segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Horizonte



Tinha a vaga sensação de já ter vivido isso antes. Na infância, ou na adolescência, entre colegas ou familiares. Uma espécie de sentimento de rejeição, de que não era mais necessária. Como se incomodasse. Por isso a distância dele, o desinteresse pelo que dizia respeito a ela. Talvez ele a tivesse desvendado. Talvez o mistério que o impelira para ela se esvaísse como quando se limpa uma peça antiga, há muito perdida entre os pertences da família, e se descobre que não valia a pena tê-la guardado – o desenho é de mau gosto, a qualidade é ruim. Não era cristal, mas vidro que exibe uma transparência opaca e imperfeita. O certo é que ele descobrira a verdade. Sempre guardara um ou outro truque, para ser usado em momentos estratégicos – quando ele precisava ser feliz –, mas agora ela não tinha mais com que entretê-lo. A cartola se esvaziara e ela achava que era chegada a hora de ir embora. Saiu da cama, de olho na luz fraca do corredor, a que sempre a guiava nos momentos de insônia até a sala e, uma vez lá, fez o que sempre fazia: sentou-se na poltrona de vime da sacada e olhou à frente. Logo o sol nasceria e se imiscuiria por entre todos os prédios que sua vista alcançava, dos mais distantes na linha do horizonte até os mais próximos de onde estava, para acabar atingindo a sacada em que se encontrava. Ainda, entretanto, o que se via era o tom de crepúsculo, de alvorada incerta, que conferia aos edifícios um aspecto espectral de abandono: grande parte das luzes estava apagada e ela imaginou que era essa a paisagem que veria se o mundo tivesse sido destruído. Esqueletos de concreto que deveriam ser preenchidos com luz, porque essa era a sua natureza: os prédios existiam para resplandecer. Edifícios altos e modernos às escuras eram tão assustadores quanto construções medievais iluminadas. Ficou pensando no passado e no futuro. Em como uma catedral era vista pelos habitantes de uma época anterior à luz elétrica. Em como veriam os destroços os contemporâneos do apocalipse. Em quantas vezes mais ela ainda contemplaria aquela cena. Que era, afinal de contas, sempre a mesma, como o sol, pesado e imóvel, de antes, de hoje e o do amanhã distante, concluiu com espanto, levantando-se e olhando fixo para frente, antes que os primeiros raios a tocassem.



(Leila Guenther)

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