terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Do meu Livro de Travesseiro (IV)


Um dos meus textos à maneira do Livro de Travesseiro, de Sei Shônagon, publicado na revista Tema, n. 61, janeiro/junho 2015, Uniesp.

O Livro de Cabeceira, de A a G

A

A pele mais adequada para ser escrita deve ser muito clara, talvez a de um corpo cujo cabelo bem escuro sugira o brilho da tinta preta.

B

Estamos especulando sobre uma fantasia erótica que combina duas fascinações sem limites: o corpo e a literatura.




C

O Livro de Cabeceira de Sei Shônagon é uma obra da literatura clássica japonesa, escrita há mil anos por uma dama-da-corte imperial. É um elegante e refinado diário, feito com engenhosidade e muita inteligência por uma mulher sensível e de forte caráter. O diário, tal como outros diários do mesmo tipo (este não era o único existente), era guardado dentro da gaveta de um travesseiro de madeira, sobre o qual a autora encostava sua cabeça durante a noite. O filme diz respeito a uma moderna Sei Shônagon, que viveu nos anos 90 em Hong Kong. E essa história passa, certamente, por uma grande reviravolta.

D

Essa Sei Shônagon contemporânea é passional, ao ponto de abandonar tudo pela literatura, pelas palavras, pela escrita, pelos escritores, poetas e homens de letras. Ela mantém um armário em sua casa, um grande armário europeu do século XVIII. Mas dentro não há nenhum papel. Seu corpo é o papel.

E


Essa mulher tem vinte, talvez vinte e oito, ou mesmo trinta anos, mas não menos. Ela é bonita. É alta. Tem um corpo ideal para modelar roupas. É uma exilada do Japão, com uma história pessoal marcada por uma educação primorosa. Dona de uma sensibilidade refinada, é afeita à tradição de decorar o corpo com tatuagens e cosméticos, e à literatura que, através da caligrafia, se constitui num meio caminho para a pintura. Neste momento, vamos supor que essa mulher vem de Kioto, cidade da própria Sei Shônagon. O seu nome é Nagiko, o mesmo que alguns historiadores pensam ser o nome familiar de Sei Shônagon.


F

Nessa narrativa específica, o pai de Nagiko é um escritor com uma modesta, porém venerável, reputação: ele escreve estórias sobre crianças espertas que solucionam mistérios através da matemática. O pai pinta, delicadamente, uma mensagem de aniversário no rosto da filha. A mensagem completa-se com o nome dela e o seu. Ele pinta a mensagem nas bochechas da menina, em volta dos lábios e sobre as pálpebras. Ele faz isso a cada aniversário, desde quando sua filha tinha três anos até que ela se case, aos dezoito. A origem desse costume, dizem, remonta a um tempo em que Deus moldou em argila os primeiros seres humanos e pintou nos olhos, nos lábios e no sexo de cada um deles um nome e uma bênção para ajudá-los a seguirem o seu caminho na vida. Se Deus aprovava a criação, assinava o próprio nome, e só depois dava ao modelo de argila pintado o sopro de vida.




Nos primeiros aniversários de Nagiko, quando seu rosto era delicadamente pintado com a saudação paterna, ela tinha permissão para usar os pincéis e o tinteiro do pai, e este a incentivava a escrever. A partir daí surgiu o desejo de Nagiko de um dia se tornar uma escritora.

A menina adorava ter o rosto pintado, de aniversário a aniversário. Isso lhe trazia o conforto e o amor de sua família – o prazer de viver em uma casa cheia de livros e palavras. Tudo isso se tornou um profundo deleite que ela temia perder. Ela, uma mulher no exílio, vive agora em Hong Kong.

G

Depois de seu décimo-oitavo aniversário, Nagiko anseia em vão pela carícia do pincel em suas faces, o hálito de seu pai em suas bochechas e a sensação da tinta úmida secando lentamente em sua pele. Ela agora vive na expectativa de reviver o prazer de seus aniversários de infância. Ela exige que seus amantes escrevam em seu rosto, no seu corpo, exatamente como seu pai e o Deus da criação antes dele.
(...)



(Peter Greenaway, versão inicial do roteiro de The pillow book. Trad. Maria Esther Maciel. Zunái: revista de poesia e debates, n. XXVIII, São Paulo, Lumme Editor, 2013)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

"Minha própria vida": Oliver Sacks sobre a descoberta de estar com câncer terminal


Há um mês, sentia que estava bem de saúde, saudável mesmo. Aos 81 anos, ainda nado quase 2000 m por dia. Mas minha sorte se esgotou – algumas semanas atrás descobri que tenho metástases múltiplas no fígado. Há nove anos detectou-se um tumor raro em um de meus olhos, um melanoma ocular. Embora a radiação e o laser utilizados para remover o tumor me deixassem por fim cego daquele olho, apenas em casos raros ocorrem metástases nesses tumores. Estou entre os 2% dos azarados.
Sinto-me grato por ter sido presenteado com nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico inicial, mas agora me vejo cara a cara com a morte. O câncer toma um terço do meu fígado e, apesar de seu avanço poder ser retardado, esse tipo específico de câncer não pode ser detido.
É minha decisão agora escolher como viver os meses que me restam. Tenho de vivê-los da forma mais rica, profunda e produtiva que puder. Nisso sou encorajado pelas palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir que estava condenado por uma doença aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele a intitulou Minha própria vida.
“Agora só posso contar com uma rápida dissolução”, escreveu ele. “Sofri poucas dores com minha doença e, o que é mais estranho: não obstante o grande declínio de minha pessoa, nunca sofri, em momento algum, o abatimento de meu entusiasmo. Guardo o mesmo ardor de sempre nos estudos e o mesmo júbilo quando estou acompanhado”.
Tive sorte suficiente de viver mais de 80 anos, e os 15 concedidos além dos 65 de vida de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as reduzidas páginas de Hume) que será publicada na primavera; tenho vários outros livros quase prontos.
Hume prossegue: “Sou… um homem de atitudes brandas, de temperamento controlado, de disposição alegre, sociável, expansiva, capaz de afeições, mas pouco suscetível a inimizades e de grande moderação em todas as minhas paixões”.
Aqui divirjo de Hume. Embora tenha desfrutado de relacionamentos amorosos, de amizades e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conheça o poderia) que eu seja um homem de atitudes brandas. Pelo contrário, sou um homem de atitudes veementes, com entusiasmos violentos e descomedimento em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me arrebata por completo: “É difícil”, escreve ele, “estar mais apartado da vida do que estou agora”.
Nos últimos dias, fui capaz de olhar minha vida como se de uma grande altitude, uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão entre todas as suas partes. Isso não significa que eu já tenha acabado de viver.
Ao contrário, sinto-me intensamente vivo e quero e espero que durante o tempo que me resta possa aprofundar minhas amizades, despedir-me daqueles que amo, escrever mais, viajar se ainda tiver forças, alcançar novos níveis de conhecimento e compreensão.
Isso envolverá audácia, clareza e a capacidade de falar francamente; vou tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas também haverá tempo para diversão (e inclusive para alguma tolice).
Sinto um súbito foco claro e perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Devo me concentrar em mim, em meu trabalho e meus amigos. Não verei mais “NewsHour” todas as noites. Não prestarei mais atenção na política ou em discussões sobre o aquecimento global.
Isso não é indiferença, mas afastamento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade, mas esses assuntos não me competem mais: eles pertencem ao futuro. Eu me alegro quando encontro jovens talentosos – mesmo aquele que fez a biópsia em mim e diagnosticou as metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Tornei-me cada vez mais consciente, nos últimos dez anos, das mortes entre meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma interrupção brusca, uma ruptura de uma parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando tivermos partido, mas também não existe uma pessoa igual à outra, nunca. Quando elas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois assim é o destino – o destino genético e neural – de todo ser humano: o de ser um indivíduo único, de encontrar seu próprio caminho, de viver sua própria vida, de morrer sua própria morte.
Não vou fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é o de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e ofereci algo em troca; li, e viajei, e refleti, e escrevi. Tive uma comunicação com o mundo, aquela comunicação especial que existe entre escritores e leitores.
Acima de tudo, fui um ser capaz de sentir, um animal pensante, neste belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio e uma aventura.


(Oliver Sacks, professor de Neurologia da New York University School of Medicine, é autor de vários livros, que incluem Tempo de Despertar e O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu) 


A tradução do texto é minha. O original do New York Times, de 19/2/2015, está aqui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"Romã" em inglês



Meu conto "Romã", publicado pela primeira vez na antologia 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras (Geração Editorial, 2012), agora traduzido em inglês, por Lindsay Puente, para a revista inglesa Wasafiri, no número dedicado ao Brasil.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Poeminha criacionista

Pisava com leveza nos presságios
Tocando cada lugar de sua ausência
Onde não há água para respirar

Todos os seres têm seu rosto
Inclusive o menino estrangeiro de cabelo mapuche que pela [primeira vez me beijou na saída da escola

Me leve para o seu deserto
Para o meu elemento
Lá onde céu nenhum "nos protege de nós mesmos"

Abri a janela dos seus altiplanos
Para nadar nos seus olhos: 
Faz frio demais quando estamos sozinhos 

O que você vê nos olhos de quem olha?
Atrás de mim me espreitam três mil páginas de Bolaño

Trancarei o medo em meus braços
Com a chave que usou para abrir a jaula onde me esqueceram [desde o século XIX 
Sobrevivo há muito tempo
Das lembranças que não tivemos
Porque éramos coisas de outros donos 

Agora moro em um novo altar

(Leila Guenther, 1948)


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ensaio sobre a superfície II














                                                                                                                                                            

sábado, 3 de janeiro de 2015

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobre nomes

Antes de mais nada, explique-me essa história de você também se chamar Jorge Luis Borges.
Como se tirando do lugar as coisas que estavam sobre a mesa, lancei ao seu rosto essas palavras, cuja articulação não permitia qualquer réplica que não fosse a mais absoluta verdade.
A coisa colocada dessa forma, assim, inesperada, o deixou desconcertado.
Outra vez lá estaria exposto aos seus curtos-circuitos. Outra vez lá estaria ele buscando alternativas para ganhar tempo, para se recompor diante daquilo que não conseguia compreender de imediato.
Perdoe-me, Denise, mas antes que eu fale sobre isso, precisar fazer outra pergunta: Como você sabe disso? Essa informação, tenho certeza, não está na orelha do meu livro.
É isso. Ele não poderia deixar por menos. E fez muito bem agindo assim, pois agora poderia se regozijar ao perceber que a sua pergunta também me deixou tão desconcertada quanto ele.


(Roberto Amaral, Uma Denise. Vitória, Editora Cousa, 2014)


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Cantiga de la memoria rota


(Inti Illimani) 

Vino a nadar la playa entre mis rocas,
el mar me ha contemplado ola tras ola,
el barco ha timoneado mi carcasa
y escucha mi rumor la caracola.

El calor se despoja de mi lana,
la oveja me trasquila en cada estío,
mi padre bebe de mi vino brusco
y mi madre se cuelga de mi avío.

Un caballo y su espuela me cabalgan,
un camino me pisa diariamente,
los zapatos del polvo me han hollado
y el sol me considera un inclemente.

La tierra ha preparado mi piel llana,
el arado me surca embravecido,
el trigo ha dispersado mis semillas
y el pan con diente claro me ha mordido.

Un caballo y su espuela me cabalgan,
un camino me pisa diariamente,
los zapatos del polvo me han hollado
y el sol me considera un inclemente
que quema con sus rayos a la gente.

El frío hace un chamanto con mi sangre,
la boca de un aullido me proclama,
la casa que me habita no me barre
y sobre mi extensión duerme una cama.

La puerta me golpea en busca de alguien,
la lágrima me enjuga en dos pañuelos,
un espejo se mira en mis ultrajes
y hay un libro que lee en mi desvelo.

La duda me confunde con su abrigo,
el malhechor comenta mi mal paso,
un país me ha buscado sobre el mapa
y no ha encontrado nunca el menor trazo

y esa herida me venda la amargura
y la muerte se duerme entre mis brazos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Um rápido olhar sobre a poesia brasileira de hoje

Não é de espantar que boa parte das pessoas compartilhe a inexata suposição de que pouco existe no campo da poesia brasileira após a manifestação sublime de escritores da monta de Manuel Bandeira, de Carlos Drummond de Andrade, de João Cabral de Melo Neto e, mais recentemente, de Ferreira Gullar. Embora o aludido quarteto seja – com todos os méritos – julgado o ponto culminante da “recente” poesia nacional, propomos chamar a atenção para outros artistas nacionais da palavra, que prosseguem à margem, não apenas do grande público, bem como dos currículos dos cursos superiores de Letras do país.
Ainda que correndo o risco de arbitrariedade, empregaremos o termo poesia contemporânea para referir os poemas publicados nas décadas de 1980 e 1990 e na primeira década do ano 2000. Trata-se, consoante observado, de um período de transição: do término do milênio passado para o início do atual. Época, pois, de vivo interesse para cultura nacional em vários sentidos. Um deles é que, por essa época, sistematiza-se, torna-se mais popular e ganha evidência o rock nacional, que passa a dialogar com a produção poética do momento. Não apenas o rock, mas também outras manifestações paraliterárias, como, por exemplo, as histórias em quadrinhos.
Em matéria de contexto histórico, nos anos 1980, o país respira os ares da redemocratização. Desnecessário acentuar que o clima de relativa liberdade política migra para as formas pelas quais nossos poetas exercitam o fazer literário, que, prosseguindo, em certo sentido, tendência dos anos 1970, continua irreverente e contestadora. Entretanto, a sensibilidade marginal e transgressora, que tão bem caracteriza os poemas de 70, perde força para uma concepção de poesia mais elaborada, mais universal, menos dogmática ou panfletária, ainda que o engajamento e o protesto tenham continuado.
Resultado inequívoco da liberdade aludida é que a poesia dos anos 1980, e, igualmente, uma parcela da poesia de 90, não pode ser enquadrada em apenas um rótulo definidor; pelo contrário, exibe variadas tendências de realização. O que equivale a afirmar que o leitor contumaz dessa poesia deparar-se-á com composições que devem muito às experiências de vanguarda, até poemas que estão conectados mais ao referencial, ao conteudístico; em outras palavras, a uma poesia discursiva, que se tinge de um quê reflexivo. Se fosse conveniente, a esta altura, tirar partido de uma analogia, diríamos que 1970 está para 1980, em termos de estética poética, assim como a primeira geração modernista está para a segunda.
Chegados a este ponto, é licito indagar: quais são os poetas dos anos 1980 cuja leitura deve ser feita? Está claro que a tal questão não se responde com facilidade, haja vista que cada crítico literário ou antologia tem preferências particulares. Nada obstante, é plausível apresentar certos poetas que conseguiram interiorizar com sucesso o espírito da época que nos ocupa. Assim, numa lista que não possui a menor pretensão de ser completa, chamamos a atenção para os seguintes nomes: Age de Carvalho (1958), Fernando Paixão (1965), Alice Ruiz (1946), Horácio Costa (1954), Glauco Mattoso (1951), Antônio Risério (1953), Paulo Henrique Britto (1951); Nélson  Ascher (1958), Arnaldo Antunes (1960), Alexei Bueno (1963), Eucanaã Ferraz (1961), Felipe Fortuna (1963), entre tantos mais.
Os escritores arrolados acima são representativos da “escola” poética dos 80. Veja-se que, com o paulistano Arnaldo Antunes, está-se diante do diálogo entre o rock e a poesia. Não custa rememorar que Antunes foi integrante, entre 1982 e 1992, do grupo musical “Titãs”. Sua poesia é cerebrina e experimental, sobretudo relativamente ao canal que veicula o discurso poético.
Glauco Mattoso é um caso, a vários títulos, notável. Poeta de verve satírica e escatológica, hoje está praticamente cego. Talvez seja um dos grandes sonetistas atuais da língua portuguesa. Tanto em qualidade quanto em quantidade. A literatura de Mattoso deve produzir estranhamento no leitor, que aprendeu – erroneamente, diga-se de passagem – que a forma poemática fixa do soneto apenas pode conter assuntos tradicionalmente considerados “elevados”.
Por derradeiro, com Nelson Ascher, exemplificamos a faceta marcadamente intelectual da poesia dos anos 80. Conforme asseverava o crítico Manuel da Costa  Pinto, Ascher “combina racionalismo, rigor e ironia”.
Não deixa de ser certo que a fronteira entre poetas da geração de 80 e 90 é mais didática e artificial do que natural. Por conseguinte, muitos dos escritores que frequentaram a lista acima também poderiam ser incluídos no elenco de poetas da década de 90. Tal década é menos marginal, menos experimental, valendo-se muito do contato com poetas estrangeiros, e, portanto, da intertextualidade. É uma poesia, que em suas manifestações mais bem conseguidas, apresenta grande apuro formal, mesmo que composições líricas de incontestável qualidade estética persistam. Como quer que seja, cada vez mais hipertrofia o espaço para aquelas modalidades de composição que poderiam ser denominadas de intuitiva. Em suma: é a poesia do trabalho, do apuro técnico, da transpiração.
A lista de poetas dos 90 que apresentaremos deve ser vista com reservas, pois inclui poetas já publicados em décadas anteriores, mas que tão somente agora ocupam o espaço que muito merecem na ambiência literária nacional. É o caso, entre outros, de Frederico Barbosa (1961), Cláudia Roquette-Pinto (1963), Tarso de Melo (1976), Antônio Cícero (1945), Augusto Massi (1959), Fábio Weintraub (1967), Marcos Siscar (1964). Nos textos de muito deles, são representadas artisticamente tópicos como o da alteridade, da identidade e da pluralidade, marcas da poesia dos 90.
Ao que nos parece, são os poetas dos anos 2000 os que necessitam de urgente leitura e de exame mais detido por parte dos especialistas. São eles, em tese, que retratam a sensibilidade da época em que vivemos.
Os atualíssimos poetas brasileiros apresentam dicção que faz recordar os poetas modernistas da primeira geração e os da segunda, dentre os quais se encaixam Drummond e Bandeira. Quanto a Cabral de Melo Neto, seu legado pode ser observado nos novíssimos poetas na busca incessante pela poesia desataviada, reduzida ao essencial e sempre alerta contra os excessos da postura confessional e de emoção desbragada. Não passe despercebida a influência dos concretistas, que valorizaram o aspecto plástico, visual do poema. Da mesma maneira, não se feche os olhos para intenso trabalho entre sistemas semióticos que se processou no poema.
Vale a pena assinalar que considerável número dos poetas dos anos 2000 publica em sites da internet e em revistas de cultura dos mais variados recantos do Brasil. Por oportuno, os novos poetas não vêm apenas dos grandes centros litorâneos, vicejando nas cidades mais interioranas da nação. A composição dos poemas é multiforme, havendo espaço para, por exemplo, o poema em prosa ou prosa poética, como praticado por Leila Guenther. Os poemas, no fundamental, são pouco extensos. O conteúdo tende mais para o opaco do que para o transparente, o que explica que não são poemas fáceis de decodificação e que, por conseguinte, os leitores terão de ter postura ativa para interpretá-los. São, em outros termos, poemas-enigmas. Um particular que merece ser reparado: os poetas da geração de 2000 apresentam louvável consciência da carpintaria linguística, o que significa afirmar que, para eles, o conteúdo sozinho não é responsável pelo o poema, mas, antes, a vestimenta verbal que o tema recebe.
Tendo em mira que tal artigo tem finalidade informativa antes do que crítica, elencaremos alguns poetas da geração dos anos 2000, cuja leitura sugiro para os adeptos da boa poesia: Alexandre Bonafim (1976), Ana Rüsche (1979), Cléberton Santos (1979), Elisa Andrade Buzzo (1981), Henrique Marques Samyn (1980), Mônica Montone (1978), Omar Salomão (1983), Tarso de Melo (1976), Luiz Felipe Leprovost (1979), Leila Guenther e Gustavo Petter (1984), este último e talvez menos conhecido radicado em Araçatuba, no interior paulista.
Como fecho do presente artigo e a modo de provocação final, lembre-se da entrevista de Alcir Pécora - crítico literário da Folha de S. Paulo e professor da UNICAMP – a nós concedida na Revista Tema, na qual, em termos panorâmicos, afirmava existir na poesia contemporânea brasileira uma convivência de poesia expressiva subjetiva com um construtivismo cabralino-concretista. Nesse sentido, e atravessando todos os períodos atrás elencados, registre-se incontinente o nome do poeta paraibano Políbio Alves, dono de uma produção literária vigorosa, já a merecer a atenção mais frequente e acurada dos críticos.
É por meio de tais poetas – alguns deles, por certo, passarão, mas muitos deixarão para sempre o selo de sua arte – que nossa poesia se renova e se robustece. Não há outro jeito: cumpre celebrar vivamente os antigos e dar boas-vindas aos mais novos. Havendo qualidade, há tudo.


(João Adalberto Campato Jr.*, Mais Tupã, 26/12/2014)


* é crítico literário e professor universitário.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Halley

para Marcelo, por supuesto

Por onde andava em 1986?
Em segredo, eu esperava o cometa.
Um ano inteiro aguardando sua vinda.
À espreita.
Desconfiada de que sua passagem
alterasse minha órbita.
Com o braço direito engessado, 
na escola a mão canhota
ensaiava infinitas variações de sua forma.
Os olhos voltados para baixo
nunca olhavam para o céu. 

Ninguém o viu mesmo.

Seus vestígios, descubro hoje, 
estão passando pela Terra
como poeira de luz,
rastros do que não houve,
deixados pelo céu 28 anos depois.

Que transformação operará quando voltar?
Fico à espera da resposta
naquela época como agora. 

O que sei é que já não nos veremos mais.




(Wings of desire)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Para Francisco Achcar, sub tegmine fagi

Ele se foi. Um pouco antes de saber, talvez no momento em que nos deixava, tive uma crise de choro sem explicação. Meia hora de lágrimas e soluços que eu não conseguia conter, dentro de um carro, dirigindo pelas ruas de São Paulo.
Tão estranho, tudo.
Não apagarei seus emails que estão na pasta reservada a ele, e suas orientações e posicionamentos sobre a literatura e a gramática estão vivos em minha cabeça. Também me lembro de sua resposta à minha mensagem em que eu dizia ter agora certeza absoluta de que ele era a pessoa mais forte que já conhecera. Eu não teria aguentado. Ninguém teria sobrevivido tão estoicamente.
Tudo o que sei sobre a literatura, sobre a língua portuguesa - meu material de trabalho - aprendi com ele. Ele foi meu verdadeiro orientador. Ainda tinha esperança de que visse publicado meu livro de poemas. Agora, infelizmente, o agradecimento será in memoriam.
Lembrei-me também, há pouco, de que o primeiro livro que comprei quando entrei na faculdade de Letras, na tentativa de me fazer, de me construir, foi o dele: Lírica e Lugar-Comum: Alguns Temas de Horácio e sua Presença em Português. Comprei-o porque um colega a quem admirava me disse que ele era o maior latinista que existia. Depois de trabalhar tantos anos ao seu lado, ouso dizer: não apenas o maior latinista, mas o intelectual mais brilhante e arguto com quem tive a honra de conviver.
Para quem escreverei agora, com quem falarei daquilo que me mantém viva - a Arte - e de tudo de humano, demasiado humano, que ela implica? Com sua partida, vários ficaram desamparados. E eu me tornei órfã para sempre.


(Leila Guenther)


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Elegia: indo para o leito

ELEGY: GOING TO BED

Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th' eyes of busy fools may be stopp'd there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th' hill's shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love's hallow'd temple, this soft bed.
In such white robes heaven's angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring'st with thee
A heaven-like Mahomet's paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.

Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.

Full nakedness ! All joys are due to thee;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta's ball cast in men's views ;
That, when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :

To teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a man? 


Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As joias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.


                      (John Donne. Trad. Augusto de Campos)

domingo, 30 de novembro de 2014

Outras ruminações: 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão


Participam do volume:
ADOLFO MONTEJO NAVAS
ALBERTO BRESCIANI
ALBERTO MARTINS
ALESSIO BRANDOLINI
ALEXANDRE BONAFIM
ALEXANDRE GUARNIERI
ÁLVARO ALVES DE FARIA
ANDRÉ LUIZ PINTO
ANDRÉ VALLIAS
ANDRÉA CATROPA
ANNITA COSTA MALUFE
ANTONIO CARLOS SECCHIN
ARIANE ALVES
BRUNO BRUM
CARLOS AUGUSTO LIMA
CARLOS FELIPE MOISÉS
CARLOS LORIA
CARLOS MACHADO
CHANTAL CASTELLI
DALILA TELES VERAS
DINIZ GONÇALVES JUNIOR
DIRCEU VILLA
DONIZETE GALVÃO
EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA
EDUARDO LACERDA
EDUARDO STERZI
ELISA ANDRADE BUZZO
FABIANO CALIXTO
FABIO WEINTRAUB
FABRÍCIO MARQUES
GILBERTO NABLE
GUILHERME GONTIJO FLORES
HEITOR FERRAZ MELLO
HELENA TERRA
IACYR ANDERSON FREITAS
ITALO MORICONI
JOÃO FILHO
JÚLIA STUDART
JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES
JÚLIO MACHADO
KLEBER MANTOVANI
LEANDRO SARMATZ
LEILA GUENTHER
LEONARDO GANDOLFI
LILIAN AQUINO
LUIS AGUILAR
LUIZ GONZAGA
LUIZ ROBERTO GUEDES
LUIZ RUFFATO
MANOEL RICARDO DE LIMA
MARCOS SISCAR
MARIO ALEX ROSA
MOACIR AMÂNCIO
NINA RIZZI
PÁDUA FERNANDES
PAULO FERRAZ
PRISCA AGUSTONI
PRISCILA FIGUEIREDO
RENAN NUERNBERGER
REYNALDO DAMAZIO
RICARDO RIZZO
RODRIGO PETRONIO
RONALD POLITO
ROSA MATTOS
ROSANA PICCOLO
RUY ESPINHEIRA FILHO
RUY PROENÇA
SÉRGIO ALCIDES
SIMONE BRANTES
SÔNIA BARROS
TARSO DE MELO
TULIO VILLAÇA
VERA LÚCIA DE OLIVEIRA
VERONICA STIGGER
VICTOR DEL FRANCO
VICTOR OLIVEIRA MATEUS

O lançamento é no dia 9 de dezembro, a partir das 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37)

domingo, 16 de novembro de 2014

Comer a Arte


Tenho uma amiga – excelente cozinheira – que diz que alimentar pessoas é um dom. Mas acho que quem é alimentado também recebe uma dádiva. Porque se trata de algo que transforma tanto quem prepara o alimento quanto quem o come. E isso eu percebi com mais clareza quando uma vizinha (também excelente cozinheira) trouxe os sushis que seu filho, um rapaz que conheci menino, tinha preparado. Ele é sushiman. Eu já os tinha experimentado antes. Da primeira vez, tive a certeza de que era a melhor comida japonesa que eu já provara. Da segunda, não apenas japonesa, mas a melhor de todas, e que o que eu estava comendo era Arte. Naquele momento, deu-se a transformação de que falo acima: minhas atribulações sumiram. A felicidade mora num sushi, concluí, e eu queria ser feliz de novo, de modo que fui até o restaurante onde ele trabalhava. Como falar de sabor? Como, com palavras, dar a dimensão do que não pode ser dito? A descrição mais próxima que eu conseguiria seria esta: eu estive na Festa de Babette. Quem leu o conto ou viu o filme talvez consiga ter uma ideia. Penso também no documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro, sobre Jiro Ono, considerado o melhor sushiman do mundo. Jiro revela seu trabalho incansável de shokunin, de fazer todos os dias da vida a mesma coisa em busca da perfeição sem saber se, aos 86 anos, a alcançará: “Vou continuar a escalada, tentando atingir o topo. Mas ninguém sabe onde ele fica!” Então penso no que esse rapaz estará criando quando tiver 86 anos. Jiro diz que sonha com sushis. Eu também.

(leila guenther)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014