Li a versão integral de Alice no País das Maravilhas, que eu conhecia de adaptações infantis, pela primeira vez aos 33 anos, na cama da enfermaria de um hospital, nos dias anteriores à minha alta, quando eu, já recuperados alguns movimentos, conseguia pelos menos virar sozinha as páginas de um livro, depois de passar quase dez dias em coma em uma Unidade de Tratamento Intensivo. Foi um presente, em vários sentidos. Porque afirmam que eu “nasci de novo”, posso dizer que este foi o primeiro livro que li na minha (segunda) vida. E o país das maravilhas, para mim, passou a ser algo muito concreto, mas de difícil definição, pois como eu poderia admitir que, quando as coisas não vão bem, não é para o colo de minha mãe, os braços do amado ou o ombro do amigo que meus pensamentos se dirigem, mas para aquele quarto coletivo de hospital público, sem espelhos, onde recebo, em paz no meio dos mais variados barulhos, os cuidados de rosângelas, marias da graça, sandras e outras enfermeiras, faxineiras e funcionárias de cujo nome já não me lembro?
(Leila Guenther)

