Temos um cachorro.É um cachorro
Pequeno.
Minha mulher me diz que há nele alguma coisa de lobo.
É provável que fale de si.
Os olhos tristes, o jeito temeroso.
Vistos de longe podiam parecer
Cautela, contenção para o momento certo.
Penso, porém,
Que é antes a doçura dos que
Se exercitam implacavelmente
Contra si. Os que
Trazem a natureza amordaçada.
Assim também o nosso cão.
Sua expressão infantil,
Sua contínua busca
De recompensa e aprovação.
É certo que seu andar oscilante,
Pisando a rua quente como, nos filmes,
A neve fofa, evoca outras cenas
Que não verá jamais.
Que ficam além
Do espaço estreito
Em que, tenso, trota,
Olhando para os lados.
E também é certo que recebe
O que lhe falta, desistindo
Do que poderia fazer dele
Um lobo, um herdeiro, filhote que seja,
Da selva.
Muitos de nós também
Assim nos temos visto.
E iludido
Com sonhos de vingança.
Minha sede de vida,
A força que pulsa e chama
Em cada dia.
Entretanto,
Sobre uma planície noturna,
Quantos de nós suportaríamos
O medo, a solidão, a incerteza,
A ausência de retorno?
A noite prossegue.
A manhã caminha.
O meio-dia esplende,
Sufoca.
E a marcha logo se renova.
Olhamo-nos os três a qualquer hora.
Os que poderiam saber, não sabem.
O que não pode, suspira,
Enquanto se estende,
Preguiçoso,
Ao sol da manhã fria,
Ou se abriga, encolhido,
Quando a noite cai.
(Paulo Franchetti)
bela foto da fera!
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