quarta-feira, 21 de julho de 2010

Álbum


por muito tempo olhei com atenção
todos os dias
as fotos da sua infância

guardei seu sorriso sem dentes
o choro em preto e branco
e as antigas fraldas
do tempo em que me recolhia embaixo da terra
numa plantação de alface

antes de você
as de meus pais avós amigos
as de mim mesma
as de quem eu não podia
de outra forma
vestir
com uma existência tão nova

(as fotografias aderem à pele da minha memória
tanto quanto guias de viagem)

surpreende-me como vamos ficando
todos nós
cada vez mais próximos do que já fomos

(como a caravela
que seguindo para oeste
chega um dia ao leste)

ou talvez isso seja apenas um artifício
um jeito de trazê-lo para dentro do meu presente

para minha coleção de infâmias

(Leila Guenther)

3 comentários:

  1. e não é que você é também poeta, com verdade e ritmo?

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  2. Leila, acabei de ler esse belo poema, e comentei, mas o comentário perdeu-se, parece, num buraco negro. Mas eu dizia que não sabia que você era também poeta, e com verdade e ritmo, coisas indispensáveis a um poeta, indispensáveis na verdade a escritores de qualquer gênero. Salve!

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  3. bom te ver escrevendo poesia, leila.

    abraço

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