de estar com câncer terminal


Há um mês, sentia que estava bem de saúde, saudável mesmo. Aos 81 anos, ainda nado quase 2000 m por dia. Mas minha sorte se esgotou – algumas semanas atrás descobri que tenho metástases múltiplas no fígado. Há nove anos detectou-se um tumor raro em um de meus olhos, um melanoma ocular. Embora a radiação e o laser utilizados para remover o tumor me deixassem por fim cego daquele olho, apenas em casos raros ocorrem metástases nesses tumores. Estou entre os 2% dos azarados.
Sinto-me grato por ter sido presenteado com nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico inicial, mas agora me vejo cara a cara com a morte. O câncer toma um terço do meu fígado e, apesar de seu avanço poder ser retardado, esse tipo específico de câncer não pode ser detido.
É minha decisão agora escolher como viver os meses que me restam. Tenho de vivê-los da forma mais rica, profunda e produtiva que puder. Nisso sou encorajado pelas palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir que estava condenado por uma doença aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele a intitulou Minha própria vida.
“Agora só posso contar com uma rápida dissolução”, escreveu ele. “Sofri poucas dores com minha doença e, o que é mais estranho: não obstante o grande declínio de minha pessoa, nunca sofri, em momento algum, o abatimento de meu entusiasmo. Guardo o mesmo ardor de sempre nos estudos e o mesmo júbilo quando estou acompanhado”.
Tive sorte suficiente de viver mais de 80 anos, e os 15 concedidos além dos 65 de vida de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as reduzidas páginas de Hume) que será publicada na primavera; tenho vários outros livros quase prontos.
Hume prossegue: “Sou… um homem de atitudes brandas, de temperamento controlado, de disposição alegre, sociável, expansiva, capaz de afeições, mas pouco suscetível a inimizades e de grande moderação em todas as minhas paixões”.
Aqui divirjo de Hume. Embora tenha desfrutado de relacionamentos amorosos, de amizades e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conheça o poderia) que eu seja um homem de atitudes brandas. Pelo contrário, sou um homem de atitudes veementes, com entusiasmos violentos e descomedimento em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me arrebata por completo: “É difícil”, escreve ele, “estar mais apartado da vida do que estou agora”.
Nos últimos dias, fui capaz de olhar minha vida como se de uma grande altitude, uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão entre todas as suas partes. Isso não significa que eu já tenha acabado de viver.
Ao contrário, sinto-me intensamente vivo e quero e espero que durante o tempo que me resta possa aprofundar minhas amizades, despedir-me daqueles que amo, escrever mais, viajar se ainda tiver forças, alcançar novos níveis de conhecimento e compreensão.
Isso envolverá audácia, clareza e a capacidade de falar francamente; vou tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas também haverá tempo para diversão (e inclusive para alguma tolice).
Sinto um súbito foco claro e perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Devo me concentrar em mim, em meu trabalho e meus amigos. Não verei mais “NewsHour” todas as noites. Não prestarei mais atenção na política ou em discussões sobre o aquecimento global.
Isso não é indiferença, mas afastamento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade, mas esses assuntos não me competem mais: eles pertencem ao futuro. Eu me alegro quando encontro jovens talentosos – mesmo aquele que fez a biópsia em mim e diagnosticou as metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Tornei-me cada vez mais consciente, nos últimos dez anos, das mortes entre meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma interrupção brusca, uma ruptura de uma parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando tivermos partido, mas também não existe uma pessoa igual à outra, nunca. Quando elas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois assim é o destino – o destino genético e neural – de todo ser humano: o de ser um indivíduo único, de encontrar seu próprio caminho, de viver sua própria vida, de morrer sua própria morte.
Não vou fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é o de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e ofereci algo em troca; li, e viajei, e refleti, e escrevi. Tive uma comunicação com o mundo, aquela comunicação especial que existe entre escritores e leitores.
Acima de tudo, fui um ser capaz de sentir, um animal pensante, neste belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio e uma aventura.


(Oliver Sacks, professor de Neurologia da New York University School of Medicine, é autor de vários livros, que incluem Tempo de Despertar e O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu) 


A tradução do texto é minha. O original do New York Times, de 19/2/2015, está aqui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"Romã" em inglês



Meu conto "Romã", publicado pela primeira vez na antologia 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras (Geração Editorial, 2012), agora traduzido em inglês, por Lindsay Puente, para a revista inglesa Wasafiri, no número dedicado ao Brasil.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Poeminha criacionista

Pisava com leveza nos presságios
Tocando cada lugar de sua ausência
Onde não há água para respirar

Todos os seres têm seu rosto
Inclusive o menino estrangeiro de cabelo mapuche que pela [primeira vez me beijou na saída da escola

Me leve para o seu deserto
Para o meu elemento
Lá onde céu nenhum "nos protege de nós mesmos"

Abri a janela dos seus altiplanos
Para nadar nos seus olhos: 
Faz frio demais quando estamos sozinhos 

O que você vê nos olhos de quem olha?
Atrás de mim me espreitam três mil páginas de Bolaño

Trancarei o medo em meus braços
Com a chave que usou para abrir a jaula onde me esqueceram [desde o século XIX 
Sobrevivo há muito tempo
Das lembranças que não tivemos
Porque éramos coisas de outros donos 

Agora moro em um novo altar

(Leila Guenther, 1948)


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ensaio sobre a superfície II














                                                                                                                                                            

sábado, 3 de janeiro de 2015

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobre nomes

Antes de mais nada, explique-me essa história de você também se chamar Jorge Luis Borges.
Como se tirando do lugar as coisas que estavam sobre a mesa, lancei ao seu rosto essas palavras, cuja articulação não permitia qualquer réplica que não fosse a mais absoluta verdade.
A coisa colocada dessa forma, assim, inesperada, o deixou desconcertado.
Outra vez lá estaria exposto aos seus curtos-circuitos. Outra vez lá estaria ele buscando alternativas para ganhar tempo, para se recompor diante daquilo que não conseguia compreender de imediato.
Perdoe-me, Denise, mas antes que eu fale sobre isso, precisar fazer outra pergunta: Como você sabe disso? Essa informação, tenho certeza, não está na orelha do meu livro.
É isso. Ele não poderia deixar por menos. E fez muito bem agindo assim, pois agora poderia se regozijar ao perceber que a sua pergunta também me deixou tão desconcertada quanto ele.


(Roberto Amaral, Uma Denise. Vitória, Editora Cousa, 2014)


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Cantiga de la memoria rota


(Inti Illimani) 

Vino a nadar la playa entre mis rocas,
el mar me ha contemplado ola tras ola,
el barco ha timoneado mi carcasa
y escucha mi rumor la caracola.

El calor se despoja de mi lana,
la oveja me trasquila en cada estío,
mi padre bebe de mi vino brusco
y mi madre se cuelga de mi avío.

Un caballo y su espuela me cabalgan,
un camino me pisa diariamente,
los zapatos del polvo me han hollado
y el sol me considera un inclemente.

La tierra ha preparado mi piel llana,
el arado me surca embravecido,
el trigo ha dispersado mis semillas
y el pan con diente claro me ha mordido.

Un caballo y su espuela me cabalgan,
un camino me pisa diariamente,
los zapatos del polvo me han hollado
y el sol me considera un inclemente
que quema con sus rayos a la gente.

El frío hace un chamanto con mi sangre,
la boca de un aullido me proclama,
la casa que me habita no me barre
y sobre mi extensión duerme una cama.

La puerta me golpea en busca de alguien,
la lágrima me enjuga en dos pañuelos,
un espejo se mira en mis ultrajes
y hay un libro que lee en mi desvelo.

La duda me confunde con su abrigo,
el malhechor comenta mi mal paso,
un país me ha buscado sobre el mapa
y no ha encontrado nunca el menor trazo

y esa herida me venda la amargura
y la muerte se duerme entre mis brazos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Um rápido olhar sobre a poesia brasileira de hoje

Não é de espantar que boa parte das pessoas compartilhe a inexata suposição de que pouco existe no campo da poesia brasileira após a manifestação sublime de escritores da monta de Manuel Bandeira, de Carlos Drummond de Andrade, de João Cabral de Melo Neto e, mais recentemente, de Ferreira Gullar. Embora o aludido quarteto seja – com todos os méritos – julgado o ponto culminante da “recente” poesia nacional, propomos chamar a atenção para outros artistas nacionais da palavra, que prosseguem à margem, não apenas do grande público, bem como dos currículos dos cursos superiores de Letras do país.
Ainda que correndo o risco de arbitrariedade, empregaremos o termo poesia contemporânea para referir os poemas publicados nas décadas de 1980 e 1990 e na primeira década do ano 2000. Trata-se, consoante observado, de um período de transição: do término do milênio passado para o início do atual. Época, pois, de vivo interesse para cultura nacional em vários sentidos. Um deles é que, por essa época, sistematiza-se, torna-se mais popular e ganha evidência o rock nacional, que passa a dialogar com a produção poética do momento. Não apenas o rock, mas também outras manifestações paraliterárias, como, por exemplo, as histórias em quadrinhos.
Em matéria de contexto histórico, nos anos 1980, o país respira os ares da redemocratização. Desnecessário acentuar que o clima de relativa liberdade política migra para as formas pelas quais nossos poetas exercitam o fazer literário, que, prosseguindo, em certo sentido, tendência dos anos 1970, continua irreverente e contestadora. Entretanto, a sensibilidade marginal e transgressora, que tão bem caracteriza os poemas de 70, perde força para uma concepção de poesia mais elaborada, mais universal, menos dogmática ou panfletária, ainda que o engajamento e o protesto tenham continuado.
Resultado inequívoco da liberdade aludida é que a poesia dos anos 1980, e, igualmente, uma parcela da poesia de 90, não pode ser enquadrada em apenas um rótulo definidor; pelo contrário, exibe variadas tendências de realização. O que equivale a afirmar que o leitor contumaz dessa poesia deparar-se-á com composições que devem muito às experiências de vanguarda, até poemas que estão conectados mais ao referencial, ao conteudístico; em outras palavras, a uma poesia discursiva, que se tinge de um quê reflexivo. Se fosse conveniente, a esta altura, tirar partido de uma analogia, diríamos que 1970 está para 1980, em termos de estética poética, assim como a primeira geração modernista está para a segunda.
Chegados a este ponto, é licito indagar: quais são os poetas dos anos 1980 cuja leitura deve ser feita? Está claro que a tal questão não se responde com facilidade, haja vista que cada crítico literário ou antologia tem preferências particulares. Nada obstante, é plausível apresentar certos poetas que conseguiram interiorizar com sucesso o espírito da época que nos ocupa. Assim, numa lista que não possui a menor pretensão de ser completa, chamamos a atenção para os seguintes nomes: Age de Carvalho (1958), Fernando Paixão (1965), Alice Ruiz (1946), Horácio Costa (1954), Glauco Mattoso (1951), Antônio Risério (1953), Paulo Henrique Britto (1951); Nélson  Ascher (1958), Arnaldo Antunes (1960), Alexei Bueno (1963), Eucanaã Ferraz (1961), Felipe Fortuna (1963), entre tantos mais.
Os escritores arrolados acima são representativos da “escola” poética dos 80. Veja-se que, com o paulistano Arnaldo Antunes, está-se diante do diálogo entre o rock e a poesia. Não custa rememorar que Antunes foi integrante, entre 1982 e 1992, do grupo musical “Titãs”. Sua poesia é cerebrina e experimental, sobretudo relativamente ao canal que veicula o discurso poético.
Glauco Mattoso é um caso, a vários títulos, notável. Poeta de verve satírica e escatológica, hoje está praticamente cego. Talvez seja um dos grandes sonetistas atuais da língua portuguesa. Tanto em qualidade quanto em quantidade. A literatura de Mattoso deve produzir estranhamento no leitor, que aprendeu – erroneamente, diga-se de passagem – que a forma poemática fixa do soneto apenas pode conter assuntos tradicionalmente considerados “elevados”.
Por derradeiro, com Nelson Ascher, exemplificamos a faceta marcadamente intelectual da poesia dos anos 80. Conforme asseverava o crítico Manuel da Costa  Pinto, Ascher “combina racionalismo, rigor e ironia”.
Não deixa de ser certo que a fronteira entre poetas da geração de 80 e 90 é mais didática e artificial do que natural. Por conseguinte, muitos dos escritores que frequentaram a lista acima também poderiam ser incluídos no elenco de poetas da década de 90. Tal década é menos marginal, menos experimental, valendo-se muito do contato com poetas estrangeiros, e, portanto, da intertextualidade. É uma poesia, que em suas manifestações mais bem conseguidas, apresenta grande apuro formal, mesmo que composições líricas de incontestável qualidade estética persistam. Como quer que seja, cada vez mais hipertrofia o espaço para aquelas modalidades de composição que poderiam ser denominadas de intuitiva. Em suma: é a poesia do trabalho, do apuro técnico, da transpiração.
A lista de poetas dos 90 que apresentaremos deve ser vista com reservas, pois inclui poetas já publicados em décadas anteriores, mas que tão somente agora ocupam o espaço que muito merecem na ambiência literária nacional. É o caso, entre outros, de Frederico Barbosa (1961), Cláudia Roquette-Pinto (1963), Tarso de Melo (1976), Antônio Cícero (1945), Augusto Massi (1959), Fábio Weintraub (1967), Marcos Siscar (1964). Nos textos de muito deles, são representadas artisticamente tópicos como o da alteridade, da identidade e da pluralidade, marcas da poesia dos 90.
Ao que nos parece, são os poetas dos anos 2000 os que necessitam de urgente leitura e de exame mais detido por parte dos especialistas. São eles, em tese, que retratam a sensibilidade da época em que vivemos.
Os atualíssimos poetas brasileiros apresentam dicção que faz recordar os poetas modernistas da primeira geração e os da segunda, dentre os quais se encaixam Drummond e Bandeira. Quanto a Cabral de Melo Neto, seu legado pode ser observado nos novíssimos poetas na busca incessante pela poesia desataviada, reduzida ao essencial e sempre alerta contra os excessos da postura confessional e de emoção desbragada. Não passe despercebida a influência dos concretistas, que valorizaram o aspecto plástico, visual do poema. Da mesma maneira, não se feche os olhos para intenso trabalho entre sistemas semióticos que se processou no poema.
Vale a pena assinalar que considerável número dos poetas dos anos 2000 publica em sites da internet e em revistas de cultura dos mais variados recantos do Brasil. Por oportuno, os novos poetas não vêm apenas dos grandes centros litorâneos, vicejando nas cidades mais interioranas da nação. A composição dos poemas é multiforme, havendo espaço para, por exemplo, o poema em prosa ou prosa poética, como praticado por Leila Guenther. Os poemas, no fundamental, são pouco extensos. O conteúdo tende mais para o opaco do que para o transparente, o que explica que não são poemas fáceis de decodificação e que, por conseguinte, os leitores terão de ter postura ativa para interpretá-los. São, em outros termos, poemas-enigmas. Um particular que merece ser reparado: os poetas da geração de 2000 apresentam louvável consciência da carpintaria linguística, o que significa afirmar que, para eles, o conteúdo sozinho não é responsável pelo o poema, mas, antes, a vestimenta verbal que o tema recebe.
Tendo em mira que tal artigo tem finalidade informativa antes do que crítica, elencaremos alguns poetas da geração dos anos 2000, cuja leitura sugiro para os adeptos da boa poesia: Alexandre Bonafim (1976), Ana Rüsche (1979), Cléberton Santos (1979), Elisa Andrade Buzzo (1981), Henrique Marques Samyn (1980), Mônica Montone (1978), Omar Salomão (1983), Tarso de Melo (1976), Luiz Felipe Leprovost (1979), Leila Guenther e Gustavo Petter (1984), este último e talvez menos conhecido radicado em Araçatuba, no interior paulista.
Como fecho do presente artigo e a modo de provocação final, lembre-se da entrevista de Alcir Pécora - crítico literário da Folha de S. Paulo e professor da UNICAMP – a nós concedida na Revista Tema, na qual, em termos panorâmicos, afirmava existir na poesia contemporânea brasileira uma convivência de poesia expressiva subjetiva com um construtivismo cabralino-concretista. Nesse sentido, e atravessando todos os períodos atrás elencados, registre-se incontinente o nome do poeta paraibano Políbio Alves, dono de uma produção literária vigorosa, já a merecer a atenção mais frequente e acurada dos críticos.
É por meio de tais poetas – alguns deles, por certo, passarão, mas muitos deixarão para sempre o selo de sua arte – que nossa poesia se renova e se robustece. Não há outro jeito: cumpre celebrar vivamente os antigos e dar boas-vindas aos mais novos. Havendo qualidade, há tudo.


(João Adalberto Campato Jr.*, Mais Tupã, 26/12/2014)


* é crítico literário e professor universitário.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Halley

para Marcelo, por supuesto

Por onde andava em 1986?
Em segredo, eu esperava o cometa.
Um ano inteiro aguardando sua vinda.
À espreita.
Desconfiada de que sua passagem
alterasse minha órbita.
Com o braço direito engessado, 
na escola a mão canhota
ensaiava infinitas variações de sua forma.
Os olhos voltados para baixo
nunca olhavam para o céu. 

Ninguém o viu mesmo.

Seus vestígios, descubro hoje, 
estão passando pela Terra
como poeira de luz,
rastros do que não houve,
deixados pelo céu 28 anos depois.

Que transformação operará quando voltar?
Fico à espera da resposta
naquela época como agora. 

O que sei é que já não nos veremos mais.




(Wings of desire)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Para Francisco Achcar, sub tegmine fagi

Ele se foi. Um pouco antes de saber, talvez no momento em que nos deixava, tive uma crise de choro sem explicação. Meia hora de lágrimas e soluços que eu não conseguia conter, dentro de um carro, dirigindo pelas ruas de São Paulo.
Tão estranho, tudo.
Não apagarei seus emails que estão na pasta reservada a ele, e suas orientações e posicionamentos sobre a literatura e a gramática estão vivos em minha cabeça. Também me lembro de sua resposta à minha mensagem em que eu dizia ter agora certeza absoluta de que ele era a pessoa mais forte que já conhecera. Eu não teria aguentado. Ninguém teria sobrevivido tão estoicamente.
Tudo o que sei sobre a literatura, sobre a língua portuguesa - meu material de trabalho - aprendi com ele. Ele foi meu verdadeiro orientador. Ainda tinha esperança de que visse publicado meu livro de poemas. Agora, infelizmente, o agradecimento será in memoriam.
Lembrei-me também, há pouco, de que o primeiro livro que comprei quando entrei na faculdade de Letras, na tentativa de me fazer, de me construir, foi o dele: Lírica e Lugar-Comum: Alguns Temas de Horácio e sua Presença em Português. Comprei-o porque um colega a quem admirava me disse que ele era o maior latinista que existia. Depois de trabalhar tantos anos ao seu lado, ouso dizer: não apenas o maior latinista, mas o intelectual mais brilhante e arguto com quem tive a honra de conviver.
Para quem escreverei agora, com quem falarei daquilo que me mantém viva - a Arte - e de tudo de humano, demasiado humano, que ela implica? Com sua partida, vários ficaram desamparados. E eu me tornei órfã para sempre.


(Leila Guenther)