sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Em primeira mão

Fui talhado para a madeira ou para o trato dos metais.
Por isso estes dedos grossos e a palma larga destas mãos quadradas.
Mas não segui o veio redentor, nem propus ao metal a sua cor correta.
Não colhi a pasta bruta, não a modelei, não bati o ferro até a forma útil, nem o manejei no gesto que costura a vida e a morte das sementes.
Há pouco, distraiu-me o avião que se movia sobre as linhas amarelas, no ritmo da música de bordo.
Meu pai antes de mim, meu avô antes de meu pai. E uma lista de nomes sem rosto que se afogam no esquecimento. Todos oficiaram os ritos básicos da vida.
Apenas eu, com o que me deram, contentei-me com palavras.
Agora, sem outro peso nas mãos, envelheço sendo ainda o que está sempre chegando e olhando à volta, sem rumo, para o lugar estranho.

*

Abaixo a cabeça, ouço de novo
O rumor do sangue.
Olho para a mesa, as veias da madeira.
Há tempos é matéria apenas, sem resto de folhagem,
Hálito noturno, seiva manifesta.
Meus braços também um dia.
O que restar deles, até que a mesa vá ao fogo
E a lembrança
Enfim se apague em cinza.
Ela me disse: sou toda desvelo.
Ouvi que me queria, senti que me sonhava.
Restei, porém, costurado a esta casa,
Atado a uma nesga de céu, um som de rio.
Foram caindo meus cabelos,
As mãos enrugadas deixaram de apreciar o nó difícil,
Apenas harmonias nos ouvidos.
Na infância, inutilmente gritavam os porcos
A caminho do abate.
Muitas vezes esses gritos me fizeram perguntar:
Para quem, por quem, com que sentido.
Somos todos filhotes na hora da agonia
E a mãe está morta ou distante
Ou nada pode.
Mesmo a mãe das mães apenas viu,
Ouviu e recebeu o corpo.
E eu, que a ninguém queria afligir com um chamado
(Como um animal ferido chama,
No meio do campo, pela ajuda
Que não vem),
Compus este poema.

(Paulo Franchetti, Memória Futura. Cotia, Ateliê Editorial, 2010)

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