terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vigília

Uma noite encerra
Em si mesma
A dispersão de todo um dia,
As horas que passei
Julgando que contemplava
O interior das muralhas de vidro,
Aquelas que guardavam a cidade
Contra a violência das hordas.
Hoje desdenho delas.
Gasto,
Com pequenas lembranças em relevo,
A memória de sonhos nunca
Vividos, jamais desejados,
O fluxo dos acasos
Prestes a ser cingido
Por um movimento preciso
No instante em que tudo
Volta a nascer.

Uma noite encerra
Em si mesma
A disposição de toda uma vida.
Detida pelo que acreditava
Suspenso,
Agora me aplico na superfície
De vapor
Sobre a qual se pode escrever
Com a ponta dos dedos.
Recolho os despojos e,
Com paciência infinita,
Guardo o tesouro
Em minha caixa de espelhos.

Por isso não durmo.
Por isso, alerta,
Me debruço
Sobre o sono alheio.


(Leila Guenther)

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