sábado, 23 de abril de 2022
quarta-feira, 16 de março de 2022
A culpa é dos pratos
A culpa é dos pratos
Que me destruíram
Mesmo quando poucos
São mais do que eu
Mesmo quando me lembro
Do mestre vietnamita
Que morreu lutando pelo amor
E que dizia
“Enquanto estivermos lavando os pratos
Deveríamos apenas lavar os pratos”
Não posso mais vencer os pratos
Que me ultrapassam e
me reduzem a cacos
Mesmo quando dormem pacíficos
No armário de madeira
Para que tanto prato, meu Deus,
Pergunta meu coração
Porém meus olhos
Vocês já sabem
Então vem alguém
Que lava os pratos quando eles me
atacam
E me lembra que perto
Bem perto
Há quem não tenha pratos para lavar
Nem o que pôr dentro deles
E aí me envergonho
De querer arremessá-los pela janela
Contra a parede
Ou contra os homens
Com toda a força
Que não tive para lavá-los.
(Leila Guenther)
Es culpa de los platos
Que me han destruido
Aun siendo pocos
Son más de lo que soy
Aun cuando me acuerdo
Del maestro vietnamita
Que murió luchando por el amor
Y que decía
“Mientras estamos lavando
platos
Debemos sólo lavar platos”
Ya no puedo vencer a los
platos
Que me sobrepasan y me hacen
pedazos
Aun cuando duermen pacíficos
En el mueble de madera
Para qué tantos platos, Dios
mío,
Pregunta mi corazón
Pero mis ojos*
Ustedes ya lo saben
Entonces alguien viene
Y lava los platos cuando sufro
su ataque
Y me recuerda que aquí cerca
Muy cerca
Hay quien no tiene platos que
lavar
Ni qué ponerles adentro
Y entonces me avergüenzo
De querer tirarlos por la
ventana
Contra la pared
O contra los hombres
Con toda la fuerza
Que no he tenido para lavarlos.
(traducción de Marcelo Donoso)
* Referencia a poema de Carlos
Drummond de Andrade
A história do budismo pelas mulheres ocidentais
Duas
excelentes obras sobre a história do budismo escritas por mulheres (para
iniciantes ou iniciados, publicadas pela L&PM)
“Conviver com uma abordagem da vida fora do âmbito de uma verdade única ou de um deus criador permite melhor se situar, até mesmo se redefinir em relação às ideias recebidas, e examinar com mais lucidez a própria responsabilidade na aventura humana. A redescoberta do budismo, ou sua reavaliação na ótica da sociedade atual, globalizante e enredada em antagonismos, talvez ateste a lenta tomada de consciência de um mal-estar, senão de uma doença, cujo diagnóstico o Buda histórico já havia apresentado. Ao afirmar que a fonte da malignidade, e portanto do ódio – de si ou dos outros –, encontra-se no desejo egoísta – desejo de poder, desejo de possessão, desejo de dominação –, o Despertado indica o ponto sensível. Ele também oferece o remédio, mas não pode tomá-lo no lugar da pessoa”.
(Claude B. Levenson, Budismo. Trad. Rejane Janowitzer.
L&PM, 2013)
“O budismo, visto do Ocidente [no séc. XIX], apresentava problemas. Como seria possível de fato compreender um fenômeno religioso que não se preocupa com a criação nem com deus – ou pelo menos com os deuses? Como uma doutrina que nega a existência da alma pode ter a pretensão de ser chamada de religião? Seu fundador nem se apresenta como um profeta. Buda, como observou, consternado, Jules Barthélemy-Saint-Hilaire, ‘ignora Deus de maneira tão completa que nem procura negá-lo’.”
(Sophie
Royer, Buda. Trad. Ana Ban. L&PM)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
Antropoceno
terça-feira, 1 de fevereiro de 2022
Carta aberta ao rei do Butão
Peço
asilo em seu país
Porque
o meu desapareceu
Dizem
que se descolou
Do
resto da América
E
começou a afundar
Em
breve nos afogaremos todos
Embora
sempre há quem ache
Que
ele não
Ofereço
o que sei e o que posso aprender
Posso
trabalhar em benefício
Das
crianças mais remotas
Como
todos daí fazem
Em
vez do tal serviço militar
Posso
tirar leite de iaque
E
viver de chá de manteiga
Mas
se Padmasambhava* me orientar,
Também
posso tirar leite de pedra
Espero
que me conceda
Como
faz a todos os seus cidadãos
Um
tear e um pedaço de terra
Para
que eu me fie em algo
E
não me afogue nunca mais
No seu serviço de saúde
Universal
e gratuito
Tenho
fé que consertem minha cabeça
Onde
mora a pior de todas as enchentes
E
não me importo
Que a caça e a pesca sejam proibidas
Porque
eu mesma já não tenho vontade
De
comer seres que são
Mais
inteligentes do que eu
Aí
tem tudo, é outra civilização
Tem
monges bonitos pra gente meditar
E
um monte de livro
para
traduzir de seus Platões
Peço
asilo ao rei do Butão
Um
rei que, na Constituição,
Estabelece
ser deposto
Se
não for bom a seu povo
Não
é melhor que um presidente
Que
não quer sair do trono?
Mas
o que eu gostaria mesmo
Era
de subir na parte mais alta
Do
mosteiro de Taktstang,
Encarapitado no extremo de uma rocha
Desde
que o Desperto acordou
Lá
terei certeza de que não me afogarei
E
de que enfim empreenderei meu voo
Com a bênção de todas as dakinis**
Que
caminham sobre o ar
(Leila Guenther)
* Padmasambhava: místico considerado o fundador da escola tântrica do budismo tibetano. A ele eram atribuídas qualidades mágicas, como estar em vários lugares ao mesmo tempo.
** dakinis: deidades femininas do budismo Vajrayana. Significa “aquelas que atravessam o céu” ou “as que se movimentam no espaço”. Estão ligadas à transformação.
(fotografia
de Matthieu Ricard, monge budista, biólogo molecular, escritor e fotógrafo)
quinta-feira, 28 de outubro de 2021
Dois poemas pandêmicos
Caminho com cuidado olhando o verde
As
inúmeras nuances de verde que a luz origina
Quando
toca o mato, a grama, o abacateiro
Ou
um coração vermelho-sangue
As
primeiras maçãs ainda estão verdes
Como
um dia também fui
O
mundo começa onde o sol nasce
Os
esquilos voam de árvore em árvore
Sem
que nada lhes aconteça
Sento-me
na terra e mexo apenas os olhos
Do
chão até o céu e até no céu
Há
um verde insidioso
O musgo
me envolve aos poucos
À
medida que detenho os movimentos
Por alguns instantes a bomba que carrego
[não
explode
Tudo demora mais comigo
Movo-me
em câmera lenta
Arrastando
os pés com curativos
Que
tapam feridas que nunca cicatrizaram
As
lágrimas escorrem devagar do olho esquerdo
Porque
o direito entupiu há muito
Ainda
tenho a tosse de uma gripe
[que começou em
2010
A
recuperação leva tempo
Os
pesadelos recorrentes vêm de
[quando existiam
videocassetes
Só
contei o que houve na infância trinta anos depois
Tudo
demora mais comigo
Vivo
ainda o luto de um cão que se foi
Quando
minha mãe não tinha morrido
E
nem sei quanto gastarei
Para
velar os levados em sacrifício
Tudo
demora mais comigo
Tenho
a lentidão da tartaruga
Mas
o casco dela ainda não me nasceu
(Leila Guenther)
Um golpe no meu gosto
Por um tempo
pensei que meu amor pela leitura de prosa tivesse morrido. Não conseguia mais
ler romances ou reler aqueles que um dia me encantaram. Nada me interessava
mais. Lia outras coisas, outros gêneros, porque a leitura sempre fez parte de
minha vida, de uma necessidade vital, mas não sabia mais o que era ser
transportada pela beleza das palavras que narram, ser sequestrada por uma
história até sua última página. Até que me vi envolvida e paralisada por um
pequeno e aterrador romance de Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia, que li porque era curto e eu tinha pressa. Depois vieram outro, e
mais outro, levado pelo anterior, vários numa sequência, revelando um universo
cheio de novas perspectivas de mundo, de distintas maneiras de narrar. E antes dele, outros que me mandaram sinais que na época não compreendi: todos
livros escritos por mulheres. E descobri com alívio que eu não tinha deixado
de gostar da prosa. Eu estava apenas cansada da prosa escrita por homens.
O percurso em progresso, por nome de autora em ordem alfabética:
Adania Shibli, Detalhe menor. Trad. Safra Jubran. São Paulo, Todavia. 2021.
Arundhati Roy, O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2008.
Carson McCullers, O coração é um caçador solitário. Trad. Sonia Moreira. Companhia das Letras, 2007.
Celeste Ng, Tudo o que nunca contei. Trad. Julia Sobral Campos. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2017.
Celeste Ng, Os corações perdidos. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2023.
Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco roxo. Trad. Julia Romeu. Companhia das Letras, 2011.
Cristina Judar, Oito do sete. São Paulo, Reformatório, 2017.
Elena Ferrante, A filha perdida. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro, Intrínseca,
2016.
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes. Trad. Raquel de Queiroz. Nova Cultural, 1985.
Elif Batuman, A idiota. Trad. Odorico Leal. São Paulo, Companhia das Letras,
2017.
Han Kang, A vegetariana. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2018.
Hiromi Kawakami, A valise do professor. Trad. Jefferson José Teixeira. São Paulo,
Estação Liberdade, 2012.
Isabel Allende, O amante japonês. Trad. Ângela Barroqueiro. Porto, Porto Editora, 2015.
Julie Otsuka, O Buda no sótão. Trad. Lilian Jenkino. São Paulo, Grua, 2014.
Karen Blixen, A fazenda africana. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo, Cosac Naify, 2005.
Katie Kitamura, Uma separação. Trad. Sonia Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.
Laetitia Colombani. A trança. Trad. Patricia Xavier. Lisboa, Bertrand Editora, 2018.
Lionel Shriver, A nova república. Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Intrínseca,
2015.
Magda Szabó, A porta. Trad. Edith Elek, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2021.
Margaret Atwood, O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro, Rocco, 2017.
Marguerite Duras, A dor. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.
Marguerite Yourcenar, Golpe de misericórdia. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.
Maria Valéria Rezende, Outros cantos. Rio de Janeiro, Objetiva,
2016.
Marilia Arnaud, Liturgia do fim. São Paulo, Tordesilhas, 2016.
Marilia Kubota, Eu também sou brasileira. São Paulo, Lavra Editora, 2020.
Mary Lynn Bracht, Herdeiras do mar. São Paulo, Editora Paralela, 2018.
Mieko Kawakami, Peitos e ovos. Trad. Eunica Suenaga. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2019.
Min Jin Lee, Pachinko. Trad. Marina Vargas. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.
Muriel Barbery, A elegância do ouriço. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo,
Companhia das Letras, 2008.
Naomi Alderman, O poder. Trad. Rogério Galindo. São Paulo, Planeta, 2018.
Olga Tokarczuk, Sobre os ossos dos mortos. Trad. Olga Baginska-Shinzato. São Paulo, Todavia,
2019.
Ottessa Moshfegh, Meu ano de descanso e relaxamento. Trad. Juliana Cunha. São Paulo,
Todavia, 2019.
Pilar Quintana, A cachorra. Trad. Livia Deorsola. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2020.
Sayaka Murata, Querida konbini. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade,
2019.
Sayaka Murata, Terráqueos. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade, 2021.
Sei Shônagon, O livro do travesseiro. Trad. G. Wakisaka, J. Ota, L. Hashimoto, L. N. Yoshida e M. H. Cordaro. São Paulo, Editora 34, 2013.
Simone de Beauvoir, A mulher desiludida. Trad. Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. Rio de Janeiro, O Globo; São Paulo, Folha de S.Paulo, 2003.
Svetlana Alesiévitch, A guerra não tem rosto de mulher. Trad. Cecília Rosas. São Paulo, Companhia das Letras, 2016.
Yoko Ogawa, A fórmula preferida do professor. Trad. Shintaro Hayashi. São Paulo, Estação Liberdade, 2017.
Yoko Ogawa, A polícia da memória. Trad. Andrei Cunha. São Paulo, Estação
Liberdade, 2021.
Yoko Ogawa, O museu do silêncio. Trad. Rita Kohl. São Paulo, Estação Liberdade,
2016.
You-jeong Jeong, Sete anos de escuridão. Trad. Paulo Geiger. São Paulo, Todavia, 2011.
You-jeong Jeong, O bom filho. Trad. Jae Hyung Woo. São Paulo, Todavia, 2016.
Xinran, As boas mulheres da China. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo, Companhia de Bolso, 2002.
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Salmo
Felizes
os que têm irmãos de quem
[divergir em
união
Felizes
os que, afagando o pelo de um animal,
[afagam sua
própria mão
Felizes
os que podem afagar o capim
[como se fosse um
animal
Felizes
os que vivem na companhia de um cão
[que não aprende o caminho do
banheiro
Felizes
os que fazem planos para o passado
E
os que cantam no chuveiro sem medo de desafinar
Felizes
os que guardam uma dose de cicuta
[para brindar o dia que
não virá
(Leila Guenther)
